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Quem estava ali presente não sabia qual estava mais radiante, Ricardo ou o sol. Quem estava ali presente também não sabia o que os deixava mais apreensivos, a previsão de chuva ou a ameaça de Ricardo colapsar por conta do nervosismo.
— Cara, você sabe que, assim, vocês já são casados, né? — Shanyqua disse, observando o atleta caminhar de um lado para o outro sobre o altar improvisado no meio do jardim.
Ele apenas balançou a cabeça em concordância, não ousando dizer nada, havia perdido a voz à eminência de vomitar por estar nervoso demais.
Sim, de fato ele e Leandro já eram casados. Haviam se casado no cartório há pouco mais de um ano, já estando há quase uma década em um relacionamento sério. Mas só agora decidiram fazer uma pequena cerimônia simbólica para selar a união. E é claro que estava extremamente ansioso para isso.
— Deixa ele, Shany. — Nathalia riu e aproximou-se de Ricardo, segurando suas mãos para fazê-lo parar de andar. — Sabemos que é um dia muito especial, não é, Ric?
Respirou fundo e assentiu, tentando acalmar-se enquanto observava a amiga arrumar a pequena rosa vermelha que estava no bolso do seu paletó branco. Seu coração batendo tão rápido que duvidava que iria sobreviver a entrada do noivo, sabendo que ele aceleraria ainda mais assim que botasse os olhos no moreno.
Fechou os olhos por um momento e passou as mãos no rosto, inspirando e expirando múltiplas vezes. Esse seria o dia mais feliz da sua vida, e nada poderia estragar isso.
Ouvia os amigos conversando, notando a animação em suas vozes, e abriu os olhos para observá-los, sorrindo ao constatar que eles estavam tão felizes com o momento quanto ele próprio estava. Shanyqua e Breno conversavam alegremente sentados a uma mesa e pareciam empolgados com qualquer que fosse o assunto, Nathalia havia ido organizar a mesa de aperitivos com as comidas e bebidas que Mike trazia de dentro da casa, e Lúcio ajeitava um tripé com uma câmera enquanto tagarelava com Jorel, que verificava as caixas de som.
Tudo estava tranquilo, o dia estava lindo e havia a presença daqueles que mais lhe importavam. Pegou-se imaginando como deveriam estar seus outros amigos, que estavam com Leandro, ajudando-o a se arrumar. Estariam eles felizes também? Sinceramente, não tinha dúvidas de que sim.
— Alguém sabe o que o Lê vai vestir? — perguntou de repente, sequer havia notado quando sua voz voltou. Todos o olharam e sorriram cúmplices, causando-o confusão.
— Se a gente falar não tem graça, né grandão? — foi Mike quem o respondeu, um sorriso maroto tomando conta de sua face.
Franziu o cenho, não imaginava o que o moreno poderia vestir de diferente, ele sempre usava preto e cores escuras. Foi pensando nisso que Ricardo havia decidido que iria vestir branco para a cerimônia.
— Aquela superstição diz que é ver a noiva antes do casamento que traz azar, não o noivo. — brincou, imitando o sorriso do amigo.
— Na-na-ni-na-não, espertuxo! — Shanyqua cantarolou, balançando o dedo indicador com o braço esticado em direção ao atleta, que riu com os movimentos extremamente teatrais da amiga.
— Certo, 'tá bem. — deu-se por vencido, sem deixar de sorrir, gostava da ideia de ser surpresa.
Observou-os rirem e trocarem olhares, estava ciente de que havia algo no ar no qual apenas ele não sabia. Sua curiosidade aumentando cada vez mais.
Sabia que era extremamente sortudo por ter amigos como aqueles. Amigos que se importavam e prezavam pela sua felicidade.
Olhou em volta, analisando tudo o que eles tinham preparado. A grande casa que todos haviam ajudado a alugar para festejarem naquele dia, o jardim completamente florido e arranjado com o pequeno palanque de madeira montado improvisadamente no centro para que tivessem um altar. As mesas e cadeiras de plástico espalhadas para que todos pudessem se sentar, todas decoradas com panos vermelhos e com arranjos simples de rosas. O simples espaço entre as mesas deixado como uma passarela para que Leandro pudesse caminhar até Ricardo. Tudo tão simples e minimalista e, ainda sim, tão grande e significativo.
