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Endereço (In)Correto

Summary:

Felix, após um certo tempo alugando uma pequena casa próxima de sua faculdade, começa a receber algumas cartas frequentemente, exatamente com o seu endereço, mas, com o nome do destinatário desconhecido "Seungmin" vindas de um remetente igualmente desconhecido "Hyunjin". Felix, porém, se vê mais envolvido e interessado ainda nesse caso curioso quando, em um congresso na sua faculdade conhece Kim Seungmin, um homem com curiosas semelhanças com o personagem das cartas que recebia.

Work Text:

O barulho das buzinas e dos motores esvaecidos pelo som das gotas de chuva que molhavam o asfalto reverberava bem nos seus tímpanos. As luzes dos faróis e do alto dos postes se diluíam na janela embaçada com pequenas gotículas e rastros em sua superfície. Era mais do que via todo dia nesse mesmo trajeto, e, ainda assim, sentia a necessidade de buscar ver uma certa beleza na mundanidade. Mais um dia rotineiro exaustivo, vendo as mesmas pessoas, indo para as mesmas aulas, comendo as mesmas coisas, fazendo os mesmos trajetos.

 

Quando sentiu um solavanco familiar ao passar por cima do buraco de sempre, percebeu que já estava perto. Suspirou fundo afastando esses pensamentos que insistiam em perturbá-lo e logo se pôs de pé, colocando a mochila nas costas e puxando a corda para alertar o motorista da sua futura parada. Rapidamente arrumou o capuz do seu casaco e deu passos rápidos — queria evitar ao máximo chegar igual um pinto molhado dentro de casa. Sacou a chave do seu bolso e, quando levantou a cabeça para abrir o portão, viu que havia algo dentro da sua caixa de correio. Alguma conta, pensou. Mais um suspiro.

 

Com as mãos úmidas, pegou o envelope de mesmo estado e correu pelo pequeno jardim mal cuidado para, enfim, se abrigar no calor da sua casa.

 

Finalmente dentro, esfregou seus pés no tapete para limpar ao menos o excesso de lama deles e, quando se abaixou para desfazer os laços e foi deixar o envelope de lado, finalmente percebeu que não tinha nada a ver com conta ou algo do tipo.

 

 — Mais uma?

 

Era uma carta. Mais uma daquelas cartas. Aquelas que um desconhecido continuava enviando para o seu endereço, com o nome de outro destinatário que também não fazia a mínima ideia de quem fosse.

 

Era a quarta da série. Em nenhuma entrega dessas encomendas ocorreu de estar em casa e recebê-las — passava os dias fora, afinal. Na primeira situação, franziu fortemente as sobrancelhas, sem entender como o endereço descrito era exatamente o seu, mas, com o nome do destinatário diferente, um tal de “Kim Seungmin”. Bom, talvez aquele remetente — cujo também não fazia ideia de quem era — tenha escrito apenas o número da casa errado.

 

Depois de conversar com o único vizinho com o qual mantinha uma mínima relação de convívio, Christopher, ficou sabendo que aquela casa de fato era de uma família de sobrenome Kim, mas, que era muito reclusa e não sabia nada mais sobre eles, apenas que já faziam cerca de quinze anos que a casa estava desocupada. A história batia com a contada na imobiliária de que, ofertada para eles há quatorze anos atrás a preço de banana — já que os antigos proprietários apenas queriam se livrar dela logo —, foi comprada pela alta demanda de estudantes buscando qualquer tipo de moradia para alugar perto da universidade da área.

 

Se esse “Hwang Hyunjin” sabia o endereço e o nome completo de quem, supostamente, morava lá, como não chegou a ficar sabendo dessa mudança? Como não conseguia contactar a pessoa desejada por nenhum outro meio se não cartas?

 

Bom, não tinha mais o que fazer. A carta foi entregue no seu endereço, talvez tivesse algum conteúdo importante, de repente. Talvez Hyunjin tenha tido algum problema e o único meio que achou para se comunicar com Seungmin. Ou… talvez tivesse algum conteúdo bastante íntimo que não poderia ver de jeito nenhum.

 

Inúmeras situações e cenários diferentes passaram pela sua cabeça enquanto encarava aquele envelope lacrado em uma sexta à noite qualquer. Reparou na caligrafia que descrevia seu endereço, era cursiva, bastante bonita, diga-se de passagem. Havia um adesivo caricato de eclipse no canto do papel. Virou-o mais uma vez, vendo o endereço do remetente, não só de outra cidade, como de outro estado, algumas boas centenas de quilômetros de distância. 

 

Felix deveria apenas enviar a carta de volta, usar as informações que lhe foram dadas e devolver a quem pertencia. Mas, de qualquer forma, precisaria de outro envelope para fazer esse envio, certo? Precisaria rasgar o papel, tirar a carta — ou seja lá o que quer que tivesse mais lá dentro — e comprar outra embalagem para reescrever o destino dele. Então, enfim, rasurou-o e retirou a folha de papel A4 contida lá dentro. Era uma folha fina, não tinha marcas de argolas em nenhuma das bordas, mas, tinha as marcas de linhas nítidas e conseguia ver sinais de escrita em caneta preta através do papel fino.

 

Pronto, agora só precisaria arranjar um novo envelope e enviá-lo de volta. Mas…, se já estava aberto, qual seria o problema de ver o que estava escrito, não é? Iria apenas desdobrar e passar seus olhos pelas palavras e finalmente entender pelo menos um pouco o que exatamente estava acontecendo. Não havia mal algum.

 

Então, leu. Leu, e leu, e leu todas as palavras, todas as linhas, todas as emoções. 

 

Ficou imóvel por algum tempo, se lembra bem da sua reação. Sua língua foi tomada por um sabor agridoce ao ver aqueles sentimentos emaranhados em forma de letras para um endereço incorreto. Eram emoções tão densas, algo tão dolorosamente bonito de se ler — se lembrou dos filmes românticos que, às vezes, assistia com sua prima, mas que nem sempre tinham um final feliz. Era clichê, mas não daqueles que se vê todos os dias, tinha algo de errado ali, algo que queria muito mudar.

 

Trin trin.

 

Piscou algumas vezes acordando dos seus devaneios sobre as lembranças da primeira vez que recebeu uma carta desse remetente, voltando ao momento atual.

 

Trin trin.

