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Não me deixe só

Summary:

Já fazia alguns anos que Ryota tratava em terapia o medo de perder coisas, pessoas, momentos.

Talvez seu primeiro gatilho tenha sido o disband do HEADS, quando ele se sentiu impotente pela primeira vez na vida e não pode evitar que seus amigos fossem embora ou talvez a dificuldade de discernir se os sentimentos conflitantes eram genuínos ou apenas efervescência hormonal durante os primeiros anos do One Ok Rock.

OU

Cinco vezes em que Ryota sentiu medo da perda e uma vez que ele percebeu que não precisava temer.

Notes:

Prompt:

Those type of 5 + 1 fics where it’s centred around the members bonding together over the years. Something like (5 times Taka doesn’t realise how loved he is and 1 time he finally sees how important he is to his members.) Could delve into the subject of found family where different people find home in each other. 👍🏻 Could be either romantic or platonic

End on a happy note with a sprinkle of angst. Contact on X : @exuan317

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Não me deixe só

1.

Mesmo com o corpo franzino exausto após uma rotina de dança extensa, Ryota Kohama era a criança mais feliz de Osaka quando as batidas do grave da música que explodia o alto-falante do salão entravam em sincronia com as batidas do próprio coração. O ritmo percorria seu corpo como uma onda eletrizante, que ditava seus movimentos de forma criativa e espontânea.

Rotular a dança como uma mera paixão infantil ou hobby poderia ser considerado injustiça, porque aos cinco anos, Ryota tinha certeza de que nunca se sentiria sozinho se houvesse uma possibilidade de subir no palco e demonstrar o talento para o público.

Seus pais o apoiavam e demonstravam reconhecer a necessidade do pequeno rapaz em seguir o ramo artístico. Ryota era sensível, amável e animado. Ao mesmo tempo, solitário. Uma criança tão pequena demonstrar tais traços era o indicativo de um artista nato e, felizmente, os adultos souberam reconhecer o potencial rapidamente. Deixá-lo sozinho não era o ideal, por isso decidiram colocá-lo numa academia de dança aos finais de semana. E não existiu escolha melhor que essa.

Foi naquele espaço com espelhos altos demais para corpos tão pequenos que Ryota conheceu Toru Yamashita. Eles não trocaram muitas palavras no primeiro dia, mas Ryota viu de longe que Toru já tinha noção de contagem, postura e disciplina — era tão bom dançarino quanto ele.

A amizade se construiu sem esforço; aconteceu pelas tardes estendidas além do horário da aula, os lanches divididos no caminho de casa, as conversas sobre música e sonhos grandes demais para duas crianças de Osaka.

A empreitada idol e a mudança para Tóquio não foram apenas uma mudança de rumo, foram o primeiro rompimento real da infância. A despedida dos pais, o dormitório compartilhado, os dias mais longos e o peso da expectativa pairando sobre ombros ainda em formação.

Ryota sentia falta de casa, dos pais, de Osaka, mas ainda tinha Toru ao seu lado e, enquanto os dois estivessem juntos, ele acreditava que tudo estaria no lugar.

Quando o HEADS chegou ao fim, o impacto foi devastador. Ryota questionou se deveria ser mesmo dançarino, se esse era o seu futuro. Como ele poderia continuar se adultos – que com certeza sabiam mais do que ele, que era uma criança – disseram que o futuro não parecia promissor (lucrativo)?

Ryota voltou para o dormitório naquele dia com os tênis de dança ainda no fundo da mochila e a sensação incômoda de estar parado no meio do caminho. Pela primeira vez, ele não sabia para onde ir. Não sabia se a dança ainda o esperava ou se tinha ficado para trás.

Ele ainda não tinha idade suficiente para nomear aquela sensação, apenas para senti-la.

E sentir, naquele momento, doía demais.

2.

Dizem que as amizades que ultrapassam sete anos de existência duram até o fim da vida. Ryota parecia não acreditar nisso, mas quando olhava para trás e percebia que sua existência andava em paralelo com a de Toru, ele dava o braço a torcer.

Era como se os dois fossem os dois lados da mesma moeda. Ele, sagaz e extremamente energético. O outro, calmo até demais, mas irritantemente determinado. Complementares, com toda certeza. Indissociáveis. Ryota sentia mais do que orgulho em ser o melhor amigo de Toru. Era uma mistura de admiração, confiança e promessa.

Promessa de que ambos estariam comprometidos a apoiar e andar um ao lado do outro até o fim. Sentimento que foi o gás necessário para acender a chama da vontade de fazer parte de uma banda nova e aceitar o convite mais espontâneo do mais velho. Um salto de fé.

Ryota acreditava cegamente em seu melhor amigo; tinha certeza de que Toru jamais tomaria uma decisão para prejudicá-lo. E realmente foi assim. Pelo menos nos dois primeiros meses.

