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Crimson Lie

Summary:

Hyuntak vivia como um lenhador no interior da floresta de Eunjang. Um dia, tudo muda ao se encontrar com uma criatura estranha que, com seu porte pequeno e peculiar, veio cultivar as consequências de um passado sombrio e agonizante.

Notes:

essa história faz parte do evento de halloween organizado pelo @acervo_whc no twitter — Heroween.

o plot pertence ao terceiro dia do evento (27 de outubro) que é dedicado ao tema vampiros (Link) .⋆♱

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

 

A floresta de Eunjang uivava em frio naquela madrugada, inundada pela névoa espessa do anoitecer e os sussurros arrepiantes das folhas secas do final de outubro. Era outono novamente e, assim como nos anos anteriores, Hyuntak precisava se preparar para mais uma temporada de tempestades e criaturas que viriam para o assombrar. 

Afinal, o início de outubro era apenas o começo da caça para aquelas bestas impiedosas, que se alimentavam do medo e sangue. O pior estava pela frente, no dia final, onde todos se reuniam para comemorar aquele feriado estúpido e assombroso, que só trazia mais fome e vontade àqueles bichos que se aproveitavam do momento de felicidade para encherem a barriga. 

O dia marcava o começo da semana — segunda-feira, vinte e sete de outubro —, faltavam cinco dias para o dia das bruxas. 

Para qualquer pessoa obcecada pela celebração, ou qualquer tema relacionado, todo segundo era um estímulo para a ansiedade crescente na boca do estômago. Mas, para Hyuntak, era um lembrete, a contagem de uma bomba–relógio, uma catástrofe latente que ameaçava com um gatilho explodir o resto de sanidade que protegia a população do país. 

Céus, como ele odiava ser o único ciente daquilo tudo. 

Como detestava ter descoberto aquela maldita membrana que destruiu a sua vida aos dezoito anos, levando tudo e todos que amava e prezava. Como abominava aquelas criaturas gananciosas e irracionais, que se moviam possuídas pelo prazer de destruir e observar o medo explodir uma pessoa de dentro para fora. Como detestou tomar a decisão absurda de dedicar a sua vida a caçar os monstros e proteger os humanos ingratos que, a cada ano, só pareciam atrair mais e mais a destruição desse mundo. 

Gananciosos, tolos e irracionais — tal como as criaturas que caçava.

Enfim, não tinha tempo para sonhar com as suas frustrações e pensamentos, o relógio marcava oito e vinte, precisava começar a juntar materiais para melhorar as suas armas e aumentar a proteção ao redor da sua casa. 

A cama de madeira velha e o colchão desconfortável rangeram quando o homem de trinta anos, corpo malhado e cheio de cicatrizes, se colocou de pé. Os passos eram calculados e pesados até mesmo no caminho simples até a cozinha, os sentidos sempre em alerta, como um guerreiro sempre pronto para atacar. 

Hyuntak alcançou o armário superior para preparar o seu café da manhã rotineiro — um café preto e bem forte, somente isso. Em dias de despreocupação, teria paciência para cortar algumas fatias de pão e barrar um pouco de manteiga por cima, ou preparar algumas panquecas com mel e ovos. Mas hoje não era um dia assim, por isso, um bom e agradável café quente seria o suficiente para o sustentar até o anoitecer. 

Enquanto bebericava a chávena como quem não conta o tempo, um pequeno choro ecoou da porta de entrada juntamente de algumas batidas. Era baixinho, fino e um pouco insistente, sendo sincero. Hyuntak não fez muito alarme e caminhou devagar até a entrada, afinal, já sabia quem estava ali. 

Quando a porta abriu e permitiu à figura uma oportunidade de se revelar, o choro parou e deu lugar a um latido alegre e agitado. 

Era um filhote de cachorrinho — mais especificamente, pitoco, um vira lata que morava na floresta e começou a visitar Gotak ultimamente. 

— Chegou cedo hoje, garoto — Ele chamou o animal com um apelido carinhoso e sorriso levantado. O pequeno cachorrinho apenas balançou o rabo, tão feliz que qualquer um podia jurar que não se viam há anos, sendo que não fazia muitas horas desde a última visita. — Vem, vou te dar algo para você comer. — O homem adentrou a casa, dando espaço para o pequeno filhote o acompanhar. 

Caminharam juntos pelo assoalho até chegarem na cozinha, onde o cachorrinho se posicionou frente a um pote de ração comprado só para ele. Hyuntak despejou um pouco de comida para o animal e voltou ao assento anterior, observando-o enquanto ele comia. 

— Talvez seja mais seguro deixar você aqui dentro por alguns dias, pitoco. Essa semana vai ser mais puxada do que o normal e eu não quero arriscar te perder para eles. 

O cachorrinho não prestou atenção às palavras do lenhador, mas ele não se importou e continuou bebendo seu café até precisar se arrumar para sair. 

Enquanto marchava até o guarda-roupa do quarto mal dividido, o homem conseguiu ouvir os passinhos do animal o seguindo, imitando seu caminhar como uma sombra. O lenhador vestiu as roupas habituais — uma regata branca meio suja, uma calça jeans preta surrada, seu par de botas grossas de couro e um boné tão velho e gasto que dava pena. 

Ele agarrou o machado robusto e afiado que deixava perto da porta de entrada e se abaixou à altura do pequeno filhote antes de sair, afagando os pelos ralos como uma despedida rápida. 

— Volto para o jantar, garoto. 

Assim, o homem deixou a cabana em passos firmes, caminhando até a floresta, onde ficaria o resto do dia caçando e coletando tudo o que conseguia para reforçar as paredes da sua cabana velha. O som do machado batendo contra as árvores ecoava como uma melodia insistente pela névoa espessa, as folhas secas que pisava serviam como harmonia, entonando com o ar hostil e cruel do bosque abandonado. 

Conforme a noite caía, pior ficava a atmosfera. A temperatura descia, fazendo até a pele de alguém forte e rígido como Hyuntak estremecer. Os animais noturnos acordavam, provocando barulhos vez ou outra, tentando assustar ou afugentar a presença do lenhador. Os sussurros desesperados e perversos retumbavam pelas árvores esguias, penetrando a mente de qualquer criatura fraca daquela mata, procurando por qualquer fruto de medo para se alimentar. 

Mesmo com tudo, Gotak já estava acostumado, portanto, não deu muita atenção. Coletou tudo o que precisava e marchou de volta a casa, onde seu pequeno amigo o aguardava. 

Quando a cabana de madeira começou a se materializar entre a névoa, revelando seu contorno velho e cansado, Hyuntak estreitou os olhos e viu algo, sentindo no mesmo segundo seu instinto o alertar. 

Havia algo errado. 

Muito errado. 

Parado na frente da porta de entrada, coberto por um longo casaco de capuz preto, estava uma figura. Ela tinha o corpo meio curvado e batia incontrolavelmente na porta de madeira, como se estivesse desesperado, apesar de não proferir uma palavra sequer. 

Hyuntak apertou rapidamente o machado na mão e desacelerou os passos, passando a caminhar de forma lenta e calculada pelas folhas secas e terra lamacenta, diminuindo a respiração apenas para evitar chamar a atenção da figura desconhecida. 

