Work Text:
Kageyama bufou enquanto subia os vários lances de escada em direção a sua sala de serviço dentro do shopping. Bom, chamar aquele lugar de shopping era quase um exagero. Uma galeria de lojas cairia muito melhor. Mas se as pessoas queriam vender o lugar como shopping, então quem era Kageyama para bater contra?
Ele despejou sua mochila do vôlei sobre a mesa de canto, ligou os vários monitores que compunham a parede na sua frente e se aconchegou na cadeira giratória esverdeada. Seus olhos vagaram para o relógio na parede, 8:35. Ele estava cinco minutos atrasado. Não que isso fosse importante, já que faziam 4 semanas que ele estava trabalhando ali e, até agora, o caso mais grave que ele já presenciou foi um homem pegando a carteira de uma senhora — ele descobriu mais tarde que o homem era, na verdade, filho dela. Foi vergonhoso mas, pelo menos, seu chefe percebeu que ele não dormia o expediente inteiro.
Tobio havia conseguido um emprego de meio período como segurança em um shopping no mesmo bairro da academia onde treinava. Era um salário pequeno, mas, levando em conta que seu serviço era vigiar câmeras das 8:30 da manhã até as 15:00 da tarde e escolher as músicas que tocavam pelos alto-falantes das lojas, ele achava a quantia bem coerente.
De qualquer forma, isso tudo era temporário. Em breve abririam inscrições para times da liga mais alta de vôlei e ele estaria livre de suas horas rodando na maldita cadeira verde enquanto assistia a mais uma criança derrubar seu sorvete na praça de alimentação. Ele mal podia esperar.
Enquanto arrumava as imagens em seus devidos monitores, Tobio reparou em uma movimentação estranha perto da saída principal.
The Bloom Bar.
Ele arqueou uma sobrancelha. Uma floricultura e café? Interessante.
Mas tanto faz, lojas abrem e fecham no shopping toda semana, ele já estava acostumado a essa altura do campeonato.
A primeira pessoa a entrar na floricultura recém montada era uma moça loira. Ela usava um avental rosa com, o que parecia da distância que a câmera pegava, pequenas flores desenhadas. Ela falava freneticamente no telefone, parecendo estar resolvendo alguma coisa séria.
Ele arrastou seus olhos para a praça de alimentação, percebendo que uma criança trazia calmamente um cachorro na coleira. Kageyama suspirou.
— Animal na praça de alimentação, próximo ao McDonald’s. — ele avisou em seu walkie talkie. Isso sempre fazia ele se sentir dentro dos filmes de ação que assistia quando era criança.
— Entendido. — A voz robótica soou do outro lado da linha. Em menos de um minuto, um dos vários seguranças chegou até a criança, guiando-a gentilmente para fora do shopping. Tobio soltou o peso de seu corpo contra o encosto da cadeira. Isso acontecia com frequência.
Ele voltou sua atenção para a floricultura mais uma vez, percebendo a presença de um novo funcionário. Kageyama aproximou seu rosto da tela e estreitou seus olhos. Dessa vez era um cara, ele usava um avental verde cheio de girassois e tinha um cabelo laranja vibrante e cacheado. Fofo, ele pensou, mas logo se repreendeu.
Ele colocou uma playlist de músicas pop mais famosas da atualidade e arrastou seus olhos para longe da floricultura.
Tanto faz, ele repetiu para si mesmo, lojas abrem e fecham todos os dias no shopping.
. ❁.ᐟ
Na semana seguinte de serviço, a floricultura ainda estava lá. E o ruivo também — não que Kageyama estivesse olhando! Quer dizer, ele estava, até porque isso era seu trabalho, mas ele não olhava demais, apenas, sabe, o normal. Para um segurança e tal.
Enfim.
Não é como se Tobio tivesse muito que fazer também. Suas inconveniências diárias se limitavam a sujeiras de sorvete no piso laminado do shopping, animais de estimação na praça de alimentação e, no pior dos casos, vômitos de criança. O último era realmente desagradável.
Como sua rotina era — na falta de outras palavras — chata demais, Tobio logo encontrou uma forma de preencher seu tempo com algo muito melhor que sujeiras de vômito ou cachorros no lugar errado: o gosto musical dos funcionários do shopping. A maioria mal reagia às músicas que ele colocava, mas uma pequena parcela não conseguia segurar as danças desgovernadas ou o canto eufórico — ele não conseguia ouvir a voz de ninguém, mas era bem nítido o movimento de lábios da maioria. Alguns até fingiam ter um microfone em mãos.
As atendentes do Mcdonald’s pareciam gostar muito de k-pop. Sempre que Tobio colocava alguma música da playlist “hits da semana do k-pop” elas se agitavam umas com as outras. Já o funcionário do caixa do estacionamento gostava de rock pesado. Era uma pena que ele fosse o único — ninguém mais demonstrava interesse quando ele colocava essas músicas para tocar no alto falante.
E, é claro, tinha o ruivo da floricultura. Kageyama estava a uma semana tentando traçar um parâmetro de gosto musical desse cara, mas isso estava se tornando uma tarefa quase impossível. O desgraçado gostava de tudo!
Ele tentou k-pop, samba, rock leve, clássico e pesado — o último ele teve, pelo menos, a decência de não cantar, mas compensou batendo o cabelo no ar, enquanto a colega loira ria da sua dança ridícula.
Tsc.
Continuando, ele arriscou também pop atual, pop antigo, clássicos nos anos 90, 80 e 70, pagode, rap, r&b, hip-hop — o idiota até dançou —, eletropop retro, jazz e, infelizmente, até as piores variantes de música já feitas: o country — ou sertanejo, como você preferir. Ele tentou tudo. Mas o maldito ruivinho gostava de todas as músicas do mundo. Kageyama sequer entendia porque a realidade de não frustrar aquela maldita laranja ambulante o irritava tanto. Tanto faz, ele repetia para si mesmo mais uma vez — já estava ficando repetitivo a essa altura.
Deslizando seus dedos sobre o computador onde escolhia suas músicas, Kageyama vagou por uma sequência de playlists até achar o que queria.
Perfeito.
Música clássica era sua próxima aposta. E ele estava apostando alto nessa.
Não é como se ele próprio entendesse muito sobre esse tipo de música, então tudo que ele fez foi basicamente digitar Beethoven — era um nome complicado então ele precisou copiar do google — na barra de pesquisa do site e clicar na primeira música.
Era uma melodia triste e lenta, assim como todas as outras músicas clássicas que Tobio se lembrava. Seus olhos cravaram no ruivo à medida que esperava uma resposta. Demorou quase 2 minutos inteiros para que ele fizesse algo que não fosse podar flores e borrifar água sobre as plantas, Tobio já estava quase se dando por vencido quando ele agarrou uma vassoura em suas mãos e começou a… dançar.
Ele rodopiava com o cabo em mãos, girando pela loja e quase jogando a vassoura longe apenas para puxar ela de novo em seu peito.
Kageyama franziu o cenho. Qual era o problema desse cara?
Ele suspirou. Tudo bem. Na próxima ele conseguiria.
. ☕︎.ᐟ
No dia seguinte, Kageyama arriscou novas músicas — ainda sem sucesso, merda.
Mas tudo bem, um dia ele conseguiria. Era tudo uma questão de observar seus adversários. Ele precisaria entender o tal ruivo pateta da floricultura e, assim, agir estrategicamente. Igual ao vôlei e tal. Ou pelo menos parecido.
Enfim, tanto faz, ele repetiu, não é como se isso fosse crucial para sua vida. Meio que era crucial para seu ego, mas isso estava entre ele e Deus.