De forma alguma pareceu ser algo premeditado ou uma retaliação por sua dificuldade em aprender a tocar baixo o mais rápido possível, mas algo natural e que ultrapassava os limites de “amizade” que dividia com Toru.

Quando 'Taka' apareceu pela primeira vez no estúdio de ensaio, Ryota sentiu os pelos da nuca arrepiarem no exato segundo em que trocou olhares com o novo vocalista. Ali ele soube que não tinha mais como competir. Seu posto de melhor amigo estava em risco. Adolescente como era, ele não soube regular as emoções. Era tímido demais para expor a raiva e o ciúme que sentia quando Toru trocava as noites de jogos no dormitório para acompanhar Taka na volta para casa.

Tomoya Kanki chegou pouco depois, ocupando o espaço de quem observava mais do que falava. E Ryota não o notou de imediato. Estava focado demais em acompanhar Toru, em aprender rápido, em não ser o elo fraco da banda. Era uma questão de honra se mostrar útil e não ser dispensado.

Mas Tomoya tinha um jeito tranquilo de se esgueirar na vida das pessoas, de ouvir sem pressionar, de oferecer ajuda sem exigir retorno como o irmão mais velho que ele não tinha. Aos poucos, os dois passaram a dividir pequenas rotinas: conversas rasas após os ensaios, risadas abafadas no canto do estúdio, um copo de ramén esfumaçante e momentos de diversão no shopping ou nas cabanas de baseball automático. A amizade cresceu sem alarde, mas foi ocupando cada vez mais espaço no dia a dia de Ryota até que ambos se tornaram inseparáveis.

Assim, os rituais do cotidiano entre Ryota e Toru lentamente sucumbiam perante a presença de Taka e Tomoya. Duas novas variáveis naquela equação tão bem estabelecida há uns dez anos. Então, aos poucos, ele foi aceitando o destino. Eles cresceram e as amizades mudaram. Ryota só tinha que se adaptar.

Afinal, crescer e evoluir era um preço justo a se pagar para que a banda também pudesse alcançar novos horizontes, certo?

3.

Até hoje muitas pessoas tendem a acreditar que quem mais sofreu naquela época teria sido Taka, ou mesmo Toru pela carga de responsabilidade dobrada, mas quem passou noites em claro chorando com os olhos a ponto de explodir foi Ryota.

A ira que borbulhava em suas entranhas não era pior que a decepção da quebra de confiança de um amigo tão querido. Como superar uma facada nas costas? Como passar por cima do desespero de tudo desmoronar ao seu redor e não ter como lutar contra isso?

A sensação de impotência era a silhueta no canto escuro do quarto que ele enxergava quando se debulhava em lágrimas, pensando que perderia mais uma vez outra oportunidade.

Mas quando o HEADS foi dissolvido ele era tão pequeno, não sabia nem como reagir. E agora? Seria mais um fim trágico em sua vida? Mais um encerramento de ciclo em que ele teria que fingir que não era uma ferida aberta e tentar tapá-la com curativos usados que já taparam outras mágoas em seu peito?

Não, não era. Que ele largasse o baixo e virasse a guitarra rítmica. Qualquer coisa. Qualquer coisa que pudesse sustentar aquela banda e não o deixasse sem nada. Sem alguém, sem seus amigos.

O âmago de Ryota retorcia em agonia enquanto ele tentava achar alguma solução. Qualquer uma.

4.

Soluções vêm com o tempo e o amadurecimento também.

Depois de dezoito anos na estrada, Ryota já era um homem completamente diferente daquela criança inocente ou do adolescente chorão. Sua relação com Toru ainda permanecia de melhores amigos depois que a sua insegurança de ter o posto roubado foi resolvida — o que não foi um processo simples, ele precisou se pôr à prova virando amigo de Takahiro Moriuchi também. Tomoya agora era seu maior companheiro, ambos novos nessa rotina louca de serem pais. Dividiam piadas internas, conselhos de como lidar com as crianças, dicas de tarefas domésticas para aliviar a tensão dentro de casa. Essas coisas que homens casados costumam fazer quando estão sozinhos, bebendo latinhas de cervejas quentes por estarem muito tempo fora da geladeira.

Mas conforme o aniversário de trinta e cinco anos de Takahiro se aproximava, a ansiedade por uma decisão espreitava. A conversa sobre a possível aposentadoria do vocalista era um elefante na sala de ensaio. Enquanto os preparativos finais do álbum eram acertados, parecia que nenhum dos outros integrantes queria tocar no assunto com Takahiro.

Toru parecia conformado, e eles bem sabiam que era o certo a se fazer; ele era o líder e, por isso, respeitaria qualquer decisão. Tomoya nutria um carinho estratosférico por Taka, mimando-o em todas as oportunidades para proteger os sentimentos do amigo. Obviamente, também respeitaria sua decisão.