O ambiente rapidamente tornou-se espesso, com a tensão apertando o ar a cada batida que o contorno dava na porta e a cada passo que Gotak se aproximava. Os músculos hesitavam, tensos, reagindo a qualquer movimentação estranha sempre que se acercava mais. O suor descia pelas suas costas como um aviso habitual, o alertando sobre o perigo. Seus ouvidos zumbiam como sirenes, mantendo-o focado e ritmado naquela situação angustiante.

Quando subiu o primeiro degrau de madeira, o lenhador prendeu a respiração. Não para evitar ser visto ou para acalmar a aflição que cercava o lugar. 

Não.

Ele apenas se preveniu e preparou para ser o primeiro a atacar. 

Afinal, no momento que pousou o pé naquele degrau velho, ele soube que aquela figura havia o descoberto.

O capuz se virou, inundando pela sombra do anoitecer, talvez surpreso ou já preparado. Mas Gotak foi mais rápido, sacou o machado das costas e avançou naquele estranho com toda sua força, fechando o corpo pequeno do desconhecido contra a parede frágil da cabana com seu braço apertando o pescoço. 

Ele grunhiu, pego de surpresa pela brutalidade dos braços malhados do lenhador que, pela força insana, esbanjaram cicatrizes e veias cheias. 

A… Argh! — um resmungo engasgado saiu pela escuridão do capuz que, até o momento, se negava a revelar o rosto da figura. 

— Quem é você? O que faz aqui?! — Hyuntak perguntou num timbre alto e bruto, forçando mais o braço contra aquele pescoço fino.

Para o seu desagrado, aquela coisa ou pessoa não respondeu, apenas continuou grunhindo enquanto se esperneava no aperto do homem. 

— Seu imundo… você deve ser outro deles, não é? Mais uma daquelas criaturas nojentas. — Gotak continuou pressionando ele até o ar faltar, o fazendo esganar e exasperar por um resquício de oxigênio. Ele riu. — Você é fraco, hein. Deve ser mais fácil de matar comparado aos outros que dão trabalho. 

As mãos finas daquela figura alcançaram os ombros de Gotak e arranharam a área. Elas pareciam implorar por um pouco de piedade, um pouco de ar. O lenhador encarou a ação com desdém, decidido a finalizar aquela criatura ali mesmo. 

— Antes de acabar com você… — ele murmurou, encarando a figura se contorcer enquanto levava a mão até o capuz. — Vamos ver esse seu rostinho imundo. O homem puxou o tecido para trás com a mesma brutalidade que usava no pescoço alheio, arrancando aquela figura das sombras à força, o obrigando a se revelar.

No mesmo segundo, o lenhador vacilou. O que ele esperava ver era o habitual de sempre, um rosto distorcido, diabólico, que pingava terror pelos olhos arregalados e dilatados, com a boca e nariz escorrendo sangue e o lodo do medo consumido. 

Mas, em contradição, o que ele recebeu foi o oposto, uma face diferente, longe do comum desses vinte anos. Era um jovem, esbelto, de face redonda e brilhante, com olhos profundos e escuros pingando lágrimas cintilantes e salgadas. 

Um… ser humano

Hyuntak soltou a figura no mesmo segundo, assustado, ou melhor, espantado. Não esperava isso, ver alguém consciente e humano tão de perto após observar de tão longe. 

— Q-que diabos…? 

Pela primeira vez em anos, o homem se sentiu desarmado, fora de si, e isso o assustou para caramba

— V-Você… Por que fez isso? Céus, quase morri! — uma voz macia ecoou juntamente de tossidas fortes e consistentes. 

O lenhador não respondeu, estava mais concentrado em voltar à sua sanidade normal do que em ajudar aquele homem a se levantar. Quando sentiu um pouco da sua confiança voltar, suas costas se ajeitaram, assim como o machado ainda apertado na sua mão. 

— O que faz aqui, garoto? Não sabe como essa floresta é perigosa? — Ele perguntou, encarando agora o homem com o mesmo desdém de antes. 

— Eu… estava passeando e me perdi. Não queria incomodar, mas não encontrei nada além dessa cabana, por isso decidi bater na porta. O que não esperava era que um louco fosse tentar me matar! — respondeu, subindo o timbre bruscamente na última frase. 

— Ei, louco é você de andar por aqui sozinho, seu pirralho! Se não conhece Eunjang, não sai entrando por aqui sem companhia. 

— Como é suposto eu saber disso? — a esse ponto, nenhum dos dois media o tom da própria voz. — Só entrei e pronto! Não vem gritar comigo como se estivesse me dando bronca, não te conheço de lado nenhum, velhote. 

— Porra, você… — o lenhador se preparou para voltar a falar, mas desistiu, pousando o machado nas costas enquanto se preparava para entrar. Não havia motivo para discutir. — Cuidado ao voltar, pirralho. Daqui a pouco dá o toque de recolher. 

— O quê?! — o jovem gritou, desacreditado com a calmaria repentina do homem. — Ei, você não vai me ajudar? Como espera que eu volte para a cidade depois de me perder nesse inferno?

— Você não entrou? — ele perguntou e o homem assentiu, confirmando. — Então, dá seu jeito de sair. Ninguém mandou entrar aqui sozinho. 

Então, o lenhador se virou e abriu a porta da casa. Antes de entrar, fez questão de encarar o desconhecido de cima a baixo uma última vez — talvez para zombar dele, talvez para carimbar aqueles traços bonitos e juvenis na sua mente. 

Quando a porta bateu e o exterior se tornou silêncio, Hyuntak pensou que tudo havia se resolvido. Poderia voltar para o seu habitual. 

Mas, claro, assim como tudo em Eunjang, nada tornou ao normal. 

Segundos após entrar na cabana, um rosnado alto e macabro ecoou pelo ar, alertando não só lenhador, como assustando também o pequeno vira-lata, pitoco, que rugiu em latidos de medo. 

Foi quase instintivo, um movimento inconsciente que Hyuntak jurou ter perdido. Uma questão de segundos para ele abrir a porta e puxar aquele corpo magro para dentro da cabana, evitando o terrível de acontecer na porta da sua casa.

— Porra, velhote! — ele gritou, irritado e visivelmente assustado com a ação repentina do homem. — Qual é o seu problema?

— Você é idiota? Não viu que tinha uma criatura ali fora, seu pirralho imprudente?! — Hyuntak vociferou de volta, tomado por uma raiva desconhecida. — É por isso que detesto que entrem aqui para brincar, essa porra de floresta não é normal. 

Ainda com o braço do jovem preso no seu aperto forte e bruto, Gotak levou os dois até a cozinha, onde praticamente empurrou o garoto contra uma das cadeiras de madeira. 

— Essa noite você vai ficar aqui, entendeu? Amanhã cedo, eu te levo para fora desse inferno. — Ele se virou de costas, pronto para se trancar nos seus aposentos. Antes de sair, finalizou aquele encontro estranho com a voz feroz de sempre. — Vê se não arruma mais problema para o meu lado, pirralho. 

