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awkward encounter

Summary:

Juntae tinha um esconderijo no colégio que ele utilizava para fugir dos valentões e, consequentemente, respirar sempre que os dias eram sufocantes. Contudo, hoje, seu lugar favorito estava ocupado por um desconhecido peculiar, dono de um contorno presunçoso e único.

Notes:

essa história faz parte da flufftober criada pela comunidade dos gotae do twitter (link).
meu objetivo é tentar seguir o fluxo e postar todos os dias, mas não prometo nada, até porque a intenção aqui é apenas de diversão!

♡ 1st prompt — 𝗺𝗲𝗲𝘁-𝗰𝘂𝘁𝗲 .ᐟ

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:


 

Todo mundo tem um lugar nesse mundo gigantesco onde se sente seguro e confortável, não importa onde ou como ele é. Pode ser sua biblioteca favorita, ou aquele castelo de almofadas que construímos quando pequenos — não existem limitações, até porque, no final, só você sabe como esse espaço pode te tranquilizar. 

Para Juntae, esse lugar era a sala de música abandonada do colégio de Eunjang. O espaço não era o maior ou o mais arrumado de todos, mas, para um nerd constantemente intimidado pelos mimados ricaços da instituição, era aconchegativo o suficiente para ele o visitar todos os dias. 

Era tranquilo, distante do edifício principal e com fraco sinal de internet, proporcionando um intervalo ao seu telefone que parecia tão cansado quanto ele mesmo. 

A manhã de hoje não havia sido diferentes das anteriores, onde Seo ficou correndo de um lado para o outro com as mãos cheias de guloseimas enjoativas e os bolsos carregados de maços de cigarros baratos a pedido dos valentões do terceiro ano. Caso se atrasasse por um milésimo segundo, o que aconteceu, seria feito de chacota e saco de pancadas novamente, sendo jogado a chutes no chão da sala entupida de estudantes, que preferiam ignorar os arredores do que se intrometer feito herói, deixando um rastro de sangue e lágrimas acumuladas nos olhos pela extensão do piso branco.

Quando a tarde caiu e o período de aulas livres começou, Juntae sentiu que pôde respirar pela primeira vez naquela quinta-feira. Na sala, o garoto se mantinha sentado enquanto esperava a saída de todos do local, guardando seus pertences com uma precisão exata. 

Ao se preparar para sair, sentiu uma mão pesada no seu ombro o fazendo tremer em medo. Ele sabia quem era. 

— Espero que o de hoje não se repita amanhã, Juntae. — a voz de Hyoman era baixa e firme, tentando fingir simpatia com os olhos ameaçadores presos em Seo. — Seu cretino imundo, faça seu trabalho direito e não me enrole mais. Caso contrário, faço questão de fazer pior na próxima vez. — ele abaixou o rosto até a altura do ouvido de Juntae. — Você sabe que eu não tenho medo de exagerar, não é, Juntae? 

O pequeno jovem de óculos soluçou em terror, sentindo o mimado empurrar seu ombro com força enquanto saía acompanhado do seu rebanho de subordinados. Juntae não levantou o olhar, mas ele sentiu o último olhar pesado de Hyoman analisando seu contorno, verificando se seus membros ainda tremiam em pavor, checando se Seo ainda temia pelo amanhã. 

Quando a porta fechou com força, Juntae se permitiu, pela primeira vez hoje, respirar fundo, inspirando e expirando com tanta brutalidade que seus pulmões pareciam arder. Ele alcançou a bolsa pequena da mochila, retirando com desespero a bombinha de asma necessária em momentos assim. Desde que começou a ser alvo de Hyoman, sua asma havia piorado, fazendo a medicação ser precisa constantemente pelas horas que passava perto da fumaça branca e fedorenta que os valentões o faziam respirar. 

Assim que conseguiu se acalmar minimamente, o garoto arrumou a mochila nas costas e rumou firme até o prédio abandonado, ainda com os olhos marejados pelo esforço ao respirar e o pavor tremelicando nos seus ossos. 

