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Espelhos quebrados e Cozinha Assombrada

Summary:

Quando Roronoa Zoro começou a morar em um apartamento pequeno, nos fundos de uma rua afastada próxima à faculdade, ele não pensou que em pleno Halloween conseguiria ver o fantasma que estava assombrando sua paz desde o primeiro dia em que se mudou.

Cinco vezes Zoro viu Sanji e mandou-o sumir, mas uma vez que ele apenas aceitou a companhia estranha.

Notes:

› Amo que fiquei meses sem escrever com One Piece e quando volto, são os Zosan que me fazem entregar um surtinho bobo de halloween com o famoso 5+1 (eles sempre vão ser meus favoritos desse fandom, com essa trope/tema).
› Quis fazer algo mais voltado ao Halloween e com eles, então aproveitei a ideia do próprio Halloween com essa temática pra conseguir fazer um mimo.
› Sanji aqui é um fantasma, mas na semana do Halloween até o Dia dos Mortos, ele consegue se manifestar fisicamente ( e ficar visível para as pessoas) por conta da época, onde o sobrenatural permite que os que já partiram, vivam mais uma vez.
› Espero que gostem da fic assim como gostei de escrever e falar mais sobre eles!
› Agradeço MUTÍSSIMO o @heqat pela betagem e por ter paciência com as repetições das mesmas palavras 32847847 vezes 🥴🥴🥴, ficou incrível, além de ter me dado uma força enorme com o feedback da história! Também agradeço muito a @nervouslunatic por essa capa cheirosa e maravilhosa 😭🧡 o trabalho ficou incrível! E também ao @mubroom por ter apoiado (e aprovado) a ideia dessa história! 🧡
› Boa leitura e sigam o projeto @ourseas no tumblr e no spirit fanfics, o pessoal é maravilhoso com tudo o que fazem 🫂🧡

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

capa

I.

A primeira vez que Zoro percebeu que havia algo acontecendo em seu apartamento foi quando encontrou coisas nos lugares errados. Tudo bem, ele não era uma referência em lembrar coisas, nem mesmo os mapas durantes as viagens, mas ele tinha a completa noção de onde guardava os objetos que costumava usar diariamente. Então, sim, não era normal as coisas estarem fora dos armários destinados a isso.

As primeiras vezes foram na mesma semana em que se instalou e montou os móveis. Seus moletons não estavam no armário do quarto, mas sim jogados na lavanderia; os pratos e copos de vidro estavam fora do armário da cozinha — alguns estavam na pia, sujos ou com marcas de batom, e outros estavam quebrados próximo à mesa da cozinha; as almofadas do sofá ficavam espalhadas pelo chão e, todas as noites, a porta principal do apartamento estava destrancada.

Zoro não era esquecido a esse ponto, muito menos descuidado no nível  de manter as coisas desorganizadas e bagunçadas, especialmente durante a semana, quando precisa de  tempo livre para as aulas, treinos e provas. Então, não, ele não era o culpado por isso.

A princípio, ele pensou que o antigo morador ainda tinha a cópia da chave e estava fazendo aquilo de propósito, como se fosse um sinal para que ele saísse e não continuasse no local. O dono do imóvel havia dito que teve muitas dores de cabeça com o último aluno, então Zoro não se surpreenderia se o rapaz voltasse para provocá-lo. Então, ele trocou a fechadura e achou que as coisas voltariam ao normal.

E não, não voltou.

— Sério, agora entendi por que o aluguel estava tão barato.

Zoro resmungou enquanto deixava o copo de cerveja vazio na mesa. Seus amigos riam, mas era simplesmente ridículo chegar a uma conversa de bar e despejar isso, ainda mais quando é algo que nem deveria ser possível. 

— Sabe, isso já aconteceu com uma prima distante minha. — Zoro encarou Usopp com uma carranca, ouvindo a risada mais alta de Robin e Nami ao lado. — O quê? Só estou tentando te deixar relaxado, pois aconteceu com outras pessoas.

— Sim, e o Zoro é um guia turístico com uma qualidade notória para se orientar e seguir um mapa. — Nami sorriu sem parar de tomar vinho em sua taça. Depois encarou Zoro a tempo de vê-lo revirar os olhos.  — Pelo menos o espírito só está bagunçando suas coisas e não sua cabeça.

— Acho que isso não é muito diferente de mexer com minha cabeça — Zoro sussurrou enquanto servia mais um copo de cerveja e ignorava as piadas do grupo.

