Work Text:
— Sempre te quis, sabia?
— Cala a boca e se concentra!
— Mas é verdade. — Uma risada nervosa que termina em soluço. — Sempre te quis. Ah, idiota. Tudo teria sido mais fácil se você não tivesse rejeitado meus sentimentos uma e outra vez.
— Cala a boca!
*“Não estou aceitando eles agora mesmo, idiota?!”*
— Não importa, Kacchan. Não é tarde demais. Na verdade, é o momento certo, o lugar exato... Não acha que essa floresta é linda?
Ele responde a contragosto:
— Sim.
— É linda, não é? — Um suspiro. — Fico feliz que seja linda, Kacchan.
E então, silêncio.
— Não dorme, imbecil!
Mas já não há ninguém para responder.
***
Duas horas antes do anoitecer, setenta e três anos depois.
Na Noite dos Mortos, os cemitérios se enchem. As pessoas adornam as tumbas com flores, levam comida e aguardam os fantasmas. Todos chegam, cedo ou tarde. As barreiras entre este lado e o outro se desvanecem e, por uma noite, os mortos caminham novamente sobre a terra. No norte, chamam de Véspera dos Espíritos. Os guerreiros das montanhas descem até os vales onde estão enterrados seus ancestrais e fazem lindos tapetes de flores em sua honra, esperando vê-los chegar. No sul, é a Noite dos Mortos.
Os cemitérios se enchem, e aquela noite, mais do que triste, parece uma festa. No entanto, na vila de Musutafu, há alguém que caminha na direção oposta ao cemitério, afastando-se em direção à floresta que cerca a vila. É um jovem lobo, cuja cauda balança ao vento e cujas orelhas permanecem alerta. Ele veste um casaco verde gasto e uma camisa que um dia foi branca. Não parece mais velho que um adolescente, mas em seus olhos adivinha-se o passar insondável dos anos. Eles são vermelhos e, naquela noite, cansados. Outros dias são vivos e rebeldes, mas enquanto ele caminha, adentrando cada vez mais a floresta, onde a espessura não deixa passar a pouca luz que resta do dia, suas pegadas se marcam na terra fresca. Qualquer um poderia seguir seu caminho, mas, naquela noite, ninguém o fará.
Todos sabem para onde ele vai.
Não é difícil encontrar o círculo de árvores criado pelas fadas — que nem mesmo naquela noite ousam perturbá-lo. Não é difícil encontrar a árvore majestosa no centro, cujo tronco tem gravado um nome. Não há data. Não há epitáfio. É uma tumba simples, entre as raízes.
O jovem lobo aproxima-se da terra fresca onde crescem flores coloridas, a um passo da árvore. De repente, sua cauda quase não se move; balança apenas duas ou três vezes, nervosa. Como se temesse que, naquela noite, ele não viesse. Mas ele vem todos os anos. Sem falta.
Então, ele se ajoelha, e suas calças claras se sujam com a terra úmida. Deixa um buquê de flores ao pé da árvore.
— Eu vim — diz, e então acrescenta um nome com uma suavidade que lhe custa: — Izuku.
E então, espera. A Noite dos Mortos acaba de começar.
***
Uma hora antes do anoitecer.
Katsuki Bakugo sempre foi um lobo. De mãe loba e pai humano, nasceu com as orelhas, a cauda e a capacidade de se transformar com a lua ou sem ela — quando aprendeu a controlá-la. Nasceu com uma aversão saudável aos vampiros, seus inimigos naturais, já que sabia que os lobos podiam enlouquecer se um vampiro bebesse deles. Cresceu respeitando todos os pequenos rituais, fazendo alianças com as bruxas, evitando comer os doces tentadores das fadas da floresta e lembrando que qualquer trato com outra criatura mágica era perigoso.
E, no entanto, no momento certo, entregou sua morte. Troco-a em um instante estúpido e desesperado, e sua mãe chorou por ele, lamentando a perda do ciclo natural de sua vida.
*“Nós, lobos, não fomos feitos para sermos imortais. Ninguém com um pouco de humanidade foi feito para ser imortal.”* Por isso, os vampiros acabavam se expondo ao sol, desesperados porque seus entes queridos não paravam de morrer; ou, pelo contrário, transformavam outros para acompanhá-los na maldição.
A Katsuki Bakugo, restou apenas a resignação.
Todos haviam morrido há muito tempo. Restavam apenas as fadas daquela época, Musutafu, a mesma aldeia de sempre, e aquela tumba, aquele encontro, aquele dia.
De joelhos, sentado sobre os calcanhares, esperando.
Izuku sempre gostou de surpreendê-lo por trás. Tapava-lhe os olhos e cantarolava: *“Adivinha quem é!”* E era sempre ele, com o cabelo verde, a capa branca que adotara no outro lado, as sardas, o sorriso e os olhos grandes e esperançosos.
No início, Katsuki sempre reagia com irritação.
Os anos lhe ensinaram a serenidade. Já era uma criatura velha. Agora entendia o desespero dos vampiros e o tédio das fadas. O mundo se torna monótono quando tudo muda, exceto você.
Nunca se havia arrependido de ter entregado sua morte. Havia entregado uma parte de sua vida, mas o milagre valeu a pena.
«Levaram muito mais do que deixaram, Katsuki», disse-lhe Mitsuki, sua mãe. «Levaram tudo...»
As fadas nunca foram conhecidas por serem justas.
Katsuki havia trocado a eternidade de outra pessoa pela sua própria. Havia entregado a oportunidade de uma vida do Outro Lado apenas para salvar uma alma. Se o preço foi alto demais, outros o julgariam.
Levanta os olhos para o céu e vê que só resta um pequeno brilho de luz nele e sorri de lado. Esse traço continua o mesmo, mesmo com o passar dos anos. Por um momento, até parece que ele é um adolescente esperando seu primeiro amor — ou seu rival implacável, as interpretações do gesto são várias —, se não fosse pelo olhar velho, embora ainda expectante. Os olhares nunca mentem. Por isso os das fadas perturbam — olhares que viram toda a eternidade sem se alterar, sem conhecer o passar do tempo — ou os dos vampiros causam tristeza — olhos que perderam tudo ou que condenaram outros para não sucumbirem à solidão. Katsuki às vezes se pergunta como são suas pupilas, como observam, como mudaram e o que denuncia que ele já não tem o olhar temerário de um adolescente que costumava aterrorizar os adultos ao seu redor.
