Chapter Text
21 de setembro
O barulho dos passos ecoava entre os corredores do museu, misturando-se ao coração acelerado de Nirei. Sem pensar duas vezes, ele agarrou a mão de Suo e começou a correr.
As luzes amareladas refletiam nos quadros, transformando-os em apenas borrões que não conseguiam acompanhar a corrida. Nirei apertava a mão de Suo com força, quase sem perceber, o coração martelando em seu peito. Ele sabia que o outro não tinha nada a ver com aquilo, mas no calor do momento simplesmente não conseguiu largá-lo para trás.
— Nirei! — chamou Sakura, a voz carregada de preocupação. Foi só alguns segundos depois que ele entendeu o motivo da correria: figuras encapuzadas da gangue KEEL surgiam entre os corredores, avançando rapidamente. O capuz escondia seus rostos, mas não o suficiente para camuflar a hostilidade em cada passo firme.
Eles surgiram no museu como veneno, espalhando o desconforto pelo ar.
Nirei já havia desaparecido de vista, puxado para longe na direção oposta. Era evidente que ele era o alvo, cada movimento seu parecia ter chamado a atenção daqueles inimigos antes mesmo de perceberem o resto do grupo da Furin. Por sorte, os outros ainda permaneciam despercebidos. Lutar ali não era opção, não com a possibilidade de pôr em risco os idosos, crianças, qualquer um que estivesse apenas aproveitando um sábado qualquer.
Um som metálico cortou o ar, algo pequeno e pesado ricocheteou na parede e passou a poucos centímetros dos dois.
Um canivete? Nirei não teve tempo de verificar o que realmente era. Seu corpo se movia sozinho, instintivamente, mas a voz em sua mente soava tão alta quanto os passos atrás dele.
“O que eu faço? O que eu faço?!!”
[47 minutos antes]
— Sejam bem-vindos ao Museu de Artes de Makochi! — anunciou a guia, com um sorriso protocolado — Me chamo Aiko Nakamura e serei responsável pelo passeio de vocês. Aqui, terão a oportunidade de contemplar uma vasta coleção de obras e artefatos que retratam a história do Japão. Além disso, temos algumas pinturas ocidentais, como Van Gogh, Michelangelo, Boucher, entre outros! Fiquem à vontade para fazer perguntas durante a visita.
— Com licença… — interrompeu um garoto baixo de cabelo castanho, levantando a mão — Eu tenho uma dúvida: essas obras estrangeiras são originais ou apenas falsificações, já que não conseguiram trazer os originais para cá?
O guia riu, balançando levemente a cabeça. — Que coisa estranha de se perguntar! — disse, mantendo a máscara de bom humor, típico de quem lida com o público — Mas tudo bem, vamos seguir para o setor das estátuas de cera. Podem me acompanhar!
O salão ecoava com passos e conversas sussurradas, a maior parte vinda dos jovens, enquanto alguns idosos caminhavam lentamente, detendo-se de vez em quando para apreciar cada obra em seu passeio. Entre eles, Nirei e Sakura seguiam lado a lado, acompanhados por um pequeno grupinho de amigos. Era aniversário de Nirei, e a escolha do passeio pelo museu havia sido inteiramente dele. Um presente que refletia sua paixão pela pesquisa e pela arte. Ele caminhava com os olhos atentos, observando cada detalhe das pinturas, anotando em seu caderninho cada traço, cada informação que pudesse alimentar seu cérebro viciado em conhecimento e inspirar seus próprios desenhos.
— Você ouviu isso, Sakura? — o loiro encarou o amigo com um sorriso empolgado — Vamos ver obras internacionais!!
Nirei recebeu apenas um murmúrio como resposta.
— Uh...Você não parece muito animado.
— Do que adianta se eu não conheço nenhum desses... desses Mi... — Sakura corou enquanto se enrolava para falar os nomes que ouviu do guia — ...Mike...Gougui...
