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Entre o som estridente e inconfundível do final de uma reunião do G8, Anya observava o movimento de cada um da sala, prestando atenção em cada mínimo detalhe do comportamento dos 6 ali presentes, mapeando seus modos de agir, pensar e se portar.
Sakura estava preparando sua papelada minuciosamente pra voltar até seu país de origem, sua respiração mais acelerada que o normal revelava pressa, mesmo com sua calma fingida. Provavelmente, a ligação que havia recebido durante a reunião era um sermão de seu chefe. Enquanto a parte asiática do eixo organizava seus documentos por cor e tamanho, Feliciana tentava convencer Monika que uma partida de futebol antes de entrar no avião seria uma boa ideia.
- Monika! Monika! Faz tanto desde a nossa última partida, eu tenho certeza que dessa vez eu vou ganhar!
- Feliciana… - a espiral que as duas estavam era muito interessante para Anya. Suas interações, mesmo que previsíveis, eram divertidas de se acompanhar. Pelo seguimento do roteiro inconscientemente concordado mutuamente entre as duas, agora era a hora em que Monika bateria em Feliciana e a diria pra arrumar algo melhor pra fazer. - Você sabe que estou ocupada, meu avião chega em meia hora e ainda tenho coisas a fazer. Procura outra pessoa pra jogar com você!
Exatamente como Anya previa. As feições de Feliciana estarem se contraindo no momento mostrava que a próxima etapa do roteiro estava começando: agora, a italiana choraria enquanto se agarra nos braços musculosos de Monika, gritando coisas sem sentindo enquanto irritava a alemã o máximo que podia. (As vezes, Anya se perguntava se era proposital…)
- Mas…a Sakura está muito ocupada e disse que não tem tempo pra jogar comigo, Lovina não me atende no telefone e Françoise não quer fazer nada além de brigar com a Alice, só me resta você! - os olhos grandes e âmbar de Feliciana eram um agravante extremo pra Monika, Anya conseguia observar claramente o exato momento em que ela decidiu acatar com as súplicas da sua amada.
- Uma partida é o máximo que eu posso.
Monika se recusava a olhar nos olhos de Feliciana no momento, suas íris gigantescas e brilhantes eram um reflexo da sua derrota mental, A alemã nunca conseguiria escapar do que a italiana queria que ela fizesse, mesmo se quisesse muito.
No outro lado da sala, Alice e Françoise discutiam novamente sobre algo trivial. Surpreendentemente, a dupla de loiras não era tão atrativa a Anya tanto quanto o par anterior, depois da 5° discussão totalmente superficial e sem sentido, a graça acaba esvaindo. Mesmo assim, as vezes era por prestar atenção por alguns minutos e se atualizar sobre qual bobeira era o motivo da discussão de hoje.
- Eu não te chamei pra ir pra minha casa, não entendo o porque continua falando tão mal da minha culinária - a inglesa fala e dá um gole dramático em seu chá com leite - não é como se você fosse comer.
- E nem quero! Não disse que vou comer, disse que seu chá é nojento. Por que você coloca leite nele? Você tem algum problema?
Alice pareceu ofendida pela última parte, a inglesa bateu com força sua xícara na mesa e se virou na base da fúria pra francesa ao seu lado.
- Pelo menos eu não sou nojenta o suficiente pra comer caracóis vivos.
Françoise colocou a mão no meio dos seus seios dramaticamente, ela olhou pra Alice de cima abaixo, como se não pudesse acreditar que a inglesa tinha coragem de tocar em tal assunto tão delicado.
- Quantas vezes preciso te dizer? Ingleses também comem escargot, e os caracóis são comestíveis! E limpos!
- Não importa, continuam caracóis! E acho interesse justamente você tocar no tópico de limpeza, Françoise. - a inglesa pegou novamente sua xícara de chá antes esquecida e deu mais um gole dramático, um sorriso de canto já tendo sido plantando na parte esquerda do seu rosto - vendo a bagunça que Paris continua sendo, não confio muito no senso de limpeza dos franceses.
