Work Text:
" - Venha me beijar, meu doce vampiro. "
RITA LEE
Robby estava apoiado no balcão da central observando o quadro, fingindo que decidia escolher um caso, mas apenas esperava a mulher passar pela porta. Suas olhadas de canto de olho para toda e qualquer movimentação perto da entrada não passava desapercebido por seus colegas de trabalho, que notavam seu impaciência e ansiedade. Batia o pé contra o piso que poderia abrir um buraco no chão, os braços cruzados para evitar que suas mãos ficassem desocupadas. Suspirando sempre que via algum outro funcionário passar, quebrando suas expectativas e esperanças.
"O turno dela começa em dez minutos, aguenta só mais um pouco." Dana checou o relógio, achava bem divertido como Robby estava se comportando desde a chegada da mulher estranha.
"Não estou esperando por ela." A resposta foi imediata, acompanhada de um dar de ombros, um nervosismo mal encoberto.
"Você está parado aí a mais de quinze minutos, porque sabe que Evangeline sempre chega mais cedo."
"Você é que está tremendamente enganada, minha amiga." Robby se inclinou no balcão antes de se afastar, como se mostrar o desinteresse fizesse Dana parar de pegar no seu pé.
Mas foi tudo por água abaixo quando Evangeline Nightingale passou pela porta. Ela era alta e usava botas plataforma de cano longo, um vestido preto de mangas largas que cobria toda sua pele pálida. Os cabelos negros como penas de corvo, longos e bagunçados pelo vento. Os olhos castanhos realçados pelo delineado simples e máscara de cílios, eles ficavam bonitos através das lentes dos óculos parafusados. Lábios pintados de um vermelho mortal. Os brincos de morcego eram fofos. Uma cruz vermelha pendendo ao redor de seu pescoço. Robby gostava de a ver chegar para poder apreciar suas roupas únicas e bonitas. Nunca se repetiam, imaginava o tamanho do guarda roupa necessário para tantas roupas pretas.
"Bom dia, Evangeline." Robby sorria para ela de modo contido, a observou tirar os fones de ouvido e ajeitar o cabelo bagunçado. Mentiria se dissesse que o coração não bateu mais forte ao vê-la lhe dar um sorriso simpático e doce.
"Bom dia, Robby." Sua voz era suave e trazia o frescor do mundo fora do Pitt, jovial e animada.
Caminharam juntos até o corredor que levava para o vestiário, como o bom cavaleiro que era, abriu a porta para ela. Se virando para movimentar os lábios de modo que Dana pudesse ler.
"Coincidência."
"Você está olhando pra nova enfermeira como um serial killer." Jack se aproximou de Robby no corredor, acompanhando o olhar de Robinavitch para a mulher que atravessava o saguão. Agora usando o uniforme hospitalar preto, os longos cabelos presos em uma trança embutida.
"Porque todos estão falando isso? Não estou não." Ele exclamou irritado. O que estava demonstrando tanto assim? Ria demais com ela ou a elogiava descaradamente? Não achava que lhe mostrava favoritismo.
"Cara, você está completamente na dela." Jack certamente era a pior pessoa para pedir esse tipo de concelho, levando em consideração sua falta de tato e papas na língua.
"Pelo amor de Deus, era só o que me faltava." Robby passou os dedos pelos olhos como se não quisesse ouvir tais palavras serem proferidas em voz alta.
"Deveria chamar ela para sair."
A conversa foi interrompida por Evangeline, que chamou Robby, dizendo que Santos estava louca atrás dele. Jack lhe deu um sorriso ladino terrível, batendo em seu ombro. Como se quisesse mostrar que aquilo só poderia ser uma uma prova divina esfregando na cara que ele deveria seguir o concelho de Abbot.
"Jamais, somos colegas de trabalho e ela é nova demais para mim." Robby tentou deixar seus pontos bem definidos. Caminhando em direção a mulher, que esperava por ele para o acompanhar até Santos. "Vamos." Sorriu para ela, uma de suas mãos indo por instinto ao encontro de suas costas como um toque casual, indicando que deveriam seguir juntos.
Depois de algumas horas de turno, conseguiu uma pausa para ir a sala de descanso para preparar um café, acabou fazendo demais então separou uma caneca para levar para Evangeline. Que estava sentada na central, curvada com a cara enfiada em um computador, preenchendo algumas fichas. Colocou o café no canto superior da mesa, longe da mão que procurava o mouse, para não haver risco de acabar esbarrando e fazendo bagunça.