A metade de sua história sempre esteve no passado, no que ficou para trás.
Por isso ele vai, todo ano. Por isso se ajoelha na terra e espera. Os anos lhe ensinaram a serenidade e, embora ainda não a domine completamente, consegue reconhecê-la.
Quase não há luz no céu.
As fronteiras estão prestes a desaparecer entre um lado do mundo e o outro. Aos poucos, os fantasmas voltarão do outro lado para se mover entre os vivos, uma exceção permitida na Noite dos Mortos.
Katsuki espera.
Décadas atrás, ali foi o lugar onde ele implorou a uma fada para proteger a vida eterna de outra pessoa.
«Já entregaste tua morte a outro, o que entregarás a mim? Teu nome?»
«Também, se quiseres.»
No final, a fada de pele cor-de-rosa se apiedou dele ao vê-lo tão desesperado e disposto a entregar o último resquício de seu ser.
Não é uma boa ideia entregar seu nome às fadas. Elas são ciumentas com os seus, pois qualquer um que os pronunciasse poderia controlá-las, e as fadas são seres livres, que não conhecem os grilhões humanos, nem sua moral, nem seus desejos, nem suas vidas curtas.
«Dá-me três favores, homem-lobo», disse a fada, finalmente, quando aceitou construir um túmulo que durasse para toda a eternidade naquele local esquecido da floresta. «Irei cobrá-los no momento certo.»
«Que seja.»
«Devo te chamar de algum modo?»; seu nome verdadeiro, o de sua alma, esse ela nunca conseguiria.
«Mina», murmurou ela. «Acho que combina, não?»
Ela foi muito mais amável do que todas as suas irmãs. Embora, talvez, fosse um oxímoro falar sobre a bondade das fadas quando elas não a conheciam, assim como não conheciam o desgosto, o ódio ou o amor humanos. Seus sentimentos e paixões eram outros, bem diferentes. Amavam como amam os seres eternos: com um amor capaz de destruir qualquer mortal, de devorá-lo, com o desejo de preservar algo para sempre.
Talvez por isso os amantes de algumas fadas acabassem transformados em pedra em algumas partes da floresta.
A noite está quase escura.
E ali, naquele túmulo construído por uma fada, Katsuki espera, de joelhos, paciente, que dois mundos — ou dois lados do mesmo mundo — se fundam.
Fecha os olhos quando o último raio de sol, que foi capaz de escapar pelas árvores, desaparece.
Sente sua presença antes de vê-lo. O ar frio que o envolve no começo, quando ele ainda está se readaptando ao mundo dos vivos. Sente o sorriso que já sabe que ele vai esboçar assim que o ver, mas não se atreve a abrir os olhos até não ouvir sua voz.
E sente primeiro sua mão, que está se tornando corpórea novamente, ainda capaz de atravessá-lo um pouco, em suas bochechas. Um dedo cuidadoso que não está acostumado a ser matéria sólida passeia um momento por seu osso da face.
Setenta anos de romance são muitos, se conhecem quase à perfeição.
— Olá — ouve como um suspiro e depois uma pausa; parece que o vento também se detém, as folhas das árvores já não se movem e até parece que os pássaros pararam de cantar —, Kacchan.
Abre os olhos.
Ao anoitecer.
Izuku Midoriya não mudou desde o dia de sua morte. Ele ainda parece apenas um garoto, assim como Katsuki, mas ao olhar em seus olhos é possível adivinhar os anos que passou vagando pela terra naquela mesma noite. Está exatamente igual ao dia em que morreu, com os cabelos verdes bagunçados e meio cacheados, e as bochechas cheias de sardas — que Bakugo sabe que também aparecem em seus ombros, quadris e outras partes do corpo que ele não ousaria nomear. Os olhos verdes, arredondados e muito abertos, estão em permanente curiosidade e surpresa. Quanto à roupa, não se parece com a que usava ao morrer. Ele veste um pano branco que o cobre, cheio de pequenos remendos feitos ao longo dos anos, preso ao pescoço com um laço verde.
Certa vez, Katsuki perguntou por que ele usava aquela coisa ridícula como fantasma, já que todo mundo sabia que fantasmas não eram como os desenhos das crianças na academia infantil. Izuku riu na época e disse que achava divertida essa representação. Desde então, nunca mais falaram sobre isso; com o passar dos anos, Katsuki acabou achando até encantador.
— Izuku.
O nome sai naturalmente. Katsuki não o usava enquanto Izuku estava vivo, mas o faz agora que ele está morto.
— Vai machucar os joelhos se continuar me esperando assim — comenta Izuku, apontando para a posição de Katsuki —, ainda mais com essas calças cheias de rasgos.
Katsuki dá de ombros. Ele poderia responder que aquilo é consequência de ter garras, mas opta por não dizer nada.
É curioso. Antes, quando era apenas um garoto, ele não conseguia guardar nada para si. Sua voz se desgastou de tanto gritar. Ele ainda grita, quando as crianças da aldeia o irritam; quando outros lobos insistem em colocá-lo em suas matilhas, sem entender que ele é um lobo solitário; ou diante da tumba de sua mãe, para contar as novidades toda vez que a visita. Ela não é um dos espectros que voltam. "Não tenho assuntos pendentes com nada, garoto idiota", ela disse, já doente, pouco antes de morrer. Masaru, o pai de Katsuki, havia morrido alguns anos antes. "Não importa quantas vezes você errou, Katsuki, você se tornou uma boa pessoa", continuou Mitsuki. Foi nessa ocasião que Katsuki percebeu que iria perdendo todos, pouco a pouco. Ele ainda parecia um garoto, mesmo depois de sua própria morte, enquanto os outros de sua infância já eram homens maduros. Foi uma das primeiras vezes em que ele não teve vontade de gritar, optando por ouvir Mitsuki Bakugo em tudo o que ela quis dizer antes de partir.
Ele aprendeu na marra. Com Izuku é mais fácil: ele nunca quer gastar o tempo limitado que têm discutindo bobagens.
— Teve um bom ano, Kacchan?
— Você já sabe, idiota, pra que perguntar?
O Outro Lado, onde vivem os fantasmas, sempre pode espiar este mundo. Apenas espiar, sem participar ou ser visto. Apenas observar.
— Eu gosto de ouvir você contar.
— E você, Izuku? Teve um bom ano?
