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Fandom:
Relationship:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-06-30
Words:
1,762
Chapters:
1/1
Comments:
1
Kudos:
19
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1
Hits:
350

The Wrong Knight

Summary:

Mais uma oneshot inspirada no episódio 3 desta segunda temporada e em todas as expectativas que envolvem ele o que isso pode significar para o futuro de Theo e Lizzy

Agradecimentos ao chat "Jurídico Theolizzy pelas inspirações.

Notes:

Work Text:

Em meio a chuva de papeis picados, Lizzy era o coração do brilhante cenário.

E foi nesse instante, nesse exato instante, que ele a viu, de verdade, pela primeira vez.

Até há algumas semanas, ela era uma boa amiga de sua esposa. Parte da paisagem social, presença constante. Mas agora, à meia-luz e envolta de encantamento, ela parecia outra coisa: algo entre uma lembrança de uma tarde leve com esguichos d’água, uma conversa franca sobre corações partidos e uma visão proibida. Um ser de outro mundo.

Theo estava de pé entre os convidados, longe das atenções. O furor da plateia fluía ao redor como vento, mas ele não ouvia. Seus olhos estavam fixos nela.
E seus dedos giravam, nervosamente, a aliança no dedo.

O metal frio parecia mais pesado do que nunca. Ele apertou a aliança, como se quisesse arrancá-la, como se quisesse entender o que ainda o prendia... e o que, naquele momento, começava a puxá-lo na direção contrária.

Lizzy estava alheia a esse turbilhão de emoções, estava rindo, surpresa, deslumbrante sob os véus e as asas de borboleta que tremulavam como se fossem vivas. O vestido azul de cetim captava a luz como se tivesse sido costurado com água. Os olhos dela, grandes, atentos, quase inocentes, buscavam compreender o gesto que Hector fazia ao se ajoelhar.

O anel foi apresentado. Alguns convidados começaram a aplaudir antes mesmo da resposta. E Theo, do outro lado do salão, continuou imóvel. Lizzy levou as mãos à boca, chocada. Os olhos brilhavam – mas não com lágrimas. Ou talvez sim, ele não saberia dizer. Ela olhou ao redor, não em busca de testemunhas, mas como quem procura uma uma resposta.

E então ela disse sim.

O salão explodiu em gritos, palmas, risos.

E ele já previra isso, seja porque Hector não fazia questão de esconder suas intenções – mas porque ele, Theo, fora o primeiro a saber. Porque a própria surpresa foi arquitetada com a ajuda dele e ele não pode deixar de pensar, com um sorriso irônico, em como ele também os apresentara.

Theo permaneceu onde estava, enquanto pegava um copo de whiskey entregue por um garçom. A propriedade que cedera, o cenário criado como uma oferenda silenciosa a um sentimento que não ousava nomear – tudo agora servia a outro homem. E ela aceitou.

Foi então que uma decisão, louca e lúcida ao mesmo tempo, cresceu dentro dele e ele tomou coragem para tirar o embrulho de seu paletó. Ele parou junto a uma das colunas cobertas de musgo falso e folhas douradas, à sombra. Inspirou fundo. Cuidadosamente dobrado e preso com um alfinete discreto, estava o embrulho fino de seda preta, liso como pecado, leve como decisão abrupta.

Era uma loucura, nascida na mesma tarde em que recebera a visita de Hector em seu gabinete há alguns dias e caminhava pelos jardins de Tintagel absorvendo de maneira surpreendentemente perplexa o entusiasmo de seu agora... amigo? Theo sentira-se inexplicavelmente... desalinhado. Como se alguma peça interna estivesse sido deslocada sem aviso.

Lizzy.

Theo continuou sua caminhada naquele dia sequer entendendo porque este assunto ocupava sua mente, Lizzy era uma companheira para Nan, hospedada em Tintagel desde a busca ao Graal. Nan não estava de ânimo leve e uma companhia feminina poderia ajudá-la seja qual for o mal que afligia a alma de sua esposa. E melancolicamente ele já tinha um palpite há algum tempo.

