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A balada de Izuku e Katsuki

Summary:

Em qualquer universo ou linha do tempo. Katsuki e Izuku. Sempre os dois, sempre apaixonados.

Coleção de one-shots para eventos BakuDeku

1. Canon, Pro-Heroes
2. Deuses (Deus da Natureza! Izuku, Deus da Guera! Katsuki)
3. Mermay (Tristão!Katsuki)
4. Retelling (Popocatepeti e Iztaccihuat)

Notes:

Sinopse: Izuku está sentado ali, na porta, seis meses após ter saído em uma missão. Mais uma vez, ele está de volta, com um sorriso cansado e um "não queria perder seu aniversário" nos lábios.

Chapter 1: Tsuname

Chapter Text

O furacão de uma escala descomunal  
Crescido em sua própria arrogância  
Fez uma volta em espiral  
E esse furacão, com a luz de luas geladas  
A mil metros do chão  
Mal percebeu que devastou sob o vulcão  

Sob o Vulcão, *Love of Lesbian*  

---

Se Kaminari cantasse "Parabéns pra você" novamente com aquele inglês ruim e sotaque estranho, Katsuki jura que mataria alguém. Claro que os idiotas tentaram segurá-lo por mais tempo. Não era comum a maioria conseguir a tarde livre no mesmo dia. Mas ele não cedeu. "Já está quase na hora de dormir", foi o suficiente para Mina finalmente entregar seu presente. Era um presente bom. Conseguiram várias fotografias da época em que estavam em UA, a maioria tirada nos dormitórios. Recortes. "Não queremos que um dia você se esqueça da gente", disse Mina. "Izuku comentou que vocês quase não têm fotos." Ele nunca admitiria em voz alta, mas achou um presente realmente bom.  

Passou o cartão na entrada do prédio onde morava. Tecnologia demais, interação humana de menos. Ainda assim, todos sabiam que era Dynamight — o cabelo e os olhos eram inconfundíveis. Adolescentes o paravam nas ruas constantemente para pedir autógrafos; as garotas gritavam e faziam o mesmo. Às vezes, ele só queria um momento de paz. Não era herói pela fama ou pelo dinheiro. Inferno, nem mesmo pelas razões que o motivavam no ensino médio.  

Pegou o elevador, e, ao chegar no décimo andar, deu de cara com ele. Sentado no chão como um cachorro abandonado, a cabeça meio apoiada nos joelhos. Vestia o uniforme de herói, com algumas rasgaduras. Certamente precisaria consertá-lo. Parecia estar dormindo, mas ergueu a cabeça ao ouvir o som do elevador. A máscara do traje deslizou de sua cabeça com o movimento, revelando os cachos verdes indomáveis, ainda molhados pela chuva. Um sorriso cansado surgiu em seus lábios, deixando Katsuki paralisado, incapaz de reagir. Os olhos verdes estavam fixos nele.  

— Feliz aniversário, Kacchan — disse Izuku, com um suspiro exausto. — Tive medo de não chegar a tempo.  

Aquele era Izuku Midoriya, seis meses infiltrado em uma rede de vilões.  

Katsuki aproximou-se com cuidado. Izuku nunca fora bom em voltar à realidade depois de passar tanto tempo no meio do caos.  

— Suas chaves?  

— Perdi — admitiu, apertando uma mão contra a outra. — E... — engoliu seco. — Também não trouxe um presente, Kacchan.  

"Não ligo", pensou Katsuki.  

— Levanta.  

Ele abriu a porta. Continha a respiração, sentindo-se em um sonho. Deixou Izuku entrar primeiro, ainda segurando o presente de Mina. Virou-se para fechar a porta, mas foi surpreendido quando Izuku o abraçou por trás, um verdadeiro traidor. Naquele momento, Katsuki esqueceu como se respirava.  

— Você está bem? — perguntou, mal conseguindo girar a chave na fechadura.  

— Eu preciso de você. — A voz de Izuku soou desesperada, diferente, como sempre acontecia após missões desse tipo. A cada vez, Katsuki achava que finalmente aprenderiam a lidar com o tempo separados, e a cada vez percebia que isso nunca aconteceria. — Kacchan.  

— Não foi isso que perguntei.  

Ele conteve o impulso de virar e beijá-lo ali mesmo. Precisava se controlar.  

