Work Text:
Will se sentiu fraco logo depois do discurso de Vecna. Quando ele ouviu que “quebrava fácil”, algo dentro dele se retraiu. E então os demogorgons voltaram, a mente colmeia voltou, e tudo ficou turvo.
Foi aí que Will viu. Pela visão dos monstros, ele viu Mike, Lucas e Robin. A visão atravessou o peito dele como uma lança. Algo se rompeu por dentro, como uma avalanche arrancando tudo do lugar.
Ele lembrou do jardim de infância, do dia em que conheceu Mike, lembrou de sua mãe, de Jonathan, do Castelo Byers. Lembrou de tudo o que o manteve inteiro até ali. Sentiu uma queimação, algo dentro dele pedindo para sair. Era como se finalmente soubesse exatamente o que precisava fazer.
Ergueu uma de suas mãos. O Demogorgon que avançou contra Mike foi arrancado do chão. A outra mão se levantou, e os outros monstros seguiram o movimento, todos suspensos no ar como marionetes. Canalizando toda a dor acumulada, Will fez um único gesto rápido para baixo. O estalo de ossos quebrando ecoou pelo local, seguido pelo som úmidoda carne se rompendo. Eles caíram mortos. Todos eles. Will desabou de joelhos logo em seguida, sem forças. O mundo parecia distante, vibrando como se tivesse água dentro de seus ouvidos.
Quando abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi Mike, parado alguns metros a frente, olhando para ele com uma expressão impossível de decifrar. Algo entre alívio, choque… e outra coisa que Will não conseguiu entender.
Sentiu algo quente escorrendo de sua narina e limpou com a manga da blusa. Baixou a cabeça, tonto, respirando de forma desigual. Então um corpo se chocou contra ele. Gelado, trêmulo. Mike? Will piscou, surpreso, e os cachos úmidos do amigo ainda molhados do incidente com o cano estourado, roçaram a lateral de seu rosto. Ele não sabia o que fazer por um segundo. Mas fazia tanto tempo que queria aquele abraço, tanto tempo segurando, que acabou cedendo. Ele se entregou completamente, exausto, quase caindo nos braços de Mike.
Por um instante, desejou que aquele abraço nunca acabasse. Passos rápidos ecoaram atrás deles. A lembrança de sua mãe tomou forma em sua mente. Will se afastou devagar, respirando fundo, e finalmente encarou Mike.
Eles estavam tão perto que Will poderia contar as sardas do rosto dele. Mike sorriu. Um sorriso pequeno, quase tímido, mas o suficiente para Will sentir seu rosto esquentar. Joyce chegou e puxou o filho para um abraço forte e apertado. Ele ouviu a voz dela, trêmula. "Você está bem?" "Eu estou bem, mãe", respondeu. Com a ajuda dela e de Mike, Will se levantou.
Mais tarde, estavam todos reunidos. Impressionados com a descoberta dos novos “poderes” de Will, mas ainda abalados por não terem conseguido salvar as crianças. Quando o grupo se dispersou, sobraram apenas Mike, Will e Joyce.
"Eu preciso ficar de olho no rádio caso eles entrem em contato. Você fica bem aqui?", perguntou ela, olhando para Will deitado no sofá. Antes que ele pudesse responder, Mike falou rápido: “Eu fico com ele." Joyce não disse mais nada. Apenas sorriu e saiu, deixando os dois sozinhos. Will olhou para o teto, evitando o olhar incessante de Mike.
Ainda estava perdido, incapaz de processar tudo o que tinha acontecido. Mal tinha tempo para respirar, ele não reparou nos “sinais” que Robin falou. Talvez porque não houvesse nenhum.
Ele só lembrou que não estava sozinha quando sentiu uma mão quente encostando em seu braço descoberto. Mike estava sentado no chão ao lado do sofá, olhando para ele com atenção total, como se nada mais no mundo importasse.
Will tentou se convencer que estava imaginando coisas, não fazia sentido. Para Mike eles eram amigos. Só amigos.
"Eu sabia que você ia conseguir", Mike disse em voz baixa, mas com uma alegria genuína. "Você salvou nossas vidas, Will."
Uma pontada amarga subiu pela garganta dele. "E mesmo assim o plano fracassou… deixei aquelas crianças serem levadas." Falou com a voz embargada.
"Por que você pensa assim?" Mike inclinou o corpo para frente, a mão ainda em seu braço. "Você não pode carregar tudo sozinho. De verdade, você não pode carregar essa culpa. Você salvou a gente!"
Will respirou fundo, sentindo o peso no peito.
"Eu fico feliz que você pense assim. Quando eu vi pelos olhos deles, eu… eu senti que ia perder vocês. As pessoas que eu amo. Eu não ia suportar isso."
As lágrimas arderam, mas ele não desviou o olhar.
Mike demorou um segundo antes de responder.
"Eu também achei que ia morrer", confessou, quase em um sussurro. "Meio que aceitei, sabe? Não tinha nada que eu pudesse fazer. E então, quando eu não senti nada. Pensei que… talvez morrer fosse assim. Mas eu abri os olhos. E você tava lá. Você tava me salvando, Will."
Foi como se uma represa quebrasse dentro de Will. Ele chorou, não como na van, escondendo o rosto. Dessa vez, ele deixou acontecer, não importava mais.
Mike continuou: "Aquele desenho que você fez… a El nunca pediu. Depois que tudo acabou, eu perguntei pra ela. Eu sobrevivi á tantas coisas pensando nas palavras que você me disse na van, acreditando que era ela. Então me lembrei que ela havia me enviado uma carta falando que você estava gostando de alguém e pintando algo… e eu não sei, algo me fez pensar que podia ser…"
Will se sentou, surpreso, o coração batendo tão forte que parecia que romper seu peito. Mike não recuou. Só olhou para ele com aquele olhar, o olhar que não conseguia decifrar.
"Tudo que eu te disse era verdade, é o que eu realmente sinto", Will murmurou. "Sobre nós… sobre a nossa amizade, eu quero dizer."
Mike aproximou ainda mais, suas mãos tocando suavemente os joelhos de Will, aquele olhar estava presente, adornando o rosto dele.
"Will… acho que eu não estou conseguindo enxergar a gente assim."
Will engoliu em seco.
"O que isso quer dizer?", perguntou, incapaz de esconder o tremor na voz.
"Quer dizer que eu não te vejo mais como amigo."
Ele se levantou um pouco, ficando de joelhos diante de Will, ele posicionou suas mãos na laterais do corpo de seu corpo e se ergueu, inclinando para ainda mais perto. Seus rostos estavam tão próximos que Will sentia o calor da respiração de Mike contra seu rosto.
"Eu não entendo, mas eu sei que eu quero ser mais do que isso, Will.", sussurrou, olhando diretamente para ele.
Will sentiu como se o ar tivesse voltado aos pulmões pela primeira vez em anos. Sentiu a liberdade que Robin descreveu, a liberdade avassaladora atravessando seu corpo, pela segunda vez no dia, ele sabia exatamente o que fazer.
Ele passou a mão pelos cachos agora secos de Mike. E o beijou, se entregando a toda paixão e amor que escondeu por tanto tempo, que acreditou que nunca poderia revelar.
Mike se juntou a ele no sofá, aprofundando o beijo como se também tivesse esperado por aquilo por tempo demais.
Talvez os sinais sempre estivessem lá. Ele só não tinha se permitido enxergar.