 

Tirou o celular do seu bolso e leu o contato salvo; era a sua mãe fazendo a ligação rotineira, apenas para se manter sempre próxima, imaginou.

 

Trin trin.

 

Nem sempre estava com ânimo para conversar, verdadeiramente cansado da correria, mas, se sentia bem falando com ela. Gostava de falar com alguém de fora do seu ciclo do seu dia a dia, principalmente se fosse com uma pessoa que amava tanto e fazia tanta falta.

 

Apertou o botão certo e atendeu, prendendo o celular entre o ombro e a orelha enquanto deixava a carta lacrada — e molhada — de lado e terminava de desamarrar seus calçados.

 

— Oi, filho, tudo bem? Como foi hoje? — a voz doce alcançou seus tímpanos, fazendo-o sorrir inconscientemente.

 

— Oi, mãe, tudo bem, o de sempre… — pegou o papel molhado novamente e se pôs de pé, retirando os tênis com os próprios pés e jogando a mochila, que por sorte era impermeável, no canto. — Aquele professor, o senhor Seo, cancelou a aula de hoje, então essa quarta-feira foi um pouco mais suportável. — riu fraquinho.

 

— Ah, foi? — indagou bem-humorada, se lembrando de todas as vezes que o filho reclamou do dito professor. — E ele disse o porquê?

 

— Parece que adoeceu, mas, não sei não, viu… Mas, e você, mãe? E o pai?

 

Felix seguiu seu caminho. Pôs a carta na mesa e se direcionou para o seu quarto, pegando uma toalha e uma muda de roupa quentinha para logo entrar no chuveiro.

 

— Também o mesmo, estamos bem, graças a Deus… — depois de uns segundos em silêncio, pensativa, voltou a falar. — Sabe, filho, eu tenho tentado economizar um pouquinho esses dias e…, o que acha da gente fazer uma viagemzinha daqui uns meses?

 

Arqueou as sobrancelhas e estancou seus passos. Não esperava um convite desses aleatoriamente.

 

— Viajar, mãe? Pra onde? Quando? Do nada?

 

Se sentou no braço do sofá, interessado em saber mais sobre o assunto.

 

— Ah, nada demais, só pensei em passarmos alguns dias, uma semaninha, na praia, ou algo assim… Quando chegarem as suas férias e eu conseguir agendar as minhas, só pra variar um pouco, sabe? Acho que seria bom. Sua prima e seu tio iriam também.

 

Felix sorriu ao ouvir a proposta. Estava de fato precisando de ares novos e frescos. Estava precisando ainda mais reencontrar sua mãe, sua família, que não conseguia ver há um ano. Uma viagem em família, então? Sequer conseguia se lembrar a última vez que realizaram uma.

 

— Seria ótimo, mãe, é, seria ótimo, eu realmente tô precisando de algo assim!

 

A Lee conseguia ouvir o sorriso do garoto, o que automaticamente colocou um igual no seu rosto.

 

— Perfeito, filho! E quando mesmo que você fica de férias? Já tem a data?

 

— Sim, vai ser dia 20, três semanas depois do-

 

— Congresso! — riram juntos com a lembrança animada da mais velha. — Não é? Você está bem animado, né?

 

— É… — tinha que admitir, já havia falado mais vezes do que deveria sobre o evento. — Acho que vai ser bom pra mim, tô ansioso já que vai ser mais direcionado pro design gráfico mesmo.

 

— Você sempre teve talento, meu filho. Vai dar tudo certo. — falou calorosamente, desejando poder deixar um beijo na testa do mais novo nesse momento. — Vou terminar de cuidar da janta aqui, certo? Beijos!

 

— Beijo, mãe, depois a gente fala mais.

 

O beep que encerrava a chamada soou nos ouvidos do jovem que se encontrava com um sorriso no rosto. Não só a notícia boa sobre uma possível futura viagem havia melhorado o seu fim de dia, como também se lembrou do evento que logo aconteceria: a conferência que tanto aguardou.

 

Havia visto cartazes de divulgação já há algumas semanas pelo campus. Aparentemente era apenas a segunda edição do evento, sendo a primeira vez sediada na universidade que frequentava. Claro, Felix gostava do seu curso independente da especialização, mas, ainda assim, sua faculdade não oferecia bem o que imaginava. Nesses cinco períodos de estudo sempre ficou muito focado em desenho industrial, sem muitas possibilidades de se aventurar em áreas diferentes ou trabalhar com estilos mais variados.

 

Quando seus pais precisaram se mudar para o interior de outro estado por causa do trabalho deles há pouco mais de um ano, sem oportunidade de tentar transferência para outras instituições mais interessantes, acabou ficando ali mesmo. E com o dinheirinho mensal enviado pela sua mãe, proporcionado principalmente pela venda da antiga casa em que os três moravam juntos, Felix conseguia manter o aluguel da casinha de não mais do que vinte e cinco metros quadrados, mas, que garantia-lhe um curto caminho até a faculdade e ao mercadinho do bairro.

 

Mas, uma coisa é fato, nesses pequenos trajetos, e em todos os outros que lhe cruzassem, sempre reparava nos outdoors, nos cartazes de cinema, nos panfletos de lojas de cosméticos, nas fachadas dos salões. Quando em casa ou na biblioteca, não deixava passar as cores, as fontes, as formas, os tamanhos, nada, nas propagandas e nos sites. Era com isso que queria trabalhar. Sabia disso. Sentia isso.




• • •




A caminhada para o auditório foi, diferente do comum, rápida. Não por conseguido uma carona que o deixasse na porta ou algo do tipo, mas sim porque teve que apressar o passo logo após olhar o seu relógio de pulso. Três e dezessete. Certo, foram apenas alguns minutinhos, não tinha culpa que seu ônibus atrasou, e tinha certeza que o evento não havia começado tão pontualmente assim. Definitivamente muita gente sequer havia chegado ainda, despreocupada com o horário. Mas, Felix estava consideravelmente animado para essa conferência. Depois dos últimos meses completamente pacatos que, quando muito teve a oportunidade de fazer algo fora da sala de aula, ainda eram assuntos que não correspondiam aos seus interesses, finalmente teve a oportunidade de participar de um evento que o fazia olhar com vontade para o seu futuro acadêmico e profissional.