— Mhm. — Foi tudo o que Izuku conseguiu murmurar, seguido de um suspiro. — Não precisei ir ao hospital, mas acho que tenho um corte no peito... talvez devesse limpá-lo.  

Isso o deixou em alerta. Ele afastou os braços de Izuku, mesmo relutante em perder o contato. O instinto de preservação de Izuku era inexistente, e ele só se preocupava em manter-se vivo o suficiente para continuar trabalhando. Era sempre sobre o trabalho. Katsuki não o culpava, já que também era um viciado no que fazia. Mas, de vez em quando, precisava lembrá-lo que, se ele estivesse ferido, não poderiam fazer outras coisas. Toda vez que dizia isso, Izuku apenas ria. "Kacchan", dizia, entre risadas.  

— Vamos pegar o kit de primeiros socorros. — Katsuki o puxou para o quarto sem rodeios, fazendo-o sentar ao lado da mesa de cabeceira. Pegou o kit de emergência e o colocou nas mãos de Izuku. — Espera, vou buscar água.  

— Mhm.

Monossilábico, ele está. Isso é raro em seu parceiro, pensa Katsuki. Mas ele não questiona muito. Procura qualquer bacia e a enche com água. Também abre o armário do banheiro apenas para pegar um pano; por precaução, diz a si mesmo. Volta para a cama e encontra Izuku exatamente como o deixou, mal tinha aberto o armário. Ele morde a língua para não chamá-lo de inútil; Katsuki sabe que passar seis meses entre vilões é algo horrível, que mantém o instinto de sobrevivência sempre ligado.  

—Me dá as coisas —pede, e Izuku as entrega—. Onde você disse que está o corte?  

Izuku aponta para o local onde o traje está rasgado.  

—Havia um vilão que podia transformar os dedos em facas. Interessante, na verdade —murmura—. É o único corte —acrescenta—; nenhum mais. —Sorri, mas não é um sorriso genuinamente feliz. Katsuki, ao encará-lo, percebe as olheiras em todo o seu esplendor—. Você sempre ameaçava me arrastar para o inferno se eu não voltasse ileso. Isso conta...?  

—Acho que sim.  

Katsuki começa a relaxar ao ouvi-lo falar um pouco mais. Estende as mãos até o pescoço dele para remover a parte da capa do traje e também a peça que cobre o rosto. Izuku se inclina levemente para facilitar a movimentação. Katsuki coloca a peça de lado, meio jogada na cama, e depois suas mãos se movem para o zíper do traje. Izuku sequer tenta desabotoá-lo sozinho. Age como se isso fosse esperado, do mesmo modo que Katsuki espera quando é Deku quem puxa a parte superior de seu traje ou o ajuda a remover as proteções dos braços. É uma coreografia aprendida, e a delicadeza nas mãos de Katsuki é algo que não existe fora do espaço que compartilham.  

—Talvez eu devesse ter sido mais cuidadoso —admite Izuku. Katsuki finalmente vê o corte: nem é muito profundo, nem problemático. Limpar, cobrir com uma gaze, pronto—. Não queria perder seu aniversário, Kacchan.  

"Não importa", quer dizer Katsuki.  

É verdade. Sua vocação —não trabalho— sempre esteve acima de aniversários, jantares, compromissos, visitas familiares. Ser heróis, vencer e salvar, já os arrastou incontáveis vezes para longe um do outro, de seus amigos, de suas famílias.  

—Esse não —continua Izuku, incansável, enquanto Katsuki limpa o ferimento.  

Katsuki aperta os lábios. Que resposta Izuku espera? Ou será que espera alguma? Ele não tem nenhuma. Nunca foi relevante comemorar aniversários, apesar do que os outros dizem. Passar mais um ano no mundo. Poderia dizer que não importa e aliviar o peso da situação. Pelo menos isso faria Izuku parar de se preocupar. Mas seria uma mentira, e ele prometeu há muito tempo que nunca faltaria com a verdade, custasse o que custasse. Prefere deixar as palavras de Izuku sem resposta.  

A verdade: toda vez que não estão juntos, ele sente falta.  

Outra verdade: todo o tempo que passam longe um do outro o deixa miserável.  

Ele se pergunta onde Izuku está, se está comendo bem. Conjura cenários em que recebe ligações do hospital ou em que Izuku nunca volta.  