Sorriu, perante tudo. A felicidade dominando seu ser tanto quanto a ansiedade.
— • —
— Coloca a música, Jorel! — Jorge pediu alto enquanto saia de dentro da casa, um sorriso enorme e ansioso no rosto.
O coração de Ricardo pulou, estava na hora. Sequer havia notado o tempo passar, ao mesmo tempo que parecia ter aguardado uma eternidade por aquele momento.
Viu uma sombra parada na porta da casa, sabia quem era, e prendeu a respiração ao vê-la se mover no exato momento que ouviu a clássica música soar pelo jardim.
— Papai! — seu peito se aqueceu ao observar a figura infantil correr em sua direção, segurando uma cesta de pétalas de rosa que iam caindo conforme ela corria até o altar.
Todos riram e soltaram exclamações de fofura perante a cena da garotinha se jogando em cima do atleta, que a recebeu de braços abertos.
— Meu amor! — ele riu, abraçando-a e acariciando seus cabelos castanhos e encaracolados, e então observando-a em seu vestidinho branco rendado. — Era pra você ter vindo andando, e não correndo!
— U pai Lê 'tá vino! — disse ansiosa, a voz embolada de uma criança que ainda estava aprendendo a falar corretamente. — Ele 'tá ão monito!
— Mais bonito que você, pitoca? — Breno perguntou, ele também estava no altar. A garotinha sorriu para ele. — Impossível alguém ser mais bonito que a Princesa Alícia!
Ela riu, girando enquanto segurava a saia de seu vestido, e fez uma reverência desengonçada para o tio, que retribuiu da mesma forma.
Ouviu-se um alto som de alguém coçando a garganta, atraindo a atenção de todos novamente para a porta da casa, avistando Lila com um sorriso de orelha a orelha no rosto. Todos observaram atentos ela estendendo a mão para dentro da casa, e então a figura de Leandro surgiu segurando-a. E o mundo de Ricardo parou.
Ao contrário do que pensava, o moreno não estava de preto. Ele estava de branco.
Um terno branco ornamentado de seda cobria o seu corpo, com detalhes transparentes nas mangas e costas para mostrar suas tatuagens. Relevos floridos estampavam a superfície do tecido, mesclando-se a rendas e alguns babados simples. Era como a personificação de um anjo, o mais belo e rebelde dos anjos.
Seus olhos se encontraram, e as pernas do atleta bambearam ao ser agraciado com o sorriso mais lindo que já viu em toda a sua vida.
"Surpresa!", o sorriso dizia.
Em uma de suas mãos, segurava um grande buquê de rosas vermelhas, enquanto a outra estava entrelaçada com a de Lila, que o guiava em sua caminhada até o altar. Não conseguia prestar atenção em nada e em ninguém além do homem que o aguardava no fim do caminho.
Nenhum dos dois sequer notou as próprias lágrimas chegando ao apenas se olharem. Esperaram tanto por isso. As respirações suprimidas até que finalmente se encontrassem.
Quando Leandro se deu por si novamente, já estava a beira do palanque de madeira, com Lila o empurrando levemente para que subisse no local.
Observou Ricardo lhe estender a mão, e aceitou-a. Um choque caloroso passando pelo corpo de ambos ao se tocarem.
— Eu dixe qui u pai Lê tava monito! — a pequena garotinha exclamou, pulando entre os dois adultos ao estarem, finalmente, ambos no altar.
— Disse mesmo... — o atleta murmurou, o olhar preso no homem a sua frente, que apenas sorriu timidamente em resposta.
Nenhum dos dois notou Breno aproximando-se, ficando quase entre os dois. O sorriso que carregava quase tão grande quanto o dos próprios noivos.
— Bom, então aqui estamos hoje — começou a falar com um tom formal, em alto e bom som, atraindo a atenção de todos, enquanto sinalizava para Melissa e Ayla virem pegar Alícia, a garotinha, para iniciarem a cerimônia. — para celebrar a união de nossos amigos, Leandro e Ricardo. E, devo dizer, que me sinto muito honrado em poder conduzir essa cerimônia para vocês, meus amigos!