 

Se sentia otimista. Era, de fato, uma brisa de ar novo, ventos distantes chegando para dar uma, nem que seja leve, mudança no tempo da sua vida nos últimos tempos. Passou pelo pé de manga já conhecido e os degraus vermelhos de costume. Estava perto. Só mais um pouco e chegaria ao seu destino — um pouco suado e talvez até com o cabelo meio bagunçado, mas, relevemos esses detalhes. Chegaria rápido sem intromissões se, isto é, não tivesse acabado de esbarrar contra um corpo que vinha rapidamente pela sua esquerda.

 

Por sorte, nenhum dos envolvidos caíram ou se machucaram, exceto por alguns alguns papéis que escaparam das mãos que os carregavam e se puseram ao chão. 

 

— Opa, desculpa! — a voz doce, meio anasalada soou primeiro.

 

— Ah, não, não, eu tava tão apressado que acho que me distraí, foi mal. —  Felix prontamente se agachou e recolheu as folhas que se esvoaçaram das mãos do moreno, junto com a ajuda dele, reparando no escrito no cabeçalho de uma delas, que lhe chamou atenção. — Ah, você também tá indo pro evento de design? — sorriu amistosamente.

 

Viu os olhos — que lembravam-lhe os de um filhote de cachorrinho — se arregalando levemente. Se forçasse um pouco, poderia dizer que viu um certo brilho neles, algo como uma esperança se formando.

 

— É, eu... eu vou, na verdade, eu tô meio perdido aqui-

 

— Ah, ótimo, vem comigo! Hoje é pra lá, oh. — apontou para frente, diferente do caminho que o homem originalmente estava seguindo. 

 

O moreno não parecia ser a pessoa mais extrovertida de todas, mas ofereceu-lhe um sorriso genuíno, agradecido pela ajuda inesperada.

 

O homem não era um rosto conhecido e, julgando pelo fato de estar perdido, definitivamente não era da região. Em seus dias de calouro, ou mesmo quando precisou visitar outras universidades e empresas sem Jisung, Felix passou por isso inúmeras vezes, sempre foi bom ter alguém ajudando-o nesses momentos. Não haviam motivos para não ajudá-lo. Além de ter a aparência extremamente simpática.

 

O cabelo preto curto e levemente ondulado lhe conferia um ar fofo, deixando-o mais jovial. O sorriso, mesmo que tímido, era bonito, com os dentes bem branquinhos e alinhados. Os olhos arredondados e todo o resto lembravam Felix de um cachorrinho. Ou talvez seja apenas essa mania dele de sempre associar pessoas a animais. De qualquer forma, o jeito como o homem o seguia tal qual um filhote de cachorro perdido a caminho do seu destino era inegavelmente similar.

 

De fato, chegaram rápido ao local pouco movimentado, a maioria dos interessados já deviam estar dentro do auditório a essa altura. O prédio era pequeno, mas, sua entrada era bonita e atraente — era tudo novo, havia sido construído há pouco tempo, bem como toda a faculdade que não tinha nem sete anos de vida completos ainda. Logo na entrada havia uma mesa simples com uma mulher de trás dela se divertindo com seu MP3, que logo deixou o aparelho de lado e se levantou para atender devidamente os dois.

 

Precisaram apenas mostrar seus documentos e assinar uma lista para receberem seus crachás de identificação com suas respectivas fotos e nomes. Foi quando, só então, reparou que ainda não havia perguntado o nome do rapaz. Tentou se inclinar um pouco para ler o papel pendurado em seu peito enquanto caminhavam para a porta do anfiteatro, mas, não conseguiu.

 

— Desculpa, acabei nem me apresentando propriamente… — se virou levemente, sem parar os passos, enquanto estendeu a mão direita para cumprimentá-lo. — Prazer, Lee Felix! — sorriu com os olhos e foi retribuído.

 

— Seungmin. Kim Seungmin. — apertou a mão estendida.

 

Seungmin complementou sua fala com mais alguma coisa, sobre agradecer sua ajuda ou algo assim, mas, o loiro não saberia dizer ao certo já que não prestou atenção, direcionando todo seu foco para o nome mencionado.

 

— Kim Seungmin? — repetiu.

 

Bom, é um nome até que comum, certo? Devem existir outras centenas de Kim Seungmins, ele estar ali na cidade bem diante de Felix que recebe cartas com esse exato nome como destinatário é apenas coincidên-

 

— Ui! — foi a única coisa que conseguiu expressar quando seu pé foi de encontro ao batente da porta da plateia, sendo salvo de uma queda pelo aperto na sua mão que já estava segurada desde o cumprimento.

 

— Cuidado, Felix!

 

Sentiram alguns olhares se voltando para si pela movimentação nada típica desse ambiente. Porém, pelo menos, a apresentação do dia ainda não havia começado, ainda era possível ouvir um pouco das conversas aleatórias entre os estudantes. Com um sorriso amarelo, caminharam para um lugar que julgaram — ou melhor, que Felix julgou — ser bom, com Seungmin apenas seguindo-o desconcertado.

 

Sentaram em silêncio por algum tempo. Isto é, até Seungmin timidamente quebrá-lo após remexer sua bolsa.

 

— Ahn, Felix?

 

— Hm, oi?

 

— Você tem alguma… caneta ou lápis a mais pra emprestar? 

 

— Ah, claro!

 

Rapidamente abriu sua mochila aos seus pés, logo seguida do estojo e estendeu-lhe uma de suas canetas. Quando Seungmin foi pegar o objeto, todavia, o Lee reparou em algo na sua mão esquerda, algo que, mesmo pequeno e em um movimento rápido era único demais para deixar passar: uma pequena marca em um formato que se assemelhava a um coração.

 

— Obrigado! — sorriu mais uma vez, ainda de um jeito envergonhado. — Eu saí tão rápido do hotel que acabei esquecendo.

 

Tá legal, isso já estava ficando um pouco estranho. Quais as chances de alguém com o nome igual, um sinal igual, na mesma cidade não ser a pessoa para quem aqueles envelopes deveriam ter ido? Bem, provavelmente uma chance tendente a zero, mas, nunca, de fato, nula. Ou pelo menos essa seria a resposta do seu nerd de exatas favorito, Jisung, para essa pergunta retórica. E, quer saber? Ele estaria certo. Nada é impossível, coincidências existem. Assim como a coincidência de encontrar, casualmente, o destinatário de Hyunjin em sua faculdade.

