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Em algum lugar, no Brooklyn, 2016
Ele estava na frente do prédio de tinta desgastada há um bom tempo.
Bucky tinha medo de entrar, ao mesmo tempo que queria derrubar aquelas paredes para poder chegar nele.
Se passou tanto tempo... e não somente o tempo em que sua mente era controlada, e sim, o tempo que — mesmo tendo sua mente devolta — ele não usou para vir vê-lo. Como poderia? Estava apavorado, e outros vários sentimentos que não conseguia colocar em palavras.
Haviam se passado seis anos desde que James Buchanan Barnes fora salvo pelos Vingadores. A queda da Hydra levou ao seu paradeiro, e quando notou, estava com sua mente devolta, porém, em um mundo que não conhecia e onde não se encaixava.
Levou um tempo para aceitar que estava ali, e um tempo ainda maior para se sentir merecedor de alguma ajuda, mas lá estava ele, parecendo um homem quase normal, mentalmente quase estável e com um braço de vibranium, presente dado à ele pelo tempo que ficara em Wakanda para se curar.
Bucky perguntou por ele. Claro que perguntou. Foi a primeira coisa que falou ao que a programação do Soldado Invernal deixou seu cérebro. E em algumas vezes ele duvida que tenham conseguido apagar ele. Ele tem flashs de memórias as vezes. Lembrava de conversas no idioma russo de como era "difícil tirar o loiro da cabeça dele."
Steven Grant Rogers nunca foi esquecido. Nem mesmo quando não existia Bucky e sim o assassino treinado da Hydra.
E ele precisava enfrentar aquele medo, precisa enfrentar a realidade e pelo menos se desculpar. Por isso estava ali.
— O Senhor Rogers está descansando agora. — A recepcionista tinha uma voz carregada de tédio e sequer fez questão de olhá-lo nos olhos.
Bucky se remexeu, inquieto com aquela mulher e com aquele lugar. Cheirava à incenso de canela e produtos de limpeza. Pelo menos era pacífico o suficiente e parecia uma ótima alternativa para passar os últimos dias da sua vida.
— Não pode abrir uma exceção? É... urgente.
A moça finalmente o olhou, parecendo querer ler o que tinha nos olhos azuis de Bucky, e após uma ligação — Sabe-se lá Deus para quem — e uma última olhada, resmungou:
— Eu não sei se ele vai querer dar autógrafos agora, e não acredito que você seja família. Ele não tem família, de qualquer modo.
Bucky tentou, tentou muito não deixar aquela última frase o abalar, mas fora impossível.
Ele deu graças quando um cartão de visitas o foi entregue junto da fala:
— Terceiro andar, último quarto no fim do corredor. O senhor tem meia hora.
Sorrindo sem ânimo, ele praticamente correu até às escadas.
Tinha ensaiado em casa o que diria mais vezes do que pôde contar. Sua gatinha, Alpine, com certeza o xingaria se a mesma pudesse falar. No entanto, ao ver a figura pequena e curvilínea, travou.
O quarto não era somente isso, "um quarto." Se assemelhava à uma pequena habitação, contendo uma cozinha minúscula no canto, uma sala com um único sofá e duas portas que Barnes imaginou serem do banheiro e onde ficava a cama.
Steve estava sentado em uma cadeira de rodas de frente para à janela grande, curvado sob uma mesa de madeira rústica e rabiscando em uma folha.
— Você veio, então. — A voz envelhecida pelo tempo atravessou seu coração como uma flecha flamejante. — Foi até antes do que eu esperava.
Uma risada fraca soou pelo local antes que Steve virasse para o homem moreno e sorrise caloroso.
— Olá, Bucky.
Bucky tentou segurar o soluço que veio forte, mas foi demais, e quando percebeu, lágrimas grossas pintavam sua bochecha e sua visão ficava cada vez mais turva.
— O-oi Steve...
O pequeno Steve, que antes carregava os cabelos loiros mais belos que ele já vira, agora tinha os mesmos tingidos em branco. O rosto que Bucky costumava passar horas observando e se questionando como podia conter tanta beleza, agora era marcado pelas linhas do tempo, contendo rugas e marcas profundas do cruel tempo.
Mas ainda podia-se ver o reflexo do seu Stevie naquele senhor de idade. Ainda era o seu amor nunca esquecido.
— Ora, não faça isso, você sabe que fica feio chorando.
A fala do menor fez Bucky rir entre as lágrimas e finalmente se sentar em outra cadeira disposta ali.
Quando Barnes se acalmou, percebeu ser impossível manter contato visual por muito tempo. Aqueles olhos azuis esverdeados sempre foram seu ponto fraco, e ainda eram. Ele estava com vergonha e perdido, e Steve parecia não querer começar a conversa, na verdade, o — agora mais velho — entre eles, estava ocupado demais admirando o homem que nunca esqueceu.