— Provavelmente é o Halloween, sabe? Coisas sobrenaturais, portais sendo abertos, tudo que é fantasmagórico vindo puxar sua perna para te cobrar por erros passados — Luffy respondeu enquanto encostava no braço de Zoro, com um sorriso no rosto e um olhar brincalhão. — Talvez você devesse comprar um tabuleiro e tentar conversar com o espírito, para saber o que ele quer.

— Claro, e vampiros existem! Inclusive, vão te morder hoje à noite, tomar todo o seu sangue bêbado e te levar para a pós-vida…Zoro resmungou à medida que abria o braço, deixando Luffy se esgueirar e relaxar contra ele. As conversas sobre seu apartamento e as festas em comemoração ao Halloween e ao Dia dos Mortos sempre o irritavam. Não que se importasse muito, já que ele sempre se fantasiava para as festas e comemorava junto do pessoal. As bebidas eram boas, mesmo que na maioria das vezes ele ficasse apenas com as cervejas, as festas eram até que bonitas e divertidas e as músicas, bom, eram aceitáveis.

Mas, desde que sua companhia desconhecida se infiltrou em seu apartamento, as brincadeiras e as piadas sobre o sobrenatural estar colado a ele o irritavam. Mais por não poder ver o suposto desconhecido do que por ter que escutar as piadas sem graça e os comentários idiotas.

— Você podia aproveitar a semana, sabe? Estamos no primeiro dia da Semana do Halloween, você pode ter alguma surpresa.

— Luffy, no dia em que essas coisas existirem de fato, eu já vou estar morto.

— Acredite no que quiser, mas a semana está na data para ter respostas sobre esses eventos.

— Deixe-o, Luffy. — Robin ainda sorria, e Zoro sabia que a noite estava no fim ali. — Ele só acredita no que vê. Tenho pena do pobre fantasma que está na casa dele; o coitado deve sofrer com a preguiça inimaginável do nosso amigo.

— Foda-se.

Robin sorriu mais abertamente e levantou a taça nas mãos em um brinde.

Zoro terminou o copo de cerveja e lentamente se afastou de Luffy, vendo o amigo se aconchegar a Usopp enquanto jogava no próprio Switch. Deixou a parte do dinheiro para a conta e começou a se preparar para ir embora.

— Amanhã encontro vocês na aula.

— Boa sorte com o fantasma!

Zoro ignorou as risadas e os comentários sarcásticos enquanto andava em direção à rua e caminhou para casa. O apartamento era próximo tanto do bar que frequentavam quanto da faculdade, então estava bem localizado. Não demorou muito para chegar e, assim que destrancou a porta, entrou, deixou o par de sapatos na porta e andou em direção à cozinha. Nesse momento, três coisas aconteceram:

1: Zoro ficou parado ao ver um homem com um yukata longo sentado no balcão, segurando uma caneca da qual saía fumaça enquanto a assoprava.

2: O homem o encarou com os olhos arregalados, quase derrubando a caneca.

3: Zoro gritou assustado e jogou o vaso com flor que estava sobre a mesa da cozinha na direção do homem.

Agora, Zoro nunca assumiria que gritou por causa de um homem em sua cozinha, muito menos que fantasmas existiam. A princípio, ele não acreditou, mas o vaso não fez menção a machucar o homem; pelo contrário, passou reto por ele, quebrando na parede. O homem derrubou a caneca, espatifando a cerâmica no chão, assim como o líquido quente, que parecia ser um chá.

— Que porra é essa?

— Você me fez perder o meu chá! — O fantasma gritou, fechando os olhos e resmungando. Depois levantou do balcão, ficando de pé, e encarou irritado. — E por que está me olhando como se fosse desmaiar? Estou aqui há anos, já deveria ter percebido minha presença.

Zoro não respondeu, apenas continuou encarando incrédulo o homem-fantasma. Não por ele ser um fantasma, porém pela ousadia dele andar por sua cozinha como se fosse dono, e isso tudo enquanto o o fantasma preparava outra xícara de chá.

— Você quer uma? Prometo não colocar meu poder de fantasma aqui, seu bastardo idiota!Como pode assustar os outros? Sua mãe nunca te educou sobre o quão errado é jogar objetos nas pessoas? Bom, fantasma, quer dizer… tanto faz. Sua mãe nunca explicou sobre o quão errado e a falta de educação que é jogar um objeto nos outros?

