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Dois anos. Exatamente, você não leu errado, fazem dois anos que Jaeyoon estava tentando conquistar a garota dos seus sonhos. E não, ela não estava fazendo coisas implícitas que poderiam passar despercebidas, Jaeyoon sentia que a única coisa que restava era arrancar o próprio coração ainda batendo e entregar nas mãos de Sunghoon; e mesmo assim, ela achava que a garota não iria perceber o quanto era apaixonada por si.
Tudo começou no primeiro ano da faculdade, em uma festa da calourada, quando os olhos de Jae caíram sobre a moça que dançava com maestria, balançando os quadris fazendo tudo parecer tão fácil. Ela nunca iria esquecer do vestido vermelho que abraçava as curvas que tornaram Jae obcecada; e quando digo nunca, lê-se realmente nunca. Desde então, Jaeyoon não conseguia parar de pensar na menina, vasculhou por todo o campus para conseguir encontrá-la para no mínimo fazer uma amizade; sendo a pessimista que sempre foi, não achava que teria sequer chances de chegar perto de alguém tão admirável.
Por sorte, Heeseung era a maior borboleta social do seu círculo de amigos e começou a mexer os pauzinhos para que as duas pudessem, pelo menos, trocar algumas palavras. Assim foi, as duas desenvolveram uma amizade confortável a ponto de conhecer de cabo a rabo os gostos e desgostos uma das outras.
Jaeyoon pensava que ao se aproximar dela, o encanto sumiria; que era apenas um crush de passagem. Mas, as coisas não foram bem assim. Quanto mais elas se aproximavam, conversavam e desabafavam uma com a outra, mais Jaeyoon sentia-se completamente apaixonada por ela. Sunghoon, por outro lado, nem desconfiava desse sentimento da amiga.
E não é que Sunghoon estivesse “se fazendo”, a garota era realmente patética para esse tipo de situação. Mas, nem por um segundo Jaeyoon havia pensado em desistir, pelo contrário, ela se tornou uma especialista em pequenos gestos. Estava realmente determinada a conquistar Sunghoon, dependesse do que precisasse depender; isso a fez acumular uma lista considerável de tentativas e memórias sobre as preferências de Sunghoon, como o pedido padrão da garota no café próximo da faculdade para apenas receber um “Obrigada, Jae! Você é um anjo!” que nunca falhava em deixar a outra toda risonha pelo resto do dia, ou quando Jaeyoon passou a madrugada inteira aprendendo os acordes da música favorita de Sunghoon, torcendo para que assim ela notasse seu esforço e atenção nos pequenos detalhes, mas recebeu um “puxa, eu adoro essa música. Me lembra muito uma ex-crush minha.”
E mesmo assim, com todas essas bolas na trave, ela nunca desanimava. Era como se ao se dedicar para Sunghoon tivesse se tornado um hábito involuntário, como piscar, por exemplo. A verdade é que, a partir de um momento, Jaeyoon já não esperava mais grandes gestos de volta; só o olhar atencioso e carinhoso da garota já era o suficiente, ela sentia-se como se fosse a única pessoa no mundo, como se Sunghoon enxergasse o mundo inteiro quando a olhava, mas sabia que não era bem assim que a mente dela funcionava.
Ainda sobre olhares, Jaeyoon a enxergava como uma obra de arte, como quem olha para algo que sabe que nunca poderá tocar, mas mesmo assim permanece em devaneios de fascínio, cheio de um desejo genuíno de vê-la em total esplendor, mesmo que esse sentimento não incluísse Jae da forma que ela sonhava. E ela sonhava, até demais.
Vez ou outra, nos intervalos das aulas, Jaeyoon se pegava distraída, com os olhos perdidos em um ponto qualquer, imaginando como seria o toque quente em sua pele, sentir as mãos de Sunghoon entrelaçadas nas suas, o som da voz suave da mais nova dizendo coisas boas demais para soar casual. Às vezes, inventava cenas inteiras como um piquenique no fim de tarde com a garota, sonhava com cenas de confissão, onde Sunghoon segurava seu rosto com as duas mãos delicadas e dizia que apenas havia demorado para entender mas que também sentia o mesmo. Em certos momentos, esses sonhos vívidos vinham com tanta força que a garota tinha dificuldade de diferenciar o que tinha acontecido e o que tinha sido inventado pelo imenso desejo de estar com a garota.