Bucky finalmente olhou para o papel que Rogers antes rabiscava, sorrindo ao ver o desenho de um guaxinim estampado.
— Eu tenho um exemplar de quase todas as suas obras em casa. — Murmurou o moreno.
Era verdade. Desde que descobrira que Steve seguiu um de seus sonhos — já que nunca entrou para o exército — e se tornou um grande artista plástico, fez questão de aparecer em cada galeria, em toda exposição e comprou quase tudo que via assinado com "S.G. Rogers". E Steve Rogers não somente seguiu seus sonhos, como ajudou o máximo de pessoas que pôde com o dinheiro que ganhou. Centros de reabilitação para ex-soldados foram erguidos, orfanatos recebiam grande quantia como caridade e movimentos de resistência, como os direitos de pessoas lgbtqia+ eram financiados pelo homem loiro. Bucky via e lia tudo sobre a vida do pequeno e bravo artista Steven Grant Rogers.
— Ah, claro que tem. — Steve riu baixinho. — Você sempre foi meio exagerado. Eu me lembro bem de quando você me embrulhava em casacos e cobertores no inverno mesmo eu dizendo que já estava quente o suficiente.
Ambos riram da recordação, até que Bucky suspirou audível e, com uma coragem inexistente, pediu:
— Me perdoa... Stevie. — Sua voz saiu mais fraca do que ele calculou. — E-eu queria ter vindo antes, mas... eu juro, eu queria ter vindo.
Os olhos azuis acinzentados ainda estavam baixos. Encaravam o sueter de lã marrom que Rogers usava.
— Quando eu voltei... eu não era eu mesmo... eu tive medo de acabar te machucando, mas eu juro, eu juro para você que eu quis vir.
Mãos enrrugadas e fracas tocaram na sua mão esquerda, o braço de vibranium nunca pareceu tão fraco como agora.
— Você não me deve desculpas. — Tinha tanta firmeza em sua voz que Bucky sentiu que poderia se agarrar no pequeno e velho Steve e que ele ainda seria muito mais forte do que um dia ele jamais foi. — Você não deve desculpas à ninguém, Bucky.
Barnes não concordava com aquilo, não depois de tantos anos sob domínio da Hydra.
— Eu fiz coisas...
— Eu sei. Aqui não há muito o que se fazer, então assisto muita TV e leio muito jornal. — Steve riu sem forças. — Sei que você sabe que nada disso foi sua culpa, só não quer aceitar ainda.
Bucky nada disse por um momento, mas se esforçou para externar o que vinha preso dentro de si todo aquele tempo.
— Quando estava na Europa, na guerra, eu fazia planos todos os dias. Pensava em voltar para você, para os seus braços. Então eu arrumaria um lugar melhor para vivermos e pagaria sua faculdade de artes com o dinheiro do exército. Eu... quis voltar para você, eu juro. — Buscou ar para os pulmões quando percebeu estar quase fôlego. — A Hydra apagou muita coisa de mim, Steve, mas nunca conseguiram apagar você.
Finalmente os olhos dos dois amantes se encontraram, e por um breve segundo, era como ter dezenove e vinte anos denovo. Dividindo um apartamento caindo aos pedaços e vivendo um amor secreto e frágil que ambos protegiam à todo custo naquela época difícil.
Steve ficou em silêncio por alguns segundos. Seu rosto nunca abandonou o sorriso fraco e calmo que o efeitava.
— Eu nunca acreditei neles, sabia?
A fala do menor fez com que Bucky curvarsse a cabeça em dúvida.
— O quê?
Recapitulando sua fala, Steve recomeçou:
— Quando a notícia da sua morte chegou na casa de sua mãe, eu não acreditei. Rebecca e Winnie sofreram muito, e fizeram um funeral para você. Eu não fui. — Riu sem ânimo. — Esse ato fez sua mãe ficar brava comigo por um tempo, mas eu me recusava à aceitar que estava morto.
Ouvir alguém que conhecia sua vida antes de tudo falar de sua família era de uma nostalgia imensa. Mas a informação naquela fala de Steve o chamou muito mais atenção.
— Para todos eu era só um melhor amigo que não sabia lidar com a perda, mas... eu sentia, sentia bem aqui... — Suas mãos levaram a mão biônica do moreno até onde seu coração envelhecido batia com fervor. — ...que você estava vivo. Eu não falava, claro, tinha medo de me chamarem de louco. Eu não podia provar que você não tinha morrido naquela queda, e quase enlouqueci sozinho pensando nisso.
O sol fraco da manhã banhava as feições do homem mais velho e Bucky não conseguia desviar a atenção da fala de Steve.