— Eu estou bêbado. — Zoro riu, levantou as mãos e ignorou. — Eu vou dormir. Dane-se.

Zoro ouviu o outro protestar e reclamar, mas apenas fechou a porta do quarto e respirou fundo. É, Halloween era uma merda.

 

II.

Zoro acordou no dia seguinte sentindo uma dor de cabeça. Ele percebeu que não tinha fechado as cortinas, então estava de pé antes do horário. Ignorando isso, apenas se sentou na cama e repensou sobre sua noite anterior.

Ah, o fantasma.

Zoro riu enquanto saía da coberta, calçava o chinelo e caminhava em direção à porta. Ele teve um sonho maluco, com certeza.

Quando abriu a porta, seu sorriso sumiu ao ver o mesmo ser sentado no sofá, com uma cara emburrada e girando o controle da televisão nas mãos. Quando o fantasma o olhou de cima a baixo, Zoro sentiu seu corpo arrepiar: aquilo realmente estava acontecendo.

— Você é real.

— Não, sou uma bactéria no seu cérebro que está fazendo você delirar e ver pessoas mortas — resmungou e encarou. — Claro que sou real, seu bastardo mal-educado. Que tipo de pessoa apenas ignora a outra quando está em uma conversa, sai andando e vai dormir? Sério, qual é o seu problema?

— Por que estou te vendo? — Zoro perguntou. não, ele não estava interessado… — Não, não quero saber. Quero saber por que diabos você anda mexendo e bagunçando minhas coisas como se morasse aqui!

— Teoricamente, eu moro!  Ou morei, pelo menos até o dia em que morri.

— Não quero sua história melancólica.

— Ei! Não fale comigo como se eu fosse um animal, você é um bruto.

Zoro abriu a boca para responder, mas ignorou o outro. Ele caminhou até o banheiro, fechou a porta e entrou para tomar um banho. Foda-se, ele ignoraria completamente o idiota. Ele não tinha paciência para um fantasma idiota e muito menos para lidar com aquilo.

Assim que tirou as roupas, entrou no chuveiro e decidiu que ignoraria qualquer interação naquela semana em seu apartamento.

No entanto, claro, o universo o odiava.

— Sabe, se esconder nos cômodos de seu apartamento não vai ajudar, já que posso atravessar as paredes e tudo mais.

— Vai se ferrar!

Zoro reclamou enquanto respirava fundo, mas levantou a cabeça e viu o fantasma encostado no box do banheiro, encarando-o com a sobrancelha arqueada.

— Para um bruto, você até que é bem-dotado.

— Fora do banheiro!

O fantasma apenas riu e o deixou sozinho no banheiro.

Zoro respirou fundo, mas ignorou completamente a sensação de ter um ser ali e de não poder fazer mais nada sozinho, sem ter algo o seguindo por toda parte.

 

III.

— Sua mãe não te ensinou a perguntar o nome das pessoas?

Zoro respirou fundo, percebendo que o fantasma estava sentado à mesa da cozinha, com as pernas cruzadas, deixando o tecido do yukata de lado e as pernas expostas. Ele comia um doce que estava na geladeira (o único que Zoro tinha comprado), sem se importar com a opinião ou o conforto de Zoro.

— Sabe, eu sempre soube que os humanos eram sensíveis, mas você é estranho. — Ele deu de ombros e encarou os olhos de Zoro, com um sorriso se formando no rosto. — Você não gosta de mim, mas se conformou com a minha presença. Isso é fofo.

— Você sempre fala muito?

Zoro resmungou, tentando ignorar o fantasma, e voltou sua atenção ao livro de estudo aberto na mesa. Ele tinha a entrega da versão do artigo no dia seguinte, então precisava estudar e revisar. Porém, claro, ter um fantasma sobre sua cabeça não era divertido nem garantiria uma nota.

— Falo quando podem me ouvir. Por que eu falaria se você não pode me ouvir? Seria um desperdício de tempo.

— Só me ignore, estou ocupado.

Zoro não reclamou dos minutos em silêncio, mas, quando sentiu um calor nas costas e virou o rosto, percebeu o fantasma perto de si, encarando fixamente seu caderno. Era estranha a sensação de sentir parcialmente a aproximação do corpo e da respiração dele. Ele não se assustou, já acostumado com o fantasma se intrometendo em suas coisas, mas a aproximação ainda o incomodava.