O lenhador encerrou a conversa com pitoco debaixo do seu braço e a porta frágil do seu quarto batendo num eco oco. Na cozinha, sentado de forma desajeitada e desconfortável num banco velho, ficou o jovem, meio assustado e atrapalhado com os últimos segundos daquela noite. 

Assim, com as luzes da cabana totalmente apagadas e os rosnados macabros das criaturas no exterior ecoando pela floresta, terminou o primeiro dia daquela semana. 

Ou…

Era o que Hyuntak queria acreditar. 

Durante a madrugada, quando o lenhador jurou poder ter um momento de paz e descanso, o pequeno filhote começou a choramingar em frente à porta do quarto. 

Ele choramingava e arranhava a madeira escura com seu corpo pequeno tremendo em desespero.

— Pitoco? — Hyuntak acordou em meio àquele desespero desolador. — Ei, garoto, o que aconteceu? — o homem se levantou, ignorando o grunhido estranho da cama para se dirigir à porta. — Tem algo aqui? Aquele maldito saiu? — tentou arrancar alguma resposta do animal, mas era impossível, visto que ele estava dedicado a chorar e arranhar a porta. 

Gotak suspirou e apertou a maçaneta, um pouco impaciente com o comportamento do cachorro. 

— Se quiser sair, é só pedir. Não precisa fazer escândalo. 

Então, o lenhador abriu a porta, acreditado que era isso o pedido tão desesperado do vira-lata choroso. 

— Já pode ir, pitoc- pitoco? — Go olhou para baixo, esperando encontrar o filhote pronto para correr até a sala de estar ou para o seu cantinho de necessidades. Contudo, a única coisa que viu foram seus pés descalços contra o piso antigo. 

O filhote não estava ali. 

Rapidamente levantou o olhar, expandindo seu campo de visão do pavimento feio até a sala de estar ampla. 

Rapidamente se arrependeu e desejou nunca ter aberto aquela porta. 

Afinal, a cena parada em frente aos seus olhos era a última coisa que ele imaginou ver ao abrir a porta.

Deitado no meio da sala com o pequeno corpo aberto e estraçalhado, estava o pequeno filhote que, há segundos atrás, implorava para deixar o quarto. A poça de sangue dele ampliava-se a cada segundo, com algumas gotas escapando e caindo pelas frestas do pavimento mal-cuidado, sua carne ainda vibrava em vermelho vivo, e seus olhinhos caramelo estavam fixos no rosto do lenhador, opacos e sem vida.

Como diabos aquilo aconteceu, Gotak não queria imaginar. O coração parecia vacilar após tantos anos congelado, pego de surpresa pela cena desastrosa. 

Após alguns minutos, enquanto o corpo do lenhador se recusava a responder, algo se moveu pela penumbra. Os passos eram lentos, a estatura estranha e os olhos brilhavam num vermelho carmim completamente hipnotizante. 

Aquela criatura se abaixou ao nível do filhote e obrigou Hyuntak a focar seu olhar em si, o fazendo observar cada movimento. Levou a mão branca até ao corpo felpudo e molhou os dedos no sangue fresco do animal, os levando à boca em seguida. Lambeu os dedos até os dentes se mancharem de vermelho, até estar satisfeito o suficiente com o pequeno aperitivo para apertar o corpo aberto nas mãos e o levar inteiramente à boca, devorando aquele animal como uma besta esfomeada. 

Ele sugou toda a vitalidade restante do filhote, mastigou os órgãos que se intrometeram pelo caminho e arrancou o resto de cor que o vira-lata detinha. O que caiu no chão em seguida foi apenas uma carcaça cinza, um pedaço de massa mastigado e sem vida. Nem mesmo parecia com pitoco. 

Depois, ele se aproximou de Hyuntak e alcançou o rosto cansado do lenhador apavorado. Os dedos gelados caminharam pelas bochechas e limpou algumas lágrimas que ousaram dar as caras — lágrimas peculiares e quentes que caiam pelo rosto do homem com uma coloração anormal e corada. 

Uma penumbra pairava sob a feição daquela criatura, a mantendo segura dentro do anonimato, a permitindo fazer tudo o que desejava. Então, as unhas afiadas e pretas agarraram o rosto de Hyuntak com uma força anormal e absurda, o travando no lugar. 

O homem sentia sua cabeça doer a cada segundo que a ponta dos dedos da figura ameaçavam penetrar suas camadas de pele, os seus olhos pareciam que iriam explodir a cada momento e ele não conseguia nem mesmo descrever a dor que começou a se acumular ali quando permaneceu com o rosto pressionado daquele jeito por tanto tempo. 

Quando por fim sentiu as garras potentes fincando sua pele, ele sentiu o medo o consumir, um pavor que nunca imaginou voltar a encontrar. 

O mesmo horror que sentiu com dezoito anos naquela pequena capela do seu vilarejo, onde perdeu sua família, seu eu mesmo e sua sanidade. 

Em seguida, como num passe de mágica ou estalar de dedos, Hyuntak abriu os olhos. 

Ele acordou. 

O dia já havia amanhecido lá fora, a noite havia desaparecido e, o que pensou ser a mais pura realidade, não se passou de um pesadelo vivido. 

Sentado na cama com o rosto arregalado e suado, o lenhador tentava recuperar a sanidade. Seu peito descia e subia drasticamente, o ar entrava com um desespero avassalador, o suor descia como rios pelo seu corpo, encharcando a parede das costas. 

A primeira coisa que passou pela sua cabeça assim que conseguiu formular qualquer tipo de pensamento foi: pitoco. O pequeno filhote que, naquele momento, estava ausente do ambiente.

Levantou-se às pressas e começou a procurar pelo filhote como um animal descontrolado, batendo e derrubando coisas sem escrúpulos. 

— Pitoco! Pitoco, cadê você, garoto? — ele gritava, desarrumando móveis e lençóis. — Porra, não é possível que essa merda é real. 

Abriu a porta do quarto com o coração pesado, já esperando encontrar o pior do outro lado. Um corpo vazio. Um par de olhos vermelhos. O cheiro forte e pesado de sangue. 

Mas, para sua surpresa, a única coisa que encontrou na sala de estar foi o cheiro de café e dois pares de olhos o encarando pela batente da porta da cozinha.

Pitoco e o pirralho do dia anterior. Juntos. 

O lenhador perdeu momentaneamente o balanço, precisando se segurar no sofá mais próximo para não cair no chão de alívio. O filhote correu até ao homem no mesmo segundo, ganindo de preocupação com a postura inabitual de Hyuntak. 

— Eu… tô bem, garoto. Só me levantei rápido demais — Tranquilizou o Go, fazendo um leve carinho nos pelos do animal. 

— Ele ficou chorando de manhã na porta do quarto, então abri para deixar o coitado sair. — O jovem disse, chamando a atenção do mais velho. 

— Entendi. Só não abra a porta do meu quarto assim novamente, não quero estranhos lá dentro. — A postura grosseira tomou o lugar habitual e o jovem não fez outra coisa se não revirar os olhos. 

— Tem café lá dentro. Aliás, é a única coisa que tem nos armários além de ração de cachorro. Você não come nada? — O homem continuou falando, apesar de estar ciente da falta de paciência do lenhador consigo. 