Mas Este Lado nunca pode ver o Outro, nem saber o que acontece por lá. Às vezes há lampejos, mas não passam disso.
— Como sempre. — Izuku faz um bico. — Nem bom, nem ruim, apenas... foi um ano. — E já faz vários anos que ele dá a mesma resposta. — Hoje eu só esperava o amanhecer. Queria te ver.
Quando de um lado é dia, no outro é noite.
Para os vivos, esperando pelos seus, a noite cai. Para os mortos, esperando para viajar, o sol nasce.
— Certo — diz Katsuki, que não sabe o que é um ano bom para um fantasma, nem o que constitui um ano ruim ou mediano. Os segredos do Outro Lado são bem guardados, e nem mesmo Izuku os revela. Katsuki olha para o céu, tentando ler as estrelas. — Este ano, a noite será longa.
Sua cauda balança suavemente quando Izuku sorri.
— Sim, este ano a noite será longa — confirma o fantasma.
***
Muito tempo atrás.
— Kacchan! Kacchan!
Katsuki não entende por que sua mãe e a senhora da padaria — a de cabelo verde que faz seus bolos preferidos — decidiram colocar aquele garoto à sua frente, o qual nem sabe pronunciar seu nome. No início era tudo "Katchuki isso" e "Katchuki aquilo" até que Katsuki cedeu e sugeriu Kacchan. Agora, talvez ele se arrependa, porque ganhou uma sombra de cabelos verdes cacheados que o persegue por todo lado e não corre tão rápido quanto ele, pois não tem garras de lobo, nem ouvidos bons para captar o vento, nem uma cauda como a sua.
É apenas um garoto normal, sem nada de especial.
Ele gosta de pegar gravetos no chão e fingir que são espadas, um dos jogos menos favoritos de Katsuki, já que o menino é desajeitado e sempre acerta onde não deveria. (Além disso, Katsuki não gosta de espadas, porque caçadores às vezes as usam para cortar a cauda de lobos.)
— Kacchan! Espera, Kacchan!
E Katsuki se vira. O menino sorri, mostrando todos os dentes, e Katsuki se esquece de que ele às vezes o irrita. É bom ter um amigo disposto a fazer tudo o que ele quer. Eles sempre se divertem juntos.
— Vamos, Izuku!
Logo chegou o menino-pássaro, com asas que o levantavam do chão, e o filho de um dos espíritos das árvores com alguém mais. Izuku, tão normal e comum, ficou para trás. Ele não sabia arremessar pedras para fazê-las quicar na água. Era mais lento que a maioria —embora ninguém ousasse dizer que ele não se esforçava— e ainda não tinha boa mira com os galhos que usava como espadas. Ele tinha melhorado, mas Katsuki não ia admitir isso. Ainda assim, continuava ouvindo a voz chamá-lo.
— Kacchan! Espera, Kacchan!
Pouco a pouco, ele também ficava para trás.
Não está bravo por ter caído. Sim, ele é um lobo e não gosta de água, e agora sua cauda está ensopada e há gotas até nas orelhas. Mas está bem. Conseguiu cair de um jeito que não se machucou. Imaginava que Mitsuki bagunçaria seu cabelo ao contar que caiu de um lugar muito alto, muito alto, sem se ferir, e saiu sozinho.
Claro, a história já não soa tão impressionante se ele mencionar que Izuku, o inútil do Izuku; Izuku, cujo nome também significa "Deku", ou seja, inútil, está com os pés na água de um riozinho cuja corrente nunca levou nem uma mosca. E está ali, estendendo a mão, perguntando bobagens.
— Você está bem, Kacchan? Está bem?
Claro, como não estaria? São só alguns centímetros de água e, ainda mais importante, ele sabe como cair.
Katsuki franze o rosto de raiva e, sem pensar duas vezes, afasta a mão de Deku com um tapa —porque agora é "Deku", ele acabou de decidir.
Afinal, aquele menino não é especial em nada. E não ser especial em nada é ser inútil, segundo Katsuki, aos cinco anos. Mais tarde, ele terá tempo de se arrepender.
---
Uma hora depois do anoitecer.
Izuku termina de se materializar enquanto a escuridão os envolve cada vez mais. Seus dedos entrelaçam-se novamente com os de Katsuki, e sua pele volta a sentir o vento. Seus cabelos balançam com ele. As noites ficam mais frias à medida que o inverno se aproxima.
No entanto, nunca é igual.
Uma vez, ele tentou explicar.
Ele já não sente o frio e o calor como antes, então só precisa da ridícula capa branca que usa. Quando consegue se materializar desse lado, sente também as sensações fantasmas. Estão lá, mas não estão. Ele as sente, mas nunca como deveria ou como imagina que deveria.
Katsuki perguntou certa vez:
— Sente diferente para você quando eu te beijo?
E Izuku, com os olhos arregalados e a sombra de uma tristeza impossível de explicar neles, respondeu:
— Eu não sei, Kacchan.
Deveria ser diferente?
Que outras coisas ele jamais experimentou e só conhece como essa sensação fantasma que fica quando se materializa nesse lado do mundo?
— O que trouxe para o jantar? — pergunta Izuku.
Katsuki estende uma toalha no chão e coloca sobre ela uma cesta. Dentro há dois pratos perfeitos de katsudon. Ele passou mais de setenta anos aperfeiçoando a receita; é o que sabe cozinhar melhor, até mesmo melhor do que o mapo tofu, seu prato favorito.
— Como se eu fosse trazer outra coisa, idiota — responde ele. Mas todo ano Izuku faz a mesma pergunta, talvez esperando uma mudança inesperada. Não é que Katsuki não varie: ele muda a sobremesa todos os anos. Naquele ano, trouxe bolinhos de arroz recheados de chocolate, uma receita nova. — Come. — Ele lhe entrega os hashis e aponta para os pratos, deixando que Izuku escolha qual quer e o destape. — Você não me perdoaria se eu não trouxesse katsudon.
Inko Midoriya também não o perdoaria.
*“Seja gentil com Izuku, Katsuki; você será, não será?”*
A única noite em que os fantasmas podem comer a comida dos vivos é a Noite dos Mortos. Quem vela as tumbas traz também seus melhores pratos, e alguns não hesitam em oferecer um pouco às tumbas esquecidas, cujos mortos já não têm companhia. Pelo menos a maldição (ou promessa) da imortalidade garante que Katsuki nunca falte a esse encontro.