 

Ao menos quanto a marquinha ele tinha certeza de que não estava se confundindo ou algo do tipo. Já podem fazer alguns meses desde que Felix leu aquela primeira carta, mas, esse era um dos detalhes que eram específicos demais para não se lembrar.

 

Quando Felix estava prestes a abrir a boca, o barulho de toques no microfone ecoaram no auditório, indicando o início do discurso e das atividades.

 

Isso, chega! Não precisava ficar tão neurótico com esse assunto, aliás, sequer deveria! Seungmin parecia uma pessoa gentil e legal, se encontrou com ele apenas por acaso. Felix estava ali apenas para ver a palestrante que era uma das maiores referências em sua área, autora de alguns bons livros de sua estante. Iria apenas deixar de pensar em qualquer coisa paralela e focar no seu verdadeiro interesse.




• • •




Seungmin tentava focar no que o dono de uma das empresas referências em design falava no palco. Ontem, distraído pela rapidez em que precisou deixar suas coisas no hotel e se encaminhar para a faculdade, além do encontro inesperado com Felix, cujo qual passou a maior parte do dia, sequer teve tempo parar pensar. Tirando todo o tempo planejando essa viagem quando ficou sabendo do evento, todo o trajeto de ônibus e todo o caminho de táxi. É, nesses momentos se encontrava tal qual agora: distraído pelo ar dessa cidade. Pensativo. Já era fim do dia, perto da hora do almoço, sua cabeça estava cansada do conteúdo que, embora interessante, também já estava meio repetitivo. E sua cabeça vazia, estando lá, o levava a viajar sem parar. Viajar para um certo dia há dez anos atrás. Não, não. Logo mais a palestra iria acabar, estava quase na hora, teria que aproveitar ao máximo.

 

Isso, conseguiu focar pelos últimos minutinhos e logo arrumou sua bolsa, assim como todos presentes ali. Levantou e logo quando se virou, avistou Felix vindo em sua direção. Se cumprimentaram com um sorriso e um rápido abraço. Mesmo tendo se conhecido há menos de vinte e quatro horas, já gostava muito do garoto. Além de ter sido muito gentil e lhe ajudado logo de cara, fez questão de ficar com ele no seu primeiro dia lá e era bastante engraçado e simpático. Uma boa pessoa.

 

— Seungmin! Eu não tinha visto você hoje aqui ainda.

 

— Ah, eu cheguei bem cedo hoje, acabei nem te vendo também…

 

— Pois é, eu cheguei meio atrasado pra variar, acabei ficando no fundo. —  sorriu envergonhado

 

E logo quando o mais velho já estava pensando em seguir seu caminho para evitar um silêncio constrangedor, Felix foi mais rápido e se pronunciou.

 

— Vem cá, tá afim de almoçar comigo? Tem um restaurante bom e bem baratinho aqui perto!

 

— Ah, é, é pode ser. Vamos?

 

Seungmin já tinha um local em mente, mas, gostaria de passar mais um tempo com Felix. Seria bom de qualquer jeito. Logo seguiram campus a fora, um sorriso no rosto do moreno quando o outro comentou que eles conseguiriam chegar a pé.

 

— Então, Seungminnie, você não é daqui, é? — puxou o assunto, curioso.

 

Seungmin sentiu seu coração errar uma batida com seu nome dito daquela maneira.

 

— Não, ah, quer dizer, eu sou daqui, mas, já me mudei tem quase dez anos pra começar a faculdade.

 

Felix piscou uma vez. Ele era dali?

 

— Hm, nove anos? Então, você já está na área tem um tempinho, né?

 

— Bom, mais ou menos… — riu sem graça. — Primeiro eu fiz três anos de veterinária, mas, acabei trancando e fui fazer design, então, estou trabalhando mesmo com isso há pouco mais de três anos.

 

Felix piscou mais algumas vezes. Veterinária?

 

Felizmente, o mais novo não precisou complementar sua pergunta anterior ou algo do tipo.

 

— Foi um período bem ruim pra mim, sabe, quando decidi largar o curso, mas… — ficou alguns segundos pensativo antes de falar, como se um pequeno filme estivesse passando nesse momento pela sua mente. — valeu tudo a pena, eu realmente me encontrei no desenho. Eu faria tudo de novo.

 

— Nossa, que bom, então, fico feliz por você, Seungmin! — a mão do garoto tocou seu ombro carinhosamente. Podia sentir verdade nas palavras gentis ditas, definitivamente foi ótimo ter conhecido Felix. — Eu gosto muito do curso. De verdade, sabe? Só que… não sei, a faculdade aqui ainda é mais focada pro ramo industrial, e acho que a minha praia é outra, por isso tô gostando muito do evento.

 

— E é ótimo você reconhecer isso, Felix! — quis retribuir a animação que o loiro demonstrou com a sua história, afinal, mesmo que a situação dele fosse em uma escola menor, dentro do próprio curso, divergindo apenas entre as áreas de atuação, era semelhante ao que Seungmin experienciou. — Pode ser um pouco frustrante agora, mas, você vai ter muito tempo para se especializar depois. Olha, a empresa que eu trabalho sempre está recebendo estagiários, e tem uma sede aqui também, tenho certeza que você iria gostar. Muito do que eu sei sobre design gráfico eu aprendi com ela.

 

— Obrigado, Seungmin. Sério. É bom conversar com alguém mais velho que trabalha com o que eu quero. — falou contente e só depois se deu conta do que saiu de sua boca. — Não te chamando de velho, claro! Só, tipo, acho que você virou um modelo pra mim.

 

— Ah, tudo bem, eu entendi. Acho que você está exagerando um pouco me chamando de modelo, mas, fico muito feliz nesse caso. Eu queria ter tido alguém assim para olhar e ver que eu poderia trabalhar com o que eu amo.

 

— É, é isso. — era exatamente essa a sensação, e era muito bom agora ter ele com quem poderia se espelhar. — Oh, é aqui! — apontou para o restaurante ao lado. — A gente quase ia passando reto. — riram.

 

— Ah, eu já vim aqui algumas vezes. Mudou bastante… — comentou ao longe.

 

A conversa sobre seu — futuro — trabalho envolveu e animou bastante Felix, nunca tinha tido a oportunidade de conversar com alguém da área assim. Todavia, esse comentário do jovem sobre já ter visitado o local o fez lembrar das cartas. 

 

Droga, isso estava deixando ele louco.