Nirei deu uma risadinha — Se pronuncia “Michelangelo” e “Van Gogh”. — ainda havia um sotaque japonês, mas era entendível. Ele fechou os olhos e ergueu um dedo como se fosse ditar algo poético — E você não precisa conhecer o artista para apreciar sua arte. — Sakura parou de andar. O passo dele sempre era firme, mas agora hesitou no meio do corredor, fazendo Nirei parar também.
— O que houve?
— Vem, vamos direto pra área desses caras. — se virou e começou a caminhar em direção oposta ao que o grupo guiado estava, como se uma ideia súbita tivesse tomado conta.
— O-o que? Espera! Sakura! — Nirei seguiu, encolhendo os ombros e diminuindo o tom de voz com receio de que fossem pegos — Assim vamos perder a explicação do guia...
— Entedioso. — respondeu sem sequer olhar pra trás.
O tom foi seco, mas não havia arrogância, apenas aquele jeito contido e impaciente que Nirei já conhecia bem. Sakura não era do tipo que falava muito, e quando se sentia deslocado, reagia se fechando. Aquele passeio com a turma era claramente fora da zona de conforto dele.
— Ei, você concordou de bom grado em passar meu aniversário no museu com o resto da nossa turma! — Nirei o lembrou — Aliás, você ao menos sabe o caminho até lá?
—...
—...
—... É só ler as placas. —respondeu por fim, dando de ombros — E esse lugar não parece tão grande de fora.
Nirei apenas suspirou e deixou-se ser guiado por alguém com pior senso de direção que ele. Não adiantaria discutir com uma cabeça dura como Sakura, afinal.
— Sakuraaa~ — resmungou Nirei, arrastando a última sílaba — a gente já passou por essas armaduras medievais três vezes! Estamos dando voltas no mesmo lugar!
— Eu nunca vi essas armaduras antes. — disse simplista, mãos escondidas nos bolsos da calça.
Nirei revirou os olhos, braços cruzados e uma sequência de batidas impacientes do tênis no chão. Sua expressão era uma mistura de incredulidade e impaciência, a frase “Você está falando sério?” estampada no seu rosto.
Sakura enfim admitiu derrota, relaxando os ombros — Tá bom. Você anda na frente agora.
— Ótimo. Vou nos levar de volta pro pessoal da Furin!
O loiro olhou de relance por cima do ombro e viu aquele semblante sereno, o olhar atento que, mesmo sem intenção, parecia sempre vigilante. Havia algo de bonito na maneira contida com que Sakura existia, um equilíbrio entre o embaraço e a lealdade, entre o desconforto e o cuidado. Ele não falava muito, mas quando falava, era porque realmente importava.
Enquanto caminhavam, o brilho das vitrines lançava reflexos sobre os dois, distorcendo suas figuras nos vidros como se fossem parte da exposição. Nirei, agora intitulado (por si mesmo) novo líder da dupla, caminhava um pouco na frente na esperança de ter um senso de direção melhor. Mas foi só quando tentou puxar assunto e recebeu o silêncio como resposta que percebeu a falta da presença do amigo.
— Sakura...? — olhou ao redor, não encontrando nenhum rosto conhecido — Sakura, se estiver se escondendo de mim de propósito só pra me assustar eu vou te bater, me ouviu?!
Sem nenhum sinal de um encrenqueiro com heterocromia por ali, Nirei vagou pelos corredores silenciosos do museu, os passos ecoando contra o piso de madeira. Ele olhava ao redor, buscando sinais de seus amigos, mas o labirinto de exposições e corredores parecia inacabável. As obras de arte nas paredes ofereciam vislumbres de outras épocas, outras realidades, mas nenhuma delas segurou seu olhar por mais que um segundo, até que ele se deparou com uma pintura que o fez parar abruptamente.
