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Summary:

Em meio ao caos após a luta contra a vampira, muitas sensações estranhas tomam conta de Aguiar e só Labirinto é capaz de fazê-lo retornar à realidade.

Notes:

Como minha outra fic, isso é uma mistura de fanfic e de teoria sobre o que vai acontecer no episódio da semana que vem. Espero que gostem!

Work Text:

O céu é banhado de vermelho, carmesim como o sangue que mancha suas roupas. O som do sino reverbera por seus ossos fazendo seu corpo inteiro tremer, ou talvez seja a fraqueza da hemorragia. Seus sentidos ainda estão entorpecidos pela sensação eletrizante de ter usado a máscara, por isso quando os outros se movem depressa gritando ordens uns para os outros, ele também se prepara para a batalha. Parte de si ignora toda a dor e o cansaço e foca em perseguir aquele formigar delicioso que cobre seu rosto e as palmas das mãos.

Tic. Toc.

Um relógio ecoa em sua mente, quanto tempo a próxima luta vai durar?

Tic. Toc.

Se colocar a máscara novamente, quantos outros inimigos consegue derrotar?

Tic…

— Onde você pensa que vai?! — Labirinto segura seu braço firmemente, impedindo que ele siga os outros até o andar de baixo.

A voz do homem parece distante, como se ele falasse com Aguiar através de uma barreira. Tic… O relógio parece travar com o som da voz dele e o aperto em seu braço. Tic… Aguiar ainda se sente fora de si demais para dar uma resposta apropriada, então ele apenas tenta se soltar.

— Não ouviu o que Jae disse? Você e Henri ficam aqui, eu vou proteger vocês dois! — Labirinto insiste, lhe puxando para trás.

— Eu posso ajudar. — Consegue dizer, olhando para o mais alto com olhos arregalados e vidrados em pura mania. — Eu sou forte, é só… Se eu colocar a máscara…

— Você enlouqueceu? Olha para o seu estado, Aguiar, você vai morrer! — Ele brada e aperta o braço do outro com toda a força que suas mãos trêmulas são capazes de produzir.

Não consegue manter seus olhos em Labirinto, o formigamento clama por mais, aquela sensação prazerosa de poder correndo por suas veias exige que ele faça alguma coisa. Tic. Seus olhos procuram a máscara em sua cintura e seus dedos pairam sobre ela, prontos para agarrá-la. Tic. O som do sino soa mais uma vez e um arrepio sobre por sua espinha. Tic. A hora da caçada está se aproximando, ele precisa agir, precisa sentir o cheiro do sangue novamente.

Tic.

— Olha para mim! — Labirinto brada mais uma vez, segurando seu rosto para que o delegado o olhe diretamente nos olhos. — Agora não é a hora, Aguiar, fica aqui. Fica comigo.

Há um certo desespero nos olhos dele, mas também há uma presença, uma força, que ele não tinha apresentado até agora. O olhar de Labirinto sempre pareceu muito distante, opaco, como se perdido em uma maré de pensamentos, afogado em sua própria confusão. Entretanto, olhando para Aguiar naquele momento, ele parecia ter um objetivo claro, parecia estar completamente presente em seu próprio corpo, se dedicando ao máximo que podia para manter o outro homem ali com ele.

Tic… O som do relógio para.

A mão do delegado cai ao lado de seu corpo, deixando de lado a máscara. Intocada, esquecida. Ele assente, ainda perdido, ainda formigando, mas um pouco mais ancorado na realidade.

Seu corpo dói.

— Vem, senta aqui. — Labirinto arrasta uma cadeira no segundo andar para que ele se apoie. — Henri, fica longe da beirada, se eles tiverem armas vão atirar em você!

O sacrifício grunhe do outro lado do telhado.

— Não posso lutar, não posso sair da casa, não posso fazer nada!

Sua voz soa ainda mais distante do que a de Labirinto, quase um sussurro sob um zumbido crescente com cada badalada do sino. Há também gritos, lá embaixo uma briga começou, consegue distinguir a voz de Dalmo e a de outro homem mais perto da casa. Jae-Yoon grita algo que não consegue entender, sua voz parece estar se distanciando dali, como se elu corresse em outra direção. Aguiar está sentado mas seu corpo também quer correr, o céu vermelho o lembra daquele momento em que sentiu a cabeça da vampira se partir sob suas mãos. Quando seu machado desceu de novo e de novo e de novo e a maré rubra o banhou.