A francesa subitamente se levantou do seu assento, bateu na mesa e se abaixou o suficiente pra que sua voz fosse clara pra Alice, que continuava sentada.
- Você quer falar de higiene? Não são os ingleses que são conhecidos por terem uma boca de esgoto? Porque não nos dá um sorriso, Alice?
A inglesa se levantou na mesma ferocidade que Françoise e também bateu na mesa, continuando a briga com argumentos que Anya não se interessou o suficiente pra ouvir. Na verdade, sua atenção voou para Amélia, a americana que até agora estava quieta em seu canto enquanto comia seu hambúrguer e agora que tinha terminado sua refeição, parecia pronta pra atacar a paciência de alguém.
Não podia nem sonhar em falar isso em voz alta, mas entre todas as suas amigas no G8, Amélia era a que mais a fascinava, sua incapacidade de ter qualquer pensamento coerente com a realidade era como um super poder, sua constante obsessão com um heroísmo e a crescente paranóia de que todo o país que se opunha a si era perigoso e merecia retaliações de resto do planeta era incrível, como ver uma exposição de arte que demonstra a inutilidade do homem moderno. Anya não fazia ideia do por que a superficialidade de outros a irritavam tanto mas a de Amélia fazia seu coração bater mais forte. Talvez o desejo não tão reprimido de bater seu cano mágico no lóbulo frontal da americana até que algo que faça sentido saia da sua boca.
É claro que tudo de horrivel feito pelos Estados Unidos eram obras dos seus chefes, por isso não culpava a loira por nenhuma delas. Amélia em si parecia ter perdido todo o resquício de qualquer inteligente após o fim da guerra fria, seu egocentrismo só aparece crescer após aquele fim de dezembro de 1991, e sua estupidez estava a fazendo construir sua própria forca, mas sua mente estava ocupada demais pensando em qual refrigerante era o melhor pra se beber junto de um McDonald's hiper gorduroso para pensar sobre isso.
Após terminar sua 5° refeição, a americana foi em busca da sua primeira vítima do dia: primeiro, Amélia encarou sua relação mal resolvida milenar no outro canto da sala, mas suas intrigas aparentemente não eram interessantes o suficientes pra ela se meter. Feliciana e Monika já tinham saído do local e Anya não lembrava da última vez que a americana tinha iniciado alguma interação consigo por conta própria, isso fazia Sakura ser a opção que sobrava. A percepção desse fato fez o sorriso que Anya não sabia que tinha se formado se desfazer rapidamente.
Anya odiava qualquer interação entre Amélia e Sakura. A súbita obsessão de Amélia em qualquer coisa que vinha do Japão na década passada a fazia querer vomitar, toda a essência da americana parecia estar se esvaindo com o intuito dar espaço pra uma versão hiper processada da terra do sol nascente. A conversa entre as duas não a interessava, tanto que quando a russa se aproximou o suficiente pra ouvir a conversa entre as duas, não conseguia nem tentar adivinhar o contexto por trás do que saia da boca de Amélia.
- Sakura, você precisa aprender mais sobre super heróis antes de querer falar sobre eles, principalmente comigo. O capitão América amassaria o Godzilla, fim da história.
- Eu não acho que isso está certo, Amélia… mas se é isso que você acredita, está b-
- Então ainda não acabamos. Não vou parar até te convencer… - Amélia continuaria a frase, mas a já pele pálida de Sakura parecia ter pedido um tom, a japonesa engolia seco enquanto parecia estar a um passo de tremer. - o que deu em você, Sakura?
A japonesa não respondeu, mas Amélia percebeu que seus olhos eram fixos em seu lado esquerdo, como se um monstro tomasse forma ali. A americana lentamente virou pro lado, dando um pulinho quando viu os olhos horripilantes e o sorriso de dar calafrios de Anya.
- Desde quando você tá’ ai?
- Tempo suficiente.
- Você vai acabar matando alguém de susto se continuar aparecendo assim do nada nos lugares.
- Eu sei. - Anya puxou a cadeira do lado de Amélia e se sentou nela - é a intenção.
Sakura engoliu seco, juntando suas pastas rapidamente e fazendo uma saudação antes de sair correndo do local com suas pastas de documento.