Ninguém nunca se esquecerá de Izuku enquanto ele caminhar pelo mundo.
E Izuku enfia os hashis no katsudon, leva um pedaço à boca e sorri.
— Está delicioso, Kacchan!
---
Duas horas depois do anoitecer.
Izuku diz que, para os mortos, a comida não tem o mesmo sabor de antes, mas que a diferença não é algo triste. "Só é diferente", ele explica sempre que Katsuki pede que o descreva. Ele diz que outros sabores podem ser percebidos, sabores que os vivos não sentem. E, embora algumas coisas pareçam diferentes, ele não sente que há uma perda nisso.
Não é como as lágrimas, por exemplo.
Às vezes, os fantasmas resistem a abandonar o mundo dos vivos e tentam permanecer nele para resolver assuntos que não puderam em vida. Porém, a menos que uma bruxa com poderes de médium lhes dê atenção, muitas vezes estão condenados a não resolver nada. Às vezes, esses fantasmas, com esforço, conseguem emitir gritos que escapam das fronteiras entre um mundo e outro, sendo ouvidos onde não deveriam; sua fúria cria ventos vindos do Outro Lado. No entanto, frequentemente ninguém sabe onde eles estão.
Mas Katsuki conhece seus costumes porque Izuku os conta para ele.
Afinal, o Outro Lado é um espelho deste, e os fantasmas testam as fronteiras até que não conseguem mais.
Eles buscam, sobretudo, vasos ou jarros de água nas casas. Gostam de ficar perto de poços e das grandes ânforas que são compartilhadas entre as famílias. Às vezes, descansam perto das banheiras. Não é porque não haja água no Outro Lado; os rios da morte correm como os da vida. É simplesmente porque não conseguem mais chorar.
Com a morte, os fantasmas perdem essa pequena capacidade e, embora às vezes acreditem que isso é uma bênção, com o tempo se tornam obcecados pelas lágrimas ou pela falta delas.
Izuku diz que é como perder um pouco da sensibilidade e da humanidade. Não existe mais a força e a vulnerabilidade das lágrimas, nem a fúria que elas carregam. Eles perderam essa expressão, esse momento, esse abraço, aquele sabor salgado nos lábios e o mapa desenhado nas bochechas pelas lágrimas.
Assim, os fantasmas que se tornam obcecados por este lado buscam a água.
Eles já não podem chorar e, por isso, cada pequeno corpo líquido os fascina como uma espécie de tristeza engarrafada.
Não falam muito sobre isso.
Quando duas pessoas têm apenas uma noite por ano, evitam tocar em assuntos tristes. Katsuki cometeu muitos erros nos primeiros anos.
O primeiro foi de fúria, porque ainda estava com raiva de Izuku por tê-lo deixado e por não confessar seu amor até que Katsuki o carregasse, sangrando, pela floresta. Foram gritos e ira, e Izuku não pôde fazer outra coisa além de olhá-lo com tristeza e pedir que voltasse no próximo ano quando o amanhecer se aproximou. “Desculpe, Kacchan. Eu te amo, Kacchan.” E, após sua partida, restou apenas a tristeza, porque Katsuki ainda não havia se acostumado a um mundo sem ele.
No segundo, Katsuki ficou sem lágrimas. Derramou todas por Izuku, pronunciando desculpas atrasadas. Chorou até faltar o fôlego, os lábios salgados de tantas lágrimas, e Izuku lhe disse: “Não importa, Kacchan; você não precisa se forçar, Kacchan; eu te perdoo, Kacchan.” E o beijou, mesmo em meio à confusão.
Foram necessários pelo menos dez anos para que encontrassem uma rotina, uma forma de aproveitar as doze, quase treze horas que a noite lhes dava para estarem juntos. Dez anos para terminar de discutir a relação sem brigar; dez anos para prometerem, de forma trêmula, uma eternidade construída noite por noite, passo a passo.
Pelo menos, com tantos erros, Katsuki descobriu que ter entregado sua morte tinha uma vantagem.
Sempre haveria alguém esperando de joelhos diante do túmulo de Izuku, como o mundo espera por seus ancestrais. Alguém para contar-lhe como andava o mundo; ele nunca perderia uma boa novidade.
—Você não mudou nada, Kacchan.
—Você sabe que eu não posso mudar, idiota.
Katsuki não gosta de conversa trivial. Quando se tem apenas uma noite por ano, é preciso medir bem as palavras.
—Mas seu coração bate, você está vivo.
—É porque eu não tenho morte, você sabe.
A morte que, inevitavelmente, desgasta o corpo e o transforma. A que faz nascer fios grisalhos em vez de dourados, que deixa marcas sob os olhos e rugas nos cantos.
—De qualquer forma, fico feliz que você não mude, sabe.
—Eu sei.
E Izuku coloca a mão na bochecha dele, e Katsuki sente o toque com calma, fechando os olhos para captar a sensação dos dedos em sua pele.
—Comigo, você nunca se irrita, Kacchan.
Para quê? Qual seria o sentido de arruinar a única noite que têm? Apenas uma, e nada mais.
—Às vezes, vejo quando você grita com as crianças da vila.
—Tsk. Elas jogam neve contra minha casa.
—E então, lembro do Kacchan de antes —continua Izuku—. Tanta paixão para um corpo tão pequeno.
—E eu ainda sou mais alto que você!
E Izuku ri.
Katsuki só ouve aquela risada uma vez por ano e, às vezes, pensa que, se não estivesse tão ocupado insultando-o e afastando-o de si quando ambos estavam vivos, teria percebido mais cedo que até os pássaros cantavam ao ritmo daquela risada.
—Os mortos não podem crescer, Kacchan.
"Eu também não."
E, finalmente, Izuku diminui um pouco mais a distância entre os dois, seus rostos agora separados por apenas alguns centímetros. Katsuki poderia encurtar ainda mais o espaço e beijá-lo, mas prefere esperar um pouco para apreciar os olhos abertos de Izuku, cheios de adoração, suas longas pestanas, e o verde de floresta em que ele poderia se perder vez após vez.
—Senti sua falta, Kacchan.
Ele não responde.
Um "eu também senti" ou um "eu também" não teriam o peso que deveriam.
Em vez disso, desta vez, ele o beija.