Graças a arquitetura da loja, Tobio conseguia ter uma visão ampla de dentro do comércio mesmo através das câmeras do corredor. A frente da loja era aberta, apenas um móvel cheio de plantas em cada uma das suas prateleiras. No fundo, havia o caixa e um balcão — Kageyama suspeitava que ali eram servidos os pedidos de cafeteria dos clientes, mas era difícil dizer daquela distância.
O ruivo sem nome rodava o recinto todo sem parar — Tobio logo percebeu que ele deveria ser uma daquelas pessoas hiperativas. Hoje não estava sendo diferente, ele mexia em umas plantas, ia para trás do balcão, atendia todos os clientes ao mesmo tempo e ainda arrumava tempo para dançar as músicas que Kageyama colocava. Impressionante.
Por volta das duas da tarde, um moço apareceu na entrada da loja e Kageyama logo o reconheceu, era o cara de cabelo verde do estúdio de tatuagem do piso 2. Ele era um dos funcionários que curtia as playlists indies que Tobio colocava.
Os dois pareceram conversar por alguns minutos, sem conhecimento dos olhares fervorosos de Kageyama sobre eles. Será que eles eram amigos? Eles pareciam próximos o suficiente…
O cara do estúdio era bem… diferente do ruivo. Vestido sempre com roupas largas e muito mais estilosas que qualquer coisa que Tobio poderia sequer cogitar vestir, ele tinha um dos braços cheio de tatuagens e piercings na orelha que Kageyama conseguia ver até mesmo da câmera. Seu cabelo verde que batia na altura dos ombros estava, quase sempre, preso em um coque samurai. Ele parecia… charmoso.
Enquanto observava os dois rapazes conversando com uma intimidade chocante, Kageyama notou uma mudança no comportamento do florista, ele parecia ainda mais enérgico — se é que isso era possível. Pulando de um lado para o outro e balbuciando palavras que Kageyama não conseguia identificar, o tatuador esverdeado apenas levantou as duas mãos no ar em um sinal de redenção, levantando a bainha de sua blusa e mostrando sua barriga para o ruivo.
O queixo de Kageyama quase despencou. O que era isso? Ele tinha quase certeza que esse tipo de atitude era proibida no shopping.
Vagando entre as câmera, em busca de uma que mostrasse um outro ângulo dessa cena maldita, Kageyama foi surpreendido por uma imagem ainda mais chocante de tudo. O florista estava vendo uma tatuagem na costela do outro. Infelizmente era pequena demais para que Tobio identificasse o que era, tendo que lidar apenas com a mancha preta brilhando no monitor central da parede para preencher sua curiosidade.
As mãos do ruivo traçaram calmamente um caminho sobre a tatuagem do outro, fazendo o Kageyama trincar sua mandíbula. Será que eles eram namorados? A perspectiva disso fez a boca do moreno ficar amarga.
Tanto faz, ele repetiu mentalmente mais uma vez. Arrastando seus olhos com uma força descomunal, Tobio voltou sua atenção para o restante do shopping, fugindo da floricultura pelo resto do dia
. 모.ᐟ
No dia seguinte, o ruivo entrou no shopping às nove da manhã em ponto — um milagre, ele sempre se atrasava — mas não seguiu seu caminho curto e habitual em direção à floricultura. Não.
Ele foi até o estúdio de tatuagem.
Kageyama acompanhou lentamente a trajetória do ruivo através das câmeras, observando enquanto ele passava pela praça de alimentação, subia por uma das escadas rolantes, virava uma esquina e sumia dentro do maldito estúdio. Tobio franziu seus lábios. Ele e o tatuador estavam juntos? Eles eram amigos? Era difícil dizer, já que o dia anterior foi a primeira vez que Kageyama viu eles conversando no shopping. Namorados conversavam mais que isso, certo?
Enfim, não era como ele se importasse ou qualquer coisa. Tanto faz.
É.
Tudo bem que ele achava o ruivo bonitinho e tal. Mas era só isso. Nada demais. Apenas atraente. Um pouco atraente.
Novamente, tanto faz.
Duas horas e dezoito minutos depois o ruivo saiu de dentro do estúdio — não que Kageyama estivesse contando, ele apenas guardou o horário de entrada na memória sem motivo. Enfim, o ruivo parecia mais feliz do que o habitual, o que fez as entranhas de Tobio torcerem em si.
Ele caminhou em pulos até a floricultura, chamando a atenção da outra funcionária loira assim que virou a primeira esquina. Ele começou a falar e gesticular alguma coisa que Tobio infelizmente não conseguia entender e, antes de continuar sua sequência de rodopios, parou e observou ao redor. A floricultura estava vazia, então seus olhos vagaram para o corredor. Quando o ruivo percebeu que também estava vazio, ele fez algo que Kageyama jamais poderia imaginar: ele tirou a roupa.
Certo, foi apenas a camiseta. Mas, ainda assim, o choque do movimento fez Tobio quase cair da cadeira com o rodopio acidental que ela deu. Humilhante.
Felizmente, a moça loira pareceu tão estupefata quanto ele. O choque de seu rosto era visível enquanto ela se inclinava para baixo para ver o que quer que o ruivo maluco estava apontando em sua barriga.
Foi só aí que Kageyama viu.
Uma tatuagem.
Definitivamente maior que a do tatuador de cabelo verde, essa era grande o suficiente para Tobio identificar o desenho. Um pássaro preto — talvez fosse um corvo, mas ele não estava 100% certo disso — tatuado na linha da cintura do ruivo. Baixo o suficiente para que ele precisasse abaixar um pouco a bainha da calça para mostrar a tatuagem completa.
Kageyama sentiu seu rosto queimar com a visão. Ele se afastou da tela com um pulo — quando ele se aproximou tanto assim? — e se encostou na cadeira de novo.
Quer dizer, quem liga? Ele era um atleta, pelo amor de Deus! Ele via homens sarados e tatuados praticamente todos os dias da sua vida desde que saiu do ensino médio! E isso eram três anos, caramba! Ele não ligava para ruivos bonitinhos com sorrisos enormes e pássaros tatuados na virilha. Grande coisa.
Ele deu uma espiadinha antes de mudar a tela de seu monitor central uma última vez. Foi o tempo suficiente de ver o maldito ruivo vestir a roupa de novo — ele nem precisava ter tirado para começo de conversa, era uma tatuagem na virilha. Seu abdômen musculoso foi finalmente escondido pelo tecido liso da camiseta vermelha. Não que Kageyama tenha reparado, é claro. Ele apenas viu. E com um peitoral daqueles era impossível não ver.
. ꕤ.ᐟ
Depois do incidente de tatuagem, Tobio decidiu começar a sair do shopping pelo corredor da floricultura. Ele nunca puxou papo com o ruivo ou algo do tipo, mas, graças à personalidade extrovertida, Kageyama conseguiu ao menos associar uma voz ao tal florista. E, talvez ele estivesse completamente louco, mas, toda vez que passava pela loja com sua mochila esportiva, ele podia jurar que sentia um olhar queimar sobre suas costas.
Enfim, era melhor não pensar muito sobre isso.
O rapaz de cabelo verde do estúdio não apareceu mais na floricultura e o ruivo não tirou mais a roupa — ainda bem. O movimento do shopping continuava dolorosamente entediante, fazendo Kageyama sonhar acordado com o dia que poderia finalmente deixar esse lugar e focar todas as horas do seu dia em vôlei.
Foi em uma sexta-feira que essa calmaria mudou.
