Work Text:
Eu já deveria saber que ninguém sobrevive inteira a uma mulher como Momo. Mas sigo tentando. Ando pela redação todos os dias com aquela pose blasé de quem controla tudo, quando na verdade cada passo dela no corredor bagunça minhas certezas de trinta e dois anos de vida.
Momo tem vinte e cinco, sonhos demais, pressa demais, riso fácil demais. E uma mania irritante de entrar e sair da minha vida como quem deixa uma porta encostada sem decidir se quer abrir ou fechar. E eu deixo. Sempre deixo. Já nem importo mais quando ela some nos finais de semana porque sei que volta. Ela sempre volta. A gente já nem fecha a porta.
O problema é o que acontece quando ela volta.
As mãos dela conhecem meu corpo como se tivessem estudado por anos e anos. Ela me olha como quem lê entrelinhas. E eu, que sempre fui objetiva, analítica, fria até, me derreto no impacto do beijo dela, aquele choque quente que percorre meu corpo inteiro, me arrastando para um lugar onde não tenho controle nenhum. Momo sorri contra minha boca como se soubesse a força que exerce. Claro que sabe.
E eu finjo que não percebo que ela ocupa todos os meus espaços: tempo, rotina, pensamento. Já faz parte do meu dia querer decifrar cada traço dela, cada gesto distraído, cada silêncio. Momo tem cheiro de aventura, de limite ultrapassado, e talvez seja isso que me assusta. Ou que me prende.
A gente não tem definição. Nunca teve. Ela diz que não quer nada sério agora. Eu digo que também não. As duas mentem sem respirar fundo. Ainda assim, na cama, quando ela murmura que me ama, meu coração tropeça. Só que no dia seguinte ela acorda, prende o cabelo, pega as chaves e diz que tem que ir. Sempre tem que ir.
E eu fico aqui, rindo da minha própria tragédia voluntária.
O mais perigoso é que, toda vez que ela volta, traz junto aquele “só mais uma noite”, aquele “não pensa demais”, aquele “não complica”. Eu digo que não vou ceder. Três minutos depois minhas coisas estão espalhadas no apartamento dela. Meu corpo, na cama dela. Minha sanidade… em algum canto, perdida entre o perfume dela e o abajur aceso.
E mesmo quando eu deveria tirar forças pra me afastar, basta ela encostar a testa na minha e sussurrar meu nome baixo, “Mina”, que meu mundo, tão meticulosamente construído, balança.
Porque a verdade é essa: não consigo ser completamente dela, e ela não consegue ser completamente minha. Mas nenhuma de nós consegue ser de mais ninguém.
Somos uma linha que nunca fecha. Um laço que nunca se desfaz. Duas mulheres talentosas o suficiente pra enganar o mundo, mas incapazes de enganar uma à outra.
E enquanto ela atravessar minha porta dizendo “só vim te ver um pouco”, eu vou continuar fingindo que não sei exatamente o que custa pra ela ficar.
E vou continuar pagando o preço.
Eu penso isso enquanto escuto, mais uma vez, a campainha tocar às 23h47 de uma terça-feira que já tinha tudo pra ser só silenciosa e funcional. Meu cérebro conhece esse horário, esse toque, esse padrão de traição contra a sanidade. Meu corpo também. Ele se antecipa, aquece, se arma e se rende ao mesmo tempo.
Eu podia não atender. Podia fingir que já estava dormindo, que tinha desligado o celular, que nem ouvi o som insistente vibrando pelo corredor. Podia, mas quem disse que eu quero?
Quando abro a porta, Momo está ali, encostada na ombreira como se fizesse parte da arquitetura do meu apartamento. Moletom largo, short mínimo, cabelo preso num coque torto que deixa o pescoço exposto. Olheiras discretas, pele fria e perfume doce. E aquele sorriso pequeno, meio culpado, meio pidão, que eu já devia ter registrado em cartório como meu ponto fraco oficial.
— Oi… — ela diz, num tom que mistura desculpa com convite.
Eu cruzo os braços, tentando parecer mais firme do que me sinto.
— Você sabe que tem chave — respondo. — Fingir que pede licença é perda de tempo.
Ela levanta a mão direita, balançando as chaves entre os dedos.
— Eu sei. Mas bater antes engana sua consciência. A minha já não tem salvação mesmo.
Dou uma risada curta, daquelas que saem mais pelo nariz do que pela boca. Abro espaço e deixo que ela passe. Não adianta. A porta sempre fica aberta pra ela, nem que seja só por dentro.
Momo entra e joga as chaves em cima do aparador, no mesmo lugar onde já esqueceu pulseiras, fones de ouvido, dois batons e uma meia sem par. Vejo tudo isso como marcos silenciosos de uma ocupação gradual. Ela anda pela sala como se fosse extensão da casa dela: pega a garrafa d’água, senta no braço do sofá, mexe no controle da televisão.
— Tá trabalhando ainda? — pergunta, apontando pro meu notebook aberto na mesa de centro.
— Tentando — respondo. — Mas é difícil quando uma certa jornalista acha que madrugada é horário comercial.
Ela ergue as sobrancelhas, fingindo indignação.
— Eu sou jornalista. Madrugada é o meu habitat natural. E você sabia disso quando começou a se meter comigo.
Esse “começou a se meter comigo” é engraçado vindo de quem atravessou todas as minhas linhas de defesa sem pedir permissão, só com piadas, cafés mal feitos e textos brilhantes. Momo, no fundo, nunca pediu muita coisa. Ela simplesmente chegou. E ficou indo e vindo desde então.
— Que foi? — pergunto, enfim. — Você parece… diferente hoje.
Ela se cala por alguns segundos, o olhar rodando pela sala como se buscasse coragem em objetos inanimados. As plantas, meus livros, as fotos em preto e branco da parede. Tudo testemunhou alguma versão dela aqui. Tudo absorveu risos, sussurros, brigas baixas, reconciliações mais altas.
— Briguei com o pessoal do jornal — ela solta, por fim. — Outra vez.
Eu me endireito no sofá, instinto de guerra. Conheço essa história: Momo e sua eterna batalha entre ser genial e ser compreendida.
— O que aconteceu?
Ela dá de ombros, tenta reduzir.
— Querem que eu pegue um projeto grande, uma cobertura fixa… mas em outra cidade.
Silêncio. Ele se instala no meio da sala como uma terceira pessoa. Eu sinto o ar esvaziando devagar, como se alguém tivesse aberto uma janela invisível.
— Outra cidade… — repito, comprando tempo. — Tipo… quanto tempo?