— Não, e também não te deixei mexer na minha cozinha. Lá eu sei o que você botou nesse café. 

Os dois seguiram até a cozinha com a presença animada de pitoco atrás deles. 

— Acha mesmo que eu iria me dar ao trabalho de te envenenar? — Ele respondeu e sentou na cadeira onde foi deixado na noite anterior. — Acho que você deveria começar a ser menos grosseiro, velhote. Não é à toa que vive sozinho nesse fim de mundo. — Fingiu aconselhar, dando um falso sorriso ao homem. 

— Vem cá, por que ainda tá aqui, hein? — Hyuntak virou-se, já impaciente. — Mete o pé daqui, pirralho. 

— Meu nome não é “pirralho”, seu velho rabugento. Meu nome é Juntae e eu agradeceria se você pudesse ser uma boa pessoa por hoje e pudesse me ajudar a sair desse inferno!

— Por que eu faria isso? Dá seu jeito logo e vaza da minha casa.

Go, mesmo desconfiado, serviu-se uma xícara de café e sentou-se na cadeira mais afastada da mesa, encarando a pequena janela da cozinha como se o jovem ao seu lado não existisse. 

— Acha que eu não quero fazer isso? Não suporto estar aqui sabendo que não sou bem-vindo… — A voz dele murchou, perdendo levemente a confiança com o olhar fixo na xícara antiga. 

Hyuntak levantou o olhar pela primeira vez no dia, encontrando uma postura inusitada no jovem respondão que conhecia até agora Os olhos de Juntae estavam claramente cabisbaixos, preenchidos por uma penumbra opaca de desanimação e temor. Seus dedos brincavam com a borda da chávena ligeiramente rachada e seus ombros encolhidos entregavam seu desconforto. 

E, pela primeira vez em anos, Go sentiu-se… ressentido. 

Talvez fosse pelo café, ou por não conviver com seres humanos há décadas que o fizeram ficar assim. Mas, querendo ou não, o lenhador não conseguiu evitar o sentimento de crescer e subir pelos seus ombros, pousando ali como uma pedra pesada. 

Um pouco de simpatia não o mataria, certo? 

Arrepios correram pela sua pele só de imaginar fingir ser simpático com alguém só para reviver um ânimo passageiro. Contudo, quando pensava no início, quando estava completamente sozinho nessa floresta e, durante as noites, sonhava em voltar para os braços de quem tanto amava, o homem sentiu-se no dever de, pelo menos, não acabar com o espírito confiante e brilhante do jovem-adulto. 

Mesmo que isso lhe custasse ter que perder um tempo do seu dia importante com ele.

— Eu te levo — Hyuntak quebrou o silêncio com um timbre mais calmo do que o normal.

— O quê? — Juntae piscou os olhos, surpreso e confuso com a frase repentina. 

— Eu te levo para fora da floresta. — O lenhador repetiu as palavras e levantou-se em seguida, pousando a loiça suja na pia. — Vou só pegar meu machado e nós saímos, ouviu? 

— T-Tá — Juntae respondeu enquanto o homem se virava para deixar o cômodo. 

Assim como dito, Hyuntak apenas se levantou para pegar seu machado pousado no canto do quarto e voltou para a entrada da casa. Com uma rapidez irreal, Juntae também já estava lá, parado com sua pequena mochila nas costas e o corpo meio ansioso para partir. 

— Vambora, Junhae. 

— É Juntae! 

O lenhador coçou a cabeça e ignorou a correção do outro, abrindo a porta para ambos deixarem a cabana de madeira. 

Por estar de manhã — e por mais que não parecesse, já que aquele nevoeiro espesso se recusava a deixar Eunjang independentemente da hora do dia — a luz do sol iluminava os caminhos confusos da floresta assombrada, deixando seus raios brilhosos penetrarem pela neblina, fazendo aquele ambiente macabro parecer bonito por algumas horas. 

Hyuntak guiava o caminho com precisão, encarando seus arredores com o machado pressionado nos dedos, preparado para qualquer possível armadilha escondida naquele silêncio perturbador. Atrás de si, com o corpo apertado em confusão, estava Juntae. Ao contrário do lenhador, o jovem parecia olhar para todos os lados com temor, afirmando sentir calafrios até das pegadas dos esquilos inofensivos que moravam ali. 

— Como você sabe onde é a saída? Todos os caminhos parecem os mesmos! — Juntae disse após um tempo longo em puro silêncio. 

— Por isso que falei para não entrar aqui sozinho. Essa floresta é praticamente um labirinto sem forma coesa, não existe nada “certo” aqui, entendeu? Ela está constantemente em mudança, seja no formato ou coloração das árvores, no tipo de bicho que vive aqui ou nos trilhos de terra. 

— Então como você sabe como se guiar por aqui? 

— Pelos cheiros. Não vou perder tempo te explicando isso, mas, basicamente, quanto mais perto da cidade estivermos, mais forte fica o cheiro de lixo na floresta. Bom, isso sem contar com o fedor da gasolina e da fumaça das estradas. — Hyuntak explicou e parou momentaneamente apenas para aguardar pelo jovem que permanecia a alguns passos atrás. — Você é bem lentinho, né? 

— Ia te elogiar pelo que você falou, mas você consegue estragar tudo. Não viu o tanto que andamos? Eu estou cansado, velhote!

— Para de me chamar de vel- Abaixa! 

Num movimento inconsciente e rápido, Hyuntak empurrou o corpo de Juntae consigo para o chão, arrastando ambos em seguida para trás da árvore mais próxima. O jovem mal teve tempo de reagir ou perguntar o que estava acontecendo, já que, no segundo seguinte, uma flecha encharcada de lodo preto atingiu o tronco onde estavam escondidos com um estrondo oco. 

Ele encarou Hyuntak com os olhos assustados, recebendo nada mais do que um chiar dos lábios finos do lenhador, pedindo por silêncio naquele momento. Mas ele não conseguia obedecer ou entender aquele comando repentino quando seu peito batia freneticamente de medo. 

O-O que f-foi isso? — Ele sussurrou o mais baixo que conseguiu. 

Não falei pra você ficar quieto? — Hyuntak suspirou pesado, incrédulo com a falta de capacidade do jovem de ler a situação. — Tem uma criatura ali. 

O quê!? — Juntae ameaçou levantar o tom de voz, obrigando Hyuntak a ser mais rápido e fechar sua boca com a palma da mão. 

Cala. A. Boca. 

Juntae prendeu a respiração e apenas assentiu, intimidado pela grandiosidade do lenhador e pelo medo de ser pego pela criatura. 

A situação atual não era a mais confortável. Hyuntak tinha as costas contra o tronco de madeira e escondia entre seus ombros e peitoral largo a figura magra de Juntae. Já o jovem, tentava controlar sua respiração ansiosa sempre que sentia a diferença entre o peitoral calmo de Gotak que subia e descia serenamente. 

Mas a tensão e a mão grande do lenhador contra sua boca não ajudavam — e talvez Hyuntak soubesse disso mais do que ele mesmo. 