A obra pendurada diante dele era enorme, superando até mesmo sua própria altura. Nela retratava um jovem sentado em um campo de grama envolto de pequenas flores. Havia picos de montanhas distantes erguidas sob um céu reluzente em tons de azul. No entanto, foi o próprio rapaz que deixou Nirei absorto, quase como se um feitiço invisível o prendesse ali, tornando impossível desviar o olhar.
Os olhos atentos do loiro percorreram a figura com atenção. Ele tinha cabelos escuros e lisos que caiam suavemente até a nuca. Vestia um sobretudo preto, que contrastava fortemente com o ambiente florido. Um detalhe que logo capturou sua atenção foi o par de brincos de borla amarelos pendurados em uma esfera vermelha.
Nirei achou muito bonito.
Pelo ângulo o seu olho direito estava fora de vista, mas se observado atentamente, bem de pertinho, ele mantinha um semblante carregado de...tristeza. Havia algo silencioso, quase doloroso, na maneira como sua sobrancelha e seus lábios se curvavam, como se guardasse pensamentos que não podia compartilhar.
Nirei ficou ali, estático. O caos do museu e a ausência de Sakura desapareceram, deixando apenas ele e a pintura, conectados por um fio invisível de melancolia compartilhada. Por um momento, Nirei se permitiu esquecer suas preocupações, perdido na beleza da pintura.
Porém, como uma hipnose, o encanto foi quebrado quando Nirei escutou algumas vozes chamando pelo seu nome. Ele não sabia quanto tempo ficou ali parado, piscando algumas vezes sentindo os olhos um pouco secos antes de encarar o grupo que continha todos os seus amigos. Um garoto de cabelo rosa longo acenava para ele, enquanto um ruivo alto gritava por Nirei.
— Tsugeura, não pode gritar em um ambiente fechado! — Kiryu, de cabelo rosa, repreendeu.
— Ainda tô estranhando o fato de que não fomos expulsos daqui ainda. — comentou Kotoha, observando o grupo — Da última vez não levou nem cinco minutos.
— Daquela vez a culpa foi do Sakura. —resmungou Sugishita, cruzando os braços — Moleque todo impulsivo.
— Oi, ta querendo brigar? — Sakura retrucou de imediato, as orelhas ruborizadas, mas o olhar já faiscando para cima do outro.
Nirei piscou, despertando do próprio mundo e voltando à realidade. — Sakura! Então você tava aí! — exclamou, se aproximando rápido. O sorriso genuíno no rosto não impediu que ele desse um soquinho no braço do amigo, meio de bronca, meio de afeto, por tê-lo “abandonado” antes.
— Ficamos escondidos aqui pra te dar um sustinho — disse Kiryu, com um sorriso malicioso.
— Mas você ficou um tempão parado, e o grandão aqui —completou Anzai, apontando o queixo para Sugishita — cansou de esperar.
Foi então que sentiu um puxão em seu braço.
— Enfim, estamos indo para a coleção de espadas agora! — avisou Kiryu, arrancando-o de seus devaneios e arrastando-o junto ao resto do grupo.
Nirei lançou um último olhar à pintura, a imagem do jovem ainda gravada em sua mente. Ele se afastou relutantemente, seguindo seus amigos enquanto o guia já seguia alguns metros à frente.
O grupo avançou pelo corredor seguinte, e as conversas voltaram a ganhar ritmo. Entre provocações, risadas abafadas e os comentários animados de Kotoha e Tsugeura sobre cada vitrine que passavam, Nirei se deixava arrastar, ainda com a lembrança do quadro queimando em sua cabeça. Respirou fundo, tentando afastar o pensamento, mas a inquietação permaneceu.
“Não deixem de visitar a instalação interativa no final do corredor, onde vocês podem se....”
O guia conduzia todos para a sala seguinte, dedicada à coleção de facas, e isso parecia animar quase todos, exceto Nirei, cujo olhar parecia distante, mal ouvindo o que era dito. Minutos se passaram entre corredores e peças expostas, até que o fluxo do grupo os levou de volta à ala anterior. Foi então que Nirei parou no meio do caminho. Seu olhar buscou, quase sem perceber, a direção da pintura que antes o havia prendido. E lá estava ela, imóvel e silenciosa, como se o esperasse.
