Work Text:
Pelo retrovisor, os olhos de Aguiar periodicamente observam o banco de trás do carro. Labirinto, com os braços em volta de Jae, as cabeças encostadas de lado, chacoalhando levemente com o movimento. Ele olha para a estrada de chão a frente, a poeira seca levanta em volta do carro, que segue em alta velocidade. Jae e Labirinto, os rostos próximos, compartilhando sussurros inaudíveis com o motor ressoando em seus ouvidos. A estrada novamente. Ele tem a impressão que Kemi lhe faz alguma pergunta, mas seus olhos já estão de volta fitando Labirinto, e por um momento ele consegue ler nos lábios uma curta frase: “Vai ficar tudo bem.”
“Aguiar, caralho!” Kemi fala mais alto, causando uma levantada pequena nos ombros de Jae com um leve susto. “Eu sei que você tá fodido, mas tenta não bater em nenhuma árvore, por favor.”
Aguiar segura mais firme no volante. “Desculpa Kemi, eu tô meio cansado mesmo, mas a gente tá quase chegando.”
No meio da frase, ele volta os olhos no retrovisor, encontrando o olhar vazio de Labirinto pelo reflexo do espelho. É sempre tão difícil ler o que se passa dentro daquela cabeça. Labirinto, que antes parecia próximo, agora volta a ser um enigma impenetrável. Talvez seja cansaço, Aguiar pensa, mas tudo tem se tornado tão diferente em tão pouco tempo.
Olhos na estrada, olhos na estrada. Ele acelera o carro um pouco mais.
Quando Dalmo é enterrado, Jae se torna o apoio em qual ele escora o corpo. Os membros cansados relutam em permanecer ativos, mas Aguiar nasceu aprendendo a não abaixar a guarda. Suas pernas doem, ele aperta as duas mãos tentando manter a mente focada em apenas ficar acordado, e quando seu raciocínio foge com facilidade, ele se encontra novamente no mar de lembranças erráticas. Labirinto, exibindo o rosário no próprio pescoço com orgulho. As mãos leves de Jae apertando seu braço. Os dois juntos, cabeças apoiadas um no outro no carro. Jae e Labirinto, voltando para casa na noite anterior, arranhões marcando a pele como evidências de um crime. O primeiro dia em que se conheceram, o sangue de Labirinto percorrendo um caminho em seu braço e se misturando com o seu como se fossem da mesma origem.
Ele sente o puxão de Jae guiando seu corpo para dentro de casa, mas sua mente segue em espiral. Momentos, meras horas atrás, quando ele foi quem juntou coragem dentro de si e puxou a testa de Labirinto contra a sua. Ele quem chamou Jae de volta para a cama de Escarlata. Mas não foi ele quem conseguiu tirar Jae do transe controlador, nem quem Labirinto correu primeiro para cuidar dos machucados.
As suas pernas dobram involuntariamente no meio do caminho para as camas. Ele sabe que Labirinto gosta de dormir com as costas viradas para a parede, olhando para todas as entradas disponíveis. Sabe também que era para essa mesma cama afastada que Jae o guiava. Seja por consciência de sua situação ou pelo cansaço físico, ele impulsiona o corpo com pesar para cima da cama mais próxima, ignorando os puxões de Jae.
“Aguiar, essa é da Kemi, vem comigo, vem”, a voz delu soa baixa, tão doce, tão cruel.
“Não… Não, eu…” seu coração pesa ainda mais, quando ele levanta os olhos para responder a Jae e vê Labirinto também, alguns passos a frente, com a mão direita entrelaçada em Jae e o braço esticado, em movimento de puxar. As palavras morrem em sua boca no meio do caminho. Quem era ele, para merecer algum lugar de descanso depois de falhar tanto? O que ele deveria receber, depois de deixar Dalmo para trás, com a morte ao alcance? Qual o direito de conforto ele inocentemente achou que teria, depois de ser atacado por Jae e Labirinto, depois de estar tão distante dos dois que mal conseguia permanecer em pé agora? Lágrimas enchem os seus olhos antes que ele possa segurá-las, o cansaço se expande em seu corpo e a cama abaixo de si o acolhe com lentidão. Sua mente traidora oferece uma lembrança de Labirinto e Henri, montando a cama juntos mais cedo.