Go podia sentir o nervosismo de Juntae contra sua palma calejada, o ar que entrava e saída pelo seu nariz batia nos nós dos seus dedos e um perfume peculiarmente doce exalava do jovem. 

Queria muito acreditar que estava ficando agitado por conta da criatura que insistia em não desaparecer, mas cada vez que Juntae se remexia dentro do seu aperto desajeitado, o lenhador sentia que era tão fraco como costumava ser. 

Provavelmente é porque faz muito tempo que não faço contato com ninguém — ele tentou se enganar. 

Mas seu peito coçava em meio ao perigo, como se fosse um mero adolescente que nunca havia encostado em ninguém. Em meio aos grunhidos distorcidos e macabros daquele ser, Hyuntak não conseguia se colocar na cautela habitual por conta de um mero homem sentado perto do seu corpo. 

Entretanto, como um calmante para toda a situação, a criatura começou a se afastar. Aos poucos, seus passos iam se dissolvendo pelo caminho, como se tivesse desistido de caçar o que quer que estivesse ali. 

Juntae viu isso como um sinal verde para que pudesse, finalmente, voltar a respirar alto. Mas Hyuntak viu o oposto. Ele não estava se afastando, na realidade, a criatura apenas plantou uma armadilha para que, por fim, pudesse colocar as garras na sua presa. 

E Hyuntak sabia disso, por isso, tratou de acabar por fim com aquela besta.

O lenhador apertou o machado na mão e, numa virada instintiva, atacou um ponto cego do tronco, acertando precisamente o rosto daquele ser macabro. Um lodo preto espirrou em abundância por todos os lados e, nesse meio, Hyuntak fez questão de esconder Juntae nos seus braços, o protegendo daquela substância pegajosa e asquerosa que não deixava nada além de cicatrizes de queimadura por onde caia. 

A criatura caiu no chão em fraqueza, grunhindo de forma estridente e distorcida enquanto o líquido continuou escorrendo da ferida causada pelo lenhador. 

— Porra, não é possível que uma merda dessas nos atrasou — Hyuntak reclamou em voz alta e clara. — Não sei se vai dar tempo de achar a saída ainda hoje, Juntae. 

— Como assim? Ainda está de dia, não está? Por que não daria? — Ele se levantou juntamente do homem com a expressão confusa de sempre no rosto. 

— Eu não falei que essa floresta não é normal? Aqui a lua prevalece, por isso o dia não dura muito. — Hyuntak explicou enquanto rasgava uma parte da regata suja para limpar seu machado sujo de lodo. — Amanhã tentamos de novo. Vamos voltar por agora.

Juntae apenas assentiu e seguiu o homem pelo caminho de volta. Não fez questão de esconder seu descontentamento e desânimo com a situação, expondo sua carranca emburrada e lábios avantajados num meio-bico.

Hyuntak o observou silenciosamente enquanto os guiava para a cabana, fixando-se mais do que deveria no rosto melancólico do jovem respondão. Quanto mais tentava se afastar, mais sentia-se no dever de continuar com os olhos ali, mirados e hipnotizados. 

Como uma besta sedenta, um animal encarcerado à beira da fome. 

Quando notou seu comportamento e a cabana visível em frente, Hyuntak balançou a cabeça, afastando os pensamentos com a miragem do seu trabalho do dia. 

— Fique aqui com o pitoco e não abra a porta independente do barulho, entendeu? — O lenhador anunciou assim que pararam na frente da porta. 

Hein? Você vai sair? — Juntae perguntou, surpreso, com os dedos apertados ao redor da maçaneta velha. 

— Tenho que arrumar mais materiais para barricar a cabana. Não vai demorar muito, eu volto perto do pôr do sol. 

— Vai me deixar aqui sozinho?

Hyuntak cruzou os braços e deixou um sorriso sorrateiro crescer no final dos seus lábios.

— Está com medinho? Pensei que já fosse grande o suficiente para ficar sozinho por algumas horinhas. — provocou, de um jeito que não se recordava saber fazer.

Tsc. Está todo cheio de si, velhote. — O jovem abriu a porta, colocou parte do corpo para dentro antes de se virar. — Vai lá catar suas madeirinhas que eu fico bem sozinho. 

Assim, com o leve bater da porta, o caminho dos dois se dividiu. Hyuntak passou a tarde na floresta, tal como no dia anterior, onde coletou o que imaginou precisar para fortalecer sua velha cabana antes do maldito feriado das bruxas chegar. 

Quando o sol ameaçou descer e o lenhador já tinha recursos o suficiente, ele voltou para casa, não esperando encontrar muito além do pitoco e da presença extravagante de Juntae. 

— Sentiu minha falta, garoto? — Go perguntou ao pequeno filhote que veio lhe cumprimentar assim que entrou na residência. 

Inconscientemente, ele se viu procurando por outra pessoa naquele ambiente, de figura magra, meio baixa e rosto angelical.

Mas nada evidenciava a presença Juntae. 

Bom, nada menos o barulho do chuveiro recém-fechado que ecoou do banheiro que, logo em seguida, teve sua porta aberta. A fumaça saiu num impulso, camuflando a silhueta esguia que se escondia por trás da neblina de água quente com os cabelos encharcados e uma toalha firme em volta da cintura. 

O rosto de Juntae revelou-se com lentidão, um vislumbre que somente Hyuntak teve a graça de poder apreciar. De pele branca e visualmente macia, a derme de Juntae agora parecia corada, com algumas manchas avermelhadas espalhadas pelo corpo por conta da temperatura do banho. O rosto mais marcante do que antes esbanjava o carmesim e algumas gotas de água que desciam calculadamente pela clavícula até sumirem no peitoral raso. 

E quando seus olhos se encontraram, Hyuntak jurou ver um brilho sobrenatural naquelas orbes escuras. Misteriosas. Estupidamente escuras, redondas e hipnotizantes ao ponto de serem perigosas. 

Óbvio que seu corpo esquentou com um simples vislumbre de um corpo masculino. Claro que seus músculos ficaram tensos só de ter Juntae tão delicado sob suas pálpebras.

Era óbvio que ainda se sentiria agitado por sentir atração por alguém, mesmo jurando que havia superado isso há dez dos seus trinta anos. 

— M-Me desculpe! Não tive intenção de ver você assim. Hum… Eu- Eu vou pro- Não. Eu vou pegar uma muda de roupa pra você. Isso. Roupa nova. Muda de roupa limpa. Era isso que eu estava indo fazer. 

Juntae riu do modo atrapalhado de Hyuntak que, desajeitadamente, correu para o quarto e permaneceu lá até voltar com um conjunto de roupas novas. 

— Aqui, você pode usar isso. 

— Obrigada, Hyuntak. 

— De. Nada — O lenhador respondeu de forma comicamente robótica. — Vou arrumar algo para jantar. 

Juntae assentiu e voltou para o banheiro apenas para vestir as roupas. Quando retornou, Hyuntak estava improvisando uma refeição decente com o que restava nos armários superiores da cozinha. 

No final, o que ficou pronto foram dois pratos de arroz branco com sardinha enlatada prestes a estragar. 