Momo morde o lábio. Detesto quando ela faz isso. Parece que está escolhendo qual parte de mim vai cortar.
— Uns seis meses… talvez um ano.
Há um zumbido surdo atrás dos meus pensamentos. Tudo que eu quero dizer se amontoa num engarrafamento emocional: não vai, não me deixa, eu não sei o que sou sem suas idas e vindas ocupando esse espaço patético que chamo de vida afetiva.
Mas o que sai é:
— É uma oportunidade boa?
Ela me olha como se eu tivesse quebrado um script.
— Você está mesmo perguntando isso?
— Sou sua chefe, lembra? — digo, com um sorriso sem graça. — É o tipo de pergunta que eu deveria fazer.
Ela ri, mas sem humor.
— Você é muito mais do que isso pra mim, Mina.
Esse “muito mais” é um território que nunca cartografamos. Um lugar sem nome, onde a gente dorme juntas, mas não se apresenta como casal. Onde eu sei o número do CPF dela e ela sabe minhas manias mais ridículas, mas nenhuma de nós atualiza o status de relacionamento em lugar algum.
Momo se levanta do braço do sofá e vem até mim, parando bem à minha frente. Fica em silêncio, apenas me encarando. Como se procurasse algo que confirmasse o que fazer.
— Me abraça? — ela pede, simples.
Eu podia dizer não. Podia exigir respostas antes de contato físico. Só que a verdade é que meu corpo sente falta dela até quando estamos brigadas. Então eu me levanto, e quando os braços dela me envolvem, aquela sensação conhecida me atravessa: pele que reconhece pele, como se fosse casa.
O perfume dela sobe, quente, misturado com um leve cheiro de cigarro que ficou preso no moletom. Encosto o rosto na curva do pescoço dela e respiro fundo. Ela estremece.
— Você tem um cheiro… — Momo murmura, a boca roçando minha orelha. — Que me dá vontade de fazer besteira.
Rio baixo, apesar do aperto no peito.
— E você tem um timing péssimo pra falar essas coisas. Vai embora pra outra cidade e quer que eu te deseje sorte ainda?
Ela se afasta só o suficiente pra me olhar nos olhos. Os dela brilham, mas não sei se é por causa da luz da sala ou por algo mais.
— Eu não aceitei nada ainda — confessa. — Vim aqui justamente porque… não sei o que fazer.
Eu sei o que eu quero que você faça, penso. Mas o que eu posso pedir?
Ficamos nos encarando por longos instantes. O mundo lá fora é uma coisa distante, irrelevante. Só existe essa sala, essa noite, esse dilema.
— E o que exatamente você quer de mim? — pergunto, enfim. — Uma opinião profissional? Um conselho amigo? Ou só um lugar quente pra dormir hoje?
Ela fecha os olhos por um segundo, como se estivesse juntando coragem numa inspiração só. Quando abre, parece mais nua do que se estivesse sem roupa.
— Quero você — ela diz.
Duas palavras. Simples. Atrozes.
Sinto meu coração fazer um movimento brusco dentro do peito, como se tivesse tropeçado num degrau invisível. Momo percebe, ela sempre percebe, e um sorriso pequeno ameaça o canto da boca.
— Isso não é resposta — retruco, tentando recompor a barreira. — Você sempre me quer, de um jeito ou de outro. A questão é: você quer ficar?
Ela hesita. E nesse milésimo de segundo a resposta já está lá: ela não sabe. Ou sabe demais e não gosta da resposta. A minha pele arrepia antecipando a fuga.
Momo passa as mãos pelos meus braços, numa carícia lenta, como se desenhasse linhas invisíveis ali. Eu fecho os olhos, instintivamente, me agarrando à sensação física como se ela pudesse calar a angústia.
— Posso ficar hoje? — é o que ela pergunta.
Claro que pode. Você sempre pode. Essa é a maldição.
Eu suspiro. Me odeio um pouco. E cedo, como sempre.
— Pode.
Não é a resposta que eu deveria dar, mas é a única que sei entregar.
Ela sorri, aliviada, e me puxa de volta para um abraço mais apertado, mais demorado. A cabeça dela encostada no meu ombro, o peso do corpo relaxando aos poucos. Como se, pelo menos aqui, ela pudesse soltar parte do mundo que carrega.
Consigo sentir o coração dela batendo contra o meu peito. Ele parece dizer: só mais um pouco. Só mais uma noite. Só mais uma vez.
E eu, idiota que sou, aceito a barganha.
Mais uma vez.
Não demoramos quinze minutos para que a situação mude de “abraço inocente” para “desastre anunciado”. Com Momo, tudo é assim: começa com uma piada, vira um olhar prolongado, depois um toque demorado demais, e quando vemos, já estamos negociando com um tipo de desejo que não sabe ser sutil.
Estamos na cozinha agora. Eu preparando um chá que provavelmente ninguém vai beber. Ela sentada na bancada, as pernas balançando, o olhar vagando pelo meu perfil como se estivesse escrevendo mentalmente uma crônica sobre isso.
— Por que você sempre faz chá quando está nervosa? — ela pergunta, quebrando o silêncio.
— Porque se eu fizer café a essa hora, não durmo — respondo, sem olhar pra ela. — E se eu não dormir, começo a pensar demais. Pensar demais me dá vontade de terminar com você.
— Você não pode terminar comigo — ela retruca, automática. — A gente nem namora.
Essa frase cai entre nós como um lembrete cruel. Eu me encosto na pia, o metal frio nas minhas costas, e finalmente encaro Momo.
— Exato — digo. — Não dá pra terminar algo que oficialmente nem começou.
Ela faz uma careta leve, mas não desvia o olhar.
— Agora você começou com esse assunto…
— Quem trouxe essa conversa pra cá foi você, quando apareceu em plena terça-feira pra dizer que talvez vá morar em outra cidade.
Momo suspira, mexendo nos fios soltos do próprio cabelo, um gesto de quem está procurando distração.
— Você já se perguntou por que eu sempre venho aqui quando as coisas apertam? — ela solta.
— Já. E tenho várias teorias — respondo. — A principal é: meu apartamento fica mais perto do bar do que o seu.
Ela ri, jogando a cabeça pra trás.
— Nem foi no bar que eu estava hoje.
— Isso eu percebi. Você não está com cheiro de cerveja. Tá com cheiro de… bagunça.
Ela desce da bancada com um pequeno salto, aproximando-se de mim até ficar perto demais. Minhas costas continuam encostadas na pia, sem rota de fuga aceitável. Os olhos dela viajam pelo meu rosto com uma calma que contrasta com a inquietação que provoca.