"Você leu minha mente. Obrigado, Robby." Evangeline se encostou na cadeira e segurou a caneca, como se estivesse se dando a graça de um breve pausa merecida.
Robby apenas respondeu com um sorriso simpático e estendeu a mão para balançar a cabeça dela antes de seguir caminho até onde Langdon estava, perto do quadro de pacientes. Já chegou querendo ir embora ao perceber que ele havia visto sua pequena interação com Evangeline, levando em consideração o sorriso idiota grudado na cara de Frank.
"Nem começa." Deu um gole no café quente.
"Eu não ia falar nada." Langdon balançou os ombros. Robby o encarou em silêncio, com uma sobrancelha erguida. "Você que tá colocando palavras na minha boca, mas vocês ficam fofos juntos."
O doutor mais velho passou a mão no rosto, como se isso lhe desse tempo para pensar em uma desculpa válida e convincente de porque uma relação pessoal entre os dois jamais daria certo, mas já estava ficando cansado de todas as esquivas dos comentários e concelhos de como avançar. Estava começando a desacreditar em tudo que tinha dito, todos os motivos para não haver nada. Deveria apenas escutar quieto, antes de perder a vontade de continuar insistindo em usar o trabalho e a idade para mascarar que tinha medo de ser rejeitado por Evangeline. O gosto amargo da mentira estava começando a pregar em sua garganta.
Por que sabia que se recebesse um não, ia doer, porque sabia que estava começando a gostar dela de verdade. E tinha certeza que não era recíproco. O que uma mulher jovem, com um emprego e futuro promissor iria querer com um homem dez anos mais velho que já não era mais tão bonito quanto já foi um dia? Ela era linda, incrível, inteligente, poderia escolher qualquer homem, e apenas nos sonhos de Robby ela o escolheria. Se ela pudesse ter qualquer um, porque o escolheria?
Sim, tinha um emprego bom, era reconhecido pela sua carreira consolidada. Mas já não era o homem galante e sedutor que foi na juventude. Não conseguia encontrar qualidades em si que poderiam atrair uma mulher tão bonita como Evangeline. Mesmo se ela olhasse para ele, não achava que conseguiria a manter feliz, talvez não conseguisse manter uma boa conversa por tempo suficiente, imagina se chegasse cansado depois de um plantão e se jogar na cama ao lado dela sem nem tomar banho e sequer olhar na cara dela. Provavelmente não seria uma relação duradoura porque Robby não conseguiria ser bom o suficiente para ela.
"É o que eu tenho dito para ele, mas ninguém me escuta." Dana se juntou a conversa, falando com Langdon enquanto Robby permanecia preso e seus pensamentos pragmáticos. Seus olhos presos entre o chão branco manchado e o perfil de Evangeline trabalhando de modo tão concentrado.
"Eu já notei o modo como ele olha para ela."
"Até o jeito de falar é diferente, é delicado e gentil. Sempre tentando não ser grosso."
Ambos ficaram falando como se Robby não estivesse do lado deles, mas era como se não estivesse mesmo, pensando demais.
Robby ajeitou uma alça de sua mochila no ombro, colocando os fones de ouvido, fazendo os preparativos finais para o encerramento de seu turno. Tinha ficado o resto das horas restantes pensando se deveria ser melhor se afastar de Evangeline antes que acabasse se apaixonando verdadeiramente e quebrasse a cara quando ela aparecesse namorando alguém da idade dela, com um bom emprego, bonito, bem sucedido, atlético e com menos dores nas costas que ele
Mas foi surpreendido ao ser cercado e preso por Evangeline no final do corredor.
"Quer sair comigo?" Evangeline despejou como se estivesse entalado no fundo de sua garganta e se não saísse ela morreria sufocada. Respirou fundo como se buscasse mais coragem em seu interior. "Tipo para um encontro."
Rpbby ficou paralisado, como se não acreditasse no que acabou de ouvir, talvez precisasse que alguém o beliscasse porque estava sonhando. Não notou quando ficou tempo demais sem dar uma resposta.
"Se não falar nada, vou levar como um sim."
"Sim, eu quero. Quero muito. " Robby respondeu imediatamente, e ficou maravilhado com tamanho sorriso que Evangeline lhe deu, o contagiando.