A sala de música ficava na última porta do primeiro andar do edifício, virada para as traseiras infestadas de vegetação mal cuidada e iluminada pelo sol quente do entardecer.

A madeira velha rangeu quando Juntae empurrou a porta, anunciando sua chegada ao silêncio e à poeira que flutuava pela luz dourada. O garoto inspirou fundo, sentindo a pele ser invadida pelo calor do sol e o aconchego do espaço mal cuidado e familiar. 

Como apenas Juntae sabia que as salas por ali estavam destrancadas, o garoto esperou ver tudo dentro do “normal” — os instrumentos bagunçados, algumas almofadas empaturradas de algodão e poeira, a lousa suja e as janelas fechadas, deixando o barulho exterior fora do ambiente. Mas, pela primeira vez, havia algo diferente no seu pequeno esconderijo. Ou melhor, alguém. A figura estava sentada numa das almofadas grandes, encarando o vidro transparente com uma muleta debaixo do braço. A janela perto ao indivíduo estava aberta, deixando os piares dos pássaros e as conversas sem nexo do campo de futebol próximo ecoarem pelo ambiente. 

Seo pulou no assoalho velho, o susto grande o suficiente para estremecer a estrutura do lugar. 

— Q-Que- Quem é você? — ele gaguejou, alto e assustado, segurando a porta com força suficiente para deixar marcas. 

O desconhecido o encarou com os olhos cinzentos e curiosos, como se questionasse só com as íris o porquê aquele jovem tão pequeno parecia tão apavorado. 

— Ah, parece que não sou o único que vem aqui — ele murmurou com preguiça, tornando a encarar o exterior assim que o contorno de Juntae se tornou desinteressante. 

Ao contrário dele, que parecia despreocupado e relaxado, o coração de Seo batia freneticamente dentro do corpo, ameaçando escalar pela garganta. Estava ansioso e claramente apavorado, sentindo-se exposto àquele estranho que, subitamente, confessou frequentar o melhor esconderijo que Juntae já havia encontrado até hoje. 

Num impulso instigado pelo medo, o jovem fechou a porta atrás de si com força, chamando novamente a atenção daquele individuo de muletas que mal se esforçava para piscar. 

— Você… veio me intimidar também? — Juntae quebrou o silêncio com sua voz desajeitada e baixa. O outro precisou se esforçar para entender o que ele havia dito. 

— Do que você está falando? — ele respondeu, coçando a cabeça em dúvida. — Tá me achando com cara de valentão? 

Juntae caminhou lentamente pela madeira, tomando passos cautelosos enquanto analisava aquela figura peculiar de corpo atlético que persistia em encará-lo com confusão e incerteza. 

— J-Já vou avisando, se tentar qualquer gracinha comigo, e-eu… eu vou revidar! — Seo anunciou com as bochechas vermelhas em vergonha e os punhos fechados ao lado do corpo. 

O estudante ingeriu a ameaça sem firmeza e riu em seguida, inundando o silêncio desconfortável da sala com sua gargalhada agradável e calorosa. Seo soluçou no mesmo segundo, sendo inundado pelo rubor do vexame que havia acabado de passar. 

— P-Para de rir, seu e-estranho! — ele gaguejava, tentando intimidar a figura que ria sem parar. — M-Maldito… Do que você está rindo?!

Juntae abriu um bico nos lábios assim que a confiança se esvaiu por completo, entrelaçando os dedos com nervosismo em frente ao corpo enquanto o outro cessava o riso com uma tosse baixa. 

— Você é bem engraçado, né? Faz parte do clube de teatro? — o individuo perguntou, ajeitando a postura na grande almofada como se esperasse por uma resposta. 

Juntae arregalou os olhos e a boca em completa descrença, desacreditado com a questão daquele homem estranho. O outro notou e captou rapidamente a resposta que aguardava. 