 

Mas, de uma coisa sabia: essas cartas precisavam urgentemente ir para o seu endereço correto.




• • •




No terceiro dia de evento a concentração felizmente ocorreria apenas no período da tarde. Isso dava mais tempo para Felix não apenas já fazer algumas anotações de umas perguntas que de fato fez ao visitante do dia no palco como também, e ousaria dizer até principalmente, para o garoto pensar em como começaria o assunto das cartas com seu novo amigo.

 

Já havia aceitado que seria esquisito de qualquer forma, apenas queria pensar em uma maneira que não seria tão bizarra.

 

— Seungmin…, isso vai soar um pouco estranho, mas, você conhece algum Hwang Hyunjin?

 

Seungmin travou.

 

O que?

 

Como Felix…?

 

Seus olhos pararam, sua respiração parou, seu coração parou. Pela primeira vez em muito tempo ficou sem ideia de como agir. Sem a mínima ideia. Só conseguia encarar Felix desacreditado. Quem o visse agora provavelmente diria que ele viu um fantasma ou um monstro. Mas, a verdade é que nenhum desses seres o fariam ter a mesma reação que teve agora.

 

— V-Você… conhece ele? — foi tudo que, com muito esforço, conseguiu sair da sua boca.

 

— Então, é você mesmo! — as expressões de Felix não combinavam nem um pouco com as de Seungmin. Por que o mais novo parecia tão empolgado?

 

— Felix, o que tá acontecendo? — estava começando até a ficar assustado. Não imaginaria estar nessa situação agora.

 

— Olha, eu não sei como, mas, ele tem mandado umas cartas com o endereço certinho lá de casa, mas, com o seu nome de destinatário, e podia ser só uma coincidência, né, “Kim Seungmin” nem e um nome tão incomum assim, mas, eu li um pouco da primeira carta e ele tá literalmentete descrevendo você, e, eu sei, eu não devia ter feito isso, é invasão de privacidade, talvez seja até crime, só que eu pensei que teria que abrir de todo jeito pra enviar de volta, mas aí-

 

— Felix. — Seungmin interrompeu o monólogo em uma única respirada dele, roubando sua atenção. — Pera aí, cartas? Sua casa? Hyunjin? O quê?

 

Certo, era muita informação.

 

— Então, eu também tô bem confuso com isso até agora, e bem surpreso também, é muita coincidência eu ter te conhecido agora, mas, enfim… — O mais jovem retirou a mochila das costas e começou a remexer dentro dela, logo sacando os quatro envelopes, um deles nitidamente rasurado e o outro meio enrugado e transparente, como se tivesse sido molhado. — Acho que isso pertence a você. — sorriu com a sensação de que a sua missão tivesse sido cumprida.

 

Seungmin não perdeu tempo em pegá-las e rapidamente ler o o endereço escrito. E lá estava: a bela caligrafia de Hyunjin escrevendo seu nome e seu antigo endereço.

 

Tudo que sentiu foi uma vontade incontrolável de chorar. Sua visão ficou meio embaçada e sua voz levemente embargada, mas, tinha que ser forte.

 

— Rua dos Anjos, 605. — leu em voz alta, sendo atropelado por uma porção de memórias imparáveis. — Felix, eu morava lá. É a minha casa. A minha antiga casa. — explicou ainda sem acreditar em nada. Desde quando a sua vida havia virado um filme?

 

— Quais as chances…? — igualmente desacreditado, comentou.

 

— O Hyunjin, ele… — olhava os objetos em suas mãos. Pedaços de papel sempre foram tão pesados assim?

 

Mas, de repente, havia sido tomado por um pensamento muito específico.

 

— Felix, o quê você leu? — talvez tenha falhado um pouco em controlar o seu tom, mas, não era um incriminatório, e sim um levemente assustado com o quê ele pode ter lido.

 

Já era mais velho, não era mais um adolescente inexperiente e inseguro de anos atrás. Tinha segurança de si mesmo, sobre a sua identidade, sobre a sua sexualidade, sobra a sua paixão. Porém, lá no fundo, um pontinho de medo ainda persistia. Mesmo que Felix tivesse demonstrado inúmeras vezes ser uma pessoa gentil, ainda havia um pouquinho de medo.

 

Os olhinhos dele se arregalaram um pouco, estava visivelmente com vergonha de ter invadido a intimidade alheia de tal maneira.

 

— Nada demais, eu juro! Nada muito pessoal…, quer dizer, eu sei que é todo um conteúdo bem pessoal, mas… — suspirou vencido. — Mil desculpas, Seungmin. — tocou seu ombro sentimentalmente. — Eu não faria isso de novo de jeito nenhum, mas, olha, se você me permite dizer, eu nunca vi ninguém falando com tanta paixão assim sobre outra pessoa como ele falou sobre você. São sentimentos muito lindos e honestos.

 

Felix sabia o que estava acontecendo, óbvio. E agora Seungmin também sabia quee ele sabia.

 

Alguns segundos de puro silêncio — exceto pelo som de grilo e automóveis ali perto — se seguiram. Seungmin precisaria de um bom tempo para absorver tudo, de qualquer jeito.

 

— Muito obrigado, Felix.




• • •




Minnie,

 

Como você está?

 

Você sempre foi muito melhor com as palavras do que eu.

 

A caneta tá escorregando das minhas mãos enquanto escrevo isso, mas, eu prometi pra mim mesmo que não ia mais fugir dos meus desejos. Do meu coração. E o meu maior desejo dentro do meu coração desde aquele dia em outubro de 1996 é te ter de volta pra mim. Desde sempre. Sempre foi você. Eu sei, você sabe, eu sempre fui um pouco dramático, mas, eu não estou brincando quando digo que todos os dias o meu coração dói pensando em você. Em tudo que eu fiz. E em tudo que você fez. E tudo mais que nós deixamos de fazer. Todo o nosso universo que nós deixamos pra trás.

 

Talvez não seja a melhor opção reviver aquela (exatamente aquela) nossa conversa, mas, eu sinto um amargor no meu âmago, Seungmin. Não um arrependimento de algo que eu não queria ter feito, mas, um um ponto de interrogação, alguma coisa que ficou faltando, talvez palavras que até hoje me doem como um nó na garganta. Eu sei que não podemos mudar o passado, voltar atrás, mas, você faria algo diferente, Seungminnie? Você teria me escolhido? Você teria escolhido desenho industrial? Você teria olhado pra trás naquele dia?