O shopping estava bem movimentado nesse dia mas, até aí, nada de novo — todas as sextas-feiras em horário de almoço eram movimentadas. A estranheza começou quando um homem de moletom preto e capuz entrou no local — estranho porque estava calor. Muito calor. Calor suficiente para que até Tobio, que trabalhava na sala mais escondida, escura e gelada do shopping, estivesse com uma fina camada de suor em sua nuca.
De início, Kageyama ignorou. Poderia ser apenas algum adolescente esquisito que não vive sem seu moletom ou algo assim. Além do mais, ele tinha mais o que fazer — tipo observar o ruivo regar as plantas com uma regata azul justa e vibrante que mostravam seus belíssimos bíceps para quem quisesse assistir.
Não o culpe por isso, qualquer um estaria fazendo a mesma coisa no lugar dele, ele tinha certeza disso.
Em algum momento entre o meio-dia e uma hora da tarde, o rapaz encapuzado no calor infernal de 35° graus — pelo amor de Deus — invadiu o campo de visão de Tobio ao entrar na frente do ruivo e seus belos braços. Que saco.
O ruivo estava, até então, atrás do balcão no fundo da loja servindo uma cliente acompanhada de uma criança. Eles pareciam ser mãe e filho a julgar pela forma como o menininho puxava a saia dela. O foco de Kageyama entre a adorável relação mãe e filho foi interrompido quando o homem encapuzado se aproximou dos dois. Tobio assistiu atentamente enquanto ele conversava com o ruivo e, sutilmente, puxava uma carteira sobre o balcão para seu bolso. Foi um movimento tão lento e calculado que Kageyama quase não assimilou o que estava acontecendo.
Um roubo! O cara estava roubando a carteira da moça!
Com um milésimo de segundo para agir, ele agarrou seu walkie talkie e começou a gritar:
— Furto de carteira! Na floricultura, corredor 4! Um homem encapuzado acabou de puxar uma carteira de uma cliente no balcão! — Sua voz estrondosa soou pelo pequeno aparelho e, na mesma hora, três seguranças começaram a correr em direção à floricultura.
Era uma pena que, nessa altura, o rapaz maldito já estivesse a caminho do portão de saída.
— Rápido! Ele tá saindo no portão 4! — Seu maxilar estava travado enquanto ele assistia ao ladrãozinho idiota correr pelo estacionamento.
Felizmente, Kageyama não era o único atleta fazendo bico de segurança no shopping. Kyoutani, um ponteiro que também jogava na segunda divisão da liga de vôlei e que havia indicado o serviço para Tobio, estava, nesse exato momento, agarrando o rapaz pelo capuz. O homem desconhecido tombou para trás e, sem equilíbrio, acabou caindo no chão enquanto Kyoutani o imobilizava com suas pernas.
Yahaba chegou logo depois e começou a revistar os bolsos do rapaz. Bastou um movimento para que a carteira marrom caísse do bolso de seu moletom. Yahaba abriu o objeto, gritando alguma coisa para o homem no chão que Kageyama infelizmente não conseguia compreender. Outro segurança, Tanaka, chegou até eles e pegou a carteira da mão do outro, seguindo para dentro do shopping novamente. Kyoutani e Yahaba ficaram com o homem na porta de fora, provavelmente esperando para que pudessem tomar as medidas legais para o boletim de ocorrência.
Somente quando Tanaka caminhou em direção a mãe e sua criança na floricultura que Tobio soltou a respiração que havia segurado durante toda essa perseguição. Um sorriso surgiu nos seus lábios.
Entretanto, a conversa de Tanaka logo foi interrompida pela presença do ruivo, que pegou a carteira com um movimento rápido das mãos dele. Eles conversaram por algum tempo até Tanaka puxar seu walkie talkie.
— Ai Kageyama, mandou bem! — Tobio abriu um sorriso. — Cê só se confundiu aí, a carteira era do funcionário da floricultura.
— O que?! — Ele gritou e, antes que se desse conta, já estava apertando o botão para responder. — Como assim? Esse idiota deixou a carteira dele em cima do balcão?
Uma expressão de choque surgiu no rosto do ruivo que, num gesto só, puxou o walkie talkie da mão de Tanaka.
— Idiota é você! — Ele gritou. Sua voz soava diferente no aparelho. — Eu tava indo almoçar! Por isso a carteira tava em cima do balcão, seu babaca! Nossa, eu ia até oferecer uma flor pra você, sabe, por conta da casa, mas mudei de ideia!
Um guincho de vergonha saiu dos lábios de Tobio.
— N-Não preciso de flor! — Ele odiou como sua voz soou quebradiça. — Só não largue sua carteira em qualquer lugar, imbecil.
O ruivo provavelmente não percebeu que seu dedo ainda estava apertando o botão que permitia que Tobio escutasse o que ele falava com Tanaka.
— Quem é esse cara?
— Ah, é o Kageyama. Liga não, ele é assim com todo mundo! — Tanaka respondeu com um sorriso honesto. Tobio não sabia o que sentir sobre isso.
— Argh! Tanto faz, fala pra ele que se ele quiser um café eu pago como agradecimento. Mas se ele me xingar eu jogo o café na cara dele.
Kageyama tampou os olhos com sua mão enquanto afundava na cadeira verde. Ele saiu do shopping pelos fundos naquela sexta-feira.
. ⚘.ᐟ
Na segunda-feira seguinte, Kageyama notou algo quase preocupante: o ruivo florista estava quieto.
Bom, não exatamente quieto igual a definição da palavra recaía sobre a maioria das pessoas, até porque ele ainda era uma bola de energia que andava em círculos pela floricultura e borrifava água sobre as plantas sem parar. Mas, mesmo seguindo sua rotina padrão, Tobio não deixou de perceber como ele olhava em todos os cantos do corredor a cada minuto e, o mais preocupante, a forma como ele não cantava mais as músicas que Kageyama colocava.
Veja bem, Tobio não estava — de jeito nenhum — preocupado com o estado do ruivo. Não. Até porque calar a cantoria e as danças horríveis dele foi a missão de Kageyama por semanas. Mas, algo sobre a forma incessante que ele virava sua cabeça para checar, mais uma vez, os corredores do prédio, dava a Kageyama a sensação que ele não estava calado pelo tipo de música que Tobio escolhia. Parecia ser algo mais profundo.
Foi por volta do horário de almoço que o humor constipado do ruivo pareceu melhorar. Tudo isso porque Tanaka virou a esquina da floricultura.
Kageyama assistiu calmamente enquanto o ruivo chamava o segurança com acenos incessantes e pulinhos. Tanaka se aproximou e eles conversaram por quase 5 minutos inteiros. Tomado pela curiosidade, Tobio se aproximou dos monitores e desejou, com uma força descomunal, ouvir o que aqueles dois estavam falando. Tanaka parecia explicar alguma coisa para o ruivo enquanto apontava para várias direções. Kageyama quase saltou da cadeira quando a mão do segurança apontou exatamente para a câmera que ele observava, fazendo o florista olhar profundamente na sua direção. O olhar dele era assustador.
Ao que parecia, o ruivo estava tentando convencer Tanaka de fazer alguma coisa. Kageyama não sabia o que era, mas percebeu que ele havia conseguido quando assistiu as costas do segurança arquear para baixo e, então, puxar seu walkie talkie.
— Alô, Kageyama, tá na escuta? — A voz chiada de Tanaka quase fez Tobio tombar da cadeira.
— A-Alô? — Ele respondeu, apavorado.