— Bagunça é uma palavra muito simples pra você — ela provoca. — A Mina que eu conheci falava “desalinhamento de prioridades”.
— A Mina que você conheceu ainda achava que não ia se apaixonar por ninguém do trabalho — respondo.
Os olhos dela brilham, e por um instante vejo ali algo como orgulho.
— E você acha que se apaixonou? — pergunta, a voz baixa, quase suave.
A pergunta paira entre nós como vapor quente. Meus dedos apertam a borda da pia. Eu poderia desviar, fugir, fazer uma piada. Mas existe um ponto em que a covardia se torna patética até pra mim mesma.
— Acho que sim — digo. — Só ainda não decidi se foi uma decisão inteligente.
Ela não sorri. Não faz piada. Não me beija para calar a conversa. Momo apenas fica ali, quieta, como se cada palavra estivesse fincando raízes dentro dela.
— Eu também — ela confessa, enfim. — Acho que me apaixonei por você.
Fico tão surpresa que quase rio. Não é que ela nunca tenha demonstrado afeto, demonstra o tempo todo. Mas Momo é daquelas que sente muito e nomeia pouco. Ou nomeia na hora errada, do jeito errado.
— Só “acha”? — provoco, tentando aliviar o nó crescente na garganta.
— Eu não sei mais nada com certeza — admite. — Só sei que você é o lugar pra onde eu vou quando tudo aqui começa a desmoronar. E que… quando penso em ir pra outra cidade, a primeira coisa que me vem na cabeça não é o emprego. É você.
Isso deveria me bastar. Em filmes, bastaria. Na vida real, não sei. Porque amor, por mais bonito que seja, não preenche lacunas logísticas. Não apaga o fato de que ela tem vinte e cinco anos, sede de mundo, e eu já passei da fase de recomeçar do zero só porque alguém me prometeu que valeria a pena.
— Você tem medo de assumir alguma coisa comigo? — pergunto, direto, sem rodeios. — Ou você tem medo de mim?
Ela sorri de canto, mas é um sorriso cansado.
— Tenho medo de não conseguir te dar o que você merece — diz. — Você é… estável. Sabe o que quer. Eu ainda estou tentando descobrir. E se eu te arrastar pro minha bagunça e depois não conseguir ficar?
— Quer saber a verdade? — respondo. — Você já me arrastou pra sua bagunça tem tempo. A diferença é que, sem assumir nada, eu não tenho nem direito de reclamar.
Ela baixa o olhar. Os cílios longos fazem sombra na pele. Eu quase estendo a mão pra levantar o rosto dela, mas seguro o impulso.
— Eu não sou boa com promessas — ela admite. — Minha mãe sempre diz isso, que eu prometo o mundo e esqueço de combinar com o tempo. Mas eu… eu te amo, Mina. Do meu jeito torto, mas amo.
O “te amo” ecoa pelo azulejo da cozinha, pelos armários, pela chaleira que começa a apitar esquecida no fogo. Eu desligo o gás sem tirar os olhos dela, como se qualquer desvio de atenção fosse quebrar o momento.
— E o que você quer fazer com esse amor? — pergunto. — Decorar texto bonito ou assumir o risco que vem junto?
Ela dá um passo à frente, reduzindo ainda mais a distância entre nós. Sinto o calor do corpo dela, tão próximo que a simples presença já é uma forma de contato.
— Hoje? — ela diz, a voz rouca. — Hoje eu quero ficar. Aqui. Com você. Sem relógio, sem amanhã.
— E amanhã? — insisto.
Ela sorri, triste.
— Amanhã eu ainda não sei ser outra coisa além de “eu vejo”.
É nesse ponto que normalmente eu recuo. Que aceito o que ela oferece: o presente intenso, confuso, cheio de beijos e metade de verdades. Que guardo as perguntas pra um futuro indefinido, engulo a dignidade e preencho o silêncio com o peso do corpo dela sobre o meu.
Hoje, no entanto, algo em mim parece cansado demais pra seguir o script.
— Sabe o que é pior? — digo, minha voz mais firme do que esperava. — Eu acredito que você me ama. Acredito mesmo. E é justamente isso que dói.
Momo franze o cenho, confusa.
— Como assim?
— Se fosse só falta de sentimento, era mais fácil te odiar, te mandar embora e pronto — explico. — Mas você me ama e, mesmo assim, não sabe se quer ficar. Isso me coloca numa vitrine de possibilidade permanente. Uma prateleira em que você me pega quando o dia foi ruim, mas não decide se leva pra casa pra valer.
Ela abre a boca, fecha, volta a abrir.
— Eu não penso em você assim… — tenta se defender.
— Eu sei. — respiro fundo. — Mas é assim que eu me sinto.
O silêncio agora é pesado. Momo está parada, como se estivesse prestes a dar um passo, mas algo a prendesse no chão.
Então, em vez de fugir, ela me toca.
Os dedos deslizam pelo meu braço, sobem pelo ombro, alcançam a lateral do meu pescoço. Um toque leve, quase reverente. Eu sinto a pele arrepiar, o corpo reagindo antes da mente decidir se aceita.
— Deixa eu ficar hoje — ela pede, de novo, num sussurro. — Não me pede pra decidir a vida inteira agora. Eu… eu não sei decidir minha própria vida, muito menos a nossa. Mas eu sei que, quando tô com você, tudo parece menos sufocante.
Fecho os olhos.
A verdade é que eu também não sei decidir a minha vida. A diferença é que aprendi a disfarçar melhor. E quando se trata dela, todas as minhas regras viram opinião fraca.
— Última vez que a gente faz isso sem conversar sério — aviso. — Eu tô falando sério, Momo.
— Eu sei — ela responde. — Você sempre fala sério.
E, ainda assim, ela se inclina.
O beijo começa suave, como se pedisse desculpas antes de pedir qualquer outra coisa. Mas Momo não sabe ficar na superfície por muito tempo. Um segundo depois, a intensidade cresce, porque é assim que ela é em tudo: excesso em forma de gente.
Sinto o gosto de incerteza misturado ao de desejo. As mãos dela descem pelas minhas costas, contornam minha cintura, puxam meu corpo contra o dela como se quisessem apagar qualquer milímetro de distância. Meus dedos encontram a barra do moletom, sobem por baixo do tecido, descobrindo a pele quente, ainda com a memória do mundo lá fora, mas começando a esquecer.
O toque dela esquenta meu corpo inteiro. O coração acelera, parecendo bater mais perto da superfície da pele. Eu sinto, numa consciência absurda, cada lugar onde nossos corpos se encontram. E, mesmo enquanto me entrego, uma parte de mim observa de fora: é isso que eu vou ter coragem de perder?