- Você espantou ela, agora como vou convencer ela de que o Godzilla não serve pra nada?!
- Não é como se fosse uma conversa relevante.
Anya deu mais um dos seus sorrisos que não expressavam felicidade, muito menos sarcasmo, eram indecifráveis e quase involuntário, a borda da seus lábios estar erguida pra cima já fazia parte da composição do seu rosto. A Russa abriu seus olhos e Levi sua pupila até o copo gigantesco que Amélia segurava, aquela monstruosidade era grande o suficiente pra acabar com a sede de uma criança carente, provavelmente vinda de algum país que os chefes de Amélia tinham colocado suas patas.
- Você vai realmente beber tudo isso? Me parece muito grande.
- Não maior que você. - Amélia pareceu ofendida, a mulher virou seu rosto pro lado e apoiou sua bochecha em sua mão, se recusando a olhar diretamente pra Anya - cê' tá' gigantesca, principalmente pros lados.
O clima da sala parecia ter mudado, as únicas restantes na sala além de Amélia e Anya rapidamente pararam o 3° round da sua discussão e saíram rapidamente do local. É claro que a americana não tinha sido capaz de perceber isso, e muito menos capaz de entender a gravidade do que tinha acabado de falar. Uma escuridão característica tomou conta do olhar da russa. Anya apenas se levantou, segurou o refrigerante da outra com mãos firmes e jogou o líquido na loira.
- Ei! Porque você fez isso?! Russa desgraçada, meu chefe vai me matar! - Amélia continuava reclamando enquanto tentava, sem sucesso, limpar seu suéter com a bandeira dos estados unidos bordada no centro - o que eu te fiz?!
Enquanto saía, conseguia ouvir resmungos irritados e agudos de Amélia, mas sua crescente raiva e busca por uma vingança não a permitem ouvir nada além dos seus próprios pensamentos.
.. 🇺🇸 🇨🇦 ..
- Anya está tramando algo contra mim. - antes mesmo Madeline conseguir terminar de colocar o xarope de boldo em cima das panquecas, Amélia já estava falando de boa cheia em cima do seu prato - não tenho ideia do por que, mas ela está mais esquisita do que o normal ultimamente.
- Eu não acho isso, Amy. Talvez você só esteja confusa, Anya parece estar agindo normalmente.
- Não, não está. - Amelia disse enquanto dava uma garfada em outra das panquecas de Madeline, como se fossem as dela. - Eu a conheço há centenas de anos, sei exatamente como ela age e quando faz cada coisa.
Madeline pareceu sair do piloto automático por um segundo, ela e sua irmã tinham esse tipo de conversa praticamente todos os dias, era difícil prestar atenção genuína no que saia dos lábios de Amélia quando tudo parecia tão igual, mas não agora.
- Você decorou o que ela faz?
Amélia olhou pros quatro olhos da sua irmã como se fossem feitos de gosma de alienígena.
- Tal como eu fiz com todas as minhas inimigas declaradas, duh.
- Não fez isso com Wang Qiuyan após o fim da segunda guerra mundial, - Madeline finalmente conseguiu provar a primeira garfada das próprias panquecas naquela manhã, esperando terminar de mastigar pra continuar sua fala - ou com Im Ye-Jin Soo.
- Elas não são tão importantes agora, por isso.
- Você tem certeza? Seu chefe não para de falar sobre-
Amélia bateu na mesa com raiva, agora olhando com fúria diretamente nos olhos de Madeline.
- Você não presta pra me ajudar.
Amélia saiu com raiva da cozinha, não antes colocar mais uma panqueca de Madeline na sua boca. Provavelmente sua irmã tinha lhe dado um pedido de desculpas fraco, carregado com culpa, mas a americana realmente não se importava agora.
- Quando você acha que ela vai perceber?
Madeline falou enquanto encarava seu ursinho polar de estimação, que por sua vez tenta fazer com que suas patinhas minúsculas alcançassem as panquecas que, a essa altura, já não eram tão pertencentes a canadense.
- Quem é você?