— Iai Kageyama! — A voz de Tanaka era tensa. — Então, você lembra do cara que teve a carteira furtada semana passada?
— Acho que lembro…
— Ah, certo, então… Ele é funcionário da floricultura e ele queria, sabe, conversar com você e–
O que quer que Tanaka ainda tivesse para dizer, foi interrompido quando o ruivo arrancou o walkie talkie da mão dele.
— Oi Kageyama, bom dia! — A voz estridente soou fazendo Kageyama cogitar jogar seu walkie talkie longe.
— Bom dia… — Ele fez seu máximo para usar uma voz calma.
— Muito prazer, sou Hinata Shouyou, você me salvou de ter a carteira roubada sexta, lembra?
Hinata Shouyou.
— Ah, sim, lembro. — Ele respondeu enquanto rodava na cadeira. — Prazer Hinata, sou o Kageyama, mas acho que você já sabe disso… Aconteceu alguma coisa?
— Não, não aconteceu nada! Ainda bem — Ele deu uma risadinha enquanto olhava para uma das câmeras. — Eu só queria agradecer você! Quer dizer, você salvou minha pele e eu nem sei quem você é!
Tobio afundou a testa nas mãos, tombando em direção a mesa.
— Não precisa me agradecer, é meu trabalho–
— Eu faço questão! — Hinata o interrompeu. — Por favor, que horas acaba seu turno?
Kageyama queria muito que um anjo descesse do além e o puxasse agora.
— Acaba às três da tarde… — Ele respondeu num volume mais baixo.
— Perfeito! — Hinata gritou. — Então daqui… — Ele levou seu seus olhos até seu pulso, checando o horário. — duas horas eu te espero aqui na floricultura, beleza?
— Ahn, e-eu… — Ele bateu a mão na própria cabeça, incapaz de pensar em alguma desculpa. — Eu apareço aí.
— Ótimo! — Ele tinha um sorriso enorme. — Até daqui a pouco!
Arremessando seu walkie talkie na bancada ao lado, Tobio abaixou a cabeça até que ela batesse contra a superfície gelada da mesa.
Perfeito, agora ele tinha duas horas para que um anjo do além descesse e o levasse dessa para melhor.
. ✿.ᐟ
Infelizmente, nenhum anjo veio buscar Kageyama.
Agora, às 15:17, ele olhava para a escada rolante que o guiava em direção à sua morte lenta e dolorosa. Como você conversa com um cara que você passou semanas observando? Ele virou a primeira esquina de lojas em uma velocidade dolorosamente lenta. Ele precisava pensar em alguma coisa. Qualquer coisa. Quando as flores pintaram o fundo do corredor, Tobio sentiu um tremor atravessar seu corpo. Talvez, se ele passasse rápido o suficiente, Hinata não o reconheceria e ele poderia usar isso de desculpa.
Tsc. Não. Ele não poderia simplesmente fugir. Seria covardia demais.
Parando na frente da loja com sua mochila pequena nas costas e ambas as mãos grudadas nas laterais de suas pernas, Kageyama fez seu primeiro contato visual com o ruivo. Ele arqueou a cabeça, provavelmente confuso, já que Tobio não conseguia dizer nada. Meu deus, ele era tão patético.
— Posso ajudar? — Hinata perguntou. Sua voz pareceu atravessar cada molécula dentro do corpo de Kageyama. Ele precisou segurar para não estremecer.
— E-Eu… — Ele começou, precisando tossir para melhorar o tom de sua voz. — Eu sou o Kageyama, prazer.
A compreensão atravessou Hinata como um raio. Ele abriu sua boca e arregalou os olhos enquanto se aproximava de Tobio.
— Não acredito que você é o Kageyama! M-Muito prazer! — Ele estendeu a mão em forma de comprimento.
Kageyama respondeu o gesto, mas não antes de franzir a testa.
— Peraí, você me conhece? — A pergunta pareceu mais acusatória do que ele pretendia.
— Ah… — Hinata respondeu, rindo fracamente enquanto desviava o olhar. — Sim, eu já te vi passar por aqui antes. Você tem um chaveiro de bola de vôlei na sua mochila então eu acabei guardando seu rosto.
Isso era verdade. Tobio ganhou um pacote com vários chaveiros de vôlei de sua irmã mais velha no ensino médio e os usava, religiosamente, em todas suas bolsas de treino.
O comentário de Hinata pareceu totalmente inocente, mas o rubor cor de rosa que subia por seu pescoço fez Kageyama ruborizar junto dele. Saber que o ruivo também o observava era… desconcertante, para dizer o mínimo.
— Você joga vôlei também? — Tobio criou coragem de perguntar depois de alguns segundos de um silêncio vergonhoso.
— Jogo! Sou bloqueador central, e você? — Ele respondeu enquanto seguia para o balcão no fundo da loja. Kageyama o acompanhou.
— Sou levantador. — Ele respondeu. Hinata pareceu ruborizar ainda mais com essa resposta. — Peraí, central? Mas você é meio…
— Ei! — Ele gritou antes que Tobio pudesse terminar sua frase. — Eu posso ser baixo mas eu pulo muito alto! — As bochechas dele ainda estavam vermelhas enquanto ele lançava um olhar assassino para Kageyama.
Tobio precisou morder o lábio. Ele era meio fofo.
— Ah, tanto faz. — Hinata respondeu. — Todo mundo duvida da minha capacidade mesmo. Mas e aí, você vai querer o que?
Kageyama queria responder que ele não duvidou de nada, ele só pontuou o fato de que Hinata era baixo — e ele era mesmo! — mas a mudança repentina de assunto do ruivo apontava que ele, provavelmente, não queria continuar com essa conversa.
— Eu não quero nada. — Tobio respondeu. — Já falei que foi só meu trabalho.
Hinata soltou um suspiro alto e revirou os olhos.
— Cara, por favor! Será que você pode aceitar um agradecimento na sua vida? Não vai matar, sabia? — Hinata respondeu. Ele tinha aqueles olhos brilhantes voltados na direção de Tobio enquanto estendia o cardápio com sua mão.
Kageyama desviou o olhar e pegou o papel da mão dele. Que merda. Desde quando ele desaprendeu a negar pedidos inconvenientes feitos por ruivos bonitinhos?
Ele examinou as opções rapidamente, escolhendo um “Iced Latte” pequeno. Era a opção com mais leite do cardápio. Hinata abriu um sorriso enorme e correu para preparar seu café enquanto Tobio o observava de longe, sentado em uma das mesas.
Observar Hinata de perto era muito diferente de observá-lo pelas câmeras. Haviam tantos detalhes que elas não conseguiam captar que Tobio se sentia até um pouco tonto. Tipo quanto Hinata começou a assobiar a melodia que tocava calmamente pelas caixas de som — agora escolhidas por Ushijima, o funcionário que cobria o turno da noite do shopping. Será que ele já assobiou alguma música dele? A curiosidade fez as mãos de Tobio coçarem.
Quando Hinata apareceu de novo, ele veio com um copo em uma das mãos e uma flor na outra.
— Seu pedido. — Ele estendeu o copo de Iced Latte. — E mais um agradecimento. — Hinata completou, estendendo o ramo sobre a mesa.
Era uma flor laranja com pequenos pontinhos pretos espalhados pela pétala. Kageyama não fazia ideia de qual era o nome, mas segurou a flor com muito cuidado enquanto encarava o ruivo.
— É um lírio laranja. — Ele respondeu, como se tivesse lendo a mente de Kageyama. — Pra agradecer pela carteira.