— Ei, ei, olha para mim! — Labirinto se ajoelha diante dele e toca seu rosto. — Não desmaia agora, eu estou aqui. Fica comigo.

Ficar com ele? Mas há tanto que ele poderia estar fazendo, tanto sangue que poderia estar derramando.

— Eu vou cuidar de você, dessa vez sou eu que vai te proteger, só fica acordado, ok? — Pede ansioso e pega as bandagens ao lado, se apressando para fazer um curativo no pescoço do homem.

A mordida ainda pulsa, como se a vampira tivesse acabado de tirar seus dentes tenebrosos e afiados de sua carne. Mas as mãos de Labirinto, apesar de trêmulas, são ágeis e ele parece saber o que está fazendo. Seus dedos compridos e esguios são frios contra a pele do caçador que ferve ao toque, é uma sensação estranha, causa uma formigar diferente.

— Lembra quando você disse que se não tem nada bom nesse mundo é melhor a gente ser isso? — Labirinto fala, mas não espera por uma resposta do assassino, apenas parece falar para acalentar sua própria ansiedade. — Eu pensei sobre isso o dia todo, sobre como a gente tem que fazer a diferença nesse lugar que parece querer tirar tudo de nós… Eu não acho que consigo fazer isso sem você, Aguiar.

Seus tiques fazem com que ele trema ainda mais e suas palavras soam entrecortadas, como se ele lutasse contra si mesmo para poder dizer tudo aquilo.

— Eu confio nos outros e eu quero proteger todos eles, mas não sou forte o suficiente… Às vezes eu acho que vou enlouquecer com todas essas memórias e essas perguntas com respostas que eu não consigo encontrar sentido. — Termina o curativo e deixa que suas mãos repousem nos ombros de Aguiar.

O som de um tiro ecoa por toda aquela região e Labirinto se encolhe, baixando a cabeça.

— Eu não tenho a mesma força que você… Eu nem sei se vou ser capaz de me separar da máscara se precisar colocá-la, eu não sei nem quem eu sou… — A voz dele falha e suas mãos se fecham no colete do delegado. — Mas você me entende, você consegue colocar sentido nas coisas, você viu o outro lado da máscara e voltou… Não dá, Aguiar, se a gente te perder agora eu não sei o que fazer.

Mais um tiro e o urro de algo que nem parece humano.

Dessa vez, as mãos de Aguiar encontram os braços de Labirinto, o caos acontece lá fora e em breve pode até mesmo alcançá-los ali naquele porto seguro. Contudo, em meio a essa loucura, o homem é capaz de recobrar um pouco de si nas palavras do outro. Se lembra da conversa que tiveram na noite anterior, da troca que fizeram, do momento quieta intimidade compartilhada entre dois estranhos no meio do inferno. Podia ter perdido todas as suas memórias mas tinha ganhado algo desde o momento em que acordou naquela delegacia.

Labirinto levanta a cabeça, seu rosto molhado por lágrimas que se esforça para segurar. Aguiar toca sua bochecha com delicadeza, o formigar em suas palmas é ignorado em prol de um deslizar de seu dedão pelas cicatrizes molhadas sob o olho de seu parceiro. O mais alto se contorce novamente em outro tique e fecha os olhos, quase envergonhado de si mesmo, irritado com tudo aquilo.

— Só não morre, porra. — Rosna. — Não me deixa aqui sozinho.

Aguiar suspira e se curva em direção ao homem, depositando um beijo em seus lábios ressecados.

O sino toca mais uma vez e o som ecoa em seu interior. É diferente dessa vez, parecido com a noite anterior, mas ainda sim é diferente. Lá no fundo eles sabem que mais um sacrifício morreu, os homens se separam por um instante e direcionam seus olhares para Henri, que está na beirada do telhado observando o que quer que acontece lá fora. O homem celebra sozinho e os dois voltam a se olhar.

Um sacrifício morreu, mas não foi o deles, mais uma noite se passou e o maior perigo se foi. Eles ainda estão vivos, o que quer que acontece lá fora ainda não os atingiu.

Ainda estão vivos.

Labirinto beija Aguiar com força, quase desajeitadamente batendo seus dentes contra os dele, o puxando para perto com uma fome quase insaciável. O vermelho do sangue, do céu, parece ganhar um novo significado ao tingir a pele do outro homem e o delegado se deixa levar por esse novo sentimento. Essa nova sensação é quase tão intensa quanto a que sentiu usando a máscara, o sentimento de estar vivo é quase tão prazeroso quando o poder que o invadiu antes.

Assim como antes, ele quer mais.