Agora, todos sorriam, e acompanhavam atentamente cada palavra dita por Breno, que conduzia tudo com maestria. Ele com certeza havia ensaiado.
Lembranças eram citadas, momentos ao lado do casal que ninguém jamais esqueceria. Desde o ensino médio até a faculdade e perrengues da vida adulta.
O sol definitivamente já não brilhava mais que o casal, estavam tão radiantes quanto qualquer chama. Os olhos repletos de luz.
Ambos se encaravam como se estivessem se vendo agora, verdadeiramente, pela primeira vez. Suas vidas tinham acabado de recomeçar, não era apenas um novo capítulo, e sim, um novo livro.
— Gostariam de dizer seus votos? Acho que estamos todos ansiosos para...
— Podemos deixar essa parte pra depois! — Leandro interrompeu-o, sua ansiedade o consumindo por completo. — Ric, meu marido! — exclamou, quase gritou, e se jogou em cima de Ricardo, que o recebeu prontamente em seus braços.
Selaram os lábios, assim como selaram sua união. O jardim explodiu em aplausos e assovios, além de risadas pela impaciência do moreno.
— O Breno nem perguntou se eles se aceitavam como marido e... marido. — Ayla disse, rindo alto enquanto balançava Alícia nos braços, que batia palmas desajeitadamente com suas mãozinhas.
— E precisa? — Melissa revidou, assoviando logo em seguida com dois dedos na boca. — Olha esse dois!
Todos pulavam e berravam, aplaudindo sem parar a união dos amigos como uma verdadeira festa.
— Viva aos noivos! — erguendo a câmera em meio a todos, focando-a no casal que ainda se beijava no palanque, Lúcio gritou.
— Viva!
Uma trovoada. E gotículas de chuva começando a cair, cada vez mais e mais sobre todos no jardim.
O casal finalmente se afastou, sentindo as gotas geladas caindo sobre si, e riram um para o outro. Segurando as mãos unidas enquanto continuavam dando selinhos até enfim pararem, virando-se para os amigos. A chuva engrossando.
— Vem, filha! — Leandro chamou pela garotinha, abrindo os braços. Não demorou muito até ela chegar e ser erguida no ar, recebendo um grande abraço dos pais.
— 'Tá choveno! — ela exclamou, rindo.
— Sim, e daí? — Ricardo pegou-a e girou com ela no colo, causando mais uma risada alta e contagiosa. — Quem quer dançar na chuva?
Todos gritaram em felicidade, indo em direção aos noivos. Chuva nenhuma estragaria aquele dia tão especial.
—• 2 anos depois •—
O sol irradiava lindamente pela janela, pintando a cortina branca com luzes e sombras. O vaso de rosas vermelhas na cômoda ao lado da janela se agraciava com os raios alaranjados.
Uma leve brisa entrava junto, arrepiando a pele sensível de quem estava deitado na cama. No leito.
"— Viva aos noivos!
— Viva!"
— Estavam todos tão felizes. — Ricardo diz, sorrindo enquanto observa o vídeo na tela do celular em suas mãos magras e pálidas.
— Sim. — Leandro concordou, a mão acariciando a pele arrepiada dos braços magros do marido. — Principalmente a gente, você se lembra?
Ambos se olharam, e ficaram em silêncio por alguns segundos. Por mais cansados que estivessem, os olhos do atleta sempre teriam forças para observar o moreno por quanto tempo fosse.
— Como eu poderia me esquecer? — levantou a mão, tocando o rosto do outro. — Você estava tão lindo...
— Ainda me lembro claramente do seu olhar quando me viu na porta... — disse enquanto deitava suavemente o rosto na mão que o tocava, fechando os olhos por um breve instante.
Silêncio novamente. Apenas o som das respirações, uma fraca demais, e dos aparelhos médicos sendo ouvidos.
Ricardo sentiu seu peito doer quando sentiu algo úmido em sua mão. Fracos e baixos soluços começando a ecoar pelo quarto.
— Amor...
— Não, tudo bem. — Leandro disse em palavras entrecortadas, levantando o rosto e tentando falhamente enxugar as lágrimas que escorriam sem parar. — A gente já conversou sobre isso, eu entendo, você sabe que eu... entendo...