Mas não pode confessar isso, só o faria sentir-se culpado. Então ele apenas limpa o corte, faz o curativo e o cobre com gaze e esparadrapo. Izuku finalmente fica em silêncio. Esse silêncio é estranho, quase antinatural, mas acontece sempre após uma missão longa. Izuku fica pensativo, e horas se passam até ele começar a destrinchar as singularidades dos vilões que enfrentou ou a contar a Katsuki quais heróis trabalharam com ele. Primeiro parece reflexivo, muito mais contemplativo.  

—A Mina organizou um jantar. Ramen. Tinha ramen apimentado —diz Katsuki, tentando preencher o silêncio, apenas para que Izuku se lembre de que não está sozinho—. Não estava ruim.  

Izuku assente e sorri.  

—Todos foram?  

—A Jirou não teve folga —responde Katsuki. Do resto, os de sempre, apenas. Incluindo Shouto, que pediu soba, como sempre.  

Izuku assente novamente.  

—Eu não queria perder seu aniversário, Kacchan —murmura.  

Ele aperta a mão, nervoso. No gesto, Katsuki percebe uma estranha aflição. Izuku abre e fecha a mão lentamente, repetindo o movimento. Katsuki só quer fazê-lo parar, então entrelaça seus dedos com os dele.  

—Você não perdeu nada, idiota —diz.  

Izuku sorri.  

—Fico feliz por ter chegado a tempo.  

Ele ergue a mão que Katsuki não segurava e coloca dois dedos sob sua bochecha, obrigando-o a levantar o rosto e olhar nos seus olhos. Katsuki não tem escolha senão se perder naqueles olhos verdes que enxergam demais.  

—Você sentiu minha falta?  

Katsuki faz um gesto, nada mais. Ele tenta esboçar um meio sorriso, mas o que sai é apenas uma careta. Para quê Izuku está perguntando isso, se já sabe que Katsuki não consegue viver sem ele? A primeira vez que realmente o deixou para trás foi um inferno, gritando até ficar com a garganta seca para o vazio. Para quê insistir nesse suplício, se Izuku já sabe que Katsuki não consegue dormir direito sem o peso de seu corpo sobre o colchão? Mas, mesmo assim, ele pergunta. Parece querer a confirmação de que Katsuki é "seu", não como posse, mas como entrega.  

— Izuku...  

— Kacchan, por favor — implora uma resposta.  

Katsuki engole seco, porque Izuku sabe. Ele sabe. Sabe como suas mãos, seus lábios e seu corpo fazem Katsuki reagir, mas mesmo assim espera ouvir o "sim".  

— Izuku, você já sabe.  

"Claro que sim."  

Izuku encurta a distância entre eles. Sua mão, que antes estava no queixo de Katsuki, desliza para seu pescoço, não lhe dando tempo de reagir antes de ser beijado. Pode-se imaginar que Izuku beija com delicadeza, mas, na verdade, ele sempre faz isso com uma intensidade feroz, como se fosse o último beijo que eles pudessem trocar. Katsuki devora seus lábios e se agarra a ele. Talvez essa incapacidade de ficarem afastados seja algo ruim. Talvez. Talvez seja apenas desespero disfarçado de saudade, talvez seja medo de morrer longe um do outro, talvez seja apenas o amor entre duas pessoas. Os gestos de ambos sempre estão cheios de "talvez".  

— Também senti sua falta, Kacchan. Você não imagina o quanto... — Izuku solta a mão de Katsuki e envolve sua cintura, puxando-o para mais perto.  

Em momentos assim, Katsuki se lembra de como Izuku é mais forte que ele, pura força bruta. Ele não fica muito atrás, mas Izuku tem aquela peculiaridade idiota e músculos escondidos debaixo de camisetas e moletons simples, que tornam difícil adivinhar o corpo de um herói. E, apesar de ser alguns centímetros mais baixo, quando Izuku está por cima, prendendo suas mãos para que não escape com uma explosão, Katsuki sabe que perdeu.  

E assim ele termina, de novo, sem lutar muito: deitado na cama, com Izuku sobre ele.  

— Feliz aniversário, Kacchan — murmura Izuku.  

A partir daí, o tempo começa a desaparecer.  

***

Izuku tem o horário de sono completamente bagunçado. Ele ainda está acordado de madrugada, e, como consequência, arrasta Katsuki com ele. Primeiro, porque, depois de beijá-lo em todos os lugares que quis, morder suas coxas, tirar peça por peça de sua roupa e ouvi-lo gemer seu nome, soltou um "estou com fome, Kacchan", ao qual Katsuki só conseguiu responder com um grunhido.  