O animal disse, genuinamente confuso.
- Sou a Madeline...
... 🇷🇺🇱🇻 ...
Katrina sentia como se seus órgãos vitais pudessem ser arrancados via telepatia a qualquer momento, apenas a presença de Anya no lugar fazia com que seu corpo inteiro entrasse em estado de alerta, provavelmente seus membros não reagiriam diferente se estivessem no meio do campo de batalha.
- Katrina, você deveria deixar seu cabelo crescer. Não é divertido puxar ele se estiver tão curto…
Anya parecia desanimada, puxava o cabelo da Galante com menos força que o normal e não tinha nem dado indícios de começar os seus outros métodos de tortura favoritos.
- Sabe, Katrina…sinto que eu deveria estar chateada por alguma coisas mas não consigo me lembrar o que é…
- Se a senhora não lembra, não deve ser importante.
A letã falou as palavras com o maior ar de doçura e cuidado possível quando se tem seu cabelo puxado do seu couro cabeludo. Ela sentia como se estivesse pisando entre cacos de vidro.
- Katrina deve estar certa! - Anya deu um puxão especialmente forte dessa vez, a letã engoliu um gemido de dor enquanto sentia seu couro cabeludo queimando. - você é tão inteligente! Eu pensei que tinha reduzido a sua capacidade cerebral durante os anos, fico feliz que posso continuar te apertando sem nenhum dado maior.
Katrina finalmente cedeu, as lágrimas gordas inundando seus olhos e descendo como uma cachoeira, a dor na sua cabeça agora passando de uma puxada de cabelo pra Anya pressionando sua cabeça pra baixo com força.
- Por que você está chorando?
- Não é nada, senhora Braginsky...
... 🇷🇺🇺🇸 ....
Quanto mais o tempo passa, mais paranóica Amélia fica sobre quaisquer ações de Anya. Se a Russa estivesse tendo qualquer conversa amigável com um aliado político dos Estados Unidos, automaticamente ela estava os persuadindo a se virar contra a América. Se a Russa estivesse apenas olhando para a janela, ela estava secretamente calculando um local estratégico pra lançar sua próxima bomba no território onde a reunião estava sendo sediada. E se Anya estivesse, nesse momento, apenas brincando com sua caneta vermelha (detalhe de extrema importância) ela com toda certeza estava planejando assassinar Amélia, provavelmente no estilo John F. Kennedy. É claro que a americana não estava preocupada, sendo a grande e única heroína do mundo inteiro, apenas mais uma representante de mais um dos 100 países descontentes com as políticas estadunidenses não seria capaz de fazer nem um arranhão. Mas o jeito assustador da Braginsky ainda era capaz de causar calafrios na loira.
- Amelia?
Afogada nas águas profundas da sua obsessão, Amélia não deu ao seu cérebro um tempo pra respirar e se recuperar de tanta pressão imposta sobre si, fazendo com que sua atenção estivesse em todo lugar, menos no que importava.
- Desculpe, irei iniciar minha fala neste momento.
A voz ríspida do seu chefe a fazia enjoada, mas não tinha outra escolha além de seguir suas ordens. No momento, ela estava na sala de debate da ONU, discursando sobre coisas que não verdadeiramente a importavam enquanto tentava evitar o olhar penetrante de Anya, o que se demonstrava uma ação impossível. A garota de cabelos brancos dessa vez não parecia estar debochando das suas falas com as pupilas, muito pelo contrário, a Braginsky parecia…interessada no que Amélia tinha a dizer? A americana estava até começando a ficar sem jeito, fazia algum tempo desde que a maioria dos países haviam firmado um trato mútuo e silencioso de não dar muita credibilidade para nada que saia de seus lábios ridiculamente vermelhos. Ter justamente a russa tão concentrada e (aparentemente) determinada a entender cada frase do seu discurso parecia errado, estranho, muito estranho…
No fim de seu discurso, algo pareceu girar na cabeça de Amélia, e a mesma quis se bater por não perceber um sinal tão óbvio mais rápido. Anya não estava interessada e muito menos concordava com seu discurso, estava brincando consigo!