— Eu realmente tenho cara de valentão? Ninguém nunca me disse isso. 

Seo tossiu em surpresa, ainda tinha o corpo preso no meio da sala, incapaz de se aproximar. E, mesmo consumido pelo medo de uma reviravolta assustadora, deixou escapar um comentário zombeteiro:

— Estou surpreso de que ninguém nunca te falou isso — ele sussurrou, convicto que o outro não escutaria. Mas, claro, ele ouviu tudo com uma clareza absurda. 

— Já está se esticando, hein, pulguinha. — o jovem rebateu, remexendo-se na almofada para começar a se levantar.

Dessa vez a espanto veio com força, fazendo Juntae se aproximar com o rosto indignado e um dedo acusador. 

Pulguinha? Eu tenho estatura média, seu idiota! — Seo disse com uma raiva adorável na voz, fazendo o jovem rir novamente enquanto ajustava a muleta na mão. Quando Juntae notou a clara e gigantesca diferença de altura entre eles, suavizou lentamente o dedo denunciante e fechou a boca, pressionando os lábios juntos. 

— Esse lugar é bem interessante para uma sala abandonada. Tem essas almofadas confortáveis, mas um pouco sujas, e esse armário de salgadinhos. — o estudante decidiu ignorar a vergonha estampada no rosto de Juntae e caminhou desajeitadamente até o móvel citado. 

Peraí — Seo interrompeu o outro, cerrando as sobrancelhas. —, é você que anda roubando meus lanches? Eu pensava que era algum rato! 

— Eu já vim aqui tantas vezes que realmente não sei como nunca nos cruzamos. Às vezes até esqueço minha mochila aqui, nunca notou? — o individuo perguntou ao abrir um saco de batatinhas fritas.

— Era sua?! 

— Você é sempre tapado assim? Como acha normal objetos surgirem assim do nada numa sala abandonada? 

Seo suspirou alto, deixando a mochila das costas caírem no chão num baque alto para se sentar no mesmo lugar em seguida. Sinceramente, estava tão exausto da manhã de hoje que não tinha mais energia para surpresas repentinas.

Sei lá. Sempre que venho aqui, estou ansioso ou estressado, então mal olho para os arredores. — de repente, a voz dele parecia cabisbaixa, fazendo o estudante o encarar curioso e se aproximar, tomando o mesmo lugar de antes. 

O corpo largo invadiu o calor de Juntae, roçando ligeiramente os ombros pela pequena aproximação entre os dois. Ele demorou para se ajeitar novamente na almofada, as mãos cheias não ajudavam. O rapaz tomou alguns segundos apenas para deixar Juntae respirar no silêncio, o analisando com cautela enquanto Seo abraçava o contorno dos seus joelhos, pressionando-os contra seu peito. 

— Qual seu nome? — ele quebrou o sossego, rindo leve ao ser atingido pelos olhos surpresos de Seo. — Demorei muito para fazer essa pergunta? Perdão. 

— Tudo bem, não importa. Me chamo Seo Juntae, pode me chamar só de Juntae se preferir. — o estudante balançou a cabeça, absorvendo o nome na mente. 

— Eu sou o Go Hyuntak, mas todo mundo me chama só de Gotak.

— Nunca te vi pelo colégio, Hyuntak. Você é novo?

O garoto pareceu sorrir minimamente, apertando a muleta pousada sob as pernas. 

— Eu fiquei ausente no ano passado por conta de uma lesão grave. Precisei ficar em repouso absoluto para tentar, pelo menos, voltar a andar. Mas… penso que nunca vou conseguir voltar a ser “normal” como antes. 

Juntae inspirou ao ouvir a resposta de Gotak, surpreso pela transparência repentina do jovem. O relato, mesmo pequeno, parecia carregado de história, como se poucos minutos conversando não fossem o suficiente para contar tudo o que aconteceu.