 

Bom, honestamente eu espero que não. Não gosto de falar isso, o Hyunjin de dezoito anos estaria me xingando até a alma agora, mas, eu realmente espero que não. Porque eu tenho certeza que você se tornou um ótimo veterinário. E também de que essa carta vai chegar até você. E que, de alguma forma, passar por isso foi necessário para nós dois — individualmente falando. E que você se sente do mesmo jeito que eu, porque eu te conheço como a palma da minha mão. Ainda. 

 

Eu nunca esqueci de nada. Como poderia esquecer?

 

Seungmin, eu quero sentir seu cheiro de novo. Quero deitar do seu lado, no calor dos seus braços, sentindo aquele cheiro de amêndoas do seu xampu. Encarar a palma da sua mão enquanto eu faço-lhe carinho e pensar em como a marca de nascença em formato de coração que você tem nela é igual à que eu tenho no tornozelo (é, eu sei que não são lá muito parecidas, mas, eu gostava de imaginar isso, certo?). Ficar minutos a fio encarando seu olhar de cachorrinho perdido nos meus olhos até a gente decidir que só mais um beijo não faria mal — e acabava sempre fazendo mal, mas, antes disso, fazia muito bem, tanto, mas, tanto bem.

 

Quero me desculpar, quero agradecer, quero implorar, quero xingar, eu quero tanto com você, Seungmin. Sinto que estou sendo mais uma vez egoísta. Como sempre. Mas, eu jamais iria me perdoar. Eu preciso muito que essas palavras cheguem até você. Não me importo se você decida jogá-las no lixo, guardá-las a sete chaves ou retrucá-las. Só preciso que você as leia. Só isso.

 

Eu preciso de você de novo, Seungminnie. Todo o meu ser precisa de você, preciso sentir o peso do seu corpo no meu, o calor da sua respiração no meu rosto, a sua voz rindo, chamando o meu nome, a sua alma se encaixando perfeitamente na minha.

 

Eu te amo, Seungmin. Até hoje. E pra sempre. Em todas as vidas que as nossas almas se encontrarem eu vou te amar. Mesmo que eu não te mereça. E mesmo que você não me queira. Porque eu sei que mesmo quando eu não te quis você também não deixou de me amar por um segundo sequer.

 

Aguardo ansiosamente sua resposta.

 

Com todo o amor do mundo, Hyune.




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Minnie,

 

Você não respondeu a minha primeira carta ainda. Tudo bem. Não fiquei chateado. Mas, eu lembrei agora sobre algo que esqueci e preciso muito te falar: a Mimi. Eu adotei uma cachorrinha. Ainda é filhote, toda pretinha, vira-lata. Ela apareceu com a patinha machucada aqui na rua um dia quando estava voltando do trabalho, uns meses atrás. Pensei em como você cuidaria dela, em como eu poderia contar com você para tratar dela, você com certeza saberia o que fazer. Então, dei meia volta e levei ela no veterinário mais próximo que eu conhecia, e, desde então, ela tem comido do bom e do melhor aqui em casa.

 

Me lembrei daquela vez que estávamos indo para a sua casa quando vimos um gatinho bebê miando sem parar perto da lata de lixo e você insistiu em comprar comida pra ele no mercadinho lá perto, enquanto eu ficava apenas fazendo carinho nele. Depois conversamos. Sobre como eu queria criar um animalzinho com você. E você disse que queria ter um filho. E eu disse que nós poderíamos ter os dois, no impulso. Eu gelei na mesma hora, e você também. Mas, não me arrependo. Não. Na verdade, ainda posso dizer que esta é uma afirmação verdadeira. 

 

Como anda a sua família, Seungminnie?

 

Deve fazer mais de três anos que não falo com o meu pai. A minha mãe tenta, mas, eu ainda sinto no olhar dela, sabe? Aquela pena. Aquele desconforto. Nós nos falamos pelo menos nas datas comemorativas, e eu acho que isso basta. Poderia ser pior, não é?

 

Você sabe que eu sempre fui muito sonhador, Minnie, mas, é verdade mesmo, nós teríamos uma família linda, se quiséssemos. Muito diferente das nossas. Muito mais bonita. Mesmo que fosse só nós dois. E mais ninguém. Bom, quer dizer, nós dois e a Mimi. Eu quero muito que você conheça ela, Seungminnie. Não me ache louco por isso, mas, vocês se dariam bem, muito bem. 

 

Bom, já estamos perto dos trinta anos, mas, acho que nada é impossível quando duas pessoas querem. O que você quer, Seungmin? Me diz, por favor. Me diz o que você quer que eu faço na hora para você, meu amor. Eu quero ver seu sorriso na minha frente de novo.

 

Com amor, Hyune.




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Seungminnie,

 

Estou enviando essa carta mais rápido que a outra, sem ao menos esperar uma resposta sua, pois, algo acabou de me ocorrer… Algo que, por algum motivo, seja inocência ou a vontade de acreditar no que seria mais conveniente para mim, não havia passado pela minha cabeça antes. Me desculpe.

 

Você está com alguém? Você tem saído com alguém desde que nos separamos? Você se casou?

 

Agora que escrevi isso, posso ter soado um pouco ciumento… Bom, talvez um pouco, mas, juro, de qualquer forma, só estou curioso para saber de você. Como você está? Se você ainda gosta de desenhar, se você ainda toca a sua guitarra, se você ainda prefere o tempo frio porque ficava todo grudento no calor e gostava de ficar coladinho em mim. Se você contou para alguém sobre a gente. Para um amigo. Para um namorado, talvez?

 

É como se eu estivesse em abstinência há dez anos e meu corpo não parasse nunca de desejar você. Eu preciso de mais de você, Minnie, não importa em que sentido, não importa se dessa vez teremos que nos falar, de fato, como amigos e apenas bons amigos, só quero te ver de novo.

 

Com amor, Hyune. 

 

Seungmin! Já tinha selado a carta, mas, fui limpar uns cadernos antigos que estavam guardados desde que eu me mudei, precisei urgentemente rasgar o envelope para enviar isso junto.

 

Bem, é apenas uma cópia, desculpe. Não sei em que estado meus envios estão chegando até você, sempre choveu muito na nossa cidade, principalmente nessa época do ano. Mas, não se preocupe, quando nos vermos, ficarei mais do que feliz em te dar em mãos, se assim for do seu desejo.