“Como lidar com russos: Modus operandi (VOL.3)”
Quarto capítulo, página 184:
“[...] Porém, há alguns fatores que a maioria dos ex (ou atuais) soviéticos deixam escapar que você talvez não saiba:
Se um russo começar a ser amigável com o que você diz e faz quando mesmo se demonstrava contrário a elas, (e vice versa) desconfie e se afaste imediatamente, isso é um sinal de um planejamento para ataques futuros.”
Obviamente, Amélia não tinha chegado nem perto de ler todos aqueles livros, mas ela sabia que todas as leituras superficiais que havia feito enquanto seus superiores discutiam (seriamente) a existência de alienígenas serviriam pra alguma coisa, Deus abençoe a América! Deus abençoe as leituras “obrigatórias” para o treinamento da CIA!
Com o conhecimento de que agora estava sob o planejamento de um ataque, Amélia tinha que dobrar o seu cuidado consigo mesma e os seus companheiros.
- Alice, eu preciso falar com você.
A britânica limpava seus óculos quando ouviu o chamado de Amélia, o que fez seu rosto quase que automaticamente se contorcer. Quando se está a anos tendo ideias geniais que metade do mundo não compreende a magnitude, é natural que seus aliados não aguentem mais aguentar tanta superioridade intelectual.
- Se você quer colocar mais tarifas no meu país, já disse que você precisa avisar isso pro meu chefe, não pra mim. - Alice tinha terminado sua tarefa, e agora com seus óculos limpos, ela arrumava sua coisas para sair do local.
- Não é sobre isso! É algo muito mais sério! - as mãos bronzeadas de Amélia agrediram a mesa com um tapa estrondoso, fazendo Kirkland derrubar o copo de café que agarrava em sua mal direita. - estou sendo ameaçada de morte, acho que uma guerra pode colapsar a qualquer momento.
- Amelia, não tenho tempo pra você hoje. - estressada pelo seu sapato cor de creme arruinado, tatuou uma expressão de desprezo em suas feições e se retirou de vez do local, ignorando totalmente os apelos de Amélia para que ficasse. Mas não é como se ela precisasse de uma mulher do sotaque esquisito e com tendências esquizofrênicas.
Porém, quando tentou avisar suas outras companheiras, as respostas não pareciam ter tão diferentes.
-Mon amour, pode me contar sobre suas paranóias em outra hora?
Françoise declarou em falsa preocupação.
-Me deixe em paz, aru!
Wang Qiuyan gritou.
-Amelia, quantas vezes eu preciso dizer…
Medalaine falou e continuou, mas Amélia não prestou atenção.
Ser uma heroína às vezes não era uma tarefa fácil, identificar o problema antes mesmo dele existir oficialmente era uma habilidade amaldiçoada de Amélia, do que adiantava ter o poder de salvar milhões se não consegue usá-lo? Qual a dificuldade de ouvir quando ela falava?! Merda!
Quando estava em seu caminho para avisar seu chefe de uma possível invasão russa em território norte americano, a luz artificial da sala foi tampada de sua visão por uma figura alta e larga, sua presença causando calafrios antes mesmo de ser identificada: era Anya.
-Privet, Amélia. - a sombra que a luz formava impossibilita uma visão melhor do rosto de Anya, mas Amélia pode jurar que viu a própria morte nos lábios sorridentes da russa, seus olhos fechados provavelmente escondiam todos os segredos de como realizar um desmembramento humano corretamente. - Posso perguntar o que aconteceu na reunião mais cedo? Parecia tão atenta em mim, você quer me perguntar algo?
“Como lidar com russos: Modus operandi (VOL.2)”
Oitavo capítulo, página 385:
“[...] Nunca espie um russo sem a supervisão de um oficial da CIA. Seus genes evoluíram ao passar dos anos, criando assim uma habilidade de percepção sobre humana: não importa aonde esteja ou como observe, eles sempre saberão aonde você está e o que está fazendo.”
Amélia só se lembrava dessa parte do livro pois um dos seus superiores a fez copiar aquela parte 10 vezes, como punição por olhar demais para Anya durante reuniões diplomáticas.