****
Muito tempo atrás
A primeira vez que perguntou, Izuku disse que percebeu seu amor por Kacchan no meio de um pânico que tingia os dias de vermelho.
Não foi antes de Katsuki sugerir que ele subisse ao topo do templo e saltasse de lá, para ver se o destino lhe concederia uma vida onde ele fosse algo especial.
Também não foi nesse momento.
Foi depois, quando ele teve que racionalizar e notar que seus primeiros pensamentos após isso foram: "Kacchan é um idiota, não faria isso porque o culpariam." Quando percebeu, com certo horror, quantas coisas estava disposto a perdoar, se ao menos Katsuki dissesse um "me desculpe" alguma vez.
Mas, naquele momento, nenhum dos dois pensava nisso.
Havia um ghoul na aldeia, e Katsuki estava em perigo. Ele nunca admitiria que ficou aterrorizado, porque, depois do resgate, todos disseram que tinha sido um lobo muito forte e que, no futuro, ele se tornaria um grande herói.
—Você não precisava tentar me salvar, idiota! Você nem consegue cuidar de si mesmo!
Ele explode com toda a fúria que tem. Sente-se humilhado, porque ninguém agiu até que outro garoto da sua idade se colocou em perigo para tentar resgatá-lo.
—Nunca mais faça isso!
—Kacchan...
—E fique longe de mim! Droga! Por que você sempre tem que me seguir como uma sombra?!
Não era racional, nada daquilo era racional. Fazia anos que Izuku não o seguia como uma sombra. Fazia anos que Izuku, intimidado, tentava ser invisível perto dele.
Mas ele não conseguia enxergar nada além disso.
—Kacchan...
—Não quero saber de você! Nunca mais!
Para sua má sorte, isso não seria possível.
***
Três horas após o anoitecer
O corpo de Izuku é um reflexo perfeito de quanto ele estava vivo. Cada sarda está exatamente onde deveria estar e ainda parecem constelações. Em vida, Katsuki nunca havia notado, mas já havia passado muito tempo desde então, e ele não podia viver para sempre no passado. Izuku e ele se esforçaram demais para seguir em frente, passo a passo.
Seus dedos percorrem primeiro o rosto, depois os braços, o pescoço, os ombros, até que não há mais camadas de roupas, e ele pode contar cada sarda, com os lábios.
Katsuki Bakugo tornou-se paciente com o passar dos anos, mas ainda deseja devorar Izuku por inteiro. A pele do fantasma é suave e pálida, e às vezes, em algumas noites, suas sardas parecem brilhar à luz da lua. Ele conhece todo o mapa de seu corpo e também a forma como Izuku crava as unhas em suas costas, desesperado.
Naqueles momentos, Izuku não parece um fantasma. É fácil ignorar que não há um coração batendo dentro dele, que ele respira apenas por reflexo, e não por necessidade. Quando Katsuki beija as coxas de Izuku e ameaça mordê-lo, é fácil fingir que é apenas mais uma noite qualquer, que ambos estão vivos, inteiros, e que o tempo ainda passa para os dois.
Mas é apenas uma mentira que nunca dura muito, terminando com Izuku arfando seu nome e Katsuki o abraçando, como se ele fosse desaparecer a qualquer momento.
E quase sempre, com os lábios de Izuku em seu ouvido.
—Estou aqui, Kacchan.
Quem dera a noite tivesse mais horas.
***
Quatro horas após o anoitecer
Eles terminam deitados no velho cobertor de Katsuki — que, antes do próximo ano, provavelmente será jogado ao fogo de tão desgastado —, olhando as estrelas.
Daquele pequeno espaço no bosque, poucas estrelas são visíveis, mas Izuku nunca deixa de comentar sobre o céu noturno e o que o futuro pode trazer.
Ele nunca acerta, mas isso não importa, porque Katsuki está ao seu lado e pode abraçá-lo sempre que desejar.
—Olha, Haru está muito brilhante — aponta Izuku.
Katsuki não demora a encontrar a estrela, porque o céu noturno, sobretudo quando a lua está cheia, é seu domínio. Porém, ele não se importa com o que as estrelas significam. Para ele, elas apenas estão ali. Nas noites de caça, quando toma a forma de lobo, ergue a cabeça em direção à lua e uiva, pedindo por uma boa presa. As estrelas apenas estão ali.
— Isso quer dizer que o próximo ano será bom — continua Izuku.
Katsuki bufa.
— Todos são iguais quando você está entediado.
— Está entediado, Kacchan?
Ele bufa de novo, sem responder.
— Eu não — responde Izuku. — Sempre estou por perto e, às vezes, consigo dar uma espiada. Tento não fazer isso com frequência, porque fico desesperado e o tempo parece não passar. Lá do Outro Lado, o tempo não pode ser medido. Ele não se move. É como nas profundezas da floresta: sabemos que o mundo se move porque o lado oposto se movimenta. Então eu sempre estou presente, mas nem sempre tão perto quanto eu gostaria.
— Sempre?
— Sempre posso te ver, Kacchan.
Katsuki bufa mais uma vez, pela terceira vez.
— Há hábitos que nunca mudam, idiota. Você faz isso desde sempre — reclama. Mas não há nenhum tom de reprovação. Pelo contrário, é reconfortante saber que Izuku está por perto, mesmo quando ele não consegue sentir sua presença. — Você será minha sombra para sempre.
— Só se você for a minha — avisa Izuku.
E Katsuki o puxa ferozmente para um abraço, incapaz de negar qualquer coisa. "O que você quiser, Izuku, para sempre."
***
Cinco horas após o anoitecer.
— Como está a Mina, Kacchan?
— Como sempre. Às vezes é irritante. Ela quer fazer acordos. Mas eu já fiz muitos acordos com os da espécie dela.
Katsuki, com todos os anos que carrega, sabe que fazer acordos com as fadas pode ser doloroso. Elas sempre tomam um pouco mais do que se está disposto a perder. Não sentem o cheiro do desespero e, por isso, também não têm empatia nessas questões. Para elas, não existe nada como vida ou morte; sem a morte, também não compreendem sua contraparte. Elas surgem — sem nascer — dos troncos das árvores no coração da floresta. Permanecem sempre as mesmas, sem mudar. Não conhecem o tempo, pois ele não tem domínio no coração da floresta e nunca prega peças nelas.
— Você voltou a ver a Nemuri? — pergunta Izuku, franzindo a testa.
