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— Meu filho, venha cá.
Kiriya sempre reparava como a voz de seu pai diminuía alguns oitavos quando o chamava de “meu filho”. Era quase como se fosse um segredo.
Jamais com raiva, nem com qualquer emoção forte. Seu pai era mestre nisso. Mas Kiriya se perguntava se não havia outro motivo... especialmente porque estavam a sós.
Ele foi, e se sentou pacientemente, embora seu íntimo estivesse em tempestade.
— Lamento te dizer isso, mas a partir de hoje você usará roupas femininas.
Kiriya engoliu em seco. Não se orgulhava da sua demonstração de covardia mais cedo, quando fugiu que nem um rato. Até Kuina e Kanata, que nem andavam direito, tinham mais coragem do que ele. Então era isso, seu pai tinha vergonha dele?
— Não pense que é por causa do que aconteceu hoje – ele o surpreendeu, como se lesse seus pensamentos – Mas é por outro motivo. Um que você já conhece bem.
Então lhe explicou sobre a maldição que pesava sobre a família Ubuyashiki, e como por séculos os filhos homens era vestidos como mulheres, em uma tentativa de enganar a maldição. Não que isso tivesse funcionado, mas por mínima que fosse a chance de protege-los ao menos, enquanto eram crianças, isso seria feito. O próprio Kagaya Ubuyashiki tinha passado por isso.
— Então, Kiriya, espero que você compreenda. Por respeito a suas irmãs, use essas vestes com dignidade e sabedoria. Não se esqueça de que é pelo seu bem também.
Kiriya abaixou a cabeça, e murmurou uma resposta afirmativa. Apertou as mãos confuso, sem saber o que mais esperar. Foi quando sentiu a mão quente de seu pai sobre sua cabeça.
— E por favor, não fique se preocupando com o que aconteceu. Você ainda é muito jovem, é natural correr quando sente medo. Eu sei que você se esforçará daqui em diante para ter coragem, não tenho dúvidas disso. Um dia, você terá um papel muito importante a cumprir, e quero que pense apenas em se preparar para esse dia. Mas, até lá...
O tom da voz dele caiu de novo, como se realmente estivesse contando um segredo. Sentiu o corpo de seu pai se aproximar.
— Quero que esteja seguro, o máximo que puder. Você é meu filho precioso, sangue do meu sangue, e eu não o perderia por nada no mundo.
Kiriya se sentiu reconfortado, e o abraçou, enterrando o rosto nas vestes do pai. Seu pai não cheirava a doença. Naquela época, ela ainda não o havia consumido tanto, e ele ainda enxergava um pouco. Mas não era só por causa disso. O seu cheiro era de algo puro, límpido, porque era quem ele era. E continuaria a ser o cheiro dele durante muito tempo. Um cheiro de casa, que nunca se apagou na verdade.
Kiriya despertou daquela lembrança, tendo à sua frente de novo as milhares de folhas que tentavam dar conta do castelo infinito em um ritmo frenético. Desejou com força mais uma vez o colo de seu pai, mesmo que nunca mais pudesse tê-lo. Mas ele o ouvia.
“Você está indo muito bem”.
E sabia que estava pronto. Ele se preparou de corpo e alma para esse dia. Mesmo quando vacilasse, nem ele nem suas irmãs iriam cair. Ele era o Oyakata, e ele lideraria. Abriria o caminho sem medo.
Nós não vamos perder.