Demorou um tempo para criar ânimo de se levantar e, ao invés de arrastar Izuku para a cozinha, Katsuki o levou ao banheiro, porque os dois precisavam de um banho — especialmente Izuku, que tinha chegado coberto de sujeira de uma missão. Katsuki planejava apenas tomar um banho, nada mais, mas, se acabou de joelhos, não foi culpa dele; foi inteiramente culpa de Izuku, de seu corpo e de seu sorriso de criança inocente que parecia quebrar tudo ao redor.  

E agora, já passa da uma da manhã, e Katsuki está na cozinha, preparando katsudon para Izuku.  

Não é exatamente o horário mais apropriado para comer katsudon, mas é a comida favorita de Izuku. Ele acabou de voltar de uma missão, e Katsuki não vai questionar suas escolhas naquele momento.  

Não é como se Katsuki não soubesse cozinhar, mas cozinhar para o outro era uma tradição que tinham quando ainda estavam tentando afastar a mente de missões longas.  

— Aqui. — Katsuki coloca o prato de katsudon na frente de Izuku e estende os hashis. — Come devagar. — Avisa, porque os olhos de Izuku para o prato eram puro amor.  

— Obrigado pela comida, Kacchan! — Izuku sorri antes de mergulhar os hashis no prato.  

Katsuki o observa comer em silêncio, sentado à sua frente.  

— Não vai comer nada, Kacchan?  

— Eu comi em um horário decente, Izuku — responde secamente.  

— Hum, talvez você quisesse um bolo.  

— Você sabe que eu não sou muito fã de doces.  

— Mas eu pensei... — Izuku engole mais uma garfada antes de continuar. Ele não tem os melhores modos à mesa, mas Katsuki não vai corrigi-lo agora, não a essa hora, não naquele momento. — Perto de onde eu estava trabalhando, tinha uma loja. Às vezes eu passava por lá. A senhora fazia um bolinho de chocolate com chocolate amargo e pouco doce, decorado com trufa. Era bom. Também tinha uma torta de frutas vermelhas, deliciosa. Não era muito doce. Eu pensei que, se hoje terminasse cedo, conseguiria passar lá. — Izuku dá outra mordida. Katsuki espera pacientemente ele terminar. — Quando cheguei, já estava fechado e... pensei que Kacchan merecia ao menos um bolo, mas...  

— Não se preocupe, nerd.  

Algo o deixa inquieto, e Katsuki não entende completamente o que é. Talvez seja algo relacionado a eles dois, pela forma como Izuku o beijou antes.  

— Não queria perder o seu aniversário, Kacchan.  

E lá está novamente, a repetição inevitável. O que tem de tão importante neste dia? Desde que Katsuki se lembra, sempre foi apenas mais um dia de escola ou trabalho.  

Ele bufa.  

— Você está aqui, não está perdendo nada — dispara. — Come.  

Ele não sabe para onde aquela conversa está indo. Parece ter palavras demais para não falar realmente de nada, girando em círculos inúteis. A inutilidade da vida doméstica, das frases desgastadas e repetidas até perderem todo o sentido. Izuku obedece, pegando a comida, pedaço por pedaço. Ele não come rápido demais, nem devagar demais, como se realmente estivesse aproveitando cada mordida. Passa algum tempo até que ele afaste o prato para o lado.  

— Na última missão — começa Izuku — havia estagiários. Um pouco como nós.  

— Um pouco?  

— Hum. Diferentes — esclarece. — Apenas um pouco parecidos. Nos sonhos e essas coisas. Não me lembro de termos chegado ao terceiro ano… assim.  

Katsuki solta um bufido.  

"Terceiro ano."  

Ele quer responder, jogar na cara de Izuku seu primeiro abandono, talvez o mais doloroso. Mas seria injusto. O tempo passa e todas as ausências vão se acumulando umas sobre as outras. Katsuki sabe que está apenas sensível depois de todo o tempo que Izuku passou fora e agora quer arrastá-los de volta à rotina em que ele reclama de tudo e Izuku sorri, pendurando-se em seu pescoço enquanto ignora todas as queixas. Um cotidiano em que Izuku murmura seus pensamentos e análises o tempo todo, até cair nesses silêncios reflexivos, típicos das missões difíceis.  

— Não, definitivamente não.  