 

Ela me traz apenas lembranças boas. Quando a encontrei, reparei que fiquei alguns bons minutos a fio encarando-a com um sorriso no rosto. Senti meu corpo mais quente. Quem diria que mesmo estampado em um papel você teria esse efeito em mim, hm?

 

Aquela semana foi uma verdadeira montanha-russa, esse dia foi um dos mais felizes da minha vida. Fazer o que eu mais amo junto com o meu maior amor me deu uma amostra verdadeira do paraíso — o que foi ótimo, sabendo que não é como se eu tivesse alguma chance de pisar de fato lá. 

 

Eu quero recriar essa foto, Seungminnie. Claro, o cenário dessa vez, talvez, não torne a ser tão fidedigno a essa primeira imagem. Mas, isso não importa muito. O mais importante é ter você ao meu lado. É, realmente, a única coisa que me importa.

 

Com amor, Hyune.




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Seungminnie,

 

Estou indo ver você.

 

Quis ser direto, mas, acho que me precipitei um pouco. Não se preocupe, não é como se eu estivesse, de fato, já a caminho, estou apenas planejando, certo? Juntando algum dinheiro, pensando em passar aí na cidade daqui a um tempo. E não me hospedar, invadir, a sua casa, claro — não que não seja da minha vontade, mas, odiaria estar sendo inconveniente logo depois de tanto tempo sem nos vermos, mesmo que eu saiba que eu tinha alguns hábitos igualmente inconvenientes antigamente, confesso.

 

Por que não está me respondendo, Minnie? Você não está recebendo as cartas? Acho que elas estariam voltando para mim se elas não estivessem chegando até você. Você não está apenas me ignorando, está? Não, sei que não. Estranho. Vai ser bom de qualquer jeito eu ir aí.

 

Quero relembrar um pouco da minha infância, da minha adolescência. Tempos que não voltam mais. O que é bom, certo? Serem tempos únicos inigualáveis é o que os tornam tão especiais.

 

Droga, eu devo soar como um disco quebrado a essa altura. Mas, você me entende, não entende, Seungminnie? Nós prometemos um ao outro que nos amaríamos para sempre. Não importa que tínhamos dezoito anos e não sabíamos nada da vida ainda. Promessas são promessas. E eu estou cumprindo a minha parte. Ah, e não estou te acusando! Porque tenho certeza que você também está. E tenho certeza também de que logo mais vou estar encontrando você.

 

Com amor, seu Hyune.




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Era estranho Seungmin dizer que estava feliz como nunca? Não sentia tristeza ou raiva alguma, apenas felicidade. Lágrimas escorriam pelo seu rosto e suas mãos ainda tremiam, mas, ainda assim, não carregava nenhum sentimento negativo. Um alívio absurdo tomou conta do seu peito e percorreu toda a sua corrente sanguínea. Como se os sentimentos que havia engarrafado e jogado ao mar há dez anos atrás tivessem, agora, permissão para serem libertos e expostos. Seu coração, antes tão acelerado que poderia bombear energia para um país inteiro, agora não estava nada mais do que calmo. Tranquilo. Relaxado. Era estranho, mas, estava confiante das palavras do Hwang. Confiava em tudo que lhe foi dito, acreditava nele acima de tudo. E ele estava certo, pois, se sentia exatamente igual a ele.

 

A verdade é que mesmo Hyunjin não saindo da sua cabeça durante todos esses dias, durante todos esses meses, durante todos esses anos, Seungmin nunca se permitiu verdadeiramente pensar sobre isso — parecia errado, e sabia que no fundo só traria sofrimento para si.

 

Agora, queria dizer para Hyunjin… queria dizer… muitas coisas. Muitas, muitas, muitas coisas. Queria responder tudo que ele perguntou e não perguntou, tudo que deixou de falar para ele naquele dia e tudo que deixou de falar para ele durante todo o tempo em que ficaram sem falar. Assim como ele, queria falar o que tem feito. Queria falar que talvez ele até estivesse certo sobre o fato de que ele seria um bom veterinário, mas, que acabou trancando e terminou design. Queria ver a surpresa no sorriso dele quando falasse isso. Queria ver biquinho que ele faria quando dissesse que não pega na sua guitarra há anos. Queria vê-lo dando um beijinho na palma da sua mão, bem em cima da sua marquinha de coração. 

 

Passou os dedos suavemente pela cópia da foto e sentiu como se tivesse sido teleportado para aquele dia. Uma foto deles se abraçando e se beijando, ou melhor, dos seus lábios se tocando levemente, já que estavam tão, mas, tão sorridentes após Hyunjin conquistar o primeiro lugar em um concurso de dança que sequer conseguiam se beijar propriamente.

 

A quem iria negar? Estava em abstinência tanto quanto Hyunjin. Estava em abstinência de Hyunjin. Precisava senti-lo em suas veias de novo.

 

Então, fez o óbvio: começou a escrever. E escrever, e escrever, e escrever. Deixou a sua mão e seus sentimentos completamente livres para dançarem no papel como bem entendessem. Estava lotado de sensações e pensamentos trancados a sete chaves que logo preencheram o papel por inteiro. Não foi fácil colocar dez anos em uma folha A4. Mas, fez o que pôde.

 

Sequer conseguiu dormir direito de ansiedade, não via a hora de encontrar Felix amanhã.

 

Já iria embora direto da faculdade após o término da culminância de tarde, sequer teria tempo de conseguir um envelope para a carta, quanto mais postá-la. Claro, poderia fazer isso com o seu próprio endereço atual, mas, queria enviá-lo do antigo, apenas imaginando a reação de Hyunjin. Dentro do conteúdo, ele teria o restante das informações necessárias.

 

E, apesar da noite inquieta, o tempo passou mais rápido do que imaginou. Já era o dia seguinte. O último dia do evento. O dia que iria embora. O último dia que veria Felix. Mas, guardava apenas lembranças boas de tudo isso. Estava se sentindo melhor do que ontem, mas, ainda um pouco nervoso. Logo quando chegou, avistou os fios loiros e consideravelmente longos no auditório — milagrosamente ele não havia se atrasado hoje.

 

— Oi, Felix — cumprimentou calmamente.

 

— Seungmin! Como você está? — apesar de ter sido pego desprevenido, rapidamente perguntou, se referindo a tudo que aconteceu ontem.

