Work Text:
A batalha de Curupaiti foi uma das grandes batalhas da Guerra do Paraguai, travada no dia 22 de setembro de 1866 no Forte de Curupaiti, às margens do rio Paraguai. É lembrada por ter sido a maior derrota da Tríplice Aliança em toda a guerra
(Wikipedia)
Curupaiti: um conjunto de trincheiras e fortificações perto de Humaitá, que também seria outro problema mais pra frente, entre a terra e o rio Paraguai, com canhões apontados para os dois lados.
Luciano e Martín tinham brigado por uns trinta motivos diferentes nos dias que antecederam a batalha. Agora, depois de uma derrota esmagadora — e, convenhamos, um pouco ridícula —Luciano se afastou de sua gente porque sua cabeça está rodando, o que na hora pareceu bem lógico, mas pensando bem pode não ter sido boa ideia, agora que está sozinho no que talvez seja um pântano ou só a margem destruída do rio após horas e horas e horas de bombardeio, com uma dor que se espalha no corpo, ele repassa cada discussão, cada palavra que Martín disse — na medida em que dá pra lembrar, ele fala muita merda e Luciano não presta tanta atenção assim — pra entender o que aconteceu.
Em termos práticos e concretos, não é tão difícil. Eles subestimaram a capacidade defensiva paraguaia, não é a primeira vez, não vai ser a última. E ele está sozinho e machucado e fez uma escolha que está com muito jeito de ter sido péssima, é difícil se orientar fora de suas terras, ainda mais num terreno desses, o sol já se pôs, e seu corpo inteiro lateja com a dor fantasma de golpes em outra pessoa. Nessas horas, Luciano se dissolve, se mistura, nessas horas ele sente cada estilhaço de bala, a garganta se abrindo num jorro de sangue, costelas quebradas, o peito e a barriga se sob a espada. Uma dor que só vem depois que a poeira baixa.
Ele devia ter ficado perto do exército. Sua visão some por um momento, e Luciano não sabe se é a noite caindo ou se está ainda pior do que imaginou, mas ele cambaleia, a mão procurando apoio até achar o tronco de uma árvore. Tenta se apoiar, e em vez disso as pernas cedem, os joelhos afundando na lama.
Ótimo. Melhor mesmo ficar sentado. Luciano se arrasta até escorar as costas, tenta, e não consegue, se encolher. Dobrar os joelhos contra o peito e esconder o rosto. O corpo não obedece. Tudo bem. Ele não é criança pra fazer isso. É uma nação muito jovem, sim, mas não é criança.
Ele só queria que tudo isso acabasse.
Não vai acabar. Não agora, pelo menos. Um dia vai, sim, com certeza, não há mal que sempre dure, mas é sua dignidade na balança, e uma coisa que está ficando mais e mais clara na medida em que os meses passam é o fato de que o Império — ele, no caso — tem mais força que seus aliados pra bancar essa decisão. Força, dinheiro pra perder, gente pra sacrificar, uma marinha até que bem competente, um exército que faz mais ou menos o que precisa fazer, na verdade Luciano também não sabe explicar direito, mas a guerra vai continuar, porque ele não vai deixar que acabe assim. Ele já passou por uma infinidade de revoltas e tentativas de secessão e estados, parte dele, gritos que ecoam nele, um ódio imenso que reverbera nele, já passou por tudo isso e o império ainda assim se mantém de pé. Por alguma razão incompreensível, tem uma barra de ferro que não verga em sua coluna e por conta disso ele está ali no calor úmido e abafado do verão paraguaio, pensando que essa guerra podia terminar antes do Natal com um pouco de boa vontade, e sabendo que quem não tem boa vontade ali é ele.
Bom, sejamos justos. Daniel também não tem. O Paraguai não vai ceder. Mas Luciano sabe que não ofereceu termos razoáveis, inclusive isso foi um dos motivos pras brigas com Martín. Daniel não tem saída honrosa ali, porque o Império do Brasil não aceitará nada menos que completa e rendição e a cabeça do presidente-general deles. Era tudo ou nada, Daniel escolheu nada.
Então a guerra continua.
Martín teria aceitado outros termos. Talvez. Quase nunca Luciano entende o que se passa na cabeça dele, se é que tem alguma coisa acontecendo lá além de parafusos batendo, mas Martín, desde o começo, mesmo quando estava ofendido e furioso, teve uma dificuldade imensa em comprar de verdade essa guerra. Vai contra sua autoimagem de irmão mais velho, ou o que ele se considere. Luciano duvida muito que Daniel o veja dessa forma. Sebastián também é outro que não se decide, que muda de alianças, que também não queria estar ali.
Como se Luciano estivesse gostando de brincar de guerra e não preferisse muito mais dar as costas pra essa merda toda, voltar pro litoral, que é o mais longe que dá pra ficar dos vizinhos sem sair de suas próprias fronteiras.