“Aguiar, não chora, por favor, eu não sei como lidar com gente chorando…”
A mão que Jae encosta em seu ombro em seguida queima como fogo descontrolado. Ele sente o coração bater mais rápido dentro do peito, confuso entre a ansiedade de ter um toque acolhedor e o sentimento de não merecimento que engolfa sua mente. As lágrimas continuam a cair e rolar por seu rosto involuntariamente, e a única alternativa para se esconder da vergonha é uma posição curvada e aninhada em si mesmo. Aguiar deseja por um momento que seu corpo apenas apague de uma vez, para que pelo menos sua mente descanse e os pensamentos deixem de assombrá-lo.
"Aguiarzinho, não- não chora…”
"Deixa ele em paz, Jae, não faz mal ser minha cama. Eu vou dar uma olhada no Pomba antes e já volto aqui. Laby… por favor, descansa também." A voz abatida de Kemi ecoa vinda do fundo da sala, seguida pelo som dos passos quase silenciosos da garota e de um par adicional de pés ansiosos, os quais Aguiar presume ser de Henri, que não desgrudou de Kemi desde que eles voltaram do circo.
Quando os dois saem da sala, o silêncio é interrompido esporadicamente pelos fungados baixinhos de Aguiar, ainda incapaz de controlar as próprias lágrimas. A dor de seus machucados pulsa e o impede de cair no sono, mas é apenas algum tempo depois que ele volta a ter uma turva percepção do que acontece ao seu redor, e ouve algo pesado sendo arrastado atrás de si mesmo. Antes que ele sequer possa se mover e checar, a mão que Jae havia levantado volta para seu braço. Dedos frios segurando com incerteza no bíceps contraído para mantê-lo no lugar.
"Fica aí. Tô só juntando as camas."
É a primeira vez que Labirinto fala diretamente com ele, depois de ambos terem afastado Jae de Argano. Não parece raivoso, mas fala baixo e suave, levemente rouco, uma consequência provável das risadas maníacas soltas pela intenção da máscara.
Ele força a mão de Jae que o segurava no lugar e se vira, relutante. Quando seus olhos embaçados focam na imagem à frente, é possível ver Labirinto perto, empurrando a cama mais próxima para que ela esteja colada com a que ele se deita agora. Seus braços parecem tensos segurando os cantos do colchão, e uma trilha de sangue se espalha pela extensão da sua clavícula, um rasgo na roupa deixando a mostra o lado esquerdo do corpo que vai do ombro até o centro do peito, quase no pescoço. Os olhos, penetrantes e impenetráveis, como sempre, encarando seu rosto com um franzido leve.
"Puxa a outra, Jae", ele fala, sem tirar os olhos de Aguiar.
"Poxa, achei que você ia preparar tudo pra gente..." o tom brincalhão na voz de Jae é óbvio, sempre tentando esconder momentos de tensão com ironia rebelde.
"Eu iria, se alguém não tivesse me rasgado com uma facada." a resposta vem quase de imediato, como se Labirinto a tivesse soltado sem pensar.
"Labirinto-"
"Desculpa. Eu... Era pra ser brincadeira. Eu sei como você se sentiu... Não era... Eu entendo. É o que eu quero dizer. E tá tudo bem. Eu não ligo. Vamos só dormir, por favor.”
Quando ele termina de falar, entre tiques e pausas cuidadosas, Aguiar já sente o peso de Jae se jogando em uma nova cama, encostada às suas costas. Antes que o mais novo possa se aproximar e deitar direito, Aguiar recua e olha freneticamente entre os dois.
“Vocês vão dormir aqui?”
Labirinto o encara novamente, com o franzido na testa se intensificando.