Os amigos de Jaeyoon, que lentamente também se tornaram os de Sunghoon, incentivavam a garota à se confessar de forma explícita, conversar de forma séria e abrir seu coração com sinceridade para a mais nova; mas ela nunca ousou atravessar essa linha. Nunca disse uma palavra fora do lugar, amando-a com o maior cuidado que se contentava em apenas existir, silencioso e profundo, mesmo sem ser reconhecido. Ela aprendeu com o tempo a se contentar com o que tinha, não por uma idealização de covardia, mas por zelo e o constante medo de perder aquilo que era tão bonito.
Ela sabia que o amor pela amiga era maior do que a vontade de ser correspondida, era algo que existia de forma independente, sem exigências. E, acima de tudo, ela sentia-se honrada por ter alguém tão rara como Sunghoon em sua vida. Preferia mil vezes esse sentimento guardado a sete chaves no peito do que correr o risco de colocar tudo a perder, de forma explícita. Se um dia tudo mudasse pra pior, Jaeyoon não sabia se suportaria a ausência dos olhos de Sunghoon no seu cotidiano. Então, ela escolheu o silêncio e o amor calmo, pequeno mas não invisível.
Foi em uma tarde qualquer que o mundo de Jaeyoon pareceu parar.
“Fiz chá de camomila. Eu sei que você gosta mais do que ninguém.” O gesto de Sunghoon por si só já era suficiente para deixar a mais velha com o coração balançado, mas quando ela se sentou de forma cotidiana ao seu lado e segurou sua mão em silêncio, distraída, como parte de um hábito, fez o estômago de Jaeyoon cair e praticamente bater no baixo ventre.
Era algo pequeno, minúsculo e usual, mas parecia diferente. Era como se algo ecoasse de dentro de Sunghoon naquele momento, parecia inconsciente; como se ela quisesse dizer algo, não sabia exatamente o quê, ou até pior, não sabia como dizer. Jae não teve coragem de se mover, tinha medo de quebrar o momento pelo qual esperou por dois completos anos e mesmo com o coração preso na garganta, permaneceu parada com medo de que Sunghoon evaporasse.
“Têm algo dentro de mim que parece querer sair toda vez que a gente ‘tá juntas.” ela deu um sorrisinho bobo, como se desacreditasse do que ela mesmo estivesse falando. Não explicou mais, nem olhou pra Jae.
E falando em Jaeyoon, por mais que naquele momento a morena estivesse com o corpo inteiro enrijecido, sem saber se aquilo estava realmente acontecendo ou era mais um de seus sonhos vívidos, permaneceu ali, deferindo um apertar leve de dedos na garota, talvez a encorajando a continuar falando, enquanto escaneava cada parte do rosto de Sunghoon buscando por um sinal que também estivesse presa tanto quanto ela naquele labirinto de sentimentos.
O silêncio continuou entre as meninas por um bom tempo; silêncio esse que parecia confortável para Sunghoon mas estava lentamente matando Jaeyoon por dentro, preenchendo sua mente de questionamentos sem respostas.
“Eu sempre fui terrível com isso, sabe? Em entender o que eu sinto ou dar nome pra essas coisas. Mas quando você me olha... eu sinto como se eu estivesse perdendo alguma coisa que nem sei se já tive. E isso me assusta.”
“Perdendo?” A voz de Jaeyoon soou quebradiça e ela se policiou dentro da própria mente pela forma patética que estava reagindo.
Sunghoon levantou um dedo da mão livre, como se pedisse para que a garota esperasse ela terminar sua linha de raciocínio. E sem pestanejar, Jaeyoon obedeceu.
“Eu… percebo. Eu percebo, Jae. Eu só não sabia se esse tempo todo era coisa da minha cabeça. Eu tenho muito medo, sabe? E… eu não sei o que é esse negócio que você faz me sentir, é como se… a gente estivesse em um caminho, com várias ruas para seguir e eu estivesse completamente perdida, mas… todos esses caminhos me levam até você.”
Um silêncio diferente do anterior se formou entre elas. Era aquele tipo de silêncio que não pedia palavras, que não pesava no ar juntamente com Jaeyoon, que segurava constantemente a respiração com medo de que aquilo tudo fosse desaparecer no próximo segundo. Ela não conseguia se mover, na verdade, sentia seu coração bater tão forte que poderia jurar que Sunghoon também estava escutando as batidas frenéticas. A mente de Jaeyoon corria em círculos tentando assimilar cada frase da menina, absorvendo principalmente todos os caminhos me levam até você.