Enquanto os amigos se aglomeravam em torno de uma vitrine próxima, debatendo sobre algo que Nirei não se deu o trabalho de prestar atenção, ele se afastou devagar. Seus passos ecoaram mais baixos, cuidadosos, até que estivesse de novo diante do quadro. O coração bateu mais rápido, como se antecipasse o impossível.
Seus olhos se fixaram na tela, os dedos se encolhendo levemente, incapazes de se afastar. O tempo passou sem que percebesse. Segundos se estenderam em minutos enquanto algo no retrato o prendia, havia algo estranho, imperceptível à primeira vista, algo que fazia cada músculo de Nirei se tensionar sem que soubesse explicar.
— Algo te chamou atenção?
A voz cortou aquela névoa silenciosa, suave e curiosa, mas carregada de uma estranha serenidade que parecia equilibrar o turbilhão dentro de Nirei. Ele piscou algumas vezes, quase incapaz de reagir, e só então se voltou.
— Eu tenho quase certeza de que tinha uma pessoa nessa pintura da primeira vez que vi, mas...mas agora não está mais lá! — respondeu Nirei, ainda olhando fixamente para o quadro como se esperasse que a figura aparecesse de novo.
— Tem certeza? Acho que mais alguém notaria se uma pessoa simplesmente sumisse de uma das obras do museu. Seria uma grande violação com... — se inclinou levemente sobre o ombro do garoto loiro para ler o nome “desconhecido” escrito na pequena placa abaixo da pintura — ...com o autor, você não acha?
— É...você deve estar certo, eu vi tanta coisa hoje que devo estar confundindo. — coçou os olhos antes de se virar, ainda respirando devagar, como se tentasse recompor a mente. — Aliás, qual é o seu nome?
— Suo. — ele sorriu, olhos fechados, e o gesto parecia naturalmente harmonioso — Suo Hayato.
Assim que os olhos de Nirei encontraram o do outro garoto, o choque foi imediato. Diante dele, em carne e osso, estava quem Nirei procurava, exatamente como na pintura, mas ainda mais impressionante. Seu único olho amostra brilhava com uma intensidade vívida, as mechas do cabelo caiam de forma desordenada, mas curiosamente elegante, emoldurando seu rosto com uma precisão quase sobrenatural. Ali, na sua frente, estava um ser esculpido diretamente dos sonhos de um artista.
— E qual seria o seu?
Suas palavras flutuaram no ar por um momento. Sinceramente Nirei mal o ouviu, ainda tentando reconciliar a realidade e o que seu cérebro tentava pregar na sua mente. O semblante de Suo era de uma tranquilidade perturbadora, como se ele estivesse absolutamente à vontade, apesar da impossibilidade da situação.
Suo permaneceu ali, com um pequeno sorriso gentil enquanto observava Nirei com uma expressão de calma e curiosidade. O mundo externo, os amigos, o barulho do museu, tudo parecia irrelevante diante daquele instante que se alongava.
Então um arrepio percorreu-lhe a espinha. Nirei não sabia explicar se era instinto ou simples paranoia, mas quando ergueu os olhos, o sangue pareceu gelar em suas veias. Quatro figuras surgiram no fim do corredor. Encapuzados, as jaquetas brancas pesadas refletiam a luz artificial do museu, e, quando um dos braços se moveu, deixando à mostra parte de uma estampa azul, ele soube que não havia engano. Não precisava ver o desenho completo para saber que eram da KEEL.
O coração de Nirei disparou de imediato. Não era coincidência estarem ali, nem olharem só para ele. Só ele havia se afastado do grupo antes, e eles o conheciam. Seus amigos ainda não tinham sido notados, e era assim que precisava continuar se quisesse impedir que eles se machucassem.