Ela me guia da cozinha até o corredor, entre risos baixos, tropeços e beijos interrompidos. Conhecemos bem esse caminho. Quantas vezes já não percorremos esse trajeto como se fosse uma coreografia automática?
Quando chegamos ao quarto, ela encosta a porta com o pé, mas não chega a trancar. Nunca trancamos de verdade. Sempre deixamos uma brecha para a realidade entrar, se quiser.
— Você é tão bonita quando está brava comigo — ela sussurra, encostando a testa na minha.
— Eu não tô brava — respondo, a respiração já falha. — Tô cansada de ficar no talvez.
— Eu também — ela admite, os lábios roçando os meus. — Mas agora… eu só consigo pensar em você.
E, pela enésima vez, eu escolho acreditar no que ela diz agora, mesmo sabendo que amanhã a coragem dela pode evaporar.
A noite se estende diante de nós como uma promessa que não sabemos se vamos cumprir. Eu sinto as mãos dela desenhando caminhos pela minha pele, o peso do corpo dela se encaixando ao meu, o mundo inteiro se reduzindo a esse quarto, essa cama, esse conjunto de respirações entrecortadas e palavras soltas perdidas entre beijos.
Enquanto me deixo ir, uma certeza silenciosa se forma dentro de mim: alguma coisa vai ter que mudar. Ou eu vou acabar me despedaçando em parcelas cada vez menores, até não sobrar nada.
Mas não hoje.
Hoje, eu pago o preço mais uma vez.
A luz da manhã entra pelas frestas da cortina com uma suavidade cruel. O dia nasce independente dos nossos dramas, como sempre. O mundo segue, os e-mails chegam, as pautas não se escrevem sozinhas, as contas continuam vencendo. Nada lá fora sabe que, dentro desse quarto, duas pessoas estão tentando, e falhando, em aprender a existir uma na vida da outra sem se destruírem.
Acordo antes dela. Ou, pelo menos, antes do corpo dela admitir que acordou. Momo dorme de lado, virada pra mim, com uma mão perdida no meu travesseiro. O cabelo caindo pela testa, a boca entreaberta, a expressão totalmente desarmada. Nesses momentos, ela parece mais jovem do que já é. Uma garota que não fazia ideia de onde estava se metendo quando decidiu se aproximar da mulher sete anos mais velha que chefiava a editoria.
Eu a observo por um tempo que não me dou ao trabalho de medir. Poderia ficar assim o resto do dia, mas isso não é um luxo que a vida concede a ninguém.
Quando me mexo, ela abre os olhos devagar, piscando algumas vezes como se estivesse ajustando o foco do mundo.
— Bom dia… — murmurra, a voz rouca.
— Bom dia — respondo, num tom que tenta ser neutro.
Ela sorri pequeno, aquele sorriso desarmado que raramente aparece fora da intimidade. A mão que estava no travesseiro se move até minha bochecha, numa carícia desordenada.
— Você sempre me olha assim quando eu durmo? — pergunta.
— Só quando eu quero lembrar o motivo de ainda não ter te expulsado da minha vida — digo.
Ela ri, jogando o rosto pro travesseiro por um segundo.
— A gente transa e você já começa com as ameaças logo cedo… — resmunga, mas está sorrindo.
— Não é ameaça. É constatação.
Ficamos alguns instantes ali, num silêncio que não é pesado nem leve. Apenas é. E, em algum momento, percebo que enrolei o suficiente.
— Que horas você tem que ir pra redação? — pergunto.
Ela revira os olhos.
— E lá vem a chefe, matar o clima.
— A chefe que também é a pessoa com quem você dormiu — retruco. — Não dá pra separar tanto assim.
Momo suspira, virando-se de barriga pra cima e encarando o teto.
— Tenho reunião às dez — responde, enfim. — Sobre aquela proposta.
Aquela proposta. A cidade. Os seis meses, talvez um ano. O assunto está de volta na cama conosco, como uma terceira presença esticando o lençol.
Eu me sento, encostando as costas na cabeceira. Ela acompanha o movimento com os olhos.
— Você vai aceitar? — pergunto, direto.
Ela pensa por alguns segundos que parecem minutos.
— Se eu fosse só a Momo ambiciosa, que quer ser a melhor repórter da editoria, eu já teria dito sim ontem — admite. — Mas… tem você.
— A vantagem de não termos um rótulo é que você não precisa me colocar na equação — digo, tentando manter a voz estável. — Oficialmente, você é livre. Eu também.
Ela se ergue, apoiando o cotovelo no colchão, e me encara com um olhar que mistura irritação e tristeza.
— Você fala como se isso fosse uma benção — rebate. — Mas eu sei que você sofre com isso. Eu vejo.
Desvio o olhar, encarando as próprias mãos. Minhas unhas curtas, a pele marcada levemente por onde os dedos dela passaram durante a noite. Sinais pequenos de tudo que não se resolve com conversa.
— Eu sofro porque não sei onde piso com você — assumo. — Porque você entra e sai quando quer, e eu aceito. Porque eu te amo, mas não sei se tenho o direito de te pedir nada. E, ainda assim, eu quero.
Ela se aproxima um pouco mais, diminuindo a distância entre nós.
— Pede — ela diz. — Eu não prometo que vou saber cumprir, mas… pede. Pior do que eu posso fazer é te dizer que não consigo.
Respiro fundo. Esse é o momento em que as pessoas costumam dizer algo nobre e resignado, tipo “vai, segue seu sonho, eu vou ficar bem”. Mas não sou tão evoluída assim. Nem tão mentirosa.
— Eu quero que você fique — digo, sem rodeios. — Quero que você recuse essa proposta. Quero que você pare de tratar nosso relacionamento como um intervalo comercial entre as partes da sua vida. Quero que você… assuma. Comigo, com você, com o mundo, com quem quer que seja.
Os olhos dela brilham de novo, dessa vez com algo que beira o pânico.
— Mina…
— Eu não tô te pedindo pra casar — corto, antes que ela comece a recitar a lista de medos. — Só tô pedindo pra você parar de se fingir de turista na minha vida.
Ela passa a mão pelo rosto, inspirando fundo. Quando tira os dedos, parece mais velha. Ou talvez só mais cansada.
— Você sabe que, se eu ficar, não tem garantia nenhuma de que vou ser menos confusa, né? — ela confessa. — Eu não viro adulta funcional de um dia pro outro. Ainda vou errar, esquecer compromisso, reclamar do trabalho, fugir de conversa séria…
— A diferença é que, se você ficar, vai estar fugindo de conversa séria comigo, não de você mesma — respondo. — E isso já é alguma coisa.