— Eu… — Tobio começou mas mordeu sua própria língua com a cara feia de Hinata. Ele não deixaria Kageyama negar mais um agradecimento. — Eu não sei cuidar de flores…
— É só cortar o caule dela na diagonal e por em um copo d’água! Ela vai durar um pouco mais assim.
— Certo… — Kageyama respondeu enquanto encarava a flor muito seriamente. Ele faria o possível para que ela não morresse.
Esticando seus olhos para o relógio de parede do local, Tobio deu goles grandes no café e se levantou.
— Preciso ir para o treino. — Ele respondeu enquanto encarava Hinata. — Ahm, obrigado pelo café.
O ruivo abriu um sorriso enorme e estendeu a mão para Kageyama.
— Foi um prazer te conhecer, Kageyama. — O aperto de mãos foi rápido, mas não rápido o suficiente para que a mão de Tobio não queimasse com o contato efervescente do outro. — Aparece aqui qualquer hora.
Kageyama murmurou um “okay” baixo e correu para a saída. Mesmo quando ele atravessou a rua e caminhou — não para o treino, mas para sua casa — sua mão continuou queimando.
Ele subiu as escadas de seu apartamento aos tropeços, deixando seus sapatos desalinhados na porta e jogando sua mochila em qualquer lugar de sua sala de estar. Ele precisava imediatamente de uma tesoura e um copo d’água.
Sobre a bancada de sua cozinha e com uma precisão quase cirúrgica, Kageyama cortou o caule do lírio exatamente como Hinata havia pedido, depositando a flor com muito cuidado em um copo transparente de água. Ele a deixou em um canto de seu armário na própria cozinha, com sol e ar fresco suficiente para que a planta não sufocasse — ele não sabia se flores sufocavam, mas não queria correr o risco.
Enquanto descia as escadas do prédio novamente, Tobio não sabia dizer o motivo, mas um calor formigante ainda subia por sua mão.
. ☀︎.ᐟ
Kageyama não soube dizer quando as coisas ficaram assim, mas, de alguma forma, passar na frente da floricultura todos os dias na sua hora de ir embora acabou se tornando uma rotina. Ele arrumava suas coisas, colocava a mochila nas costas e descia em direção ao corredor da loja. Nos primeiros dias, Kageyama não tinha coragem suficiente para conversar com Hinata, o que não foi um problema já que o ruivo não media esforços em gritar o nome dele em plenos pulmões e trocar algumas dezenas de palavras.
Era simples e fácil, eles debatiam sempre coisas simples como vôlei ou então as músicas que Tobio havia colocado na caixa de som do shopping — Hinata sempre tinha uma opinião sobre elas, era quase irritante. Depois, Kageyama se despedia e ía treinar vôlei até seus ossos doerem com a exaustão intensa. Então, ele ía embora, caminhando calmamente sob a escuridão do céu noturno apenas para chegar em casa e encontrar o brilhante lírio laranja o esperando no canto de sua cozinha.
Tobio gostava disso.
Hoje, entretanto, as coisas estavam diferentes.
Com sua mochila de treino nas costas, Kageyama entrou na floricultura já buscando pela tradicional cabeleira laranja, mas encontrou apenas os olhos dourados da outra funcionária, Yachi.
— Boa tarde, Kageyama-san. — Ela cumprimentou enquanto Tobio adentrava na loja. — Você quer falar com o Shouyou?
— Ahm, é… — Ele gaguejou, um pouco perdido. Era difícil explicar o que exatamente ele estava fazendo ali.
— Ele precisou sair rapidinho pra resolver um problema com a nossa entrega de suculentas. — Ela explicou. — Era pra ter chego hoje cedo mas não tivemos notícias. Já já ele volta!
Ah, é claro. Às vezes Tobio esquecia que Hinata trabalhava ali de verdade. Ele parecia apenas cantar e rodopiar pelo lugar na maior parte do tempo.
— Não tem problema. — Ele respondeu enquanto olhava ao redor, tentando encontrar na floricultura alguma coisa que pudesse servir de justificativa para estar ali além da presença do ruivo.
Foi nesse momento que seus olhos caíram sobre um cartaz pendurado ao lado do caixa em que Yachi estava sentada. De primeira, Tobio não entendeu muito bem do que se tratava, parecendo muito com um cardápio de plantas.
Sua expressão devia estar cômica o suficiente, pois Yachi logo o chamou:
— Ah, gostou do nosso cartaz? É novo.
Isso explicava o motivo de Tobio nunca ter reparado no objeto antes.
— Não entendi direito, é um cardápio de flor?
Yachi riu, constrangida.
— Não! Bom, não exatamente, eu acho… É um cartaz pra guiar os fregueses! Muita gente vem aqui buscando flores com significados sabe, pra presentear alguém. Por isso, eu e o Shouyou montamos isso aí, pra facilitar na hora de orientar quem tá buscando uma flor com um significado específico.
Kageyama concordou, com as sobrancelhas arqueadas. Ele não sabia que flores tinham significados.
Seus olhos vagaram o cartaz despretensiosamente. Era bonito e colorido, com uma série de nomes, significados e imagens de flores. Próximo ao rodapé do banner, uma flor chamou a atenção de Tobio.
Ele se inclinou e estreitou seus olhos para o escrito:
“Lírio laranja: é comumente associado à admiração e ao desejo, transmitindo delicadamente sentimentos de afeição e afeto.”
Kageyama piscou, atônito, e leu a frase mais uma vez.
Num pulo, ele se afastou do cartaz. Isso não podia ser real.
Virando seu rosto na direção de Yachi e percebendo o olhar confuso da moça por conta de seus movimentos bruscos, Tobio tossiu fracamente para aliviar a tensão.
— Você vê um picolé de leite ninho pra mim, por favor? — Ele pediu enquanto enfiava as mãos desesperadas no bolso de sua mochila para disfarçar seus tremores.
Meu deus, isso não podia ser real.
— Aqui! — Yachi chamou, com o picolé já em mãos.
Tobio pegou o sorvete e, com um movimento só, arrancou a embalagem de plástico e o mordeu. A dor congelante em seus dentes fez seu cérebro rodar, mas, por sorte, também fez seu coração focar em outra coisa que não fosse a frase que ele acabou de ler.
Admiração. Afeto. Desejo.
Ele olhou para o cartaz mais uma vez.
— V-Você e o Hinata sabem tudo isso de cor? Parece muita coisa… — A pergunta ecoou primeiro por sua mente. Kageyama só percebeu que, de fato, havia perguntado em voz alta quando a loira deu uma risadinha como resposta.
— Ah, uma hora você se acostuma. Eu demorei um pouco mais pra guardar, sou meio ruim com isso… Mas o Shouyou decorou desde a primeira semana trabalhando aqui. Ele gosta bastante dessa coisa de significado das flores.
Kageyama piscou.
Ok, essa definitivamente não era a resposta que ele esperava.
Ele precisava sair dali. Agora.
— Obrigado pelo sorvete Yachi, mas preciso ir. Meu treino… — Ele balbuciou enquanto jogava as notas de dinheiro do sorvete sobre o caixa e se afastava da loira.
— Ahn, mas e o Shouyou? Ah, eu aviso ele que você passou aqui. — Tobio não tinha certeza se murmurou um “não precisa” ou se ele apenas pensou nessa resposta à medida que dava passos largos e rápidos em direção a saída do shopping.
A brisa quente da tarde não acalmou seus pensamentos em nada. Ele deu mais uma mordida no picolé, sentido, de novo, a ardência nos dentes. Dessa vez, seu coração continuou batendo muito forte.