O ar ficou mais curto em seus pulmões, a respiração irregular beirando o pânico. Se ficasse, colocaria todos em risco. Se corresse, talvez conseguisse puxar a atenção apenas para si. A única escolha possível: ser a isca. Sem pensar duas vezes, virou-se e arrancou em disparada pelo corredor lateral, em direção oposta de onde estavam os outros. Mas, no impulso, sua mão agarrou o braço de Suo, puxando-o junto com força. Não fazia sentido arrastá-lo para aquilo, afinal ele não tinha nada a ver com a Furin ou com a KEEL. Ainda assim, Nirei não conseguiu deixá-lo para trás.
Do outro lado da galeria, Kiryu franziu o cenho ao notar o movimento brusco. Por um instante, viu Nirei disparar pelo corredor, arrastando alguém junto. Rápido demais, urgente demais. Então, quatro figuras encapuzadas surgiram logo atrás, avançando na mesma direção. No momento em que viraram as costas, Kiryu teve visão clara da estampa nas jaquetas: um dragão esquelético, retorcido e ameaçador, ocupando todo o tecido branco das costas.
Kiryu sentiu o estômago afundar.
— Ai, porra... — murmurou, recuando um passo — aquele maluco da KEEL tá aqui!
O ar parecia denso, pesado demais para ser respirado. Nirei se esgueirava pelos corredores, o som dos próprios passos abafado pela adrenalina que zunia em seus ouvidos. O museu, antes um espaço de silêncio pacífico, agora parecia um labirinto hostil. As pinturas nas paredes os observavam em silêncio. Santos, demônios e mártires congelados em expressões que pareciam julgar o caos humano à sua frente.
A mão do rapaz ao seu lado continuava firme na sua, a pele fria contrastando com o calor que subia por suas veias. Ele não sabia por que ainda o mantinha junto, talvez fosse o medo, talvez um instinto cego de não querer estar sozinho naquele instante.
O contraste entre o caos de Nirei e a calma dele era quase desconcertante. Nirei respirava rápido, sua mão ainda agarrada à de Suo, quando de repente foi puxado de volta.
— Shhh! — Suo o prensou suavemente contra a parede, levando-o para um canto escuro atrás de uma pilastra. Antes que Nirei pudesse abrir a boca, a mão do rapaz se fechou sobre seus lábios.
O coração de Nirei disparou, não apenas pela fuga, mas pela estranha sensação daquela proximidade. O calor da pele de Suo queimava contra a sua, e por um instante o mundo pareceu se calar. O cheiro de tinta antiga e verniz no ar deu lugar apenas ao calor sufocante da proximidade. O rosto de Suo estava a centímetros do seu, as respirações se confundindo.
Nirei pôde notar, mesmo à meia-luz, cada detalhe do semblante à sua frente: as bochechas levemente coradas pela corrida contrastando na pele pálida, alguns fios do cabelo, escuros como vinho derramado sobre veludo, escorriam até os olhos. Olhos profundos e brilhantes. Havia neles algo que parecia pulsar entre o mistério e a ternura, não tinha nada de ameaçador naquele olhar. Pelo contrário, havia uma calma que desarmava, que parecia atravessar o tumulto e dizer, sem precisar de palavras, que tudo ficaria bem.
— Finja… que estamos nos beijando. — sussurrou Suo, baixo o suficiente para que só Nirei escutasse. O rosto dele estava tão perto que qualquer movimento bastaria para apagar a distância. Ainda assim, a mão não se afastava de sua boca, sustentando a encenação enquanto mantinha o cuidado silencioso que preservava o respeito entre eles.
O choque percorreu Nirei de cima a baixo, seus olhos arregalados em um instante de hesitação. Sem saber como reagir, instintivamente suas mãos buscaram o tecido da roupa de Suo, agarrando-o com força nas costas, como se aquele contato fosse a única âncora para não fraquejar.
O coração de Nirei batia mais forte do que nunca. Ele podia sentir o calor da palma de Suo em sua pele, o silêncio pesado só interrompido pelo som dos passos apressados que se aproximavam.