 

— Eu estou bem. Mesmo. Obrigado por perguntar, Felix. — de fato estava agradecido pela sensibilidade dele. — Então, eu... posso te pedir um favor?

 

— Todos! — afirmou sorrindo.

 

Não via problema em ajudar mais Seungmin, na verdade, queria ajudar ainda mais, principalmente depois de ter admitido ler a carta e de tê-lo aconselhando sobre seu futuro acadêmico.

 

— Bom, você pode, nos próximos dias, enviar isso aqui pro endereço do Hyunjin?

 

Estendeu-lhe o seu papel dobrado, deixando um Felix confuso ao seu lado.

 

— Mas... é, sim, eu até posso sim, sem problemas, mas, você não poderia enviar do seu próprio endereço? Ou... e não vai dar problema eu tentar enviar pelo seu nome?

 

— Não, não vai dar problema nenhum com você enviando no meu nome e eu realmente queria que essa carta saísse daqui, sabe? E já vou embora hoje. — Feliz não entendeu muito bem, mas, sentia que não precisava exatamente entender. — Ah, e aqui algum dinheiro.

 

Colocou sobre a mão do menor a carta com umas cédulas e moedas — por favor, não queria fazê-lo pagar por isso acima de tudo.

 

No caso das outras cartas, estava enrolando para deixá-las na agência, sempre parecia sem tempo e com coisas mais importantes e interessantes para fazer. Porém, fazer um favor para Seungmin parecia importante o suficiente agora. Iria fazer o máximo para entregá-la o mais rápido possível e, claro, não olhar o conteúdo escrito nesse papel.

 

— Prometo que não vou ler nadinha dessa vez!

 

— Eu confio em você, Felix.

 

Trocaram um sorriso cúmplice e logo a atenção deles foi direcionada para a apresentação que estava para começar.

 

O último dia passou mais rápido do que os outros. Ambos conseguiram se livrar de todas as distrações e direcionar o foco totalmente para o que era mostrado no palco. Ficaram envolvidos no conteúdo interessante e quando viram, já era fim de tarde. Com um sentimento de missão cumprida, satisfeitos com suas participações no evento, foram se direcionando até a entrada da universidade. Seungmin carregava hoje, além de uma bolsa, uma mochila nas costas, já que já havia pegado tudo que levou para o hotel para ir direto à rodoviária. De fato, Felix supriu suas expectativas, conseguiu ter um visão maior sobre com o que exatamente gostaria de trabalhar e sobre futuras oportunidades, não só através das palestras que presenciou, como também através de Seungmin.

 

Rapidamente sacou o celular do seu bolso, apertou algumas teclas e estendeu para Seungmin.

 

— A gente até agora não trocou contato! — comentou se lembrando. — Pode colocar seu número aí.

 

E assim foi feito no mesmo instante. Aproveitou e olhou o horário marcado na tela do aparelho, percebendo que já estava na hora de tomar seu rumo se não quisesse perder o ônibus. Sem esperar, se direcionou para abraçar o jovem carinhosamente, sendo retribuído na mesma intensidade.

 

— Muito obrigado por tudo, Felix, por... me ajudar em tudo mesmo. Foi muito bom te conhecer.

 

— Eu que o diga, Seungmin, muito obrigado. Boa viagem! Aviso a você assim que eu entregar.

 

O moreno acenou positivamente.

 

— E boa sorte no curso, tenho certeza que vai dar tudo certo.

 

Se despediram uma última vez com um sorriso gentil. Esses últimos dias definitivamente não haviam saído como planejaram, tomados de surpresas, mas, se pudessem escolher, não escolheriam nada diferente. Estavam agradecidos por tudo.

 

 

 

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Felix sentia que essas férias eram merecidas. Já na metade do curso, as coisas ficavam cada vez mais corridas e, às vezes, trabalhosas. Havia sido um período indubitavelmente ótimo, mas, em contrapartida, também extremamente cansativo. Finalmente seu tão merecido descanso chegou e agora já se encontrava de banho tomado após ter chegado da praia com a sua família. Só estar livre de compromissos, mesmo que por um curto período de tempo, como também estar em um lugar diferente com pessoas que amava o faziam muito bem. Ouviu um barulho vindo do seu celular e foi até o colchão pegá-lo, vendo que havia recebido um e-mail e já suspeitando de quem seria.

 

— Felix, vem, já vamos almoçar! — ouviu sua mãe gritando da sala do pequeno apartamento que alugaram durante o fim de semana.

 

— Já vou, mãe, só um instante! — respondeu enquanto clicava para abrir a mensagem.

 

Dito e feito, era Seungmin. Ele havia pedido mais cedo pelo seu e-mail pela mensagem e, apesar de não entender o porquê, deu-lhe de bom grado.

 

Quando leu o breve conteúdo, porém, teve uma leve surpresa.

 

Felix!

Mais uma vez, muito obrigado por tudo! Acho que você foi um anjinho nas nossas vidas. Obrigado por ter me proporcionado reencontrar o amor da minha vida e por ser sempre gentil comigo, independente de qualquer coisa. Me sinto seguro com você, sou muito feliz por ter te conhecido. Hyunjin pediu para dizer que ele agradece muito também, e disse até que quer conhecer você algum dia! Depois, quero saber como andam os seus estudos, espero que esteja tudo bem!

 

Felix sentiu que ia chorar. Não havia ainda, de fato, dimensionado o tamanho do seu impacto em toda essa situação, se sentia honrado em ter proporcionado isso para um amigo tão querido, afinal, todos deveriam ter a chance de viver um grande amor, independente de como seja. Ficava feliz em contribuir para isso. Ainda, porém, havia um arquivo anexado no fim da mensagem. Quando abriu, era uma foto dos dois juntos. Hyunjin tinha um piercing nos lábios cheios e um cabelo comprido, semelhante ao seu se não fosse o tom inteiramente preto, e um rosto incrivelmente escultural, parecia um modelo. Era um rapaz bonito. Combinava com Seungmin. Seus olhos estavam quase que completamente fechados tamanho fosse seu sorriso — igualmente acompanhado pelo Kim.

 

Podia de dizer que até o seu próprio sorriso acompanhava o dos dois na foto. Não poderia estar mais feliz em ter acompanhado essa história desde a primeira carta. Parece que as coisas finalmente se acertaram e até mesmo as palavras de Seungmin alcançaram o endereço correto.