Um sorriso involuntário passa pelos lábios dela.
— Você sempre fala essas coisas que parecem conselhos de terapeuta — comenta. — Por que você não virou psicóloga em vez de jornalista?
— Porque eu não teria paciência com pacientes — respondo, automática. — Mal tenho com repórteres.
Ela ri. O riso dela sempre me faz sentir um pouco menos ridícula.
Momo fica em silêncio por mais um tempo. O suficiente pra eu achar que ela vai se levantar, se vestir, enrolar, dizer que “pensa e me fala depois”. Mas, surpreendendo minha descrença crônica, ela faz outra coisa.
— Tá bom — diz, enfim. — Eu fico.
Levo um segundo para processar.
— Como assim?
— Não vou aceitar a proposta — esclarece. — Vou dizer que, se eles quiserem tanto assim que eu cubra o projeto, vão ter que me mandar e trazer de volta com tempo definido. Nada de morar em outra cidade. No máximo, viagens pontuais. Eu fico aqui.
Meu coração dá aquele tropeço de novo. Mas, dessa vez, é por outro motivo.
— Você tem certeza? — pergunto.
Ela ri.
— Claro que não. Eu nunca tenho. Mas… eu tô cansada de viver como se o único compromisso que eu pudesse ter fosse com minha carreira. Eu quero ter compromisso com você também. Se você ainda quiser.
Eu poderia fazer um discurso, perguntar de novo, testar a decisão. Em vez disso, deixo que um sorriso se espalhe devagar pelo rosto, um sorriso que raramente deixo escapar nessa intensidade.
— Eu quero.
Momo se aproxima mais uma vez, apoiando a cabeça no meu colo, como se pedisse abrigo e atrevimento simultaneamente.
— Então a gente tenta? — ela pergunta. — De verdade? Com nome, com data, com… sei lá, uma escova de dentes permanente na sua pia?
Penso em todas as vezes que imaginei essa cena e ri de mim mesma. Penso em todos os conselhos que dei a amigas pra não aceitarem migalhas emocionais, enquanto eu mesma jantava com elas toda noite. Penso que, talvez, crescer seja exatamente isso: admitir que a gente também merece aquilo que recomenda pros outros.
— A gente tenta — confirmo. — E, se não der certo, pelo menos eu vou poder terminar com você com propriedade.
Ela gargalha, ergue o rosto e me beija. Um beijo menos urgente, menos desesperado. Não que o desejo tenha diminuído, ele está ali, pulsando, pronto para tomar conta de tudo de novo. Mas, dessa vez, tem algo mais aqui: um fio de compromisso, ainda frágil, ainda recém-plantado, mas real.
Quando ela finalmente se levanta para ir ao banheiro, recolhe algumas coisas espalhadas pelo quarto. O moletom, o celular, o carregador. Em vez de guardar tudo na bolsa, ela deixa um par de meias dentro da minha gaveta, um elástico de cabelo em cima da cômoda e uma camiseta velha pendurada na cadeira.
— Você tá esquecendo coisas de propósito, agora? — questiono, observando.
— Não é esquecer — ela corrige. — É deixar. Eu tô deixando minhas coisas na tua casa, oficialmente. Algum problema?
Sorrio, sentindo uma parte de mim, aquela que sempre esperava o pior, recuar alguns passos.
— Nenhum problema — respondo. — Só tô registrando o momento.
Ela se aproxima pela última vez antes de ir pro banho, beija minha testa e sussurra:
— Eu também tô.
Fico ali, sozinha na cama por alguns instantes, ouvindo o barulho do chuveiro. Penso em todas as vezes que a vi ir embora pela mesma porta sem saber quando voltaria. Penso que, desta vez, a sensação é diferente. O medo não desapareceu, claro. Ele só arrumou um lugar novo pra sentar.
Talvez a gente ainda erre muito. Talvez eu grite, ela fuja, a gente se desencontre no meio das próprias expectativas. Talvez, um dia, acabe mesmo. Nenhum acordo verbal é seguro contra o que a vida inventa.
Mas, agora, pela primeira vez em muito tempo, não é só um ciclo de idas e vindas sem nome. Não sou só a casa onde ela repousa entre uma bagunça e outra. Ela não é só o caos que atravessa minha sala quando dá vontade.
Ela é a mulher que decidiu ficar.
E eu, que passei meses dizendo que ia continuar pagando o preço, finalmente percebo que também tenho direito de receber alguma coisa em troca.
Quando ela sai do banho, enrolada na toalha, molhando o chão do corredor, eu me levanto e vou até a porta. Em vez de deixá-la encostada, giro a chave, travando o trinco. Ela ergue uma sobrancelha, curiosa.
— Trancando a porta? — pergunta. — Desde quando?
Eu dou de ombros, fingindo desimportância, mesmo sabendo que não engano ninguém.
— Desde que a gente parou de agir como se qualquer um pudesse entrar e sair a hora que quisesse — respondo. — Agora isso aqui tem dono.
— Quem? — ela provoca, já sabendo.
— Nós duas — digo.
Ela sorri. E, pela primeira vez, eu sinto que talvez, só talvez, o preço que eu tenho pago até aqui comece a se equilibrar com o que eu vou receber.
Não é um final. Nunca é. Mas é um começo que, pela primeira vez, não parece ser feito só de talvez.
E, se eu ainda vou continuar pagando o preço, pelo menos agora sei exatamente por quê e por quem.
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Não existe um dia exato em que as coisas mudam. Ninguém acorda com uma placa luminosa piscando: “a partir daqui é diferente”. A vida não opera com cortes secos e trilha sonora dramática. Ela muda devagar, por acúmulo. Uma xícara a mais na pia, uma escova de dentes nova no banheiro, um casaco que ficou pendurado na cadeira e nunca mais voltou pro armário da dona original.
Quando percebi, Momo já não “vinha” mais pra minha casa. Ela ia pra casa. A diferença parecia pequena na frase, mas gigantesca no peito.
Demorou um pouco pra eu admitir isso até pra mim mesma. Sou uma mulher que gosta de nomenclaturas, prazos, contratos bem escritos, tudo pontuado e carimbado. Só que com ela nada veio com assinatura formal. Não teve pedido de namoro cheio de flores, nem jantar especial com discurso decorado. Teve uma reunião numa quarta-feira caótica, um café ruim da máquina da redação e uma mensagem no meu celular:
“Conversei com eles. Fico. A gente se encontra hoje em casa?”