— Não. Nunca — responde Katsuki. — A Rainha das Fadas tem se mantido afastada desde então.
— Você acha que ela se arrepende do que te tirou? — pergunta Izuku.
"Sua morte."
— Não acho que as fadas entendam o que é arrependimento — replica Katsuki. E não é um lamento contra elas, de forma alguma. Ele entende que são seres feéricos, distantes das emoções e sensações humanas; é lógico que não compreendam as paixões humanas. — Mas não importa. Não a vejo desde então.
— Você nunca me disse o que pediu em troca — diz Izuku.
Franzindo o cenho, ele tenta descobrir o que foi, como faz a cada cinco anos ou mais. Mas Katsuki nunca revela.
— Eu prometi — diz ele. — Ela disse que não se pode pedir o mesmo desejo duas vezes. Então, nunca mais a procurei.
— O mesmo?
— Há desejos que só a Rainha das Fadas pode conceder, Izuku.
E com isso, o silencia, como sempre. Há desejos que, mesmo depois de realizados, devem permanecer para sempre em segredo.
***
Setenta e quatro anos e meio atrás
— Por que você é o aprendiz dele, e eu fui a causa da desgraça dele?
Izuku não o olha com pena, mas Katsuki acredita que sim. Há uma sombra em seus olhos, e Katsuki pensa que é compaixão ou dó. Ele ainda se pergunta por que Izuku não o odeia e por que, às vezes, ainda parece aquele garoto disposto a tudo para ganhar um olhar em sua direção.
Toshinori Yagi havia chegado à vila quase um ano antes. Veio treinar jovens guerreiros para se defenderem de foras-da-lei, bandidos e até mesmo soldados que roubavam suas colheitas.
Izuku se tornou seu aprendiz estrela, contra todas as probabilidades.
E Katsuki foi a desgraça dele, o golpe final que o fez guardar sua espada para sempre, após bandidos inúteis sequestrarem Katsuki na tentativa de alistá-lo.
— Kacchan…
E Izuku o olha como se não pudesse acreditar.
Que ironia. Depois de Izuku mover céus e terras para resgatá-lo, buscar ajuda de conjuradoras e dragões, tudo o que Katsuki consegue fazer é discutir com ele.
***
Setenta e quatro anos antes
Para chegar à Rainha das Fadas, é preciso se deixar levar pela floresta. Não há rota, nem caminho. A árvore que se tornou seu palácio está no Coração da Floresta, mas ele sempre muda de lugar, para que não seja alcançado por qualquer um.
Todo o caminho é um aviso.
"Se chegar até ela, não sairá ileso."
Os sinais chegam com os sussurros das árvores e o canto dos pássaros que muda, tornando-se um alarme disfarçado. Mas Katsuki, com o torso envolto em ataduras e carregando Izuku nas costas, está tomado pela fúria. O idiota conseguiu se machucar ainda mais do que ele, mesmo tendo se colocado na frente de Shigaraki, mesmo depois de Katsuki ter sido perfurado perto do estômago e no ombro. Apesar de tudo, quem está inconsciente é Izuku.
Já se passaram três dias sem que ele acordasse.
Katsuki sabe que não há outra solução. Toshinori Yagi pediu para que esperasse; era apenas uma questão de tempo. Não havia necessidade de envolver a floresta naquele assunto. Mas Katsuki, enfurecido, retrucou que, se continuassem esperando, Izuku morreria ali mesmo. Nem mesmo Chiyo, a velha bruxa das poções curativas, conseguiu ajudar.
Inko Midoriya aceitou a proposta do jovem com lágrimas nos olhos.
— Não entregue nada dele se fizer um acordo, Katsuki. — Seus olhos eram iguais aos de Izuku: muito verdes, muito abertos. — Por favor, Katsuki.
Agora ele carrega Izuku até o coração da floresta. Até a árvore mítica que poucos já viram; dizem que seu tronco tem o diâmetro de três casas inteiras e que ela é, por si só, um palácio. No centro dela, dizem, está sentada a Rainha das Fadas, Nemuri. Katsuki sabe o que esperar dela, pois seu mestre, Aizawa, já o advertiu uma vez:
— Ela não é traiçoeira, mas também não é honrada; esses são conceitos humanos, e ela está acima disso.
— Ela é gentil? — perguntou Katsuki.
— Ela apenas é. As fadas apenas são. Não possuem parte humana, como você, um homem-lobo. Não sentem calor ou frio, por isso não entendem abraços. Não conhecem amor ou ódio, e nossas paixões apenas as intrigam. Não têm desejos, pois possuem tudo, mas acham divertido realizar os nossos.
Diante dela, Katsuki pensa que as lendas não fazem justiça à sua aparência.
Nemuri, a Rainha das Fadas, é deslumbrante.
Nemuri. A palavra que significa sono. Não é seu verdadeiro nome, mas diante dos humanos, ela não possui outro.
— Ah, faz tempo que não recebemos visitas.
— Rainha das Fadas.
Katsuki inclina a cabeça, e ela ri com uma gargalhada fresca, parecida com o riso de uma criança.
(Dizem que as fadas não têm risos, pois não compreendem a alegria humana, mas gostam da risada das crianças e, às vezes, a pedem como pagamento).
— O que busca?
E Katsuki deposita o corpo inerte de Izuku no chão.
— Quero que ele seja curado, desta vez — diz Katsuki. Faz uma pausa e adiciona algo que mais tarde não saberá se foi um erro: — Não posso protegê-lo se ele morrer, não é?
Ele o protegeu. Empurrou Izuku para fora do caminho e ficou bem na frente do bandido, Tomura Shigaraki.
— O que me dará em troca?
— O que desejar, mas que não seja dele. Não tire nada dele, Rainha das Fadas.
"Qualquer coisa." Desde o início, estava desesperado e não percebeu.
— Está feito. Dê-me sua morte. Para que eu possa trazer a vida dele, entregue-me sua morte.
As fadas sempre levam um pouco mais do que você calcula ou está disposto a perder. Entregar sua morte também significa entregar seu tempo. Mas ele faz isso; por Izuku, ele faz.
***
Seis horas após o anoitecer.
Katsuki agradece por seu coração ainda bater. Talvez ele repita o mesmo batimento incessantemente, já que o tempo não passa para seu corpo. Talvez bata apenas por reflexo, por hábito, pois ele ainda parece um jovem, mesmo após mais de setenta anos caminhando sobre a terra. Não sabe como ainda mantém seus batimentos, mas vale a pena tê-los quando Izuku se inclina um pouco sobre ele e repousa a cabeça em seu peito para ouvi-los.