— Eu não tinha nada, só aquele instinto, então eu segui... — Steve suspirou e baixou as mãos sob mesa. — Consegui um bom emprego e ganhei reconhecimento, subi na vida e viajei muito. Mas eu sempre esperei por você, Bucky. — Sorriu para o antigo amado. — Não importa onde eu estivesse, não importa quanto tempo passasse, eu sentia seu coração pulsar junto do meu. E nem mesmo minha saúde precária fora capaz de me deter, eu não viveria o luto sabendo que você poderia estar em algum lugar por aí.
Bucky nem percebeu as lágrimas que pintavam seu rosto. Outro soluço saiu de sua garganta e uma enorme tristeza recaiu sob seus ombros.
O amor de sua vida, o homem que tanto amou, seu Stevie viveu sozinho. A vida que poderiam ter juntos fora arrancada deles sem um aviso prévio, e agora já não lhes restava nada.
Era injusto, tão injusto.
— Ei... seu tolo, não tem necessidade disso, não chore mais. Tudo já passou. — Steve lhe tocou o ombro enquanto o reconfortava.
— Fomos roubados, Stevie... roubados...
Tentando se acalmar, o maior limpou o rosto várias vezes, sabendo que seus olhos estavam vermelhos devido às lágrimas e tentou encarar o mais velho outra vez.
— James Buchanan Barnes. — O tom de Steve era mais duro agora. — Não te contei isso para que você se lamentasse. Eu fiz minhas escolhas, passei por algumas coisas, sim. Mas nada se compara ao que fizeram com você. Eu consegui viver a minha vida, você não teve essa opção.
— Minha vida deveria ser vivida ao seu lado. — Bucky resmungou mais para si mesmo.
Steve suspirou e se rencostou melhor na cadeira de rodas.
— Sim, deveríamos ter tido a chance de viver juntos. — Aquela era a primeira vez que Bucky vira um vislumbre de tristeza na expressão de Steve desde que tinha chegado. — Mas não aconteceu, talvez em outra vida... quem sabe. — Sorriu. — Um outro universo mais gentil do que esse. Mas a nossa história se encerra aqui, meu amor, junto da minha. Mas a sua vida continua, e você precisa vivê-la, viva o máximo e o mais feliz que conseguir. Este é o fim da linha.
Bucky fungou alto, se negando a soltar a mão do homem que amou e ainda amava e se negando a viver sem ele mais uma vez. Movia a cabeça com descrença e não queria aceitar aquele fato.
— Bucky, olhe para mim.
O moreno o fez, com dificuldade, mas fez.
— Pode colocar uma música, por favor?
Barnes não questionou o pedido inusitado, apenas seguiu para onde uma vitrola antiga e envelhecida estava posicionada. Alguns discos descansavam do lado da mesma sob um balcão velho, e não demorou para que escolhesse uma.
A doce e nostálgica melodia de Vera Lynn soou pelo alojamento de Rogers.
A letra parecia zombar da situação dos dois.
"We'll meet again, don't know where, don't know when...
But i know we'll meet again, some sunny day..."
Memórias de uma dança entre os amantes dentro da sala pequena de seu apartamento enquanto a mesma melodia tocava, um tempo antes de Bucky se juntar ao exército, voltavam à milhão. Os dois homens agora tinham sorrisos no rosto e ainda seguravam a mão um do outro.
Quando a melodia estava quase no fim, Steve se permitiu inalar o cheiro ainda característico que exalava de Bucky, fechando os olhos na calma e pacífica luz da manhã, murmurando um:
— Eu te amo, Bucky.
— Eu te amo, Steve.
•••
Um mês depois...
Bucky encarava a lápide cinza claro repleta de flores e homenagens ao grande artista Steve Rogers.
Ele queria chorar, mas já havia esgotado o estoque de lágrimas disponível em seu corpo. Sentia-se triste, vazio, pequeno e miserável. Porém, no fundo de seu coração, guardava bem as palavras ditas para si.
Steve queria que ele vivesse, Steve queria que ele fosse feliz, e ele faria isso. Se tornar um vingador foi algo que ele negou no começo, mas o encontro com o amor de sua vida clareou sua mente.
Ele queria ajudar pessoas, queria salvar pessoas, tal como fizera no exército anos atrás e como fizera ajudando pessoas necessitadas no Brooklyn muito mais cedo que isso. Sempre gostou de ser um bom homem e ajudar quem precisava, ele e Steve compartilhavam essa característica.
E agora que tinha a chance, não iria desperdiçar.
Sorrindo fraco para o nome gravado na pedra, Bucky suspirou, olhando para o céu azul sob sua cabeça e murmurando:
— Adeus, Steve, meu amor.