— Não há mais Liga dos Vilões, Kacchan — comenta Izuku. — Às vezes, é difícil acreditar. É… diferente. Um mundo mais… — Ele balança a cabeça.  

É raro Izuku não encontrar palavras para descrever a sensação que o mundo que ajudaram a moldar provoca. Um mundo onde o sistema desabou em suas mãos: os heróis que desistiram ao perceber que o trabalho não era apenas fama e glamour; os que morreram; os memoriais; os erros; a corrupção da Comissão; toda a farsa construída em torno da figura dos heróis, esquecendo que eram humanos — e nem mesmo a UA os obrigou a fazer terapia, apesar dos recursos disponíveis. Heróis podiam se despedaçar, não eram deuses onipotentes para serem usados por uma organização governamental sempre que conveniente.  

— Tanto faz. Aqueles estagiários me lembraram um pouco de como éramos. No primeiro ano. Especialmente antes do desastre.  

Katsuki assente.  

"Desastre." Um eufemismo para uma das incontáveis vezes em que sua vida foi despedaçada e eles tiveram que reconstruí-la.  

— Ah, estou feliz de estar de volta, Kacchan. — Izuku sorri, e o gesto chega aos olhos. — Eu realmente queria estar com você.  

— Meloso — acusa Katsuki.  

Mas ele não reclama. Também não lida bem com a ausência do outro.  

— Estive pensando em algo, além disso — começa Izuku. — Todo aquele tempo que passei infiltrado entre vilões. — Ele suspira. — Sabia que precisei pintar o cabelo duas vezes? Azul. Horrível, Kacchan. E as lentes de contato… — Ele balança a cabeça, indicando tudo o que não diz. Katsuki interpreta seus silêncios como um especialista. — Horrível. Sério. Eu não conseguia suportar, não parecia eu. Ainda bem que agora voltei a ser eu. — Izuku sorri novamente. — O tinte é daqueles que sai com uma substância especial e… Ah! Não era sobre isso que eu estava falando.  

Katsuki sorri de canto e escuta. Ele é especialmente bom em ouvir Izuku, mesmo que todos pensem que Katsuki Bakugo não presta atenção em nada. Ele presta atenção em Izuku desde que entraram no jardim de infância.  

— Disse que estava pensando um pouco. Em você, principalmente. Ah, é horrível ficar sozinho com seus pensamentos. Você se perde neles.  

— Como se você não se perdesse sempre, nerd — retruca Katsuki.  

— Você sabe do que estou falando, Kacchan — rebate Izuku, e Katsuki não tem escolha a não ser concordar. — Estive pensando. Pensei muitas vezes que não queria perder esta data. Na verdade, já ontem, mas… seu aniversário. Não sei, parecia especial na minha mente. Mais um ano. Essas coisas significativas. Mas também pensei em te dizer coisas melosas. Coisas como "quero passar o resto da minha vida com você" e "não quero que fiquemos separados nunca mais", mesmo que não seja verdade, porque somos heróis e o trabalho sempre se interpõe. — Há uma nota de frustração naquele "sempre" que Katsuki entende perfeitamente. — Fiz planos. Para onde te levaria? Que restaurante? Ou talvez passearíamos por Musutafu até algum lugar significativo. Será que aquele rio e aquele tronco ainda estão lá? Será que ainda há borboletas como as que tentávamos capturar naquela época? Ou talvez eu dissesse aqui mesmo e… Fiz muitos cenários.  

A única coisa que Katsuki consegue fazer naquele momento é encarar Izuku fixamente. Ele sempre fala demais.  

—Na verdade, sinto muito por não ter nenhum presente de aniversário —Izuku continua—; queria te dar algo, realmente queria. Seus presentes sempre são incríveis e eu nem tive tempo de comprar bolinhos ou algum doce. —Ele suspira. Katsuki não consegue dizer nada, pois sente que sua voz quebraria todos os vidros ao redor—. Também pensei se deveria, primeiro, visitar seus pais, Katsuki, e levar presentes para eles. Saquê, talvez, chocolates ou algum doce elegante. Não sei direito qual é o protocolo. —Izuku ri—. Meu Deus. Eu nem mesmo tenho… Não sei onde comprar… —As palavras ficam presas na garganta dele—. Talvez eu devesse me ajoelhar. Ou só em um joelho. Não sei. Apenas… —Ele estende as mãos, pousando-as na mesa e pedindo silenciosamente que Kacchan faça o mesmo. Katsuki não consegue resistir e permite que Izuku segure as suas com força—. Eu não tenho um anel, Kacchan, e isso não é exatamente um presente de aniversário. É mais um ato de desespero, porque quero me agarrar a você como…  

—Tsk.  