Lizzy, com sua atenção serena, sua escuta gentil. Com aquela forma sutil de entender sem invadir. Que o ouvira pacientemente no mausoléu naquele dia, quando inexplicavelmente ele se sentiu à vontade para expor algo íntimo que não tivera coragem de comentar sequer com sua mãe. Mas ela, no entanto, apenas ouviu e não pediu nada em troca.

Será que Hector a conhece?, Theo pensou, com um incômodo crescente no peito. Afinal faziam apenas algumas semanas que eles circulavam por alguns eventos da temporada. Theo sabia como era o mundo de Hector: a política, os compromissos, os discursos intermináveis. O tempo gasto em captar aliados.

Mas por que isso o incomodava? Não era ele mesmo quem sabia o motivo de Lizzy estar na Inglaterra e que Hector, como um homem público em ascensão, procurava uma esposa? Não deveria ser ele um anfitrião imparcial?

O que está acontecendo comigo?

E pela primeira vez em muito tempo, teve medo da resposta ao observar que não estava sozinho naquele jardim e prontamente perceber de quem se tratava.

Lizzy estava sentada sob o velho carvalho há alguns metros, o corpo delicadamente curvado sobre um livro aberto em seu colo. Usava um vestido branco rendado, que se movia com suavidade a cada sopro do vento, como se o tecido respirasse com ela. O sol, filtrado pelas folhas, pousava em seus ombros e cachos negros como uma bênção silenciosa.

Theo a observou de longe, sem se anunciar, como sempre fazia quando ela não o via – ou fingia não ver.

Ela parecia etérea, parte do jardim. Ou talvez de um sonho antigo que ele esquecera de ter. Ele continuou ali parado, notando que ela estava ocupada. E então ele viu o título de um livro em suas mãos, “Lancelot, O Primeiro Cavaleiro”, e sorriu.

Ela passava as páginas lentamente, os olhos presos nas palavras como quem procura algo. Talvez um espelho. Talvez uma resposta para algo que não queria admitir a si mesma. A ponta de seus dedos acariciava o canto das folhas com cuidado, como se aquele amor lendário pudesse desfazer-se com um toque mais brusco.

Theo prendeu a respiração.

O branco do vestido contra a relva verde, a textura rendada lembrando véus nupciais e mortalhas antigas, as mãos dela segurando um mundo de traições e sacrifícios...

Ali, sob a luz tênue do fim da tarde, ela era Guinevere.

E quando ela levantou os olhos por um breve instante, como se soubesse que estava sendo observada, os dois se olharam por um momento que não durou, mas que bastou.
Então ela sorriu, como se tivesse visto-o fazendo isso há instantes.

“Você sabia?!”, Lizzy interrompeu seus pensamentos, o trazendo de volta ao salão. Esperando uma resposta.

“Sim, eu sabia, feliz aniversário.” Theo respondeu de forma contida e ele notou que ela aguardou por alguns segundos, certamente para que ele também cumprimentasse por seu noivado, como todos os presentes, mas ele apenas hesitou e depois entregou-lhe o pequeno pacote envolto que queimava em sua mão. Um presente simples. Sem cartão.

“É só uma lembrança”, disse. “Nada grandioso. Mas achei que talvez... gostasse.”

Ela abriu o embrulho com dedos cuidadosos, como quem desvenda um segredo. Dentro, havia uma pequena escultura em madeira escura, entalhada com perfeição: uma mulher com a cabeça levemente inclinada para trás, olhos fechados, e um véu de noiva esculpido como se o vento o levasse para longe. Em sua mão direita, apertava uma flor. Na esquerda... nada.

Lizzy encarou o objeto em silêncio.

“É Guinevere”, ele disse, sem que ela perguntasse.