Mas no momento, o Uruguai é secundário, ele está com mais raiva de Martín. Que pode ou não ser um traidor. Que pode ou não ter mudado de ideia.
No momento, Luciano está se perguntando se uma nação pode morrer. Ele perguntou alguma coisa assim para Portugal uns anos atrás — vários, vários anos, pode bem ser mais de trezentos — depois de alguma revolta, alguma explosão antes de sua independência, num daqueles momentos de total certeza de que Portugal tinha que ir embora, de que sua terra estava sendo devastada aos poucos, de que sua família estava morrendo sob tortura e que precisava fazer alguma coisa.
Não tinha dado certo. Nunca dava. Ele lembrava bem pouco da repercussão, porque os castigos de Portugal eram sempre espetaculares, mas sabia que tinha acordado no colo dele com o corpo latejando, naquela época em que ainda cabia inteiro em seus braços, todo encolhido, a cabeça em seu peito, e que tinha ficado um bom tempo assim. Era uma lembrança absurda pra se ter agora, mas Luciano poderia, se ignorasse o cheiro de sangue e o frio molhado da terra, lembrar de uma noite quieta, quente, de tremer de febre, de um cafuné distraído em seu cabelo. De chorar, talvez. De perguntar se ia morrer.
Portugal nunca pedia desculpas. Talvez nem sentisse que devia pedir. Mas tinha demorado bastante pra responder, e depois contara uma história estranha, complicada demais para acompanhar, sobre suas guerras, suas derrotas. Sobre se sentir perto de sumir. Virar outra coisa. Sobre viver assim mesmo, sobre ser um império. Seres como eles eram difíceis de matar.
Luciano nem precisa da história, agora. Precisa só ir pra casa. Alguma casa. Dormir um pouco. Retomar a guerra depois.
Ele precisa levantar.
Ele precisa urgentemente levantar, porque está ouvindo passos. Um movimento descuidado pela floresta, ou— não descuidado, não exatamente, é alguém que sabe onde está pisando e se move com segurança, sem preocupação de ser ouvido, o que é um sinal absurdo de arrogância, e assim que pensa nessa palavra Luciano reconhece quem se aproxima, e não se surpreende quando Martín entra em seu campo de visão.
O uniforme escuro esconde um pouco a silhueta dele, mas alguma luz reflete em seu cabelo, talvez da lua, talvez de estrelas, ou talvez esteja alucinando e ele tenha brilho próprio. E talvez Luciano também tenha, porque infelizmente seu aliado favorito o enxerga imediatamente, e se aproxima naquele passo seguro.
Luciano sorri, quando Martín se agacha na sua frente. O cabelo sujo, despenteado, mechas grudando na face, numa umidade que pode ser suor ou sangue. O uniforme, mesmo assim de perto, esconde qualquer mancha, mas Luciano vê o desalinho, vê rasgos. Vê a expressão dele.
— Veio terminar o serviço? — pergunta, antes que ele diga qualquer coisa.
Martín está com muito jeito de quem já vinha ensaiando o que dizer, de quem estava no meio de um raciocínio. Ele para, franze a testa, e faz questão de responder em português:
— Vai tomar no cu, Luciano, eu me machuquei também.
— Se você diz.
A raiva que acende os olhos verdes não tem qualquer traço de surpresa. Martín estava esperando por isso, sabia que a acusação ia vir, e tinha vindo para...
Espera um pouco.
Luciano franze a testa também.
— O que você quer aqui? Se perdeu?
Em vez de responder, Martín encara seu rosto, não seus olhos, um exame rápido passando pelas faces, por seu peito, por suas pernas. Seja o que for que está buscando, não encontra de primeira, e então estende a mão.
Luciano ia insistir na pergunta. Nas duas. Antes da batalha, Martín se reuniu sozinho com Daniel — tá, era pra ter sido uma discussão entre todos, pra ver as possibilidades de paz, mas Luciano não se deu ao trabalho de ir, e Sebastián saiu ofendido pouco depois de começar — e o que Martín disse depois foi que não tinham chegado à conclusão nenhum. O que de fato aconteceu, só ele sabe. E na verdade, Luciano acha que a derrota de hoje foi um pouco de azar e falhas de planejamento, nada além, mas não vai ficar surpreso se Martín encostar uma faca em seu pescoço. Se tiver mesmo vindo terminar o serviço.
E portanto ia insistir na pergunta até ele responder, mas Martín toca em seu rosto com as costas da mão, e Luciano paralisa, a boca entreaberta.
De seu rosto, ele transfere o toque para sua garganta, e Luciano não recua, não chega nem a reagir. Martín ergue seu queixo num gesto seco, agressivo, depois desce os dedos para a gola da camisa, procurando a pele sob o tecido, e Luciano percebe, de repente, que está mordendo a boca. Que está mordendo a boca com muita, muita força.
Seria bom ter mais luz, uma lanterna que fosse, pra enxergar direito a expressão dele. Ver se encontra alguma preocupação de verdade ali, no olhar furioso.