Já Ryota… ele lembrava constantemente do primeiro ano em que não trocara uma palavra com Taka. Como seu olhar fulminante repousava sobre o mais velho quando ele se aproximava de Toru e depois lançava milhares de palavrões sobre como o tom da composição estava alto demais, apesar de ele próprio ser o autor da música. Como sentia medo ao estar sozinho no mesmo recinto que ele ou como se sentiu ameaçado, teve medo e raiva por ser jogado de lado.

Tudo isso para que nos anos seguintes Mori-chan fosse um dos seus pilares. Talvez as coisas tivessem mudado quando ele suplicou para a banda não acabar, que ele seria o novo guitarrista, quando ele quase quebrou o próprio baixo em demonstração da certeza da escolha e só foi impedido por um abraço de Taka.

Ryota ainda lembrava bem de como sentiu o mais velho tremer com medo, dizendo que tudo daria certo e que eles quatro eram o suficiente. Naquela noite, eles choraram juntos e ficaram abraçados por horas.

“Não encare isso como uma chantagem”, Ryota disse sem tirar os olhos da câmera, que segurava delicadamente com as duas mãos, após tirar uma foto de Taka numa esquina escura da Itália, “mas se você sair, eu também saio.”

O loiro não deu tempo o suficiente para ouvir a resposta do mais velho, apenas deu as costas e saiu andando pela viela em direção à van. Ryota não conseguiria disfarçar mais um segundo a vontade de vomitar só pelo pensamento de que poderia perder alguém mais uma vez.

5.

Algumas histórias de amor duram uma vida inteira. Outras não.

A de Ryota talvez não tenha sido a mais bela de todas — muito menos eterna —, mas ele não poderia dizer que tinha se arrependido. Amou, viveu e deu origem a uma outra vida independente da dele, que também tem sonhos e desejos. Quando ele parou para olhar por esse lado, concordar com o divórcio se tornou bem mais simples.

Já fazia alguns anos que ele tratava em terapia o medo de perder coisas, pessoas e momentos.

Talvez seu primeiro gatilho tenha sido o disband do HEADS, quando ele se sentiu impotente pela primeira vez na vida e não pôde evitar que seus amigos fossem embora. Também conseguiu definir melhor quais sentimentos conflitantes eram genuínos ou apenas efervescência hormonal durante os primeiros anos do One Ok Rock.

Mas chegar à conclusão de que o próprio casamento com Michelle tinha chegado ao fim foi doloroso. Ele passou alguns dias trancafiado no próprio apartamento recém-alugado em Tóquio, sozinho, relutante. Conversou com poucos amigos, apenas o suficiente para dizer que ainda estava vivo enquanto a aliança ainda pesava no dedo. Ele olhou o anel grosso de ouro por alguns instantes antes de suspirar fundo; já era hora.

O acordo tinha acontecido alguns meses antes, no início do ano, mas a papelada só tinha sido oficializada poucos dias antes do início da turnê europeia. Era o momento correto de fazer o anúncio, sem alarde, apenas uma mensagem direta e com tom compreensivo. Os fãs entenderiam e isso seria o suficiente.

Mas seria o suficiente para ele? Novamente sozinho? Ele poderia recomeçar agora, aos trinta e seis? Ele queria recomeçar? Talvez fosse a pergunta correta.

Bufou mais uma vez. Ryota odiava perder pessoas.

+1

Não havia mais nenhum staff no palco, ou luzes acesas ou mesmo gritos dos fãs naquela noite.

Em contrapartida, os quatro integrantes do One Ok Rock estavam dividindo um espaço apertado no ônibus fretado, cercados por cases fechados, cabos enrolados às pressas e o cansaço acumulado de semanas seguidas na estrada.

Toru falava baixo, em palavras contadas, sobre como deveria agradecer à equipe de motoristas da turnê, já que tudo tinha chegado ao fim e não havia mais nada urgente. Ao mesmo tempo, Tomoya riu de algo no celular — o som de vozes infantis denunciava que era algum vídeo fofinho de seus filhos enviado por Kaori — e ofereceu o pacote de salgadinhos para Taka, que acabava de entrar em silêncio dentro do ônibus.

Eles funcionavam naturalmente assim e Ryota observava em silêncio.

Por muito tempo, ele acreditou que a vida fosse uma sequência de perdas inevitáveis. Pessoas iam embora, ciclos se encerravam, versões antigas dele mesmo ficavam pelo caminho. Mas ali, olhando para aqueles três homens que o acompanharam por quase duas décadas, ele finalmente entendeu que nem tudo era trágico.

A amizade deles não dependia de fases boas, nem de estabilidade emocional, nem mesmo de proximidade imediata. Ela resistiu à insegurança, ao ciúme e aos conflitos.