— Foi a única coisa que deu para fazer. — Hyuntak confessou baixinho, tirando um leve riso de Juntae. 

— Tudo bem. Não me importo mesmo. 

O lenhador assentiu e, pelos próximos minutos, ambos permaneceram em silêncio para saborear a refeição no prato. Quando ambos terminaram, Juntae se voluntariou para lavar e arrumar as louças. 

Hyuntak não contestou e apenas se levantou para se preparar para dormir. 

Mas, diferente do habitual, Hyuntak decidiu parar no batente da porta para trocar algumas últimas palavras com Juntae naquela noite. 

— Não… — ele começou, primeiro um pouco baixo demais, mas ligeiramente mais amigável que antes. — Não desanima por não termos encontrado a saída hoje. Amanhã vamos voltar lá e eu te prometo que… que eu te levo para o mundo normal. Boa noite, pirralho. 

E, sem esperar por respostas por conta da vergonha que estava sentindo, Hyuntak caminhou rapidamente até o seu quarto, fechando a porta num baque oco com seu companheiro pitoco e peito ansioso lá dentro. 

Infelizmente, assim como na noite anterior, a madrugada de hoje rendeu mais um pesadelo perturbador. 

Dessa vez envolvia somente ele mesmo. 

Hyuntak lutava contra as criaturas rotineiras, mas, peculiarmente, ele continuava caindo nas suas próprias armadilhas e permanecia sendo atingido por todos ao seu redor.

No fim, ele era devorado vivo por cair numa armadilha de urso que havia colocado por perto. Aqueles bichos rasgaram sua pele e beberam seu sangue como esfomeados descontrolados, urrando com prazer sempre que despedaçavam mais um pedaço de Hyuntak. 

Antes de poder acordar, o lenhador viu aquela criatura ao longe novamente. Os olhos vermelhos, a figura esguia escondida na penumbra, aquela aura hipnotizante que parecia familiar e próxima. 

Ela sussurrou para ele de forma perturbadora tudo o que faria com ele, como acabaria com todos seus futuros, como amaldiçoaria seus próximos parentes. 

Como Hyuntak nunca mais encontraria a paz, somente por ousar mexer com quem não deveria. 

Assim, com essa ameaça, os olhos de Hyuntak acordaram no terceiro dia da semana, onde tudo decorreu como um espelho do dia anterior, com falhas absurdas no decorrer do caminho, com seu momento sozinho na floresta coletando materiais, e com seu peito o traindo sempre que estava perto de Juntae. 

Hoje, ao contrário do dia anterior, os dois pareciam estar mais próximos do que o normal, compartilhando de um vinho esquecido na mochila de Juntae nas poltronas da sala. 

E, assim como um pesadelo, o álcool parecia deixar Hyuntak mais leve e estupido do que o normal. Riso frouxo, membros relaxados e olhos mais profundos do que o carmesim do vinho tinto. 

— Você até é engraçado, Hyuntak. Não sabia que tinha um lado assim. — Juntae sorriu ao ouvir outra piada tosca do lenhador. 

— Não tenho mais paciência para conviver com outros humanos. Mas, você até é suportável. 

— Aconteceu algo para você ser assim, velhote? 

— Não vou te contar sobre isso — ele gargalhou, como se esconder seu maior trauma fosse a maior piada do século. — E, para sua informação, eu tenho trinta! Não sou tão velho assim, seu pirralho. 

— Também tenho vinte e cinco, então não sou um pirralho! — Juntae usou as palavras desajeitadas do homem contra ele, rindo quando Hyuntak pareceu tão ofendido por ser imitado daquele jeito. 

— Cinco anos ainda não é nada perto do que eu já vivi. Um dia você chega lá, pirralho. — Hyuntak disse de modo relaxado e, por um milissegundo, ele jurou ver Juntae sorrir. Não de forma engraçada, ou feliz. Não. Os cantos da boca de Juntae subiram de um modo escárnio, zombeteiro, como se Hyuntak fosse o maior tapado daquela floresta. 

Mas, como Go poderia sequer provar que aquilo realmente aconteceu se o vinho corria fortemente pela sua corrente sanguínea? Não passava de um bêbado sem noção naquele momento. Por isso, não se alarmou ou procurou saber o que foi aquela reação fora do normal. 

Apenas permaneceu sentado na poltrona, bebendo vinho barato e jogando conversa fora com um desconhecido que havia encontrado naquela floresta estranha. 

A certo ponto, nada mais fazia sentido. Seus dedos formigavam pela quantidade de álcool, seus lábios cediam aos murmúrios desconexos que sua mente suspirava e seus olhos mal se mantinham em pé, caindo e subindo repetidamente numa tentativa falha de não ceder ao sono.

Mas Hyuntak estava cansado, exausto na realidade, então a tentação tomou controle e, num estalar de dedos, o lenhador caiu num sono profundo. 

Uma hora de sono virou quatro, que passou a oito e acabou por se tornar um dia inteiro. No final, Hyuntak não acordou no quarto dia da semana, passando aquela quinta-feira arrumado nos lençóis antigos da sua cama, onde passou por um período constante de pesadelos atrás de pesadelos. 

No primeiro foi obrigado a matar pitoco com as próprias mãos. Movido à força como uma marionete, forçado a apertar seus dedos ao redor do pescoço miúdo daquele animal que permaneceu o encarando com uma doçura inocente até seu último suspiro. O lenhador precisou observar todos os detalhes, desde o sangue parando lentamente de circular, até o último brilho tristonho do vira-lata. Tudo a ordem daquela figura estranha.

No segundo, foi perseguido por um grupo de corvos esfomeados. Nesse cenário, o Hyuntak de dezoito anos tomou o lugar principal. Mais especificamente, o corpo do Hyuntak que quase morreu naquele vilarejo, onde os cortes profundos provocados pelo ser enigmático continuavam sangrando sem parar e ficando cada vez piores a cada bicuda feroz das aves. 

Elas puxavam a pele de Hyuntak com uma força assustadora, arrancavam pedaços como petiscos e concentravam-se especialmente nas áreas mais deterioradas apenas para ver os feridos abrirem mais e mais. 

No final, assim como nos pesadelos anteriores, Hyuntak acabou sendo devorado pelas aves, como uma atração de um espetáculo macabro para o par de olhos vermelhos que o observavam com precisão. 

O resto dos pesadelos não era tão diferente — sangue, mutilação, tortura à solta, pedaços de carne e órgãos expostos a todo o momento e a mais pura violência que ele poderia imaginar. 

O último foi o único que Hyuntak descreveria como peculiar. 

Ele estava numa igreja, um pouco pequena, mas uma construção que guardava memórias. Como num espetáculo, o altar era iluminado pela luz forte da lua que penetrava as janelas e, sentado na fileira da frente, estava um jovem de costas. 

O lenhador estranhou, mas não disse nada, apenas deu passos lentos pelo corredor comprido, escutando o tacão das botas de couro ecoar pela igreja. Quando finalmente se acercou e conseguiu ter visão do rosto do jovem, o homem caiu para trás. 

Um vazio. 