Martín ergue os olhos num relance, uma pausa muito breve, talvez esperando uma reação, talvez dando uma ordem silenciosa para não se mexer. É outra particularidade estranha dessa guerra, as trocas de comando. Luciano já lutou sob as ordens dele, Martín já lutou sob as suas. Para duas pessoas — dois seres, dois países, duas coisas, foda-se — que não tem qualquer confiança mútua, eles trabalham bem, juntos.
Com o silêncio, Martín retoma seu exame. Enfia a mão entre o casaco e a camisa, a palma em seu torso, e dessa vez o toque é gentil, cuidadoso, ainda que a expressão não seja. Ele muda de posição para isso, aproxima-se mais, os joelhos afundando na terra, segura-o com as duas mãos, e Luciano puxa o ar com força, um gemido escapando.
Martín para. Recomeça, o toque mais suave, quase imperceptível.
— Vai passar logo — murmura então. Sem retirar as mãos.
Ou seja, o que Luciano já tinha deduzido. Não tem nada quebrado, nada sangrando. Sua dor é imaginária.
Martín está muito perto, ainda segurando sua cintura. Se ele o puxar, Luciano vai cair contra seu peito.
— Eu sei. Você veio me procurar?
— Não.
Luciano espera, mas Martín não se dá ao trabalho de explicar o que está fazendo ali. Em vez disso, senta sobre os calcanhares, afasta as mãos finalmente, e Luciano tenta ignorar o frio que fica onde ele tocou.
Por fim, Martín diz:
— Você ainda quer continuar.
Uma hostilidade evidente na voz. Luciano se força a soar amigável por contraste, e responde:
— Claro que não quero. Ele vai se render? Pode avisar que aceito.
— Depois de hoje?
Ceticismo estampado na sobrancelha erguida, como se Martín não fizesse parte disso. Como se não tivesse perdido também. Como se não fosse culpa dele, essa derrota.
— Pois é, então, vamos falar sobre hoje, foi isso que vocês combinaram? Está satisfeito?
— Larga de ser idiota. Olha só o preço que estamos pagando, só acho que não vale mais a…
— Não sabia que você era covarde, Martín.
Ele fecha a boca. Numa luz melhor, Luciano poderia ver nuances — se os olhos faíscam, se ele está vermelho, se está contendo uma explosão. Ou se está cansado demais pra uma conversa que os dois já tiveram muitas vezes.
— Vamos voltar — diz Martín então.
— Pode ir na frente. Vou tirar um cochilo e já sigo.
Martín o olha com tanto desprezo, que Luciano sorri de novo.
E, por alguma razão, isso o faz desviar o olhar.
Martín se levanta, e estende a mão. Luciano não tem tempo de pensar se vai aceitar a ajuda, ele o segura pelo braço e o coloca de pé.
É tão inesperado que atordoa. Suas pernas não firmam e a dor sobe em ramos pelas costas, pelos braços, um suor gelado enchendo seu pescoço. Luciano se desequilibra de um jeito que nenhum dos dois estava esperando, dessa vez seu gemido ecoa, e ele leva alguns segundos pra entender como não está no chão ainda.
Martín o segura com força, um braço em volta de sua cintura, o outro em seus ombros, e por um momento Luciano sente que está flutuando. A cabeça verga sem querer, seu rosto no pescoço dele, e ele sente o pulso de Martín na boca. Aquilo poderia tão facilmente virar um beijo, se conseguisse respirar. Outra ideia absurda que vem e volta, sempre por ali quando os dois se encontram. Em momentos de guerra e de paz.
Eu quero ir pra casa, Luciano pensa. Por favor. Eu só quero ir pra casa.
— Um império não morre fácil assim — ele murmura, sentindo a pele quente de Martín contra os lábios. Nem percebe que tem a entonação de uma pergunta, até os braços dele apertarem mais, a mão firme em suas costas, sustentando seu peso inteiro.
— Claro que não. É só mais uma batalha. Vamos ganhar a próxima.
— E você quer que eu ganhe?
Dessa vez, Martín não responde.
Mas não o solta. E Luciano não protesta quando ele o ergue do chão, jogando seu corpo sobre o ombro. Não quer dizer nada, é assim que soldados se socorrem. Dois bons aliados, nada mais.
Quando ele o coloca num catre depois, Luciano se encolhe sob um cobertor fino e sente a tenda girar, e não sabe se o toque em seu rosto — dessa vez a palma inteira em sua face, e a ponta dos dedos afastando um pouco o cabelo da testa — acontece de verdade, ou se é só parte de um sonho, se é imaginação sua a breve pausa, o último olhar antes que Martín saia da tenda e desapareça na noite.
***
Eles se encontram de novo semanas depois, quando Luciano assume o comando das tropas, como se nada tivesse acontecido. Uma conversa técnica, estratégica, diplomática, só isso. Ninguém menciona aquela noite.