Admiração. Afeto. Desejo.
Sua respiração engasgou na garganta. Meu deus, isso não podia ser real.
. ☘︎.ᐟ
No dia seguinte ao ocorrido com o maldito significado do maldito lírio laranja, Kageyama não foi trabalhar. Não por escolha dele, pelo menos.
Durante seu treino noturno, Tobio acabou se distraindo — por motivos diversos, nenhuma razão específica — e, em um erro fatal, acabou defendendo o corte violento do ponteiro adversário com seu rosto. Sua cabeça rodou por tempo suficiente para que ele sequer soubesse dizer como foi parar no pronto socorro. Depois de longos minutos de exames, conversas médicas e algodões sendo trocados pois estavam encharcados de sangue, Kageyama saiu de lá com uma carona de Hoshiumi e um atestado para o dia seguinte.
Humilhante.
Por sorte, ele não sofreu nada além de uma concussão leve. Mas, como seu rendimento físico era algo muito cobrado em seus treinos, o médico fez questão que ele passasse o dia seguinte sem trabalhar e sem treinar. Seria gratificante se isso não significasse menos tempo de vôlei e mais tempo encarando o maldito lírio laranja na sua cozinha.
De qualquer forma, quando ele voltou ao serviço no dia seguinte, um par flamejante de olhos castanhos o encarava através de uma das câmeras da floricultura.
Sério, como caralhos ele sabia que Tobio estava olhando? Isso era assustador até para os parâmetros dele.
Os olhares intensos duraram quase 40 minutos de muito sofrimento para Kageyama, até o ruivo correr para os fundos da loja e voltar com um caderninho em mãos. Tobio franziu o cenho enquanto observava Hinata rabiscar no papel com uma caneta comicamente grande e com um girassol na ponta. Ele precisou colocar a mão na frente da boca para não sorrir.
Satisfeito com o resultado final, o ruivo arrastou uma cadeira para o canto onde uma das câmeras de segurança ficava, subindo e centralizando o papel no meio do campo de visão de Kageyama.
“Você tá bem? Me disseram que você estava de atestado ontem, fiquei preocupado ☹”
A cabeça de Tobio tombou para o lado. Seus olhos focaram no pequeno rosto triste desenhado no canto da folha. Dessa vez, ele riu fraco, mesmo com sua mão ainda pairando sobre sua boca.
Que idiota.
Ele ponderou como responderia a essa pergunta de Hinata. Olhando ao redor da floricultura, Kageyama notou que Tanaka fazia sua ronda diária ali. Ele podia pedir para o colega passar a informação, seria prático e fácil. Contudo, a perspectiva de ter outra pessoa sabendo sobre a preocupação do ruivo a respeito do seu bem-estar era… incômoda, na falta de outra palavra. Sendo assim Tobio precisou colocar sua cabeça para funcionar.
De início, ele cogitou colocar uma música que respondesse a pergunta, mas logo percebeu que a missão de encontrar uma canção que dissesse “estou bem, levei uma bolada na cara depois de descobrir que você hipoteticamente me deseja” seria muito difícil. Sendo assim, ele optou por adicionar uma que tivesse o título simples e que respondesse ao ruivo.
Rindo de sua escolha, Tobio deu o play. Foi cômico assistir aos olhos de Hinata brilharem e o sorriso aparecer em seu rosto quando a melodia de “I Will Survive” tocou pelo shopping.
Se Hinata tinha mais dúvidas, ele as guardou para si, pois nenhuma outra mensagem foi rabiscada para Tobio. Kageyama definitivamente não estava frustrado com isso.
Às 14:50, Ushijima bateu calmamente na porta da sala de Tobio, avisando que ia começar seu turno. Kageyama achou estranho, mas aproveitou os 10 minutos de folga extra para passar na floricultura. Virando a esquina já tão mapeada em seu cérebro, ele se deparou com um Hinata muito enérgico falando no telefone.
— Natsu, você só pode tá brincando comigo. — A voz dele estava alguns tons mais altos que o normal. Quando seus olhos caíram sobre Kageyama, ele fez um aceno com as mãos e checou seu relógio de pulso. — Ah sim, que ótima ideia você teve! Enfiar seu irmão inocente no meio disso.
Apesar de carregado de ironia, Hinata não parecia bravo com a outra pessoa, apenas nervoso.
— Sou totalmente contra! Já te falei isso nos primeiros cinco segundos da ligação! — Ele fez uma pausa enquanto colocava a mão na cintura. — Argh! Certo, depois eu te ligo e a gente conversa melhor. Aham, sim, okay. Eu sei que você me ama. Sim, o melhor irmão do mundo, né? Tchau!
Quando desligou a chamada, Hinata soltou um suspiro profundo.
— Tudo bem? — Tobio perguntou, apoiando seu cotovelo no balcão.
— Irmãs mais novas são demônios horríveis, Kageyama. — Ele respondeu, massageando a têmpora. — Mas, boa tarde! Saiu mais cedo hoje?
— Ushijima quis entrar mais cedo. — Ele se justificou.
— Waah, que sorte! Mas, falando nisso, o que aconteceu ontem? Yahaba me disse que você tava no hospital!
Primeiro, desde quando Hinata e Yahaba conversavam? Será que ele era amigo de todas as pessoas desse shopping? Não era algo difícil de se acreditar.
— Me desconcentrei no treino e levei uma bolada na cara. Precisei ir no pronto socorro porque meu nariz tava sangrando demais, mas já to melhor
Os olhos de Hinata se arregalaram. De trás do balcão, ele se inclinou para próximo de Tobio, olhando o nariz do outro de diversos ângulos.
— Ainda bem que não foi nada sério, né? — Ele perguntou com um sorriso enorme. — Gostou da minha mensagem mais cedo?
Kageyama desviou os olhos.
— Foi tão idiota… — Foi tudo que ele respondeu. Não confiava em sua boca para dizer mais nada.
Antes que Hinata pudesse responder, seu celular começou a vibrar sobre o balcão. O nome “Maninha” com uma quantidade assustadora de corações brilhava na tela. O ruivo soltou um bufo.
— Me diz Kageyama, você tem irmãos mais novos? — Ele perguntou, recusando a chamada no celular.
— Só uma irmã mais velha. — A resposta pareceu chocar Hinata.
— Ahh, que belezinha, você é o caçula então? — Ele abriu um sorriso sacana. Kageyama não entendeu o motivo disso. — Mas, sério, sorte sua.
Ao terminar de falar, seu celular brilhou mais uma vez, com uma sequência de mensagens sendo enviadas pela mesma pessoa de antes.
— O que aconteceu? — Kageyama arriscou perguntar, com a curiosidade já ultrapassando seus níveis de timidez.
— O que aconteceu é que minha irmãzinha quer fazer uma tatuagem! Ela tem 15 anos Kageyama, 15 anos! — Ele gritou enquanto apoiava os dois cotovelos no balcão e escondia o rosto em suas mãos. — E, como se isso já não fosse absurdo suficiente, ela fica me colocando no meio das brigas dela com a nossa mãe, querendo que eu ajude a convencer que isso tá certo! Dá pra acreditar?
Tobio piscou, atônito.
— Ela é muito nova pra fazer uma tatuagem. — Kageyama respondeu. Se com 15 anos ele tivesse a liberdade de fazer uma tatuagem, ele provavelmente teria uma bola de vôlei tatuada no coração — o que não é uma ideia tão ruim, mas hoje em dia ele conseguia pensar em coisas melhores.