Ela ergueu os olhos.

“Antes ou depois de mais um desfecho triste?”

Theo sorriu com pesar.

“No momento em que diz ‘sim’ ao rei... sabendo que ama o cavaleiro errado.

Um silêncio tenso se instalou entre eles. A música que se iniciara novamente no salão parecia distante, distorcida.

“Você acredita que ela errou? Ele era a escolha segura.” Lizzy perguntou, quase num sussurro, olhando fixamente para Theo.

Ele respondeu com a voz firme, mas sem dureza:

“Arthur teria um futuro grandioso. Acho que ela foi educada para ser rainha. Mas jamais ensinada a ser feliz.”

Ela abaixou o olhar para a escultura. Os detalhes do véu pareciam ganhar movimento sob a luz. Por um instante, ela apertou o objeto contra o peito.

“E Lancelot?” ela perguntou. “O que acontece com ele nesta versão?”

Theo virou o rosto de volta para os convidados dançando no salão.

“Ele parte para guerras que não quer lutar. Mata monstros que não odeia. Vive entre conquistas... e arrependimentos.”

Ela quis responder algo, mas naquele instante Hector se aproximava com passos firmes, seguido por amigos, futuros apoiadores, expectativas.

“Obrigada pelo presente, Theo”, agradeceu Lizzy, antes de se aproximar ainda mais dele. O toque dos lábios dela em seu bochecha ficou por um segundo a mais do que o esperado. E o perfume… ah, o perfume. Um aroma floral e selvagem, impossível de definir. Theo sentiu a fragrância invadir os sentidos com a mesma doçura entorpecente de uma lembrança antiga, ou de uma poção esquecida entre as páginas de um livro encantado.

Como a essência usada pelas fadas no livro que inspirava esta agora dupla comemoração, poção que fazia os olhos se abrirem e amarem o primeiro rosto visto. E ela era a definição de uma fada esta noite.
Ela não precisava dizer nada. Aquele perfume era a linguagem. Um feitiço gentil, deixado como marca em sua pele.

"In oculis meis, solus es", ela murmurou em seu ouvido antes de se afastar e ser levada pelo braço do homem que o mundo dizia que ela deveria amar.

Theo ficou ali, sozinho, ouvindo os sorrisos. Ela continuou a se afastar, mas não sem antes lançar-lhe um olhar sobre os ombros, como se, por um momento, esperasse que ele fosse até ela. Que ele soubesse. Que ele dissesse algo, fizesse algo, quebrasse o feitiço deste lugar...

Por breves segundos, Lizzy o olhou como quem lê uma carta que nunca recebera.

Havia nos olhos dela algo inquieto, doloroso, um anseio doce e terrível. A certeza de que o que sentia não era permitido, mas também não era possível negar.
Na distância entre eles, não mais de alguns metros, vivia um abismo.

A promessa de um casamento. A amizade entre duas amigas. A honra de um homem.

Aos meus olhos, só existe você. Ele imediatamente reconheceu a frase dita por ela ao se despedir, sentença gravada em uma escultura no hall de Tintagel, evocando a tragédia do amor impossível, intenso, mas silenciado, de Guinevere e Lancelot, e ele não pode deixar de imaginá-la na biblioteca com o nariz metido em um dicionário de latim.

Um sorriso discreto nasceu no canto dos lábios dela – não para todos verem, só para ele. Um brilho cúmplice, que dizia mais do que a noite inteira poderia conter.

Então, Lizzy voltou sua atenção ao agora noivo, que sequer notara o que acontecera. E partiu em direção ao jardim com um grupo que crescia como um enxame de abelhas em torno do carisma magnético de Hector.

Mas Theo permaneceu ali.

Com o rosto ainda quente do beijo.

E o coração tomado pelo perfume.

E o sorriso dela cravado na memória como a promessa de algo que só começara.

Talvez ele não fosse Arthur afinal.