Eu reli a mensagem por uns bons minutos, presa na última palavra. Não era no meu apartamento. Não era no dela. Era “em casa”, assim, solto, como se fosse um território compartilhado que tivesse existido desde sempre. E talvez, de algum modo torto, tivesse mesmo.
Naquela noite, ela chegou com uma pizza fria e uma cara de derrota vitoriosa.
— Eles não gostaram muito quando eu falei que não ia me mudar — contou, jogando a mochila no chão e o corpo no sofá. — Mas disseram que vão tentar adaptar a cobertura. Algumas viagens, nada definitivo. E jogaram na minha cara que eu devia “aproveitar a juventude pra me arriscar mais”.
— E o que você respondeu? — perguntei, abrindo a caixa de pizza.
Ela sorriu, torto.
— Que pela primeira vez na vida eu tô me arriscando pelo motivo certo.
Engraçado: depois dessa noite, não aconteceu nada cinematográfico. Só… continuamos. Seguimos acordando juntas algumas vezes na semana. Depois virou quase todos os dias. O “quase” eram as noites em que ela dormia no próprio apartamento porque precisava escrever até tarde ou porque queria “sentir falta de mim direito”, segundo as palavras absurdas dela.
Um tempo depois, as idas para o apartamento dela viraram visitas e não alternância. Era o lugar com a plantinha quase morta e a geladeira com uma cerveja, um limão e um pote de manteiga. A casa dela parecia alguém que estava sempre prestes a ir embora. A minha, em contrapartida, sempre teve cara de permanência.
Um domingo qualquer, eu a encontrei plantada no meio da sala, com as mãos na cintura e expressão de quem está prestes a tomar uma decisão perigosa.
— O que foi? — perguntei, saindo do quarto com a toalha na cabeça.
Ela apontou ao redor.
— Você sabe que esse lugar aqui já tá mais com a minha cara do que o meu apartamento, né?
Eu olhei. As provas estavam todas ali, gritando, e eu fingindo que não escutava: o moletom largado nas costas da cadeira, as meias coloridas no varal, as fotos novas na parede, agora tínhamos algumas tiradas por ela, com a câmera analógica que insistia em carregar pra todo lado. A caneca grande de café com o logo do jornal na pia. Uma revista de esportes aberta em cima da mesa, as margens rabiscadas. E a escova de dentes roxa na minha pia do banheiro, dividindo copo com a minha.
— Não sei se tá com a sua cara — respondi, por reflexo. — Acho que agora tá com a cara da gente.
Ela sorriu, como quem ganha um presente que não esperava.
— Então, diretora… — começou, em tom formal exagerado. — Gostaria de propor oficialmente a transferência de parte dos meus pertences de um imóvel para outro. Condições: direito vitalício de abrir a geladeira sem pedir licença, espaço fixo no guarda-roupa e liberdade total de deitar no seu colo nos dias ruins.
Revirei os olhos, mas o coração estava uma bagunça organizada.
— Negociação aceita — respondi. — Com a cláusula adicional de que, se você deixar mais meias soltas pela casa, eu começo a cobrar aluguel.
Foi assim. Sem champagne, sem anúncio em rede social, sem foto de mãos dadas com legenda dramática. Foi só uma decisão mútua de parar de morar em “talvez” e passar a viver em “aqui”.
Não vou romantizar: morar com Momo é uma mistura constante de encanto e vontade de assassinato controlado.
Ela tem o péssimo hábito de esquecer as coisas em qualquer lugar. Chave, carteira, crachá do jornal, fone, o próprio celular. Às vezes eu caminho pela sala recolhendo artefatos dela como quem recolhe conchas na praia. Cada item é uma lembrança do quanto ela ocupa.
— Você viu minha mochila? — ela pergunta, uma manhã, rodando pela sala como um satélite desgovernado.
— A que está literalmente nas suas costas? — respondo, sem levantar os olhos do notebook.
Ela para, leva a mão até as próprias costas, tateia, sente as alças.
— Tá. Você não viu nada — diz, indo pra cozinha.
Tem dias em que a imaturidade dela me irrita. Principalmente quando coincide com minhas semanas de prazos, planilhas e reuniões. Eu fico com vontade de sacudi-la até o juízo entrar no lugar. Ela tem vinte e seis agora, mas tem dias que parece ter vinte. Tem outros em que, com o olhar sério e o cansaço de quem passou horas na rua apurando reportagem, parece carregar nos ombros um mundo que não é só dela.
Mas aí, no meio da bagunça, surgem coisas pequenas, quase imperceptíveis, que me lembram por que aceitei pagar esse preço.
Como a forma como ela sempre sabe quando meu dia foi pior do que eu admito. Não precisa de muitas pistas. Se eu chego em casa mais silenciosa, se deixo a bolsa no chão em vez de pendurá-la no lugar de sempre, se respondo “tudo bem” rápido demais, ela percebe.
— Qual foi? — pergunta, chegando por trás e encaixando o queixo no meu ombro. — Quem te irritou hoje? O sistema ou os seres humanos que operam o sistema?
— Um pouco dos dois — respondo. — Reunião infinita, pauta cortada, orçamento reduzido, aquele editor insistindo em “deixar a matéria mais leve” sobre um assunto que não tem nada de leve…
Ela me escuta resmungar até o fim, sem interromper, sem tentar consertar nada. Só fica ali, presença concreta, mão fazendo círculos lentos no meu braço. Quando eu termino, ela beija meu ombro e resume:
— Tá bom. Então hoje você manda no filme da noite e eu lavo a louça. Divisão justa da dor.
Ou, nos dias em que ela volta calada demais e larga a bolsa em qualquer canto, eu sei que é minha vez.
— Foi alguma fonte? — pergunto.
— Foi tudo — ela responde, jogando o corpo no sofá. — Gente mentindo na cara dura, chefe pedindo texto neutro sobre coisa que não dá pra ser neutra, leitor reclamando de “viés” quando a gente só tá relatando fatos. Às vezes eu tenho a sensação de que eu tô gritando dentro de um aquário.
Eu sento ao lado dela, deixo que deite a cabeça no meu colo e faça silêncio. Passo a mão nos cabelos dela, devagar.
— Se você parar de gritar, aí é que o aquário vence — digo. — E você é chata demais pra deixar isso acontecer.
Ela solta um riso fraco.
— Você sabe dizer as coisas de um jeito que me dá vontade de tentar mais um pouco.
É nessas horas que percebo o quanto a estrada que escolhemos não é feita de momentos explosivos, mas desses detalhes quase invisíveis. O jeito como ela marca página do livro que eu tava lendo pra eu não perder o ponto. A forma como eu aprendi a moderar minha rigidez quando ela erra alguma coisa simples porque está com a cabeça em outro lugar. Ninguém nos ensinou a fazer isso. A gente foi tateando no escuro, batendo móveis, derrubando quadros, até encontrar um formato nosso.