O fantasma lia por cima, mas o murmúrio ainda era alto.

Irritantemente alto. 

— Você está quente — Zoro comentou, e se arrependeu em seguida, quando percebeu um sorriso no rosto dele. — Se quer ler algo sobre a vida humana, sente aqui do lado e acompanhe o livro — continuou enquanto continuava suas anotações.

— Você é extremamente burro para um universitário.

Zoro piscou uma, duas, três vezes enquanto processava aquilo. Como?

— Claro, por que um fantasma seria inteligente demais? — Zoro revirou os olhos, ignorando o olhar focado do homem em si.

— Me formei como um dos melhores no curso de gastronomia e fui chef bem conhecido em mais de oito países. Posso dizer que sou um estudante melhor do que você.

— Não estou estudando gastronomia.

— E nem artes marciais, aparentemente.

— Isso é uma pós-graduação. Se eu não fosse minimamente inteligente, nem a graduação teria terminado, então me poupe do seu falatório.

— Você é sempre tão arisco com os outros? Deuses, deve ser tão solitário ser você.

— Pelo menos não sou um fantasma.

Zoro não ouviu uma retaliação, muito menos viu a presença do fantasma. Quando levantou os olhos do livro e do caderno, percebeu que estava sozinho na sala e à mesa.

Ele respirou fundo. Isso não importava. 

O fantasma não importava. 

Ele só queria silêncio. E enfim tinha.

IV.

Fazia dois dias que o fantasma não o irritava, e isso não era estranho, nem algo para se preocupar. Pelo menos era o que repetia a cada momento de silêncio, sem ter o outro incomodando a cada passo que dava dentro do apartamento.

Sanji Vinsmoke.

Zoro descobriu o nome do dito cujo por acaso, após ter comentado com o grupo na noite anterior, enquanto estavam no bar comemorando a bolsa de estudos internacional de Nami, que finalmente teve sua tese aceita para a pós-graduação. Robin sabia do caso; foi um daqueles mais suspeitos, tanto que a investigação ainda estava aberta. Ainda mais se tratar de um chef popular que reinventou algumas coisas importantes da culinária local.

Ele não se importou muito com o assunto. Considerando que Sanji não estava mexendo com sua cabeça diretamente, nem o assustando ou perseguindo as pessoas ao seu redor, ele fazia diferença se era um espírito ruim ou bom. Mas, mesmo assim, o apartamento em ordem lhe deu uma leve sensação de desconforto.

O ato de passar dias arrumando suas coisas e resmungando havia se tornado parte de seu padrão rotineiro. Ele não iria mentir e dizer que quer tudo ao avesso de novo, porém isso levanta uma dúvida em sua cabeça: se Sanji estava por ali e só o ignorando ou não.

— Por Deus, quando disse que você era um bruto, não pensei que isso significasse que comesse qualquer alimento extremamente passado e torrado.

Falando no Diabo…, Zoro resmungou enquanto desligava o fogão e via seus gyozas queimados e, realmente, torrados. Ele não o encarou, nem sequer olhou na direção do fantasma, porém ainda podia vê-lo de relance sentado no balcão, ao lado do fogão, balançando as pernas. 

Antes que virasse para o outro, jogou fora os pastéis que estariam incomíveis e deixou os não tão torrados à sua disposição para comer. Quando enfim encarou Sanji, percebeu que ele ainda o observava. Zoro tinha reparado na beleza do homem: o corpo magro e alto, o mesmo yukata azul e preto, as mãos lisas e cuidadas, e o cabelo loiro amarrado em um rabo de cavalo no topo. Sanji era bonito, fantasma ou não.

— O quê? Tem algo de errado comigo? — Sanji reclamou, e Zoro não comentou nada, apenas revirou os olhos, pegou o prato com a comida e foi em direção à mesa. — Ei! Pelo menos podia agradecer por eu ter te deixado em paz, sem ter bagunçado as suas roupas ou o que for.

— Então você faz isso de propósito.

— Não... Não é isso que eu quero dizer! — Sanji gemeu enquanto se levantava do balcão e andava na sua direção, puxando a cadeira e sentando ao lado dele. — Sério, como consegue ser tão mal-humorado?

— Você me irrita.

— Você nem me via antes da segunda-feira! E nem venha dizer que eu te irrito, você está sendo grosso desde a primeira vez que nos vimos.