Kacchan solta um único bufar. Irritante.  

—Só pergunta logo, Izuku.  

"Como se eu fosse capaz de dizer não."  

—Katsuki Bakugo —diz Izuku, quase acariciando o nome dele com a entonação da voz—, você quer se casar comigo? Quero me agarrar a você com força —ele diz, sem dar tempo para Katsuki responder—; que não importe se um tsunami vier, desde que você seja a âncora que me mantém no mundo. Então, por favor…  

Izuku o encara com aqueles grandes olhos adoráveis, de cordeiro ferido. Katsuki, por pura piedade, decide acabar com as palavras e a incerteza.  

—Sim, idiota. Como diabos você acha que eu diria que não… —Ele rosna, balança a cabeça, frustrado—. Sim.  

***

Izuku tem uma pequena crise com os anéis, que termina sendo resolvida por Katsuki. Ele fala com Mei Hatsume, que promete criar dois anéis simples, mas resistentes à vida de heróis, para que possam usá-los pendurados no pescoço. Para Katsuki, o "sim", o "quero passar o resto da minha vida com você" e tudo o que isso significa são mais importantes que a simbologia, mas ele entende que, para Izuku, isso também tem seu valor.  

Enquanto Katsuki trabalha por dois dias seguidos, Izuku praticamente fica sozinho em casa, e o tédio o leva a inventar o que fazer: limpar closets já organizados, arrumar roupas por cor, tentar assar dois bolos que fracassam miseravelmente e, por fim, recorrer a Todoroki para aprender a famosa receita de mapo tofu que Katsuki adora. Ele também deixa os pisos brilhando e reorganiza seus cadernos pelo menos trinta vezes. Sem trabalho até segunda-feira, Izuku sente o tempo arrastando enquanto Katsuki, ocupado até o pescoço, não sabe se terá um momento de folga tão cedo.  

No sábado, finalmente juntos, Izuku convence Katsuki a visitar o bairro onde cresceram e sentar-se na mesa com os pais de Katsuki.  

Não é que Katsuki tenha uma relação ruim com eles, mas ele prefere ligar por telefone ou aparecer sem avisar —isso dá menos chances para Mitsuki reclamar de algo—, mantendo a dinâmica que existe desde sua adolescência. Reuniões familiares não são seu forte, mas Izuku quer muito, então lá está ele, diante do portão da casa onde cresceu, que pouco mudou desde então. Ele se prepara para o humor de Mitsuki e para as notícias que Izuku provavelmente vai soltar à mesa.  

"Podemos contar a eles, Kacchan?" Izuku perguntou na noite anterior.  

Katsuki rosnou. (Era um "sim", embora isso não significasse que ele mesmo diria algo de bom grado.)  

Ele bate à porta, e Mitsuki aparece em segundos, como se já estivesse esperando.  

—Moleque malcriado!  

—Não sou moleque, velha bruxa!  

—Não me chame de velha bruxa!  

—Pare de me chamar…!  

—Katsuki… Mitsuki…  

Masaru interrompe entre os dois, enquanto Izuku ainda está agradecendo ao motorista do táxi alguns passos atrás, garantindo que ninguém se mate antes dos aperitivos.  

Katsuki e Mitsuki teriam se esfaqueado em um ato de amor familiar estranho se Masaru não estivesse ali para lidar com ambos. Sua presença é quase sempre tranquila, silenciosa. Ele é a âncora que mantém a sanidade da família Bakugo.  

Quando Izuku finalmente se aproxima, Mitsuki abandona a briga e o enche de carinho, puxando a orelha de Katsuki em seguida, advertindo que, se ele não tratar Izuku como merece, vai se arrepender pelo resto da vida. Katsuki garante que ela não tenha motivo para se preocupar.

—Trouxemos saquê! —Katsuki estendeu uma garrafa, e atrás dela, com a outra mão, uma caixa—. E chocolates!

—Oh, veja, Masaru, são os seus favoritos!

—De nada, velha bruxa. 

—Com certeza você não escolheu nada disso, Katsuki!

—O que você sabe sobre o que eu escolhi, hein?!

