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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-08-27
Words:
548
Chapters:
1/1
Kudos:
4
Hits:
26

Pequenos caprichos

Summary:

Defteros recebe a visita de Asmita, e acredita que Asmita é incapaz de visitá-lo por mero capricho. Afinal, Asmita nunca faz nada apenas porque quer. Ou faz? O cavaleiro de Virgem está pronto para provar que a percepção de Defteros é errônea.

Notes:

Oi, gente!
Não, eu não desisti das outras histórias. Só estive mergulhada em lutos em sequência (maldita pandemia) e problemas de saúde extremamente complexos durante os últimos anos e usando toda a energia que me restava para navegar no meu projeto de vida mais ambicioso até agora.

Mas, eventualmente, a vontade de retornar surge, nem que seja para deixar algo bem curtinho por aqui.

Mais uma fic da série: "a ideia veio para mim em um sonho".

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

“Feliz daquele que conhece seu destino”, ouviu um homem dizer durante a viagem.

 

Claro, a humanidade sempre tentou adivinhar o próximo passo, antecipar-se aos acontecimentos. Havia algo agridoce em já conhecer tão bem o próprio destino, cheio de sacrifícios e sem grandes vitórias pessoais. Ele estava pronto, porém, e nunca precisou de muito. Se aquele fosse o preço pela mera promessa de paz, que assim fosse.

 

Daquela vez, Asmita era apenas um civil. Por algumas horas, pelo menos; alternando entre caminhadas, charretes e barcos. Só mais um na multidão, carregando um rústico cajado a modo de guia, embora estivesse ciente de que muitas pessoas o observavam.

 

“Pobre rapaz, é cego”, ouvira por mais vezes do que poderia contar.

 

No fundo, não se importava — julgava um pouco, isso sim, pois as pessoas pareciam incapazes de perceber que ele era a última criatura digna de pena na face na Terra.

 

E, porque, pela própria natureza humana, nutrir pena nunca era produtivo.

 

— Você chegou. — A voz estava abafada. A testa, franzida, ainda que não visível.

 

— Tire essa máscara ridícula, Defteros.

 

Defteros recordava-se do primeiro sermão de Asmita sobre aquela máscara. Qual era o sentido de utilizá-la, se estavam ali apenas os dois, e Asmita sequer veria seu rosto?

 

— Então largue este cajado.

 

Asmita sorriu e cedeu, entregando o cajado a Defteros. Sem cerimônias, segurou a mão livre de Defteros. Uma mão pequena e fria agarrando-se a uma mão maior e mais quente. Pequenos contrastes entre seres similares em sua solidão.

 

— A que devo a honra da visita?

 

Era raro que andassem tão livres, com os cabelos ao vento, simplesmente sentindo o sol vespertino acima deles, a areia sob os pés, e ouvindo sussurros do zéfiro e do mar. Naqueles momentos, existiam apenas os dois naquela ilha.

 

Naqueles momentos, eram livres. Não pensavam no destino e deixavam cair as máscaras.

 

— Eu preciso de motivos?

 

— Você nunca faz nada simplesmente porque quer.

 

— Ah, é?

 

Defteros deveria saber que Asmita encararia suas palavras como um desafio. Mordeu o próprio lábio inferior quando Asmita agarrou-lhe, com força — apesar de, apesar de sua compleição e apesar dos curativos dele — quase antecipando um golpe, um tapa na cara, qualquer ataque…

 

Tudo é castigo na imaginação de quem se crê um demônio.

 

O que veio a seguir desarmou-lhe por completo: Asmita colocara-se de pé para alcançar os lábios de Defteros.

 

O contato se desfez rapidamente. Asmita exibia um sorriso triunfante. Afinal, era capaz de ceder a pequenos caprichos. E, mais ainda, fora capaz de desfazer a impressão errônea de Defteros. Asmita gostava destas pequenas vitórias.

 

— Asmita…

 

— Sim?

 

— Diga-me que você pretende, pelo menos, passar a noite aqui.

 

— Óbvio que sim. E apenas porque quero.

 

Defteros não o contrariou, não daquela vez. Já compreendera. Asmita era uma criatura que poderia ser compreendida apenas através do não-dito.

 

Se, durante o dia, podiam fantasiar sobre uma vida comum, durante as noites, viviam de maneira quase comum: quase um pecado, embora as coisas concretas ainda formassem sua fantasmagoria ao redor deles. Uma atadura trocada; o lembrete de lutas passadas e futuras.

 

Asmita partiu com os primeiros raios da manhã. Se tivesse dotes artísticos, Defteros eternizaria aquela imagem em um quadro. Como não os possuía, e era consciente da impermanência de ambos, poderia apenas esperar por um reencontro — ainda naquela vida, de preferência.

Notes:

Eu queria que fossem 500 palavras, mas resolvi deixar o contador de palavras de lado.
Aos jovens que aqui chegarem... Obrigada por lerem essas singelas palavras.