— Exatamente! Mas ela não me escuta! Como pode uma pessoa tão teimosa…
Kageyama mordeu a língua para não dizer que ela provavelmente aprendeu isso com ele.
Ao invés disso, Tobio disse algo muito pior.
— Isso provavelmente é sua culpa. Ela deve ter visto sua tatuagem e decidido que queria uma também.
O comentário ecoou em sua mente. Ele disse isso em voz alta? Não, certo?
O olhar chocante de Hinata apontava o contrário.
— C-Como você sabe que eu tenho tatuagem?
Agora seria um momento perfeito para que uma planta carnívora o engolisse.
— E-Eu… — Ele começou, desviando o olhar. — Eu sou segurança do shopping, seu idiota! Você sabe que eu vigio todas as câmeras!
Hinata arfou, desesperado, dando a entender que isso não respondia nada.
— O que? — Kageyama continuou, aflito. — Você arrancou a roupa no meio da loja! Esse é exatamente o tipo de conduta suspeita que eu sou pago pra observar! V-Você deu sorte que eu não fiz nada.
— Eu… — Hinata começou, escondendo os olhos atrás das mãos. — Eu não tinha pensado nisso…
Kageyama suspirou, sentindo um calor desconfortável subir por seu pescoço. Ele precisava sair dali. Virando seus olhos para o ruivo novamente, Tobio reparou no rubor vermelho que pintavam suas bochechas e, mais importante, na forma como ele mordia o lábio inferior com força. As palavras de Tobio se perderam na sua boca por alguns segundos.
— Você gostou? — Hinata perguntou antes que Kageyama tivesse a chance de se despedir. — Da minha tatuagem?
O queixo de Tobio tremeu. Que tipo de pergunta era essa?
Ele gaguejou algumas vezes até conseguir formular uma frase:
— Não consegui ver direito, as câmeras são péssimas. Que pergunta é essa seu idiota?
Hinata o encarou com um olhar sacana, que seria ainda mais perigoso se ele não estivesse vermelho dos pés à cabeça.
— Se quiser ver de novo, é só pedir.
A boca de Kageyama se abriu em descrença. Isso só podia ser uma brincadeira de mau gosto. O sorriso brincalhão que Hinata abriu em sequência reforçou o que Tobio já desconfiava. O desgraçado estava brincando com ele.
— Chega, vou treinar. — Ele respondeu, se afastando do ruivo e arrumando sua mochila nas costas. Que idiota.
Hinata gargalhou alto, gritando um “tchau” acalorado enquanto Kageyama apenas levantava um dedo do meio como resposta.
Idiota.
. ❀.ᐟ
O dia seguinte começou quente e grudento, fazendo Kageyama agradecer novamente por estar dentro da mesma sala escura e gelada de sempre, acompanhado apenas de seus computadores e da desconcertante imagem de Hinata com seus belos braços de fora. A regata de hoje era preta, ainda mais justa que a azul — se é que isso era possível. Tobio estava se sentindo tonto.
Em algum momento da manhã que Kageyama não guardou o horário — ele tinha coisas melhores para olhar do que um relógio inútil — um caminhão parou na saída do corredor da floricultura para fazer o desembarque de caixas de flores e Hinata, com seus braços flexionados, foi o responsável por carregar a maioria delas. Tobio foi o responsável por garantir que nenhum crime ocorresse no meio tempo dessas ações — de novo.
Com as caixas já na loja, o ruivo e Yachi foram se organizando para preencher as prateleiras com as novas plantas. Kageyama achou muito irônico que a última caixa de Hinata fosse uma de lírios laranjas. Há.
Olhando para as flores na sua frente, Hinata abriu um sorriso gigantesco e chamou por Yachi. Ele apontou para as plantas laranjas e falou algo que infelizmente Tobio não conseguiu decifrar. Tsc, ele estava farto dessas malditas câmeras sem áudio.
Yachi arregalou os olhos, respondendo alguma coisa com um nervosismo palpável em seu rosto. Hinata levantou a mão no ar, fazendo um gesto de quem não dava a devida importância para algo, apontando para as câmeras e fazendo uma careta mal-humorada idiota. Um biquinho surgiu nos lábios de Tobio, ele não estava gostando dessa conversa.
Contudo, ainda que Hinata estivesse agindo com naturalidade, Yachi continuava muito nervosa. Com os olhos mais arregalados que antes, ela apontou para o quadro de significado das plantas e começou a falar. Mesmo sem ouvi-la, Tobio conseguia notar a velocidade que as palavras fluíam por sua boca. Ela parecia apavorada.
O sorriso de Hinata murchou quase instantaneamente. Kageyama podia estar errado, mas ele tinha quase certeza que, pela leitura labial, o ruivo havia gritado um “o que?!” muito alto. Os dois funcionários conversaram desesperados por vários minutos, com gestos de mãos afobados misturados com apertos fortes de Hinata nos ombros da loira. Tobio estava totalmente perdido, com suas entranhas coçando para saber o que estava acontecendo.
Ele levantou seus olhos para o relógio, que marcava 10:34 da manhã. Que merda, ele ainda teria um dia inteiro de serviço até finalmente poder pisar na floricultura e matar sua curiosidade.
Voltando seu foco para a câmera da floricultura, Kageyama assistiu enquanto Hinata pulava de um pé para o outro em direção a Tanaka que rondava o corredor. Ele proferiu uma série de sentenças nervosas que fizeram até mesmo o segurança mais afobado do shopping levantar as mãos e pedir calma para o ruivo. Assustador.
Em algum momento, ele parecia estar tentando pedir algo para Tanaka, com as palmas das mãos juntas e um olhar desesperado de cachorro abandonado. Tobio agradeceu por não ser ele na pele do segurança, ele duvidava muito que conseguiria resistir a isso.
Tanaka, da mesma forma, pareceu ser igualmente fácil de ceder, pois, com as costas arqueadas para baixo, apontou para Hinata na direção de um dos corredores do shopping. O ruivo pulou tão alto com a resposta do segurança que os olhos de Tobio se arregalaram.
Sem perder tempo, Hinata começou a correr. Tobio tentou — ele realmente tentou — acompanhar a cabeleira laranja se enfiando pelos corredores do shopping, mas acabou se perdendo quando precisou anunciar que havia um vira-lata perdido na praça de alimentação. Maldito.
Ele vagou por mais algumas câmera do piso inferior, mas sem encontrar nenhum vestígio do ruivo. Tombando na cadeira, ele suspirou, derrotado.
Será que Hinata estava passando mal e precisou correr para o banheiro? Será que ele estava bem? A curiosidade queimava em seu estômago pior do que lava. Ele não aguentaria esperar até o fim do expediente para sanar suas dúvidas.
Tobio foi arrancado de seus delírios quando uma sequência de batidas enérgicas soaram em sua porta. Ele pulou da cadeira no susto. Ninguém batia na sua porta durante o expediente assim.
Ao abrir a porta, Kageyama esperava encontrar qualquer coisa, menos um Hinata Shouyou ofegante.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, um par de mãos em seu peitoral o empurrou para longe da porta, forçando as costas de Tobio contra a parede ao lado. Pelo canto do olho, ele conseguiu ver os pés de Hinata chutando a porta com força, fechando-a.
— Hina– — Sua fala saiu fina e assustada, imediatamente interrompida por Hinata.
— Você sabe? — Ele gritou.
Kageyama tombou a cabeça, confuso.
— Sei do que?
As mãos de Hinata torceram no tecido da camiseta de Tobio, aproximando ainda mais os dois.
— Do lírio laranja! Yachi me contou!
Ah.