—Que Izuku é muito mais detalhista e cuidadoso que você; nunca traz nada para o seu pai nem para você mesmo!

—Ah, claro, o sistema de vigilância que instalei na casa não conta como nada, né?!

—Estou falando de presentes sentimentais!

—Isso foi um presente sentimental da minha parte!

—Katsuki... Mitsuki...—A voz calma de Masaru impediu que aquilo se transformasse numa briga generalizada, pelo menos por enquanto. Ele fez espaço para que passassem para o hall de entrada—. Katsuki, parabéns, —lembrou—. Sua mãe comprou seu bolo favorito. 

Katsuki bufou de um jeito que poderia ser interpretado como gratidão eterna, e Masaru sorriu.  

—Entrem, entrem para a sala. —Mitsuki pegou os presentes de Izuku—. Inko não deve demorar. 

—Inko? Tia Inko? 

—Convidei-a, Katsuki! —retrucou a mãe—. Ela estava reclamando que vocês quase nunca vêm nos visitar, então achei que seria uma boa ideia...  

Katsuki ergueu uma sobrancelha e apenas assentiu. Virou-se para olhar Izuku, que tentava se esconder inutilmente atrás dele, com o rosto completamente vermelho. Ora, ele também não fazia ideia disso. Izuku estava nervoso, era óbvio pelo jeito como mexia nas mãos. Só por isso Katsuki decidiu se comportar. E enquanto seus pais se perdiam na cozinha, ele arrastou Izuku para a sala.  

—Ei.

—Kacchan?

—Para com essa besteira, meus pais te adoram.

Izuku ficou ainda mais vermelho e começou a balbuciar algo sobre não ter certeza se eles aprovariam a ideia de um casamento, porque talvez fossem jovens demais, talvez estivessem se apressando. Para Katsuki, tanto fazia. Já estavam juntos há anos. Ponto. Ele também ouviu Izuku dizer que talvez contar isso naquele almoço atrapalhasse seu aniversário e foi ali que Katsuki decidiu que já tinha ouvido o suficiente, interrompeu e disse que, de qualquer forma, seu aniversário não era tão importante. Era só mais um dia, nada demais.  

O último aniversário realmente especial de que se lembrava foi aos vinte anos, quando sua mãe o obrigou a usar um yukata que tinha escolhido especialmente para ele, e Izuku chegou atrasado, ainda usando o traje de herói, coberto de sujeira. Ele saiu assim em algumas fotos, até que Mitsuki o arrastou para dentro de casa e lhe deu um yukata verde-oliva, que Izuku ainda guardava. Depois disso, Izuku sempre perdeu seus aniversários, três anos seguidos. Um ano estava nos Estados Unidos; no seguinte, simplesmente não apareceu na reserva que Katsuki tinha feito para um almoço, e ele só descobriu depois que Izuku tinha se envolvido em um incidente com reféns que o manteve ocupado até altas horas da madrugada. No terceiro, Katsuki estava em Fukuoka enquanto Izuku estava em Hokkaido, ambos em missões completamente diferentes.  

—Ei, nerd.

—Kacchan?  

—Vai dar tudo certo.

Isso pareceu acalmá-lo. Izuku estava nervoso havia dois dias, andando de um lado para o outro no apartamento que dividiam, procurando qualquer coisa para ocupar as mãos.  

—Sim, Izuku.

—É só que... esses seis meses... não sei bem o que aconteceu. Estou apenas me atualizando agora.—Ele sorriu tristemente. Sempre era assim, especialmente com as missões perigosas. Katsuki se lembrou de quando o ouviu falando com a mãe para avisar que estava de volta. Todos aqueles "não se preocupe, mãe" tinham deixado marcas. "Nos vemos no sábado", ele disse, "Katsuki e eu vamos jantar". Bem, aparentemente agora também almoçar. —Os retornos são sempre complicados. —Suspirou, e por um momento o brilho em seus olhos pareceu desaparecer sob o peso de suas palavras.  

—Tsk. Vai ficar tudo bem.

A campainha tocou. Katsuki foi abrir a porta, porque seus pais ainda estavam na cozinha. Inko Midoriya estava na entrada.  

—Katsuki! 

Ela sorriu ao vê-lo.  