— Se você diz.

— É isso que estou falando!

— Então, por que não cozinha para mim como pagamento por ter bagunçado minhas coisas e ter me feito chegar atrasado várias vezes à faculdade?

— Cozinhar para você? Não me faça rir, um brutamontes como você não sabe nada de culinária fina.

Zoro arqueou as sobrancelhas ao olhar para Sanji, com ar de irritado. Sorrindo, ele comeu o último pastel. Deixou o prato na mesa e se levantou, mais do que disposto a ir na direção do quarto.

— Você novamente fugindo de uma conversa.

— Enquanto não cozinhar para mim, Sanji, não vou te responder. — Zoro percebeu a surpresa no rosto dele, os olhos arregalados e a tentativa de falar algo. Isso lhe arrancou uma sensação de satisfação por o ter feito ficar em silêncio. — Se não tiver um café da manhã feito, vou chamar um padre.

Zoro ignorou o protesto e as reclamações em voz alta.

Ele finge que, quando acorda e vai até a cozinha, não sente desconforto por não ver Sanji e ter o silêncio ali. A postura dura até ver a mesa do café pronta: pães frescos, jarras de sucos diferentes e mais alguns pratos com frutas e doces espalhados.

 

V.

Quando o dia anterior ao Halloween chegou, Zoro estava praticamente morto.

Seu tio havia vindo visitá-lo depois de dois anos em viagens internacionais. E, conhecendo-o, Zoro sabia que, se Mihawk estava ali, teriam práticas de Kenjutsu. E mesmo que ainda treinasse no seu antigo dojo, ele não estava mais em forma como na adolescência e no começo da graduação.

Ele estava mais do que exausto e, honestamente, seu tio nunca jogava limpo.

Então, quando entrou em seu apartamento, ignorou completamente Sanji na cozinha e foi em direção ao seu quarto, onde se deitou na cama e fechou os olhos para descansar. Ele podia ouvir os passos vindo em sua direção, mas não se importou com o falatório, querendo apenas dormir.

Por um momento, a voz de Sanji, falando e resmungando, virou um som de fundo para seu descanso. Quando quase estava dormindo, ele sentiu o colchão afundar ao seu lado, assim como a mão em suas costas, a cutucá-lo.

— Você sempre dorme quando estou falando, isso é muito irritante.

— Não começa, amanhã você reclama. — A voz saiu arrastada, sonolenta e cansada. Ele não queria começar o diálogo (monólogo, já que ele ficaria em silêncio para ouvir as reclamações de Sanji), mas estava cansado depois de ficar horas lutando com seu tio e seu antigo professor.

— Logo hoje que decidi ser bonzinho e te fazer um jantar tão completo?

Zoro percebeu o desdém no tom de voz vindo de Sanji. Ele já estava se acostumando com isso: o deboche, as mudanças de tom, as piscadelas e as mãos bobas que ficavam encostando nele e o puxando apenas para provocar e irritá-lo. Ele também percebeu as duas mãos em seu ombro, a massageá-lo sutilmente, como se estivesse interessado.

— Estava aqui, no seu apartamento, te esperando com um jantar completo, um filme escolhido e até uma taça de vinho. Que pecado vir direto para o quarto e dizer que vai dormir!

Na hora que sentiu Sanji se aproximar mais do seu rosto, Zoro puxou o travesseiro e jogou na direção dele. Ele não viu se acertou o babaca ou não, mas relaxou na cama enquanto Sanji ria alto e jogava o travesseiro nele de volta.

— Durma então, seu bruto. Não espere comida fresca quando acordar.

O clique da porta sendo fechada, o barulho dos interruptores desligando as luzes e o puxar do abajur não passaram despercebidos para Zoro, porém ele ignorou enquanto descansava.

Quando acordou de madrugada, umas quatro horas depois de ter adormecido, percebeu o jantar na mesa, embalado e fechado, assim como o restante dos pratos servidos.

 

VI.

Zoro estava pronto para a festa, e, como sempre, esperando as meninas virem.  Não era nem novidade,, Nami e Robin sempre demoram para se arrumar, e hoje não seria diferente,  principalmente considerando que Vivi chegou da viagem da casa dos pais esta semana. 

