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Isso não era justo.
Foi você que me quis primeiro, foi você que me mostrou esse sentimento. Você entrou na minha vida, mexeu com as estruturas dela a um estado que eu não conseguiria, nem queria, que voltasse ao normal.
Não é justo, foi você que começou com isso, e, da mesma forma que chegou, partiu.
Eu não aceito isso, nunca algo assim deveria ter ocorrido. O grande Edogawa Ranpo não é abatido por sentimentos tão banais, intensos, complexos e idiotas… Toda essa situação é idiota, ele é um idiota e eu sou ainda mais idiota por cair nisso.
Ele chegou do nada, trazendo esses livros, esses olhares atentos, sempre prestativo, querendo agradar. Tão obcecado por mim, me rodeou de atenção, de afeto; era a prioridade em sua vida caótica. Me via como um farol em uma noite escura e solitária. Então, me vi preso nessas emoções, desejando nossos encontros. Sua companhia era esperada; virou normalidade tê-la por perto. Os dias não eram mais tão tediosos, e as noites eram compartilhadas com uma boa comida e mistérios.
E, da mesma forma que chegou, ele partiu.
As mensagens não chegavam mais, ele não invadia mais a agência com sua aura macabra, mas ao mesmo tempo calorosa, para exigir que lesse seu último conto, tendo certeza de que esse seria seu Magnum opus e finalmente me derrotaria.
Não era justo, ele me fez ter esses sentimentos, esse calor dentro de mim sempre na sua presença. Essa compressão mútua no silencioso ou no caos de nossas mentes. Ele me desejou, me conquistou e agora me abandona para enfrentar toda essa maré sozinho.
Edgar Allan Poe, eu não permito isso. Isso era apenas um jogo para você, tudo era uma competição para finalmente me vencer. Nunca esses sentimentos foram sinceros? Eu era apenas um tolo, como minha super dedução não previu isso? Ela nunca falhou antes e não aceito que ela falhe agora.
Você nunca me amou…
Claro que ninguém me amaria por quem eu sou, apenas pelo meu cérebro. Sem minhas habilidades, ninguém se interessaria por mim. Claro que ninguém aguentaria passar horas me ouvindo, eu sou mimado, chato e arrogante. Mas você fez eu acreditar, fez eu sentir.
Mas eu não preciso de você, não preciso de ninguém. Eu sou o melhor detetive do mundo, coisas estúpidas como essa não vão me afetar. Você não vai me afetar, sua ausência é insignificante. Eu não estou triste, eu não estou triste. O que é esse calor nos meus olhos?
-Ranpo-kun, você está bem? - Atushi me olhava com olhos preocupados, eu não preciso da sua pena.
-Claro, por que eu não estaria?
Seus olhos estão vermelhos, como se estivesse chorando.
-Algo caiu nos meus olhos, você acha mesmo que eu choraria? - O grande Edogawa Ranpo nunca chora. Nem se afeta por sentimentos.
Bati minhas mãos na mesa e rapidamente me levantei, precisava sair daqui. O ambiente estava me sufocando, as perguntas desnecessárias e as falsas preocupações.
Baboseira, eu tenho um caso para resolver. Em vez de ficar fazendo perguntas idiotas e atrasando a investigação. Bem, o que seria essa agência sem mim, não é mesmo? Até mais.
Sai o mais rápido que pude e fui em direção ao banheiro da cafeteria. Eu não choro, ele não me afeta. Enquanto olhava para o espelho, lágrimas escorriam pela minha face. Não, não, não. Ele não pode sair da minha vida assim, eu não deixo. Ele não pode ter fingido tudo, aquele idiota.
Não poderia deixar essa situação dessa forma, ele precisa ouvir quem ele achava que era para fazer isso comigo. Quem lhe deu esse direito?
Acabei chegando na casa do Poe ao anoitecer, não sei exatamente como cheguei, o caminho todo foi meio nebuloso, tudo o que eu pensava era que precisava chegar e acabei chegando.
Quando cheguei à porta de sua mansão, toda a energia e motivação sumiram. Mas eu não poderia voltar, eu não queria. Precisa resolver isso de uma vez.
Bati agressivamente na porta, esperei alguns segundos e nada. Bati novamente e nada.
-Edgar, eu sei que você está aí, não me faça utilizar sua chave reserva.
Ouço o barulho de algo caindo e uma voz ao fundo xingando em inglês. Escuto passos aproximando-se apressadamente da porta, e, a cada passo, meu coração palpitava mais. Poe abre uma fresta da porta, colocando apenas a sua cabeça para fora. Sua aparência estava horrível, as orelhas estavam mais profundas, seus olhos cansados e sem brilho. Estava mais pálido do que eu me lembrava.
-Ranpo, o que faz aqui? Não tenho nenhum novo livro e estou meio ocupado agora.
A mentira era óbvia, a mão dele tremia na maçaneta da porta e nem conseguia olhar para mim. Esse não era meu Poe, desde quando eu pensava assim? Cadê o fogo em seu olhar e seu sorriso idiota?
-Poe, você tem me evitado, não responde as mensagens. Parece que nunca existiu na minha vida um fantasma. Você fez isso de propósito, né?
Conseguia sentir as lágrimas escorrendo em cascatas.
-Essa era a forma de me vencer? Me fazer dependente das emoções felizes que você me proporciona e, do nada, cortar isso. Eu não aceito, não é justo. Você me quis primeiro, me fez sentir coisas e depois vai embora. Eu não permito.
-Ranpo querido, não, você entendeu errado.
Poe abre totalmente a porta e o abraça.
-Eu não queria te machucar, eu tinha medo. Muito medo de te machucar, eu sou um caos, só trago problemas por onde vou. Não queria arrastar você para esse abismo que sou eu; agora percebo que fui um tolo. Querendo evitar que se machucasse, acabei te ferindo. Querido, olhe para mim.
O abraço era apertado e quentinho, as lágrimas escorriam.
-Edgar Allan Poe, você está preso para sempre comigo. Você é eternamente responsável por aquilo que cativas, e você é culpado e sua sentença é essa.
-Minha sentença é uma vida contigo?
Ele sorri.
-Sim, me mimando, aturando para sempre. Eu fungo mais ainda.
-Quase que parece um pedido de casamento. Beija o topo da minha cabeça.
-Por que é, você não pode recusar. Eu sorrio entre as lágrimas.
-Estou feliz, querido, posso te beijar?
Que pergunta idiota. Eu fico nas pontas do meu pé e o beijo.
-Vamos entrar, está frio aqui fora, eu fiz um chá. Por que não nos aquecermos em frente à lareira? Tenho seus doces favoritos.
E a porta se fecha e risos podem ser ouvidos ao fundo.