Inko Midoriya o assustava, e com razão. Sempre foi perspicaz o bastante para perceber as lágrimas de Izuku e como ele voltava infeliz depois de "brincar com Kacchan", especialmente após descobrir que não tinha uma individualidade. Ninguém perdoou tantas coisas em Katsuki quanto Izuku e sua mãe. Ele se lembrava do sorriso dela na primeira vez em que os viu juntos, quando ainda estavam tentando se acertar como amigos. E se lembrava, acima de tudo, de quando Izuku contou que estavam namorando, e Inko o chamou para ajudá-la na cozinha apenas para dizer que Izuku era a melhor coisa de sua vida e que, por isso, era dever de Katsuki cuidar dele e, acima de tudo, do coração dele. **"Nunca o machuque, Katsuki."** Um pedido, uma súplica, uma ameaça.  

— Tia Inko. — Ele a chama assim desde a primeira vez que a viu. — Ehm. Entre. Nerd! Sua mãe está aqui!  

— Oh, parabéns, Katsuki. Trouxe um presente. Tenho certeza de que vai gostar. — Ela lhe entrega uma pequena caixa que ainda está quente. Pães de arroz. Katsuki poderia derreter ali mesmo, porque os pães de arroz de Inko Midoriya são deliciosos.  

— Ehm. Obrigado. Obrigado mesmo… — Ele não consegue terminar de agradecê-la, porque alguém o interrompe.  

— Mamãe!  

Izuku quase se joga sobre ela. Katsuki os deixa à vontade e vai até a cozinha. Sua mãe está inspecionando o *mapo tofu*. Seu pai está ajudando com outra coisa.  

— Katsuki! Não invada a cozinha antes da hora! — reclama sua mãe. — A menos que vá dar ordens, claro, como a Sua Alteza Real Chef.  

Katsuki revira os olhos.  

— Tia Inko trouxe pães de arroz.  

— Oh, que gentil! — Mitsuki rapidamente pega a caixinha. — Vou servi-los junto com aquele bolo que você gosta, na sobremesa. E agora, fora! Vamos sair em um instante.  

Katsuki não tem escolha senão voltar para a sala, onde Izuku e sua mãe conversam animadamente. Seus pais logo se juntam a eles. Mitsuki pigarreia para chamar a atenção de todos e dizer que podem ir à sala de jantar, mas Izuku arregala os olhos, e Katsuki sabe que aquele é o momento. Se ele fugisse, talvez ninguém o alcançasse. Mas fugir seria covardia.  

— Na verdade, ehm, poderiam se sentar? Por favor? — pede Izuku. — Nós temos… Eu tenho… algo importante a dizer…  

Os Bakugo se sentam. Inko Midoriya também parece curiosa.  

Izuku abre e fecha a boca algumas vezes antes de começar.  

— É culpa minha, na verdade. Talvez eu devesse ter feito isso depois de pedir a bênção de vocês, mas não sabia como… — Ele pigarreia. — Com os nossos trabalhos… o trabalho do Kacchan e o meu, é difícil saber onde estaremos amanhã. O que será de nós. Tenho pensado nisso nos últimos seis meses. Por isso… me adiantei. Não quero mais perder nenhuma data importante e… sei que isso é impossível. — Ele procura a mão de Katsuki e a aperta. — Mas pelo menos quero ter a certeza… Não, quero que o mundo tenha a certeza de que eu realmente amo — e olha para ele ao dizer isso — o Kacchan. — O mundo está em silêncio, e Katsuki mal percebe que há mais pessoas ao redor deles. — Por isso… — Izuku pigarreia de novo. — Eu gostaria de me casar com ele. — Ele olha para os Bakugo. — Se nos derem sua bênção, é claro.  

O mundo explode ao redor deles.  

Katsuki mal sabe o que está acontecendo, porque Inko está chorando de felicidade — ameaçando inundar a sala de lágrimas —, sua mãe está puxando sua orelha enquanto diz que é melhor ele nunca partir o coração de Izuku, e Masaru simplesmente sorri ao observá-los. Ninguém diz as palavras que Izuku teme, as negativas, aquele “vocês são muito jovens” que paira sobre eles. A sensação deve ser parecida com um tsunami, porque Katsuki sente a correnteza arrastá-lo sem piedade; ao menos, ele está agarrado a Izuku.  

Caramba. Seu aniversário de 24 anos foi bom.  

*“Feliz aniversário, Katsuki”*, ele diz para si mesmo.  

Talvez, no próximo ano, aos 25, ele e Izuku já tenham passado pelo altar.