Eles ainda estavam ali. Por ele e para ele, mesmo que não repetissem isso o tempo todo. TTT? A tatuagem com os três raios em seu braço direito queimou. Não dolorida, mas de forma acolhedora.

Toru era presença firme, mesmo quando parecia distante, desde quando era criança.

Tomoya continuava sendo abrigo, oferecendo suporte sem exigir reciprocidade imediata.

E Takahiro… Mori-chan era a prova viva de que relações podem se transformar sem se perderem. Ryota lembrava do medo que sentiu no início, da raiva mal digerida, da sensação de estar sendo substituído.

Tudo aquilo parecia distante agora. Não apagado, mas assimilado em sua essência.

Quando Toru saiu para atender a uma ligação de Aya para contar sobre como o bebê estava lidando com as cólicas dos primeiros meses de vida e Tomoya foi atrás de mais pacotinhos de café solúvel, o silêncio se acomodou entre Ryota e Takahiro.

Mas não era constrangedor. Eles poderiam ficar horas a fio conversando nos bastidores sobre qualquer assunto, assim como poderiam passar tanto tempo em silêncio apenas aproveitando a presença um do outro.

O vocalista se sentou ao lado dele, encostando ombro a ombro e deslizou no pequeno sofá. Os fios descoloridos espetados de Taka fizeram cócegas no pescoço do mais novo.

“Eu nunca te disse isso, mas não quero que você ache que eu continuei só por sua causa.”

Ryota esboçou uma risada sincera enquanto seu dedo movia pelo mouse do notebook. Precisava editar algumas fotos antes de o ônibus dar partida e eles seguirem para o aeroporto. “Tudo bem, eu sei disso. Ninguém consegue decidir algo por você.”

Se outra pessoa ouvisse aquela conversa, acharia que ambos estavam sendo condescendentes, mas na realidade, era o contrário.

“Haha. Mas… mas eu não acharia justo você encerrar o seu sonho por minha causa.” Taka apontou para a tela do aparelho, especificamente para o fundo da foto onde Ryota parecia gritar a música em direção aos fãs.

O mais novo olhou para a foto por longos segundos sem responder. Não que ele precisasse, mas torcia para que Taka soubesse o que ele não sabia dizer naquele momento.

“Eu estava pensando em viajar um pouco depois da turnê.” Taka comentou, num tom casual, quase despretensioso. “Nada muito planejado. Só… sair um pouco de Tóquio.”

Ryota virou o rosto devagar, atento.

“Talvez Itália de novo. Ou qualquer lugar onde a gente possa andar sem pressa”, continuou. “Se você quiser vir comigo.”

Não havia expectativa explícita na voz de Taka, só um convite honesto.

Ryota olhou para o rosto de Mori-chan uns centímetros abaixo do seu, mas não respondeu de imediato, percebendo como os olhos escuros de Takahiro brilhavam com o reflexo das lâmpadas de led.

Sempre tão brilhantes. Na verdade, ele repensou, talvez Taka soubesse muito bem que Ryota não conseguiria dizer não para ele.

“Eu gosto da ideia de uma Eurotrip… acho que eu e você estamos precisando de uma viagem assim.” Ryota respondeu com um sorriso fraco e virou-se para terminar as edições. Não se mexeu e Taka também não.

Ficaram ali por alguns instantes até que toda a equipe terminasse de organizar os equipamentos para a partida e Toru e Tomoya retornassem ao ônibus.

Tomoya deu uma risada baixinha e tirou uma foto com o celular de Takahiro dormindo sentado com a cabeça no ombro de Ryota, prometendo postar nos stories para que os fãs vissem aquela cena fofa. Toru soltou apenas um “Sure, grandpa.” ao bater a mão de leve nas costas do mais velho da banda como se tirasse sarro da ideia 'genial'.

Ryota riu e não conseguiu pensar em outra coisa quando chegou a vez de editar a última foto daquela noite.

Uma foto dos quatro de mãos dadas no palco.

Ele ainda odiava perder pessoas, e talvez sempre fosse assim. Mas ele sabia que não estava sozinho. Porque, mesmo quando algumas presenças mudassem de forma, tempo ou ritmo, a presença daqueles três era constante.

E, naquele momento, isso era mais do que suficiente.

Notes:

Espero que gostem! Não pretendo fazer a tradução pro inglês, mas acho que o translator automático já faz um bom trabalho :)

Música título: Não me deixe só - Vanessa da Mata (https://www.youtube.com/watch?v=toa4NWL5wQE)
Entrevista inspo: https://ryeon.tumblr.com/post/38504106330/musica-september-2012-ryota-interview

E também utilizei algumas infos que eles soltaram durante os mc do dvd da Premonition no Ajinomoto :)