O jornal, claro, não virou um mar de flores só porque ela ficou. As viagens surgem, as pautas de última hora também. De vez em quando, uma mala aparece aberta no meio do quarto.
— Vou voltar em três dias — ela me diz, enquanto soca roupas no interior da mala, sempre em cima da hora. — No máximo quatro.
— Você disse isso da última vez — respondo, encostada no batente da porta, braços cruzados.
Ela para, olha pra mim, suspira.
— E eu voltei em cinco. Não fui tão pior assim.
— Você voltou exausta, com olheiras até o queixo e uma matéria brilhante… — enumero. — E quase sem voz pra falar comigo.
Ela se aproxima, deixando a mala encostada na cama.
— Eu tô tentando equilibrar — diz, sincera. — Juro que tô.
O que dói, hoje, não é mais o medo de que ela vá e não volte. É o medo de que, ao tentar abraçar o mundo, ela esqueça de abraçar a própria vida. A nossa vida.
Mas aí ela faz coisas como me mandar foto do nascer do sol de outra cidade, junto com um áudio descrevendo o cheiro do café da padaria onde está: “Pensei em você, ia amar esse lugar, tem um jornalista metido a escritor lendo um livro enorme aqui do lado”. Ou liga do hotel, voz cansada, pra me perguntar se eu comi direito e como foi a reunião com a diretoria.
De longe, ela aprendeu a ficar. Não fisicamente todos os dias, mas de um jeito que antes não conseguia. Agora, quando desaparece por muitas horas, não é porque decidiu sumir da minha vida por medo. É porque está tentando entregar uma matéria no prazo, entrevistar alguém que só atende na hora mais improvável, voltar pra um quarto de hotel barato e sentir, pela primeira vez, vontade sincera de estar em outro lugar: aqui.
Um dia, numa dessas viagens, ela me mandou uma mensagem no meio da madrugada:
“Você sabe que, por anos, eu só quis ter pra onde ir. Hoje eu descobri como é querer voltar pra alguém.”
Essa frase me acompanhou durante dias. Coloquei como anotação num caderno que uso pra reuniões. Acabei relendo no meio de uma apresentação chata, quase sorrindo sozinha, enquanto discutiam orçamento de pauta.
Minha família demorou um pouco mais para digerir.
Levei Momo para um almoço de domingo na casa dos meus pais como quem leva um animal selvagem para um zoológico errado. Ela estava nervosa. Eu, mais. Meu pai, meio desconfiado. Minha mãe, curiosa além da conta.
Já fazia tempo que eu não levava ninguém. Minhas poucas tentativas de relacionamentos anteriores nunca passaram da fase em que você ainda esconde coisas das pessoas. Com Momo, a situação era outra: não tinha mais o que esconder. Ela ocupava meu cotidiano, minha mente, minha cama, minhas conversas internas. Não apresentá-la seria o mesmo que tentar amputar um pedaço inteiro da minha realidade antes de entrar pela porta.
— E então, Momo — minha mãe perguntou, em dado momento, enquanto colocava mais comida no prato dela. — Você pretende ficar muito tempo nesse jornal?
Eu quase ri. Só minha mãe pra resumir, em uma pergunta, todas as minhas angústias dos últimos meses.
Momo engoliu o arroz, limpou delicadamente a boca com o guardanapo e respondeu:
— Pretendo ficar o tempo que fizer sentido. Mas, por enquanto, eu tenho duas coisas que não quero perder de vista: meu trabalho e a sua filha.
Minha mãe arqueou a sobrancelha, avaliando. Meu pai fingia prestar atenção no jogo na televisão, mas eu vi o canto da orelha dele virar pra nós.
— E você consegue equilibrar as duas? — insistiu.
Momo pensou por um instante antes de responder. Nada de bravatas.
— Todos os dias, eu tento — disse, simples. — Nem sempre consigo. Mas aprendi que trabalho nenhum vale a pena se, pra mantê-lo, eu precisar perder a Mina no processo. Então estou ajustando o resto.
A resposta não foi perfeita, nem pronta. Mas era verdadeira. E a verdade tem o hábito irritante de funcionar com meus pais.
Na volta pra casa, no carro, ela se jogou no banco, esgotada.
— Sua mãe é mais intimidadora que você como editora-chefe — reclamou.
— Você se saiu bem — respondi, sorrindo de lado. — Se fosse mentira, ela teria percebido.
Ela virou o rosto na minha direção, estudando meu perfil.
— E você? — perguntou. — Você percebeu que eu tava falando sério?
— Percebi — respondi. — E é por isso que eu ainda deixo você mexer nas minhas panelas.
Não existe um momento exato em que eu deixo de ter medo de que ela vá embora. Medo não some. Ele só aprende a sentar num lugar mais discreto.
Às vezes ainda acordamos em horários diferentes, com expectativas diferentes. Às vezes brigamos feio por coisas pequenas, uma louça acumulada, um compromisso esquecido, uma mensagem respondida tarde demais. Às vezes ela se fecha, eu endureço, ficamos dois dias trocando monossílabos pela casa até uma das duas ceder.
Não somos um casal de livro de autoajuda, desses que vira exemplo em texto motivacional. Somos só duas mulheres tentando alinhar o caos interno com a vida externa. Duas teimosas profissionais em áreas que exigem muito e devolvem pouco. Duas pessoas que amam, mas que também cansam, erram, tropeçam.
O que mudou não foi a existência de conflito. Foi o que fazemos depois dele.
Antes, bastava uma briga maior, uma palavra mal colocada, um pouco de orgulho ferido e ela sumia. Se enfiava no trabalho, nos amigos, nos bares, nas noites longas. Eu me fingia de indiferente, trabalhava mais, enchia a agenda, fingia que não via o vazio da ausência dela.
Agora, quando a discussão passa da linha, ela vai pro quarto, fecha a porta meia-bomba e espera o orgulho baixar. Eu fico na sala, remoendo minhas frases, querendo ter usado algumas e engolido outras. Em algum momento, inevitavelmente, uma das duas aparece na porta do outro cômodo, com cara de quem ainda está com raiva, mas não quer continuar sozinha.
— Eu fui injusta quando disse aquilo — ela admite, uma noite dessas.
— Eu também pesei a mão — respondo.
A gente senta, desarma a bomba, separa o que é medo do que é fato, o que é cansaço do que é preguiça de ceder. Não fica mais leve de imediato, mas fica possível.