"Sim, Aguiar. Tá todo mundo mal, acho que..." tique "acho que todos nós precisamos nos sentir seguros essa noite.”
"E eu vou ficar no meio?" a pergunta é feita baixo, mas os dois ainda a ouvem perfeitamente.
"E porquê não ficaria, bobinho?" Jae responde, se aconchegando ainda mais perto dele.
"Eu não... Eu não quero atrapalhar-"
Ele interrompe a si mesmo de falar quando Labirinto sobe na outra cama a seu lado e coloca a mão em seu rosto. A mão dele se parece com a de Jae, pele fria e dedos longos que se estendem e absorvem o calor de Aguiar como flores desabrochando no sol de primavera. Um pequeno tique passa por Labirinto, fazendo com que o indicador dê dois toquinhos rápidos na bochecha de Aguiar.
"Escuta. Você fez tudo certo hoje. Não foi culpa de ninguém o que aconteceu com o Dalmo. E eu e o Jae estamos aqui porque nós queremos.”
Mãos menores o puxam pela cintura até que ele sinta Jae em suas costas, se aconchegando por completo, colado ao seu corpo. A voz delu sai das costas de Aguiar, como se escondido atrás, com o rosto colado na pele dele.
"É... E a gente vai descansar melhor se tiver se tocando.”
"Vai?" Labirinto responde em um tom curioso. Jae tem um estranho talento em tirar reações dele.
"Eu vou.”
"Hm...", ele dobra o pescoço em um tique antes de continuar a responder, "eu também.”
Um silêncio tenso se expande segundo a segundo, sendo quebrado por Labirinto:
“Aguiar?”
A mente cansada de Aguiar dá voltas. Talvez tudo isso fosse apenas uma alucinação, e logo alguém o acordaria e ele estaria ainda no chão gelado com as feridas abertas. A única resposta que ele consegue juntar é uma frase quase infantil, uma confissão que guardara apenas em sonhos delirantes.
"Eu gosto de vocês.”
O sorrisinho de lado que Labirinto deixa escapar em sua frente, cai como um ar fresco. Ele aproxima o rosto dos dois, estendendo um dos longos braços até estar totalmente sobreposto com o braço de Jae, encaixado na cintura de Aguiar.
“A gente sabe, 'bobinho'." Aguiar sente o coração pular, ouvindo o apelido que Jae frequentemente fala sendo usado por Labirinto. "Eu também gosto de vocês dois.”
"Eu tolero vocês... Mas a gente combina bastante." a voz de Jae continua vindo do centro das costas de Aguiar, o calor da boca contra a pele e a roupa se espalhando a cada palavra.
"Jae." Labirinto chama atenção, com a voz terna.
"Ok, ok... Eu também gosto de vocês. Muito.”
"Mais do que..."
"Ela tá morta, Labirinto."
"Eu sei. Só pra confirmar..."
O silêncio volta a preencher a sala, dessa vez de uma forma mais calma, sem expectativas de que a conversa continue, os três seguem abraçados e os olhos de Aguiar pesam e se fecham lentamente. Sem querer, uma frase escapa de sua boca, um segredo que antes seu inconsciente tinha jurado a si mesmo guardar:
“Eu amo vocês.”
A resposta não demora, e vem acompanhada dos braços de Labirinto apertando ainda mais firme os dois corpos que ele consegue cobrir em um abraço.
“Eu também amo você, Aguiar. E amo você, Jae." A fala não treme, e o tique vem apenas alguns segundos depois, apertando o braço de Jae sem querer, de leve com a mão esquerda.
“Eu..." elu começa, mas não continua, e é Labirinto quem assume o resto da fala:
"Não precisa responder. Eu sei.”
"Desculpa, Aguiar.”
As mãos de Jae ainda estão em si, unhas agarradas com convicção na parte de frente das suas roupas enquanto as pernas se movem entre as dele, entrelaçando os dois em uma posição ao mesmo tempo confortável, segura e completamente grudada.
"Não pede desculpa... Só... Continua me segurando assim?”
"Sempre.”