Ah.
Agora era a hora que Kageyama pulava da janela, certo?
Seus olhos vagaram pela sala. Sem janelas. Merda.
— Eu… — Tobio começou, mas os olhos efervescentes de Hinata travaram sua voz. Ele precisou limpar sua garganta antes de continuar. — Sim.
As mãos quentes de Hinata torceram ainda mais. Ele conseguia sentir a respiração pesada do ruivo bater em seu queixo agora.
— E o que você tem a dizer sobre isso? — A voz de Hinata agora era baixa, quase um sussurro.
Tobio sentiu sua própria respiração fraquejar. Ele conseguia ver as pequenas sardas de Hinata agora, salpicadas por sua bochecha. Conseguia ver seus cílios ruivos, as manchas mais escuras em seus olhos. Deus.
— Por que você acha que eu me desconcentrei no treino aquele dia, idiota? — Ele respondeu, antes que seu cérebro conseguisse revisar a fala e prevenir desastres. O que era uma pena, já que Hinata estava arregalando os olhos e afrouxando o aperto em sua blusa.
Kageyama abriu a boca para completar a frase. Qualquer coisa. Ele precisava de qualquer coisa.
Mas, antes que ele pudesse falar o que quer que fosse, as mãos quentes de Hinata já estavam segurando os lados de seu rosto e o puxando para um beijo.
A boca de Hinata era quente. Possivelmente mais quente que suas mãos, se Tobio fosse comparar. E ambas eram igualmente maravilhosas.
Enroscando seus braços ao redor da cintura do outro, Kageyama puxou Hinata para mais perto. Desequilibrado, o peso do ruivo caiu sobre o corpo de Tobio e ambos ofegaram. Deus, Kageyama queria tanto isso que ele quase parecia patético.
Aproveitando a confusão do outro devido ao desequilíbrio, Tobio levou sua mão em direção ao rosto de Hinata e o puxou para outro beijo. Agora mais quente, necessitado, desesperado.
Foi a língua de Hinata que apareceu primeiro, tão quente quanto todo o resto dele, deslizando para dentro da boca de Kageyama e tirando até a última molécula de oxigênio do organismo do moreno.
Uma de suas mãos agarraram as costas de Hinata, puxando o tecido da camiseta até ele enrugar em seus dedos. A outra, agora enfiada dentro dos fios de cabelo laranja, enrugavam-se naqueles cachos que Tobio passou tanto tempo observando.
Em algum momento, as mãos de Hinata também se perderam pelo peitoral e cabelo de Tobio. Ele conseguia sentir as unhas curtas de Hinata roçarem por seu couro cabeludo, atiçando arrepios no corpo que Kageyama nem sabia que existiam até aquele momento.
Tobio desceu uma das mãos para o rosto do outro, sentindo na ponta dos dedos o calor das bochechas de Hinata enquanto eles emaranhavam suas línguas em uma luta desesperada por mais. Mais beijo, mais Hinata. Mais.
Foi o som do walkie talkie que tirou os dois do emaranhado de membros, salivas e suspiros desesperados.
— Câmbio, Kageyama, precisam de reforço de limpeza no corredor 1.
Tobio quase saltou para fora dos seus ossos. Com os braços ainda enrolados em Hinata, ele se arrastou pela sala até alcançar o aparelho sobre a mesa.
— V-Vou avisar. — Ele respondeu, apertando outra sequência de botões. — Estão precisando de reforços de limpeza no corredor 1. — Mais uma sequência de botões. — Avisado. Câmbio.
Piscando e tentando entender tudo que aconteceu nos últimos minutos, Kageyama encarou Hinata. Ele ainda tinha os braços envolvidos ao redor dos ombros de Tobio, mas seus olhos castanhos raivosos estavam, no momento, cravados nas telas com as imagens das câmeras. Em específico na tela maior, centralizada bem no centro dos monitores e que mostrava uma Yachi muito tranquila atendendo um grupo de garotinhas.
Os olhos flamejantes de Shouyou viraram para encarar Kageyama.
— Você sempre deixa as câmeras da floricultura centralizadas assim? — Ele perguntou, sorrindo.
Tobio afundou o rosto no pescoço de Hinata, parte para esconder sua vergonha de ter sido pego, parte para sentir o cheiro daquele pedaço de pele tão brilhante e saboroso. A pele dele era tão quente, tão cheirosa… Kageyama se sentia bêbado.
— Não acredito que eu passei tanto tempo te secando a distância só pra descobrir que você fazia a mesma coisa. — A voz de Hinata era baixa, sussurrada próximo ao ouvido de Tobio. Ele sentiu os pelos do seu braço se arrepiarem.
— Me secando? — Tobio murmurou, ainda com o rosto perdido no pescoço de Hinata. Ele nunca mais sairia dali se pudesse.
— Você é um atleta, sabia? — Hinata comentou, puxando o rosto de Tobio para cima. — Acho que todo mundo desse shopping já te secou em algum momento.
Kageyama tombou a cabeça para o lado, sem entender nada. Ele duvidava profundamente da veracidade dessas palavras. Hinata estava, muito provavelmente, só tentando elogiar.
— Por que alguém ia perder tempo me secando… — Ele começou, afundando a cabeça no pescoço do ruivo mais uma vez e, agora, depositando pequenos beijos no local. — Quando você tá logo ali, na floricultura, usando essas regatas…
Ele levou uma de suas mãos em direção aos braços de Hinata, acariciando seu bíceps com a ponta dos dedos. Eles eram ainda mais irresistíveis pessoalmente.
Hinata soltou uma risadinha, mas não antes de suspirar audivelmente com um dos beijos mais demorados de Kageyama perto do seu maxilar.
— Era sobre isso que você tava gritando com a Yachi mais cedo? — Tobio arriscou, ainda deixando vários beijos e carícias no outro.
— S-Sim… — Hinata gaguejou. — Ela me disse que você saiu desnorteado da floricultura depois de ler nosso quadro de significados.
Com isso, Kageyama cessou sua sequência de beijos e levantou o rosto, encontrando um Hinata com bochechas vermelhas e um leve olhar de desapontamento por conta da sequência interrompida.
— F-Foi de propósito? — Kageyama começou. — A escolha do lírio laranja?
Hinata sorriu, rindo fraco, enquanto puxava Tobio para mais perto. Perto o suficiente para que suas bocas quase se tocassem de novo.
— O que você acha?
Kageyama suspirou, fraco.
— Eu quero muito que tenha sido. — Tobio respondeu, entre suspiros, sem tirar os olhos da boca de Hinata.
O ruivo sorriu. O tipo de sorriso brilhante o suficiente para ascender nos monitores que Kageyama tanto o observava. Era ainda mais brilhante pessoalmente.
— No final do seu expediente. — Hinata começou, empurrando Tobio para longe e alisando o tecido da camiseta com as mãos. — Passa lá na floricultura que eu vou te dar mais um.
Kageyama concordou imediatamente. Ele duvidava ser capaz de negar qualquer coisa que Hinata mandasse.
— Preciso voltar. — O ruivo continuou, olhando para o monitor da floricultura. — A loja tá cheia.
Infelizmente, era verdade. Tobio suspirou, abaixando suas mãos dos braços fortes e bronzeados de Hinata. Ele realmente esperava acariciar eles uma outra vez. Várias outras vezes, se fosse possível.
Com um aceno tímido, Hinata partiu, deixando para Kageyama a lembrança de um ruivo corado entre as flores e a promessa de um novo lírio laranja que, em breve, iluminaria mais um canto de sua casa.