Os soluços não paravam, e o atleta puxou o marido fracamente para vir abraçá-lo, o que ele rapidamente fez. Já não tinha forças para puxá-lo e detê-lo em seus braços como fazia antes.
O moreno queria se agarrar nele, apertá-lo, espremê-lo, tudo. Mas não podia. Sabia que o corpo dele já não aguentava mais. Sabia que ele já não aguentava mais.
Maldito seja o câncer hereditário.
Sequer conseguiram se prevenir contra isso. Porra, a mãe de Ricardo não podia ter dito antes que a família tinha histórico de câncer de estômago?
Sentiu o maior acariciando seu cabelo, de forma tão leve que ele parecia não ter forças nem mais para isso.
— Me desculpe... — Ricardo murmurou.
— Não! Não diga isso! — se forçou a parar de soluçar, levantando o olhar para encontrar os olhos do outro, colocando as mãos em seu rosto magro. — Eu sei... — respirou fundo, encostando suas testas. — Eu sei que você não aguenta mais, e eu também não quero te ver sofrendo assim. É só que...
— Dói... — completou, fechando os olhos cansados.
— Sim. — a voz de choro era perceptível. — Dói muito.
Novamente, abraçaram-se. As respirações pesadas e dificultosas, por motivos diferentes.
— Você precisa ser forte, Lê. Pela Licy, nossa princesinha. Por você mesmo, meu amor. — sentiu o moreno balançando a cabeça em concordância contra o seu ombro, as lágrimas molhando a camisola do hospital. — Você sabe que eu queria tanto quanto você continuar aqui...
— 'Tá tudo bem... — murmurou novamente, mais para si mesmo do que para o marido.
O atleta respirou fundo, sentindo-se cada vez mais fraco. Não passaria daquele dia, ele sabia disso. Ambos sabiam disso.
Sentia-se cada vez mais inerte. O ritmo dos sons das máquinas diminuindo quase a cada minuto.
— O dia hoje 'tá tão parecido com o do nosso casamento. — comentou com a voz suave, tentando acalmar o moreno.
Como uma coincidência amarga, na distância, soou uma trovoada. O sinal de uma chuva que se aproximava.
Não adiantava, nada conseguiria apaziguar aquele momento. Nada tiraria a dor daquele momento.
Ouviram quando a chuva chegou, as gotas grossas caindo nas ruas, o som do trânsito diminuindo. A brisa fresca, agora gelada, trazia a chuva para dentro do quarto, respingando no chão, na cômoda, e até mesmo nos dois homens. Mas nenhum dos dois se moveu.
— Eu te amo... — Leandro sussurrou, descendo sua cabeça para o peito do maior, ouvindo seu coração bater fracamente.
Ele respirou fundo, envolvendo o corpo do moreno o máximo que conseguia. Pela última vez.
— Eu também te amo, Lê, meu amor. — disse em alto e bom som, com um suspiro.
O silêncio nunca foi tão incômodo, o único som presente, as máquinas, estavam parando, cessando. Os "bip"s diminuindo, os batimentos em seu ouvido ficando inaudíveis. As lágrimas, mais do que nunca, desciam sem parar.
Um alarme soou, anunciando uma parada cardíaca no quarto onde estavam. Uma série de enfermeiras entrou as pressas, indo tirar o moreno de cima do corpo para que pudessem iniciar a massagem cardíaca.
— Parem. — uma outra voz soou, o médico que acompanhava Ricardo durante todo o seu tratamento. — Deixem ele aí. — suspirou, uma tristeza clara em sua voz. — O paciente tem uma ordem de não ressuscitar. Deixem ele ir.
Leandro não prestava atenção em mais nada. Apenas chorava sem parar, a dor consumindo seu peito, rasgando-o, purgando-o. Lembranças passando como um filme em sua mente.
Como poderia continuar agora?
"— Você precisa ser forte, Lê. Pela Licy, nossa princesinha. Por você mesmo, meu amor."
Ser forte. Precisava ser forte.
Afinal, ainda era meio dia, e tinha uma filhinha para buscar na escola. E uma notícia para dar.