É isso que ninguém conta nas histórias sobre “aprender a ficar”: não é que o amor passe a ser fácil. É que você decide que vale a pena o trabalho que dá.
Um ano depois daquele “eu fico”, estou sentada na varanda minúscula do apartamento que até hoje chamo de pequeno, mas que parece ter se expandido desde que ela chegou, observando a rua lá embaixo. Momo está no chão da sala, espalhada entre papéis, notebook, anotações. Está escrevendo uma matéria grande, daquelas que a deixam elétrica por dias.
— Tem gente demais nesse mundo achando normal o que não é — ela resmunga, alta o suficiente pra eu ouvir. — Se eu puder pelo menos irritar meia dúzia com esse texto, já vale.
Sorrio sozinha. Penso em como, antes, essa energia toda dela parecia coisa de outro planeta. Eu a admirava à distância, como se a paixão dela pelo que faz fosse uma fogueira que eu não sabia se daria conta de enfrentar de perto sem me queimar. Hoje, percebo que, de algum jeito, ela aqueceu partes de mim que eu nem lembrava que existiam.
— Mina — ela chama, da sala. — Vem ler esse trecho aqui, ver se não tá muito panfletário.
Entro, me sento ao lado dela no tapete. Ela me entrega o notebook. Leio. Faço comentários. Corto uma frase, sugiro outra. A gente discute um verbo. Ela se irrita com meu excesso de vírgulas, eu implico com o excesso de adjetivos dela. Discutimos, rimos, ajustamos.
Quando termino, devolvo o computador.
— Tá forte — digo. — E não tá panfletário. Tá real.
Ela suspira, aliviada.
— Então tá bom. Se você disse, eu acredito.
— Você acredita no quê? — pergunto.
— Que eu tô indo na direção certa.
Eu a olho por alguns segundos. O cabelo preso de qualquer jeito, a camiseta larga roubada do meu guarda-roupa, os olhos cansados e vivos ao mesmo tempo. Essa mulher que um dia entrou na minha casa como tempestade e hoje escolhe, diariamente, não sair pela porta.
Deito no sofá, esticando a mão pra ela. Momo se aproxima, se joga ao meu lado, deita a cabeça no meu peito. A televisão está ligada em algum programa irrelevante. Do lado de fora, os carros continuam passando, as pessoas continuam indo e vindo, o mundo segue num movimento constante de entrada e saída.
Aqui dentro, a gente inventou outro ritmo.
Ela fecha os olhos, respirando devagar. Eu passo os dedos pelos fios soltos do cabelo dela, num gesto que virou parte da minha rotina tanto quanto checar e-mails ou revisar pauta.
Se alguém me perguntasse, anos atrás, como eu me via aos trinta e poucos, eu teria respondido com uma lista: cargo, salário, viagens, talvez um apartamento maior, talvez algum relacionamento “maduro”, daqueles bonitos na teoria. Nunca imaginei que meu maior ato de maturidade seria escolher ficar num lugar onde não controlo tudo. Onde não existe garantia, mas existe presença.
Eu ainda pago o preço. O preço de lidar com as inseguranças dela e com as minhas, com os ciúmes bobos, com as noites em que o trabalho engole uma das duas, com os dias em que a vida parece grande demais pra duas pessoas só. O preço de abrir mão de um pouco da minha rigidez pra dar espaço pro caos dela, e de exigir, às vezes, que o caos sente, respire fundo e me escute também.
A diferença é que, agora, não pago sozinha.
Ela também paga. Paga quando recusa uma proposta absurda só porque exigiria ir longe demais por tempo demais. Paga quando escolhe conversar em vez de sumir. Quando volta pra casa exausta, mas faz questão de enfiar o corpo ao lado do meu no sofá, nem que seja por meia hora de silêncio compartilhado. Quando diz “não sei o que vai ser da minha carreira daqui a dez anos, mas sei que quero continuar te tendo na minha vida”.
A verdade é que nenhuma de nós tem mapa. A gente segue desenhando o trajeto enquanto anda. Às vezes erramos tanto o caminho que dá vontade de voltar pro ponto de partida e fingir que nada aconteceu. Mas aí basta um toque dela, um cheiro familiar, a forma como ela fala meu nome, pra eu lembrar que não dá mais pra ser aquela versão antiga de mim.
Eu já fui uma mulher que aceitava migalhas porque tinha medo de exigir um lugar à mesa. Hoje, se ainda aceito alguns farelos, é por escolha consciente, não por cegueira. E, mais importante: sinto que, pela primeira vez, também sirvo alguma coisa. Ancoragem, talvez. Um porto meio torto, mas firme o suficiente pra quem vive se jogando no mar.
Momo levanta um pouco o rosto, me olha, os olhos escuros calmos.
— Em que você tá pensando? — pergunta.
Sorrio de leve.
— Tô pensando que, se alguém me falasse lá atrás que eu ia dividir casa, cama e café com a repórter mais caótica da redação, eu teria pedido demissão.
Ela ri, jogando o rosto de volta contra meu peito.
— E agora? — insiste.
— Agora eu sei que ia ser a pior decisão da minha vida.
Ela aperta meus dedos com os dela.
— Então não demite mais não, tá? — diz, num meio-termo entre piada e pedido. — Nem de mim, nem da gente.
Respiro fundo, sentindo o peso e a leveza dessas palavras ao mesmo tempo.
— Fica tranquila — respondo. — Esse contrato aqui não tem prazo de validade. Só revisões periódicas.
— Revisões? — ela ergue as sobrancelhas. — Tipo… feedback?
— Tipo conversa — corrijo. — E carinho. E sinceridade. E, às vezes, pizza fria às duas da manhã.
Ela sorri, daquele jeito que sempre me desarma.
Lá fora, alguém bate uma porta. Um cachorro late ao longe. O mundo continua girando, indiferente. Aqui dentro, a nossa porta está trancada e não pra impedir que a vida entre, mas pra lembrar que, agora, quem decide sair ou ficar somos nós duas.
Talvez um dia as coisas mudem de novo. Talvez a gente se perca, se reencontre, se transforme em outra coisa. A única certeza que eu tenho, hoje, é que não vou mais me deixar viver num quase permanente. Nem com ela, nem com ninguém.
E se ainda existir um preço a ser pago, que seja assim: em parcelas divididas, com juros de toques e manhãs compartilhadas. Porque, finalmente, depois de tanto tempo aceitando menos do que eu queria, eu aprendi a perguntar pra ela e pra mim mesma:
“Me diz o que custa pra você ficar?”
Ela ficou.
E eu fiquei com ela.