Luffy, Usopp e Coby  vieram tão cedo que ajudaram Perona e Kid com as decorações e as bebidas. Franky estava viajando, então só apareceria para a Festa do Dia dos Mortos. Brook ficou responsável por cuidar das fantasias do grupo da apresentação do centro, e Law estava com Ace e Sabo numa pensão universitária, cuidando de outra festa. Segundo Luffy, eles apareceriam de madrugada com o pessoal da festa deles para fechar a rua e juntar-se aos restantes das bebidas.

Era comum: nesse mês, a universidade acabava conseguindo ótimas festas e, com isso, arrecadações para os locais com que os grupos estudantis tinham parceria. Era a melhor época para fazer festas e pegar dinheiro dos outros, já que, pelo que diziam, o povo nunca reclamava.

Fora que, na maioria das festas — as de áreas abertas, de dia e fim de tarde —, a universidade se juntava bastante com as crianças e as escolas infantis. Então, a convivência era de bom grado.

Zoro estava fantasiado de samurai; nada novo, considerando que ele usava a mesma fantasia todos os anos. Ele, então, seguiu com ela. Mas, enquanto esperava a mensagem, ele encarou Sanji. O fantasma estava sentado na janela, encarando o céu, e não comentou nada o dia inteiro. Ele tinha até soltado um comentário babaca sobre não estar surpreso com a fantasia de samurai, nem sobre as três espadas serem verdadeiras (e antigas). Contudo, Zoro sabia que ele estava em silêncio demais.

— O Halloween é sempre muito agitado por aqui. É engraçado ver quanta dedicação os alunos têm à data.

— É, ganhamos alguns pontos extras, dinheiro e também status. É normal que eles se dediquem a essa ideia. Fora que essas pensões de alunos sempre disputam sobre qual é a melhor festa, então eles usam isso como uma desculpa para competir.

Sanji deu uma risada, porém continuou encarando o céu.

— É estranho estar morto, mas parecer vivo nesses dias.

— Está falando sobre eu conseguir sentir seu toque, você se machucar e sentir seu corpo vivo?

— Para alguém bruto, você não é burro— Sanji comentou, sorrindo e encarando Zoro. Zoro revirou os olhos, já desistindo da conversa. — Mas é isso mesmo. Geralmente, nós estamos vivos e visíveis para vocês nessas duas semanas. É algo sobre o véu cair e todos serem iguais aos olhos um do outro. É divertido, conhecer pessoas novas, ver algumas indo embora depois de atingir seus objetivos, e outras perdidas se reencontrando, coisas assim. Mas é triste que ainda estamos presos aqui, numa pós-vida que não é o fim nem o início.

— Isso é deprimente.

— Isso é a vida, seu brutamontes…— Sanji resmungou, e o observou  com um sorriso no rosto. — Pelo menos podemos ter a chance de ver as pessoas e nos sentir vivos algumas vezes.

Nenhum dos dois falou mais nada, mas Zoro sentiu o celular vibrar. Imaginou, então, que fosse Nami avisando sobre sua ida à festa. Apertando o celular no bolso, ele encarou Sanji mais uma vez e decidiu:

— Podemos passar em uma loja, e você pode escolher uma fantasia rápida para a noite.

— Hum? — Sanji o encarou confuso, sem perguntar mais nada.

— Não vou repetir. — Zoro revirou os olhos, pegou a jaqueta de couro pendurada no sofá e a jogou na direção do homem. — Está frio. Tem uma loja que sempre fica aberta até às dez horas. Pegue uma roupa e conheça meus amigos. Não é como se eles já não tivessem escutado sobre você.

— Você... Não disse isso por pena de mim.

— A última coisa que sinto é pena, ainda mais de você. Você me atrasou dias demais para a faculdade, além das vezes que bagunçou meus armários assim que os arrumei e comeu meus lanches que preparei corretamente para cada dia da semana! — Zoro reclamou, porém segurou a maçaneta da porta e virou seu olhar para ele. — Não é como se você não pudesse visitá-los ano que vem de novo. Apenas venha.

Zoro não esperou uma resposta, tampouco o ouviu dizer nada, mas deixou a porta aberta enquanto saía do apartamento. Quando ouviu a porta ser fechada, o barulho de a chave ser girada e o tinido das chaves o seguindo, ele aceitou a pequena companhia estranha que estava fazendo parte da sua vida.

Era fácil lidar com isso

Notes:

› meu strawpage: my straw page!
› lembrando que a fic está postada nos outros perfis nos sites vizinhos! 🧡
› até a próxima fific de op 🫂