Tic. Tac. Tic. Tac. Izuku suspira com o som dos batimentos, pois sente falta dos seus próprios. Leva a mão ao próprio peito, como se buscasse algo que não está mais lá. Os fantasmas, afinal, são apenas reflexos da vida. Apenas uma memória.
Katsuki segura a mão de Izuku que procura um coração e a detém. Aperta-a, para não deixar que a nostalgia o leve durante as horas restantes. Metade da noite já passou, e, como sempre, o tempo parece pouco. A promessa de uma noite em troca de um ano de espera sempre parece desproporcional.
— Eu te amo, Kacchan — suspira Izuku, contra o peito dele.
“Kacchan”, e nunca Katsuki; “Kacchan”, como demonstração de carinho; “Kacchan”, como sinônimo de afeto.
Katsuki solta brevemente sua mão e bagunça seus cabelos.
— Eu também.
Já não têm a idade das promessas eternas. Já não são o tipo de pessoas que as fazem. Mas sempre, em cada uma de suas palavras, há uma promessa oculta. "Sempre te esperarei" está escondido no silêncio entre uma palavra e outra. "Sempre voltarei" paira sobre suas frases, sem necessidade de ser dito.
Apenas passou metade da noite. Ainda têm tempo.
À frente deles, a floresta apenas espera.
—Me contaram uma nova história —diz Katsuki.
"Nova" é uma mentira. Inofensiva, mas ainda assim, uma mentira. Não existem histórias realmente novas. Todas caminham sobre os ombros de outras, seguindo as pegadas que outros contadores de histórias deixaram. Desde os tempos em que Hizashi Yamada, o bardo, parava na vila, as histórias eram mais ou menos as mesmas. Grandes heróis e espadas. Fadas encantadoras. Princesas buscando seu destino. Bruxas com suas poções. Fantasmas melancólicos. Alguns nomes mudam, as histórias se transformam, mas as pessoas continuam buscando a esperança que elas carregam, repetidamente.
—Quero ouvi-la.
Izuku as conta melhor, mas do Outro Lado não há novas histórias, apenas novas memórias. Então Katsuki limpa a garganta e começa a narrar.
***
Sete horas após o anoitecer.
Enquanto a noite avança, a nostalgia cresce. Sempre há uma certa melancolia entre eles, pela distância, pelo tempo, por suas vidas. Mas, passadas as primeiras horas da noite, essa melancolia se torna muito mais evidente. Katsuki quase consegue sentir o peso disso em suas mãos.
—Izuku —diz.
Enquanto esteve vivo, ele nunca soube, nem conseguiu, dizer seu nome.
Foi "Deku" por muito tempo.
Agora, ele gosta de ver Izuku esboçar um sorriso tênue sempre que o ouve pronunciar seu nome. "Izuku, Izuku", sempre Izuku. Com seus olhos, suas sardas, todo ele.
Izuku, eu te esperarei no próximo ano; Izuku, estarei aqui sempre que você voltar. Promessas não ditas que ambos conhecem e compreendem.
—Kacchan?
—As flores estavam lindas este ano. Na primavera. Trouxe Mina para vê-las. Para agradecer por...
Ele não termina. Pela tumba. Por sempre cuidar dela. Por mantê-la bonita e fiel à promessa feita, pela qual já pagou dois favores que o destruíram. Mas ele não fala disso com Izuku. Os acordos com as fadas são seus, e Katsuki escolheu pagar o preço cada vez.
—Eu vi, Kacchan. Não pareciam as mesmas, mas...
—Também tinham um cheiro bom. Ficavam no ar todo —ele faz uma careta, incomodado—, mas o cheiro era bom. Você teria gostado disso também.
—E o verão?
—Quente, como sempre. Durou pouco este ano. Foi muito quente, mas durou pouco. E, logo, as folhas vão cair. —Ele olha para o céu.— Acabou de ser o solstício, e as árvores não vão durar muito mais.
—Você tem onde se abrigar neste inverno? —pergunta Izuku.
Ele sempre pergunta, preocupado.
—Não sou um lobo idiota, Izuku.
—Mas é um lobo solitário.
E isso é estranho para o mundo. Lobos nunca andam sozinhos. Deveriam ter suas alcateias, como Mitsuki lhe dissera tanto tempo atrás. "Sempre é mais fácil sobreviver ao inverno quando se tem companheiros para compartilhar as dificuldades". Mas Katsuki é um lobo que nunca muda e sempre parece um garoto, apesar dos anos que carrega. E isso não agrada às pessoas. Os lobos desconfiam.
—Não vou congelar, Izuku.
E, mesmo que congelasse, ele não morreria. Não tem morte.
***
Oito horas após o anoitecer.
As visitas sempre começam a parecer curtas quando o amanhecer se aproxima. Ainda faltam horas, mas Katsuki sente como se o tempo lhe escapasse por entre os dedos.
Ele beija Izuku e deseja beijá-lo para sempre. Foi um idiota no passado, quando Izuku ainda estava vivo. Foi inútil em expressar seus sentimentos até o último momento, quando o carregou nos braços, mais uma vez, de volta à floresta, porque Izuku pediu. O carregou mesmo sabendo que isso não o salvaria e que Izuku, na verdade, não queria ir ao coração da floresta.
Ele só queria descansar entre as árvores que amava, entre a grama, entre as flores.
Katsuki beija Izuku e pensa. Por quê.
Ele gostaria de beijá-lo para sempre.
Morder seus lábios suavemente, percorrer sua pele uma e outra vez. Decorar o mapa de suas sardas até sabê-lo de cor.
Mas a noite nunca para. O sol sempre há de nascer novamente.
***
Setenta e três anos antes.
Tomura Shigaraki está morto.
Katsuki não tem certeza se Izuku desejava isso. Houve um momento em que confessou tê-lo visto assustado e pensado que talvez precisasse de salvação. Pensou em oferecê-la.
Mas a escuridão o consumiu antes. Criou-o desde que o encontrou, um menino triste, abandonado e sem nome. Ofereceu-lhe o que Tomura Shigaraki entendeu como amor, mas a escuridão apenas buscava um receptáculo para abrigar seu ser.