Duas, três sombras atravessaram o corredor, varrendo o ambiente como hienas farejando a presa, mas ao passarem pelo canto em que os dois estavam, só viram a silhueta de um casal enredado em intimidade. Um suspiro de desdém escapou de um deles antes de seguirem em frente, correndo, seus passos pesados ecoando até desaparecer.
O silêncio que se seguiu parecia mais denso do que o próprio ar. O perigo havia passado, mas Nirei ainda permanecia imóvel, a respiração curta, sentindo o peso das próprias mãos cravadas nas costas de Suo. Foi só quando percebeu que seus dedos tremiam que se obrigou a soltá-lo.
Eles se separaram devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse atrair de volta a atenção indesejada. O espaço entre os dois voltou a existir, mas não foi suficiente para dissipar o calor que ainda os envolvia. Nirei respirou fundo, fechando os olhos por um instante antes de soltá-lo completamente. Aos poucos, o coração começou a desacelerar, embora a estranha sensação de estar preso em algo maior que ele ainda o consumisse.
— Como você sabia que ia funcionar? — o loiro perguntou, sua voz carregando uma pontinha de incredulidade.
O outro garoto inclinou levemente a cabeça, os olhos escuros fixos nele, a expressão calma, quase divertida. — É simples — respondeu — Observações comportamentais mostram que a maioria das pessoas tende a evitar olhar quando presencia outro casal em um momento íntimo. É uma reação instintiva de desconforto, constrangimento ou até mesmo respeito. Mas, para ser sincero, acho que tivemos bastante sorte. — riu por fim, parecendo incrivelmente relaxado para alguém que estava sendo perseguido momentos antes.
Ainda assim, o corredor, antes ameaçador e carregado de tensão, parecia ter diminuído de tamanho, o ar mais respirável, como se a simples presença daquele garoto trouxesse uma estranha sensação de segurança.
— Me desculpa. — Nirei murmurou, desviando o olhar por um instante — Eu não devia ter te puxado. Você não tinha nada a ver com isso.
Suo inclinou levemente a cabeça, estudando-o em silêncio por alguns segundos. A respiração de ambos ainda estava acelerada, mas a calma na expressão dele contrastava com a culpa estampada no rosto de Nirei. Então, a pergunta veio, simples, mas firme:
— Quem eram aqueles caras?
Nirei hesitou, os lábios se entreabrindo sem que as palavras viessem de imediato. Mas não havia motivo para esconder. Baixou o olhar e respondeu num tom baixo:
— Eles são da KEEL, uma gangue de Senkan. Não são exatamente conhecidos por pegarem leve. — respirou fundo, tentando se recompor. — Eu… sou da Furin. Eles vivem arrumando encrenca com a gente, então assim que me viram vieram atrás de mim.
Ele encolheu os ombros, um gesto involuntário de quem carrega peso demais — Não queria que você tivesse se metido nisso, você poderia ter se machucado de verdade. Sinto muito.
Mas, ao contrário do que esperava, não havia reprovação em Suo. Apenas uma tranquilidade que parecia inabalável, quase impossível de se encontrar em alguém que, até poucos minutos atrás, nem deveria existir.
— Tem algo... tem algo que não ta fazendo sentido pra mim. — o loiro franziu a testa — Como você ta aqui? Digo, você estava naquela pintura, não estava? Era um retrato seu, com certeza!
— Acho que não posso mentir sobre isso pra você, não é? — Nirei já o encarava com olhos suplicantes. Suo deixou escapar um suspiro curto pela boca —É uma pequena longa história, te contarei tudo um dia. Mas o que posso te dizer agora é que sim, eu sou a pessoa da pintura que você viu antes.
—EU SABIA! — Nirei exclamou, se arrependendo imediatamente por ter sido tão alto. Ele diminuiu o tom, mas o brilho nos olhos denunciava a excitação — Eu sabia que não era só coisa da minha cabeça! E você estava tentando dizer que era, seu mentiroso!