Ela sentia como se fosse vomitar, o que faria agora? Seu chefe estava a alguns metros de distância, todos os representantes dos EUA já estavam atrás daquela porta de madeira a muito tempo, Amélia não tinha cobertura e nem uma chance de escapar, só lhe restava uma alternativa: encarar o perigo frente a frente.
- Você não tem o direito de iniciar uma guerra por algo tão pequeno! Principalmente comigo!
Uma emoção humana deixou sua marca em Anya (provavelmente) pela primeira vez em sua existência, a russa pareceu tentar raciocinar a frase que chegará em seus ouvidos por alguns segundos antes de responder.
- Eu não faço ideia do que está falando.
A americana agora estava irritada, como Anya tinha coragem de lhe stalkear, mandar inúmeros alertas vermelhos claramente indicando perigo, e depois agir como se nada tivesse acontecido?! Até pra alguém tão sínica como a russa à sua frente, isso era golpe baixo.
- Saiba que eu estudei minuciosamente o comportamento de vocês russos, e pela honra e glória dos estados unidos da América, não deixarei você e nem o seu chefe pensarem que podem simplesmente iniciar um conflito sempre que quiserem por qualquer motivo. Idai que eu te chamei de gorda?! Não deixa de ser a verdade!
Amélia parecia confiante antes de terminar sua frase, mas assim que as palavras deixaram seus lábios, seu coração pareceu começar a errar o ritmo das batidas. Os olhos de Anya se abriram pela primeira vez naquele diálogo, o sorriso macabro estampado em seu rosto pareceu fraquejar um pouco antes de voltar firme e aparentemente ainda mais forte
-Então é disso que eu estava me esquecendo… Katrina é tão estúpida, é claro que era algo importante! enquanto Amélia engolia seco, Anya colocava levava sua mão direita para parte traseira do seu vestido, revelando que ali escondia seu cano mágico. - Posso cuidar dela depois, parece que realmente temos algo a resolver, Amélia.
Toda a coragem da América havia abortado a missão “acabar com a russa” e suas pernas não tinham nada em mente além do desejo incontrolável de sair correndo dali.
E foi isso que ela fez.
Amélia, de um jeito nada super e muito menos heróico, se virou rapidamente e começou a correr da sala, deixando a Anya plantada ali, confusa. Ao chegar no seu chefe, a americana agarrou seu braço e começou a balbuciar coisas sem sentido, não deixando o homem nem começar a entender o que estava tentando sair da sua fala incompressível.
- Amélia, acalme-se. - seu superior lhe disse enquanto tirava o aperto da americana de si, logo limpando o local chorado sem ela perceber. - o que aconteceu? Não vou conseguir entender nada se você continuar engolindo as palavras!
- É Anya, a representante da Rússia! Ela tentou me matar!
Os olhos do homem escureceram, suas sobrancelhas quase se tornaram mono de tanta força exercida para uni-las.
- Você tem certeza?
- Absoluta, senhor. Ela tem seguido o método “manipulação para um ato de auto assassinato metafórico da nação e dos seus habitantes” previsto no livro “Como lidar com russos.”
Amélia não fazia ideia do por que essas palavras tinham sido colocadas juntas e daquela maneira, e o autor do livro provavelmente também não.
Seu chefe fez um aceno de cabeça para os homens que o acompanhavam, automaticamente os fazendo sair do local. Em um último aviso, ele posicionou sua mão no ombro de Amélia e disse em um tom sério:
- É melhor ter certeza do que está dizendo.
.. 🇷🇺 ..
- Sabe o quão difícil foi convencer aquele gordo de que o governo russo não está planejando invadir o território norte americano? - o chefe de Anya diz enquanto se aproximava - você precisa ser mais responsável com o que fala e faz, você já viu que pode trazer problemas para nós.
Os lábios de Anya pareciam ter dobrado de tamanho, ela segurava seu cano mágico delicadamente quando se virou lentamente pro seu chefe.
-Só queria que ela soubesse que meu corpo é feito de músculos, não de gordura…