— Você é normal. — Juntae falou ao deitar a cabeça nos braços, encarando Hyuntak, que retornou o olhar. — O que tem de errado em precisar de uma muleta para andar? Tsc, aposto que quem te falou isso é um idiota mal-educado. 

Hyuntak ficou espantado pelo comentário do garoto, nunca tinha escutado tal coisa de alguém tão peculiar como Juntae. A sinceridade nas palavras e, principalmente, naquele insulto tão educado e delicado, fizeram Go se sentir, de alguma forma, aliviado por cruzar caminhos com Juntae. 

— Você até que é engraçadinho, né, pulguinha. — Hyuntak usou o apelido bobo novamente, apenas para ver aquela expressão indignada e engraçada no rosto pequeno de Seo. 

— Esquece o que falei, você é um total estranho! E idiota!

Gotak riu com a face emburrada de Seo entre os joelhos, carregando um bico na boca e um olhar não intimidante nas íris escuras. 

— Ok, eu paro! — Go cessou o riso e prensou os lábios, apontando para a bochecha de Juntae em seguida. — Tudo bem se eu perguntar o que aconteceu com seu rosto?

Seo pareceu surpreso ao ouvir a questão, talvez por ter se esquecido que estava com a face toda machucada. Por ser algo habitual, mal se lembrava da dor. 

— Ah, isso. Foi o maldito do Hyoman, ele vive me perseguindo desde que entrei pro colégio. 

— Não dói? 

— Sendo sincero, acho que já me acostumei. — ele tentou brincar, mas ao ver a expressão preocupada de Hyuntak, calou o riso. — Ok, é óbvio que dói, muito, mas… não tem o que eu fazer. Ele não sai do meu pé, mesmo eu falando com os professores. Por isso, a única escapatória que encontrei foi esse lugar. 

Gotak suspirou, não sabendo ao certo o que responder para consolar o garoto, nunca havia feito isso antes. Ao invés de palavras, esticou o pacote de batatas ao rapaz, oferecendo o lanche em silêncio e como forma de conforto. Juntae aceitou e agradeceu mentalmente por Hyuntak não ter forçado nenhum conselho genérico e sem sentido. 

Mais tarde, após um tempo trocando piadas toscas e assuntos bobos, o sossego reinou, fazendo os dois garotos imergirem nos próprios mundos, com Hyuntak enfiado no seu console portátil e Juntae num livro de exercícios de geografia. Contudo, à medida que o tempo passava e o silêncio se prolongava, uma perguntava martelava na mente de Gotak, fazendo-o remexer-se na almofada de algodão, tentando evitar incomodar o outro — no final, todo esforço não valeu a pena. 

— Juntae — chamou o nome sem dar ouvidos aos protestos da sua mente. —, você… vai continuar vindo aqui? — Hyuntak perguntou, o timbre receoso.

Juntae levantou os olhos do papel no segundo seguinte, observando a faceta apreensiva de Go. 

— Eu vou. — Seo respondeu e, para continuar, fechou o livro num baque silencioso. — Afinal, esse é o único lugar confortável e silencioso nessa escola barulhenta. — Antes de ameaçar voltar ao sossego, o garoto ajeitou sua posição no lugar, virando-se para Gotak com uma questão. — E… você? 

Hyuntak pausou o jogo e descansou o console nas próprias coxas, fitando o garoto de olhar baixo com um olhar pensativo. 

Não era uma má ideia, certo? No final, ganharia mais um amigo e um lugar para cochilar após o almoço. 

— Claro. Por que não? 

Inconscientemente, o peito dos dois apertou num calor desconhecido. Talvez pelo aconchego de ganhar um novo amigo, talvez pela felicidade de ter alguém para compartilhar segundos naquela sala empoeirada de música. 

É, talvez não era tão ruim ter alguém a mais no seu pequeno esconderijo. 

No final, o dia de hoje havia sido diferente dos anteriores. 

Notes:

obrigada por ler, espero que tenha gostado! ♡

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