Havia um buraco no lugar da face daquele indivíduo. A cavidade parecia relativamente profunda e aparentava ter sido feita de forma desesperada e desequilibrada. Uma punição bruta e rápida. Como se tivesse sido castigado de última hora a nunca mais poder ver. 

As mãos de Hyuntak fecharam contra o assoalho de madeira, os punhos fechados tremendo como quem teme até de respirar. Era assustador, desumano e totalmente fora da realidade.

Quando aquele ser virou o rosto para ele, com uma calmaria e suavidade macabra, ele entendeu

Era ele.

Era Go Hyuntak. 

O mesmo que presenciou o ataque de vampiros à igreja há vinte e cinco anos. 

O mesmo que estava destinado a cair juntamente da sua família naquele dia. 

O grande e último erro da linhagem Go. 

Num impulso movido pelo medo e desconforto, o homem virou o rosto e expeliu o que cutucava sua garganta desde que tudo começou. E entre o vômito nojento que se espalhava pelo chão e as gotas de suor que pingavam da sua testa, ele viu pedacinhos de raspas de madeira, fragmentos de prata, cascas de alho podre e um pingente com uma pequena cruz. 

No segundo que ele viu aquele colar, Hyuntak o pegou e abraçou contra o peito. As lágrimas que se formaram no canto dos seus olhos não condiciam com sua idade, afinal, aquilo era o choro do jovem-adulto que se perdeu naquela igreja há anos atrás e não se um adulto frio que aprendeu a viver na solidão após se acostumar a conviver com o pior daquele mundo. 

Está gostando? — um sussurro ecoou pelas paredes da igreja. Era voz irreconhecível, um pouco distorcida, que se escondia pelas sombras inexploradas. 

Hyuntak ergueu os olhos em defensiva, encarando seus arredores com o pingente ainda preso entre os dedos. A confusão tomou conta da cabeça dele ao ponto de tudo começar a girar, como se tudo ao redor não passasse de uma mera ilusão. Para piorar, a voz continuou sussurrando sua pergunta desconexa, bagunçando mais a mente deturpada daquele lenhador. 

— Quem é você? Como eu vim parar aqui? — ele gritou aos ares em desespero, mesmo não esperando ser correspondido. 

Nós já nos conhecemos, Hyuntak. É uma questão de tempo para você descobrir. 

O lenhador riu e, mesmo tomado por uma fraqueza abrupta, se levantou. 

— Aposto que faz parte daqueles ratinhos que minha família costumava caçar. Pelos vistos veio tentar uma revanche, afinal, vocês têm fama de guardar rancor até de uma mosca. 

Ele riu, quase gargalhou, mas não durou muito, pois, numa fracção de segundos, Hyuntak estava sendo enforcado contra a mesa do altar por um par de dedos finos. As unhas acopladas fincaram na pele sensível do pescoço, fazendo o lenhador grunhir em dor. 

— Grosseiro e presunçoso como sempre — a voz de antes disse, agora com melhor clareza. — Será que essa marra vai continuar se eu te transformar num dos meus? 

Hyuntak arregalou os olhos, tanto pelo espanto, quanto pelo temor que percorreu seu corpo ao sentir aquela figura arrancar o pingente dos seus dedos e o forçar no fundo da sua garganta, juntamente do vômito e sangue recém-expelidos. Ao mesmo tempo que se engasgava a todo o segundo, ele não conseguia respirar direito, fazendo a dor do pescoço, garganta e pulmões se misturar em algo maior. 

Num movimento brusco e cruel, Hyuntak foi jogado na parede mais próxima, onde suas costas bateram contra a pedra natural da estrutura. 

— Seu tempo acabou, desgraçado. Hoje você vai entender o porquê decidi parar na porta daquela sua cabana imunda, velhote. 

O baque foi claro, uma bancada certeira no maxilar de Hyuntak e ele acordou no seu quarto bagunçado. Seu corpo arrepiou com o ambiente gelado daquela sexta-feira, com o maldito dia marcado por fim no calendário — o último dia do mês, trinta e um de outubro. 

Assim que despertou, Hyuntak procurou pelo seu machado que havia deixado no canto do quarto há dois dias atrás. Obviamente não estava lá, já era claro que havia caído nas artimanhas de Juntae. Portanto, revirou a cabeceira velha até encontrar o compartimento secreto na última gaveta de onde retirou um punhal prata com o cabo bem trabalhado. 

Saiu do quarto com o peito afobado, os cabelos bagunçados e a cara de quem havia enlouquecido completamente. Talvez tivesse realmente perdido o resto de sanidade que lhe restava, ou então aquilo se tratava de mais um joguinho de mentes que Juntae gostava de brincar. 

Pelos vistos, se tratava da a segunda opção, já que, sentado em meio ao caos que se encontrava a casa do lenhador, Juntae descansava numa das poltronas, desfrutando da batalha mental de Hyuntak e do último gole de vinho que restou. 

Foi naquele segundo que o lenhador notou o que era tão familiar naqueles olhos. O brilho. Um brilho vermelho e forte, esbanjando o mais puro ódio em carmesim sangrento. 

A única e última vez que o lenhador conheceu aquele tom foi quando sua família dizimou uma linhagem de vampiros que morava perto do vilarejo. Naquele dia, depois da família desfrutar de um banquete vitorioso após aniquilar um problema que vinha amedrontando os moradores locais, eles descobriram que nem tudo havia sido resolvido. Que havia sobrado um. 

Dentro da igreja antiga, quando os Go se juntaram para a missa da tarde, um show de sangue e carnificina se fez presente com todos lá dentro. 

Para Hyuntak, o dia podia ser descrito como vermelho. Tudo vermelho. As paredes, os bancos, as estátuas religiosas, as janelas enfeitadas e os corpos estilhaçados dos seus familiares que ousaram mexer com quem nada fazia. 

Uma única figura, um único ser, poderoso o suficiente para dizimar uma décima de adultos gananciosos pelo prazer do glorioso. Um contorno milenar que, mesmo após permanecer naquele corpo jovem por tantos anos, nunca imaginou precisar vingar os seus ao derramar tanto sangue. 

Seo Juntae, um vampiro bestial que Hyuntak jurou nunca mais voltar a encontrar. 

— Lembrou de tudo? Ou precisa que eu te mostre novamente o que vocês fizeram? — O vampiro quebrou o silêncio, exigindo a atenção do lenhador que, naquele momento, mal conseguia se manter em pé. Estava em puro choque. — Ah… Você lembrou mesmo? Está voltando a ficar traumatizadinho, Go Hyuntak? 

— Como… como você  voltou- C-Como voltou se você tinha sumido!? — O lenhador caiu para trás enquanto tentar impor questões ao ser, completamente sem chão, incapaz de raciocinar o que fazer. 

— Sabe como é, não consigo hibernar por muito tempo. — ele fingiu casualidade, levantando-se da poltrona com uma graça de outro mundo. — Aliás, quando te encontrei enfiado nesse… chiqueiro, não imaginei que fosse verdade. Mas enfim, cá estamos nós! Prontos para começar o meu grand finale!

Hyuntak rastejou pelo chão enquanto Juntae permanecia balbuciando seu monologue, tentando encontrar no meio daquela avalanche de sentimentos algum pensamento coerente e relevante. 