— Desculpa, desculpa... — Suo ergueu as mãos em rendição, não perdendo o tom divertido — Eu não sou exatamente deste século. Fui amaldiçoado por alguém há muito tempo atrás, e desde então estou fadado a ser apenas parte de algo inanimado durante o ciclo de uma vida, e outra, e outra e outra. Repetidamente. — não era a resposta completa, mas irá servir por enquanto para Suo.
Houve um instante de silêncio. Nirei piscava, as mãos trêmulas, tentando processar cada palavra. Quem diabos fala algo tão tenebroso com tanta naturalidade?
— M-mas o que? Por quê? O que houve? — indaga — Quantos anos você tem?
— Dezessete. — Suo respondeu sem hesitar, mas seus olhos carregavam um peso misterioso.
— E por quanto tempo você tem dezessete? — Suo olhou para cima, contando mentalmente antes de responder, 2 segundos depois:
—Uns trezentos anos, arredondando. Já se passaram seis ciclos até então, mas ainda não consegui quebrar essa maldição.
Nirei engoliu em seco, o coração batendo rápido. Três séculos. Seis ciclos de vida humana, e ele ainda parecia apenas um garoto. E, ao mesmo tempo, havia algo na serenidade dele, no jeito que encarava o mundo, que fazia com que o impossível parecesse…quase normal.
—Pareço mais novo do que sou, não é? — Suo riu, mas dessa vez não pareceu genuíno como antes — Na realidade, passei a maior parte desse tempo como tinta em uma tela do que como uma pessoa de verdade. Então não posso dizer que vivi tudo isso.
Seu semblante carregava uma tristeza intransponível, como se cada gesto e cada palavra pesassem séculos. Nirei mal conseguia imaginar tudo o que Suo havia vivido. Era inacreditável… mais de trezentos anos de existência, mesmo que parte dele estivesse presa e inerte. Como alguém poderia suportar tamanha solidão?
Nirei respirou fundo, sentindo o peito apertar. — Isso… isso é demais. Você não deveria carregar isso sozinho. — Seus olhos se encontraram, e a determinação começou a substituir a incredulidade. — Eu vou te ajudar.
Ele deu um passo à frente, segurando as mãos de Suo com firmeza — Eu não vou deixar você sozinho. Vamos descobrir juntos como resolver isso, não importa quanto tempo leve!
O silêncio voltou a se estender, preenchido pelo som distante de passos e vozes do museu. A cada segundo, Nirei sentia mais forte aquela estranha impressão, como se Suo não fosse um estranho. Como se aquele olhar já tivesse cruzado o seu em algum outro tempo, em algum outro lugar.
A lembrança do quadro lhe atravessou a mente, tão vívida que fez seu corpo estremecer. As feições eram as mesmas, o mesmo semblante que o havia prendido diante da tela pouco antes de tudo acontecer. Agora, estava ali, de carne e osso, a centímetros de si.
Não sabia explicar, não sabia nem se queria tentar. Apenas sabia que havia algo em Suo que o fazia se sentir… inteiro.
O celular vibrou no bolso, despertando-o daquela sensação. Nirei o puxou rapidamente, e a mensagem de Kotoha iluminou a tela:
"Você está bem??"
"Onde você ta???”
Então uma notificação de Kiryu apareceu no topo da tela.
“a gente viu o pessoal da keel atrás de vc mas te perdemos de vista”
“consegue nos encontrar na saída lateral?” tipo. agr msm."
“o Sakura vai ter um treco”
"responde pfv antes que ele tenha um colapso real"
“Sério, o tsugeura literalmente segurando ele pra ele não sair correndo atrás de você”
Ele sorriu de leve, ainda arfando.
— Meus amigos estão me procurando… — ele olhou para Suo, o coração disparado de novo, mas agora por outro motivo. — ...Quer vir comigo?
[dia um: encerrado]