"Já não há salvação possível", disse Izuku antes de enfrentar a batalha. "Não como eu...". Ele balançou a cabeça e olhou para Katsuki. "Me dói que, às vezes, a morte seja uma espécie de salvação."
E Izuku está no chão, e o sangue sai. As poções de Chiyo não funcionam, e, por mais que tentem manter Katsuki afastado, para não atrapalhar o trabalho da bruxa, não conseguem afastá-lo de Izuku quando ele pede um desejo.
Ele busca a mão de Katsuki com as últimas forças.
— Me leve até o bosque, Kacchan, por favor.
Chiyo pensa por um momento e, no final, aceita.
Ela olha nos olhos de Katsuki.
— Talvez essa seja a última chance dele.
Katsuki o carrega nas costas e caminha.
"Não durma", pensa ele, "não durma". Fala sobre qualquer coisa enquanto tenta decifrar os murmúrios de Izuku. Quando consegue, está prestes a ficar paralisado por um momento.
— Eu te amo, Kacchan. Eu te amo. Kacchan. Eu...
Por que agora, se é tão tarde?
Izuku morre entre a grama, aos pés de uma árvore bonita. Katsuki não chora, porque está atordoado e, às vezes, diante da morte, há um vazio de lágrimas que ninguém consegue explicar.
Mina cobre o corpo com flores.
— Vai ter um túmulo bonito — promete ela.
Katsuki não responde a isso enquanto a deixa trabalhar. A fada ficou com três favores adiantados só para cumprir o desejo dele. Não é até que o nome apareça no tronco e, finalmente, o jovem lobo enfrente a possibilidade de uma eternidade sem Izuku, que faz uma promessa.
— Eu vou voltar. Sempre que ele voltar, eu voltarei.
Vai dar errado. Vai dar péssimo. Vai dar certo. Vai dar de todas as formas possíveis até que encontrem uma maneira de não-viver.
Mas uma promessa é uma promessa e Katsuki vai cumpri-la por toda uma eternidade. São as vantagens de não ter morte. Pode falar de "para sempre", embora doa como se estivessem tirando suas vísceras uma a uma.
Quando Mina já não está mais, diante do túmulo, ela deixa uma flor meio esmagada.
— Eu também te amo, idiota.
***
Nove horas depois do anoitecer.
Izuku se esforça para não demonstrar tristeza em nenhum momento, mas Katsuki pode ler isso como um livro aberto e entende que às vezes ele mente. Quanto deve doer poder vê-lo do outro lado sem poder esticar a mão para tocá-lo e, por isso, ele percorre o rosto de Izuku uma e outra vez com a ponta dos dedos, até memorizar ele de novo. Ele percorre suas mãos e faz Kacchan imitá-lo. Eles se entendem falando aquela linguagem de toques e carícias.
A Noite dos Mortos é a única noite em todo o ciclo sazonal, em todo o ano, em que os mortos podem tocar e sentir aqueles que amam. Quando podem abraçá-los. Só essa.
— Gosto de te sentir — diz Izuku. E passa os dedos pelas bochechas de Katsuki —. Sua pele é suave.
Ela é ali, mas suas mãos estão cheias de calos, onde ele tem as garras; Katsuki ainda luta muito mais do que deveria, e Izuku deve saber disso, mas não falam muito sobre isso. Não faz sentido. Katsuki faz o que faz para viver em paz, sem se afastar muito da aldeia, para que, a cada ano, possa se ajoelhar diante daquele túmulo e esperar.
— A sua também — comenta Katsuki.
— É só um reflexo, Kacchan — murmura Izuku —; só isso. Você está vivo.
Está vivo quando não se tem morte e o tempo se deteve?
*"**
Dez horas depois do anoitecer.
— Se você quiser, no próximo ano você pode fazer mapo tofu para o nosso jantar.
Essas palavras são uma dança aprendida. Izuku sempre oferece, mas ambos sabem que, quando chegar o momento, Katsuki aparecerá com katsudon, exatamente como faz todos os anos. Se só uma noite você pode provar a comida dos mortais, Izuku sempre merece seu prato favorito, preparado com o máximo de carinho possível.
— Talvez — diz Katsuki.
Significa "não".
Mas todos os anos, sem falta, responde a mesma coisa.
***
Onze horas depois do anoitecer.
Falta apenas uma hora. É a que corre mais rápido e também a que vai mais devagar. Izuku encosta a cabeça no peito de Katsuki para ouvir os batimentos do seu coração. Um único batimento repetido para a eternidade, mas realmente o faz parecer tão vivo quanto os outros, como aqueles que mudam, como os que o tempo ainda passa.
— Você se arrepende de alguma coisa? — pergunta Izuku.
Ele pergunta isso uma vez a cada lustro ou cada década.
— Não.
— Não ter morte é difícil. E talvez você pense que poderíamos nos encontrar no Outro Lado, mas não... não ter apenas um dia. — Sua voz treme —. Posso te ver, Kacchan, mas sinto sua falta o ano todo. O tempo todo. Quero esticar minha mão e te sentir, mas nunca é possível.
Katsuki o abraça com muito mais força.
Às vezes, é assim. São um amor que nasceu com a morte e sacrificou tudo. Não conhecem outra forma de vida.
— Tsk.
E Katsuki não diz que sempre o procura nos cantos, na periferia dos seus olhos, ao longe, esperando vê-lo aparecer e dizer olá, embora saiba que é impossível.
— Voltarei no próximo ano.
Já se veem as primeiras luzes, quando está prestes a terminar a hora, para se transformar na hora doze.
Cada ano dói e, a cada ano, ele se esforça para esconder isso. Mas sua cauda nunca mente. Já não se move alegremente, como quando começou a noite.
Amanhecer.
— Me dá um beijo, Kacchan, para o caminho.
E Katsuki o faz. Vê seus olhos verdes pela última vez e sente seus lábios. Fecha os olhos por um momento, até deixar de sentir Izuku.
Quando os abre, o fantasma já não está visível.
Supõe que ele ainda está lá, mas no outro lado. Estica a mão para onde, na tumba, reza "Izuku Midoriya".
— Até a próxima — diz.
Sempre dói. Mas a noite sempre sucede o dia e o dia chega para arrasar com a noite, e assim os anos passam, um após o outro, e a Noite dos Mortos sempre volta.
"Até a próxima", responde o vento.
[Fim]