“Sunghoon…” começou, incerta, levando o próprio coração na manga da blusa listrada que tanto adorava usar porque um dia Sunghoon a elogiou. “Eu… nossa, eu… ‘tô sem palavras. Eu passei tanto… tanto tempo t-te amando em silêncio que… que isso era o máximo que achava que teria de ti. O silêncio.”
As sobrancelhas expressivas da mais nova se franziram, com uma expressão que fazia o coração de Jaeyoon doer. “Eu entendo o que você ‘tá sentindo. Juro que entendo… nós não precisamos saber tudo agora e muito menos dar nome pra tudo. Eu esperei dois anos... posso esperar mais um pouco se for pra caminhar do seu lado, mesmo que seja devagarinho.”
“Você me assusta um pouco,” Sunghoon confessou, arrancando uma risadinha incrédula de Jaeyoon. Ela estava nas nuvens, no nível de que Sunghoon poderia xingá-la no momento e ela mal iria prestar atenção, apenas sendo guiada pelo tom suave da garota. “Quando eu ‘tô perto de ti, tudo parece tão real que me assusta.”
“Eu também tenho muito medo, Hoon. Mas… eu acho que o que eu sinto por ti é muito maior do que esse medo.”
“Obrigada por me esperar.” O tom aveludado de Sunghoon abraçou Jaeyoon por inteira, como se o mundo em volta delas não existisse mais; e definitivamente, o mundo de Jaeyoon estava bem ali na sua frente, com um sorriso tímido adornando o rosto delicado. “Eu esperaria por mais dez anos, se fosse necessário.”
Sunghoon foi delicada, como sempre em tudo que fazia, quando encostou as testas. Jaeyoon fechou os olhos ao sentir aquele toque simples, íntimo, tão mais poderoso que qualquer palavra bonita. A respiração de Sunghoon batia leve contra a sua pele e o calor que vinha daquele contato era suave, mas o suficiente para fazer seu coração pulsar em uma paz imensa. Ela esperou por dois anos e estar ali agora, com a testa encostada à da menina que amava, sentia que o tempo de espera havia valido completamente a pena.
Sunghoon soltou uma risada baixa, abafada pela proximidade entre elas, enquanto as pontas dos seus dedos começaram a brincar com os de Jaeyoon, entrelaçando devagar, como se precisasse constantemente, uma vez revelado esse desejo, de um toque físico.
“Às vezes eu sinto que não sei amar direito,” confessou, com o olhar perdido no pequeno espaço entre seus rostos. “Mas, você faz parecer que as coisas podem ir com calma, como se estivesse acontecendo um processo natural dentro de mim sem eu perceber, desde que nos conhecemos.”
Jaeyoon, de forma reverente, levou uma das mãos até o rosto dela, com um carinho que havia desejado com todo seu corpo e alma. Sentia a pele macia e era como se seu corpo inteiro doesse em resposta à esse sonho se realizar diante de si.
“A gente pode ir aprendendo juntas, Hoon. Amar não é sobre um produto final ou uma linha de chegada, por exemplo… é sobre… seguir andando. De passinho em passinho, chegaremos lá.”
Então, com o mesmo cuidado de quem segura algo precioso e raro, Jaeyoon se inclinou para frente, sem hesitação ou ansiedade, apenas com a certeza de um sentimento forte fluindo entre as duas. O beijo aconteceu suave, como o esperado de alguém como Sunghoon, que era como uma fada em presença. Não era urgente e nem apressado, era doce e uma forma de comunicação mais profunda do que qualquer palavra um dia poderia ser.
Quando se afastaram devagarinho, com os olhos semicerrados e uma linha de saliva conectando os lábios cheinhos, Sunghoon riu baixinho, aliviada.
“Jae, você me promete que vai ficar? Promete que vai ser diferente das outras pessoas que já passaram pela minha vida?”
“Prometo.” Jaeyoon não hesitou, assim como nunca hesitou em cuidá-la durante todos esses anos ao lado de Sunghoon, a amando de longe; e agora, poderia amá-la bem de pertinho com a certeza de que ela estava a guiando pelo caminho da felicidade e que seguiam de mãos dadas, mesmo com todas as incertezas do lado de fora.