Claro que não saiu nenhuma coisa boa, ele estava à beira de um colapso mental. Contudo, se tinha um plano que na maioria das vezes tinha uma porcentagem de chances de dar certo era: simplesmente correr.

E foi isso que ele vez. 

Arrancou numa velocidade absurda pela porta principal, metendo passada e passada atrás da outra como um prodígio do atletismo nacional. Nunca havia corrido assim para caçar nem mesmo o animal mais saboroso daquela floresta. Porém, tinha noção que era crucial ignorar as dores nas suas pernas e só continuar correndo como um louco para tentar sobreviver àquilo — talvez desse certo. 

Errado. 

Deu tudo menos certo, era idiota tentar competir com uma criatura que se movia na velocidade dos segundos. Não demorou menos de um milésimo para Juntae colocar o pé na sua frente e o fazer cair no chão igual um tapado. 

— Viu? Eu falei que sua grosseria ia te deixar idiota. Aonde acha que vai correndo desse jeito? — Seo zombou, rindo em seguida enquanto se abaixava à altura do rosto de Hyuntak. — Eu vou ser rápido, ok? Prometo que o processo de transformação não demora muito. 

As unhas passearam pela bochecha com um falso carinho, fingindo consolar o lenhador de que estava prestes a vivenciar seu maior medo: se tornar aquilo que caça. Virar mais uma das criaturas irracionais que perturbam o equilíbrio. 

Nunca iria se perdoar se isso acontecesse. 

Por isso, usou sua última sanidade para se recordar do punhal ainda preso na sua mão e levantou a arma até ao rosto do vampiro, onde fincou o objeto com força num dos olhos vermelhos dele. 

Filho da puta! — Juntae urrou num timbre alto e estridente.

Hyuntak aproveitou o momento para meter o pé de novo, credente que dessa vez funcionaria. 

Errado de novo

Num puxão firme e certeiro, Juntae impediu o homem de dar mais um passo à frente ao fechar seus dedos ao redor do seu calcanhar. Hyuntak caiu de novo e, dessa vez, ele foi atingido com o punhal que usou há segundos atrás no meio das costas. 

O vampiro esfaqueou o homem até o sangue começar a espirrar em jatos fartos, sujando não só o solo terroso, como seu rosto esbranquiçado. Hyuntak não tinha para onde escapar, ele apenas aceitou a dor das suas costas abrindo e berrou de forma estúpida por ajuda. 

Juntae riu, gargalhou num volume claro e alto, enquanto jogava o punhal para o lado e virava o homem abaixo de si, o prendendo entre seu corpo e o chão. 

— Fica quieto, animal imundo — Seo exigiu, fincando em seguida suas unhas longas e afiadas no peitoral de Hyuntak. 

Para o lenhador, tudo parecia nada mais do que um borrão. A dor era insuportável, o controle mental de Juntae exaustivo, e a figura angelical daquele jovem respondão que jurou conhecer há quatro dias lentamente ia desaparecendo. 

Agora, não passava de um vampiro esfomeado pelo sangue, pelo pavor estampado no rosto de Hyuntak. Não passava de uma besta macabra e cruel, que esperou anos para voltar a perturbar Gotak. 

As mãos de Juntae firmaram o pescoço de Hyuntak no lugar, buscando um ângulo perfeito para se aproveitar do sangue do homem. Quando localizou seu lugar doce, ele sorriu com as presas, chiando levemente pela fome do momento, fazendo seus olhos brilharam mais do que o normal. 

— Você vai ser perfeito, Tak. Vai ser o melhor servo que eu já criei nessa década. 

Hyuntak sentiu as lágrimas descerem pelos lados do seu rosto, rolando até alcançarem o chão num silêncio solitário. Não havia mais escapatória, afinal, a vingança de Juntae já estava praticamente concluída.

Com seus dentes afiados, Juntae invadiu a curvatura do pescoço de Hyuntak e esperou alguns segundos antes de experimentar a primeira gota. 

Isso

Era exatamente esse o gosto de esperava, forte, pouco doce e quente na medida certa. A viscosidade do sangue de Hyuntak descia pela garganta de Juntae como um vinho luxuoso, como o prato mais caro de um restaurante renomado. Como o gosto da vida de Hyuntak entregue às suas mãos. 

O fato de poder saboreado somente uma vez deixava tudo mais excitante, acentuava o sabor ao ponto dele ser viciante. Juntae, por um momento, até se viu pedindo mais do que ele poderia oferecer. 

Aquele sangue quente que enchia sua boca e lambuzava seu coração cheio de animação era perigoso num nível que ele não calculou. 

Por isso, assim como planejado, Seo precisou parar.

Deixou o pescoço de Hyuntak num estalo alto e oco, e limpou os cantos da boca com as costas da mão. Observou por um tempo o corpo do lenhador se tornar levemente pálido, perdendo um pouco do tom moreno apreciado pelo vampiro. 

Em seguida, como numa coreografia ensaiada, Juntae pousou a mão por cima da boca de Hyuntak e abriu um corte consideravelmente profundo ali. O sangue que desceu não era tão quente quanto o do lenhador, mas era o suficiente para ele o ingerir e começar o processo de transformação. 

— Beba tudinho, ouviu? Não estou aqui me cortando à toa, seu ingrato. 

Assim como Seo planejou, não demorou muito para o coração de Gotak ameaçar voltar a bater. Quando ele percebeu, se afastou ligeiramente, apenas para dar espaço ao papel magnífico da natureza paranormal. 

A frequência cardíaca de Hyuntak aumentou, mas não ao nível normal, pelo contrário, seu coração batia tão rápido que era humanamente impossível pensar que algo desse tipo traria alguém morto de volta.

Mas não estamos falando de humanos aqui. E sim vampiros. 

Por isso, após uns poucos minutos com o coração apertado de tanto palpitar, Hyuntak sentiu seus ouvidos apitarem como sirenes, o despertando do que ele pensou ser o depois da morte. 

Contudo, ele não acordou normal. 

Hyuntak estava esfomeado, cheio de fome de sangue. Portanto, partiu para cima do que mais se aproximava do líquido vermelho — o pulso aberto de Juntae. 

O vampiro mais velho não se importou, pelo contrário, deu espaço para Hyuntak se alimentar o quanto precisasse enquanto acariciava seus cabelos escuros. Como um dono acariciando seu pequeno cachorrinho. 

— Parece que vamos nos divertir, garoto. 

Dessa forma, com aquele vampiro recém-transformado grudado no seu braço, e uma nova marionete para treinar, Juntae havia concluído parte do seu plano milenar. Afinal, simplesmente matar Hyuntak nunca curaria as feridas que ele provocou, e o assombrar por alguns anos também não parecia valer a pena. 

Queria controlar Hyuntak por inteiro, o ensinar o melhor de ser vampiro para, no final, arrancar tudo dele novamente. Até porque, a solidão dentro da penumbra é o pior castigo que um vampiro poderia conhecer. 

Fim.

Notes:

obrigado por ler minha história, kudos e comentários são sempre bem vindos 💗