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“Feliz daquele que conhece seu destino”, ouviu um homem dizer durante a viagem.
Claro, a humanidade sempre tentou adivinhar o próximo passo, antecipar-se aos acontecimentos. Havia algo agridoce em já conhecer tão bem o próprio destino, cheio de sacrifícios e sem grandes vitórias pessoais. Ele estava pronto, porém, e nunca precisou de muito. Se aquele fosse o preço pela mera promessa de paz, que assim fosse.
Daquela vez, Asmita era apenas um civil. Por algumas horas, pelo menos; alternando entre caminhadas, charretes e barcos. Só mais um na multidão, carregando um rústico cajado a modo de guia, embora estivesse ciente de que muitas pessoas o observavam.
“Pobre rapaz, é cego”, ouvira por mais vezes do que poderia contar.
No fundo, não se importava — julgava um pouco, isso sim, pois as pessoas pareciam incapazes de perceber que ele era a última criatura digna de pena na face na Terra.
E, porque, pela própria natureza humana, nutrir pena nunca era produtivo.
— Você chegou. — A voz estava abafada. A testa, franzida, ainda que não visível.
— Tire essa máscara ridícula, Defteros.
Defteros recordava-se do primeiro sermão de Asmita sobre aquela máscara. Qual era o sentido de utilizá-la, se estavam ali apenas os dois, e Asmita sequer veria seu rosto?
— Então largue este cajado.
Asmita sorriu e cedeu, entregando o cajado a Defteros. Sem cerimônias, segurou a mão livre de Defteros. Uma mão pequena e fria agarrando-se a uma mão maior e mais quente. Pequenos contrastes entre seres similares em sua solidão.
— A que devo a honra da visita?
Era raro que andassem tão livres, com os cabelos ao vento, simplesmente sentindo o sol vespertino acima deles, a areia sob os pés, e ouvindo sussurros do zéfiro e do mar. Naqueles momentos, existiam apenas os dois naquela ilha.
Naqueles momentos, eram livres. Não pensavam no destino e deixavam cair as máscaras.
— Eu preciso de motivos?
— Você nunca faz nada simplesmente porque quer.
— Ah, é?
Defteros deveria saber que Asmita encararia suas palavras como um desafio. Mordeu o próprio lábio inferior quando Asmita agarrou-lhe, com força — apesar de, apesar de sua compleição e apesar dos curativos dele — quase antecipando um golpe, um tapa na cara, qualquer ataque…
Tudo é castigo na imaginação de quem se crê um demônio.
O que veio a seguir desarmou-lhe por completo: Asmita colocara-se de pé para alcançar os lábios de Defteros.
O contato se desfez rapidamente. Asmita exibia um sorriso triunfante. Afinal, era capaz de ceder a pequenos caprichos. E, mais ainda, fora capaz de desfazer a impressão errônea de Defteros. Asmita gostava destas pequenas vitórias.
— Asmita…
— Sim?
— Diga-me que você pretende, pelo menos, passar a noite aqui.
— Óbvio que sim. E apenas porque quero.
Defteros não o contrariou, não daquela vez. Já compreendera. Asmita era uma criatura que poderia ser compreendida apenas através do não-dito.
Se, durante o dia, podiam fantasiar sobre uma vida comum, durante as noites, viviam de maneira quase comum: quase um pecado, embora as coisas concretas ainda formassem sua fantasmagoria ao redor deles. Uma atadura trocada; o lembrete de lutas passadas e futuras.
Asmita partiu com os primeiros raios da manhã. Se tivesse dotes artísticos, Defteros eternizaria aquela imagem em um quadro. Como não os possuía, e era consciente da impermanência de ambos, poderia apenas esperar por um reencontro — ainda naquela vida, de preferência.