— É muita falta de educação fazer uma coisa dessas na frente dos outros sem convidar eles para participar. — Eles escutam Henri falar um pouco perto demais.

Se separam depressa e arregalam os olhos para o sacrifício que os observa a curta distância.

Mais dois tiros, um grito de comemoração.

— Se vão se comer, poderiam pelo menos esperar a batalha acabar. — Henri zomba.

Labirinto limpa a garganta envergonhado e se levanta arrumando sua roupa, Aguiar se recosta contra a cadeira e olha para o sacrifício um pouco irritado.

— E se a gente não tiver tempo? E se a gente morrer?

— Justo, mas então eu quero assistir. — Riu de forma pervertida.

— Não vai ter nada para assistir. — Labirinto cortou a conversa na hora e começou a se dirigir em direção as escadas. — Fiquem aqui, eu vou ver se o Pomba está seguro.

Deixou o segundo andar depressa, deixando os outros dois homens a sós, se encarando em uma discussão silenciosa. Henri tinha um olhar divertido em seu rosto marcado por cicatrizes e Aguiar esperava que apesar de cego o homem pudesse ver o desgosto estampado em sua face.

Não disseram mais nada e apenas esperaram o fim da batalha, ou melhor, das batalhas que aconteciam lá fora. Leva um tempo, o suficiente para que os sentidos de Aguiar retornem e ele sinta toda a dor e cansaço o atingir, seu corpo exigindo descanso. Entretanto, quando os sons de luta finalmente param, o céu volta a sua cor original e o som das vozes de seus amigos retorna para aquela grande mansão abandonada, Aguiar sente alívio genuíno.

Com um certo esforço, e a ajuda de Henri, consegue descer as escadas e se reencontrar com os outros. Dalmo parece um pouco traumatizado, suas mãos manchadas de sangue assim como seu rosto, Jae-Yoon está um pouco ferido e Kemi parece nervosa, mas é claro que todos estão bem. Assim que todos se reúnem no salão principal da casa, o homem mais corpulento do grupo puxa todos para um abraço coletivo, que inclui o sacrifício e o garoto da equipe dos pássaros.

— É só a segunda noite, se continuar assim eu vou ter um troço. — Kemi choraminga nos braços de Dalmo.

— Se algo acontecer com a gente eu quero que vocês saibam que vocês são muito importante para mim, tá ligado? — Dalmo os aperta com força. — Vocês são meus amigos, a gente é uma família agora.

— Vai só ficar mais difícil, mas a gente vai ficar junto. — Jae-yoon promete.

— A gente não vai morrer, bando de dramáticos. — Henri diz exasperado. — Já não basta aqueles dois se pegando lá em cima.

— Oi?! — Jae se afasta dos outros. — Quem?!

— Já está na hora da gente ir descansar, não é? Já está tarde. — Labirinto se afasta e limpa a garganta.

— Não, espera aí, meu irmão… — Dalmo faz sinal para que ele pare. — A gente lá fora lutando para sobreviver e vocês aqui na sacanagem?

Labirinto olha para Aguiar com olhos arregalados.

O delegado sorri.

— Eu estou todo fodido, me dá um desconto. — Pega a mão do mais alto e começa a puxá-lo em direção às escadas. — Boa noite para vocês.

— Qual é?! Desde quando? Como assim?! — Jae tentou se aproximar para cercá-los.

— Boa noite, Jae. — Aguiar insiste e começa a subir as escadas.

— Se vão se comer não façam barulho que as paredes são finas, caralho. — Kemi brada alto.

Labirinto grunhe em uma mistura de vergonha e irritação.

Lá em cima, sob o céu estrelado da noite árida daquele lugar, os dois homens se encaram em silêncio por um momento. As memórias do que aconteceu mais cedo ainda são vívidas e com certeza fazem o interior deles se retorcer.

— Aguiar, eu…

Mas nada importa para ele, puxando seu parceiro para um abraço apertado.

— Eu vou fazer o possível para sair daqui vivo com você. — Aguiar promete. — A gente vai descobrir quem a gente é de verdade e a gente vai fazer isso junto, eu e você.

Labirinto, que estava tenso, amolece nos braços do delegado e deixa sua testa se recostar no ombro do homem.

— Eu acho bom… Fica comigo, por favor.

Aguiar sorri e se afasta um pouco, tocando o rosto do outro para que ele olhe para si.

— Vou ficar.

E os dois selam a promessa em um beijo, que mais uma vez faz ambos se lembrarem de como é bom estar vivo.