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Category:
Fandom:
Relationships:
Characters:
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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-07-01
Words:
625
Chapters:
1/1
Kudos:
1
Hits:
37

Um amor para os desafortunados

Summary:

A narradora dessa oneshot é filha de Cersei Lannister e Robert Baratheon. Fruto de um relacionamento complicado e de uma mãe manipuladora, ela encontra conforto em seu escudo juramentado.
Obs.: Não há qualquer smut nessa fic, mas espero que ela possa servir como um espaço de conforto para aquelas que têm relações complicadas com os pais, em especial com a mãe.
AVISO DE GATILHO: há um parágrafo que pode ser um gatilho para pessoas com transtorno alimentar e, de modo geral, a história é sensível para aqueles com problemas familiares.

Work Text:

Cersei Lannister é minha mãe. Minha mãe, a rainha. Minha mãe é uma mulher feita de títulos: filha do Senhor Protetor do Oeste, esposa do Rei, mãe do príncipe, irmã do Regicida; uma mulher inconstante, moldada por caprichos do ego, senhora de fome e ânsia. Minha mãe, Cersei Lannister.
Floresci em um ventre que não me desejava, fruto de uma semente mal-vinda. Mesmo assim, fui plantada. A primeira filha legítima de Robert Baratheon nasceu estrangulando-se com o cordão umbilical. Quase morri em meu primeiro ano de vida. Mesmo assim, vivi. E para que? Não sou herdeira de meu pai, não sou amada por minha mãe, nada compartilho com meus irmãos. Sou senhora do vento, mas a liberdade da brisa fresca me é negada.

Conheci o amor no décimo sexto dia de meu nome. Ele já contava dezenove anos vividos. Meu protetor. Meu escudo juramentado. Um homem temível feito de carne, osso e asco. Meu homem, um homem marcado. Sem títulos, um segundo filho de uma terceira casa. Não um homem, um cão. Minha fera.
A luz da vela pingava escura, apagando-se cera abaixo. Havia vento vindo de uma janela aberta por onde a noite adentrava o quarto e imergia-me em trevas. Devora-me, pedi ao breu, mas segui viva.
Dentro de mim algo doía, mas algo sempre dói. É sempre verão em meu âmago e o calor me fustiga a face enquanto o Sol me derrete a vida. Minha mãe havia me desamado. Com Joffrey saudável desmamando de seu seio, ela só poderia desprezar-me. Durante um jantar, comi errado. Comi demais. Comi muito. Comi feiamente. Comi como como. Comi como eu. Desagradei minha mãe. Sou seu fruto e sua pária. Devoro-a, entendi. Devoro sua juventude, devoro sua beleza, devoro seus títulos. Devoro o amor de meu pai. Ele me amou, mas já não se importa comigo. Mulher feita, sou do mundo.
Meu escudo juramentado entrou em meu quarto. Alto, áspero e impróprio, aproximou-se de mim e, o mais gentilmente que sua rouquenha voz lhe permitia, sussurrou-me “Passarinho”.
Ao meu redor formou-se um ninho e eu, pequena, piei para ele. Sentia-me frágil. Pior, sentia-me patética. Por que choraria? Eu, filha da filha do Senhor Protetor do Oeste, filha da esposa do Rei. Chorei farta e quis vomitar, mas não com ele. Sua presença consumiu as sombras, seu rosto, marcado pelo fogo, foi iluminado pelo luar.
De minha escuridão, vi-o. “Sandor”, chamei-o. “Desculpe, sou apenas uma princesa mimada”, ri sem vigor, tentando secar as lágrimas.
“Passarinho”, ele repetiu e, de repente, seu polegar afastava uma gota de meu rosto e sua mão, grande e calosa, envolvia-me o maxilar como se eu fosse uma concha na praia, a casca-casa de um bicho diminuto, escolhida por algo tão maior do que eu para ser contemplada. “O caralho para todos eles, passarinho. Aquela vaca não te merece.”
Forte, duro, áspero. Meu cão. Minha besta. De meu peito brotou o riso e em meus lábios espalhou-se um sorriso atrapalhado. Ria, sem saber do que. Do absurdo.
“Sandor”, repeti e minha mão repousou sobre a sua.
Olhei-o nos olhos como quem vê o céu pela primeira vez. Em suas piscinas castanhas, vi o mundo e o quis para mim. De joelhos, igualei-me à sua altura. De cócoras, ele me encarou como um cão desconfiado e leal.
“Sandor”, repeti e, molhada, beijei-lhe os lábios.

Sandor fez-me mulher. Com ele, perdi o medo. Sandor, meu amor. Antes de ser mulher, fui garota, fui nicho, fui sombra, fui cume, fui faca, fui dor, fui tudo, menos eu. Fui minha mãe, fui o abismo entre nós duas. Fui qualquer coisa, menos eu. Fui filha de meu pai. Fui filha de minha mãe. Fui decepção. Fui culpa. Fui.
Já não sou. Sou qualquer coisa, menos isso. Sou amada.