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Aqua Regia

Summary:

Cold heart, hot blood

Era pra ser só uma festa na piscina, uma comemoração de amigos depois de um semestre difícil. Mas um deles não se contentava com meias palavras e Aguiar não conseguia explicar porque odiava tanto a água sem se expor demais pros amigos. O resultado disso é ser jogado na água e dissociar completamente.

Ou, uma história da equipe mascarados num contexto normal de jovens universitários, e Jae não aceita porque o Aguiar não gosta de água.

Notes:

Uma ficzinha se os mascarados fossem pessoas normais mas ainda carregando parte dos traumas citados no RPG. Especialmente o trauma de água do Aguiar.
O Jae é um cuzão na história, mas é um cuzão q se importa, não é uma fic de hate pro personagem e nem pra player.
Tenho pelo menos mais dois caps dessa fic planejados e mais algumas do mesmo universo moderno normal (Keloy me aguardem!)
Não foi revisado porque tô correndo pra postar mais coisas mais rápido.

Chapter 1: Get in the Water

Chapter Text

- Que chatice, Aguiar! É a porra de uma festa na piscina e você não vai entrar?!

Já era a terceira vez que Jae provocava Aguiar sobre não entrar na água, o deixando cada vez mais irritado sobre o que deveria ser algo simples. Todos os seus amigos sabiam que Aguiar não gostava de água.

- Jae, para - foi Labirinto quem falou, tão incomodado quanto o próprio Aguiar

A festa era pra comemorar o fim do semestre de todos na faculdade, assim como o noivado de Dalmo, que já morava com a namorada e a filha mas havia decidido se casar, e estavam todos na casa dele. Todos na água, dentro da piscina, exceto Aguiar, é claro, que estava sentado numa cadeira de plástico próximo a todos, e ainda vestido com uma camisa branca e uma bermuda jeans, mas longe o suficiente pra que se sentisse seguro. Seus amigos só sabiam sobre sua resistência a entrar na água, não sabiam sobre sua Mestra, a mulher que o tinha adotado e que o mantinha ainda refém mesmo aos 23 anos apenas intensificando seu trauma. Ele não tinha contado a nenhum deles, tinha aquele direito. Mas Jae nunca tinha aceitado meias palavras como explicação.

Manuzinha, a filha de 3 anos de Dalmo e Natália, tinha enormes boias rosas de braço e nadava gargalhando com o pai. Aguiar admirava muito seu amigo, tinha tido particularmente pais ruins e uma mãe adotiva pior ainda, então ver Dalmo, pai aos 22, se divertindo com a filha numa coisa tão simples era ver que o mundo ainda tinha esperança.

Mas a cada pulo da pequena na água, era mais e mais difícil se ancorar a realidade. Aguiar não devia ter aceitado que a festa fosse ali.

- Aguiar? - era a voz de Labirinto, uma boia na consciência flutuante do estudante de direito, o jovem estava sentado na borda da piscina, o mais próximo de Aguiar, ainda vestia uma camisa verde cobrindo as tatuagens e cicatrizes no torso

- Sim? - ele conseguiu responder

- Perguntei sobre a prova física da policia, você tem mais informações?

- Tenho, eu fui bem nos últimos testes físicos. E já tô estudando as questões de concurso, só preciso não tomar pau em mais nenhuma matéria na faculdade e aí já posso fazer o concurso.

- Ai fudeu, Aguiar, vai depender só de você agora - Jae comentou de dentro da água

- Mas o meu avaliador disse que eu tenho muita chance - Aguiar ignorou completamente a amiga enquanto continuava com os olhos em Labirinto - Não vai ser fácil e eu não vou me iludir de que vou passar de primeira, mas vou continuar tentando.

- Você pode matar todos os concorrentes - Kemi soltou, completamente tranquila de onde estava, o corpo escultural num biquíni branco

- Kemi! - Labirinto exclamou

- Ainda não tô tão desesperado, mas quem sabe

- AGUIAR!

- To brincando, Laby, relaxa. E você, ta gostando da Engenharia?

- Ah, sim! Tem sido muito interessante ver como as coisas funcionam e o curso me permite ser muito lógico, tenho gostado disso. Foi uma ótima sugestão, Aguiar.

- Fico feliz que esteja gostando

Aguiar sorriu feito idiota para Labirinto, gostava de saber que estava ajudando o amigo. Sabia que tinha feito a coisa certa meses atrás em ajudar o cara que tinha encontrado nas drogas, preso injustamente, e ver Labirinto se sair bem na ressocialização o deixava verdadeiramente feliz.

- Hm, vocês sabem que a gente ainda tá aqui né? - Henri os interrompeu, rindo baixo - Vocês fizeram de novo.

- Desculpa - Aguiar coçou a nuca e se virou pra Henri, que era seu amigo de longa data, se conheceram ainda pequenos no orfanato, mas Aguiar foi adotado rapidamente enquanto Henri ficou até os 18 e saiu sozinho, o contato entre eles nunca tinha se perdido entretanto - Tem alguma novidade?

- Vi meu ex e não bati nele

- Uau, que orgulho! Ele ainda tá com aquele baixinho?

- Infelizmente - Henri revirou os olhos - Mas eu já tô com outros planos... Tem uma festa que seria incrível se vocês fossem comigo...

- Eu sou um homem noivado, não frequento esse tipo de festa - Dalmo imediatamente fugiu do rolê

- Eu tô comprometida também - Kemi levantou as mãos e todas as cabeças se viraram pra ela - O Eloy me pediu em namoro

A mulher mostrou a aliança para os amigos com orgulho, gargalhando com o bico enorme que Jae fez.

- Você tava só nas cantadas, alguém deu os passos, Jae - ela disse com falsa culpa

- Aguiar? Laby? Vocês vão? Por favoooor - Henri insistiu

- Vai ter substâncias ilícitas?

- Labirinto?! Não sabia que você gostava mas posso arrumar pra você.

- Não! - Labirinto e Aguiar exclamaram alto, os olhos de ambos arregalados

- Eu não gosto

- Ele não gosta

- Hm... ta bom, mas não sei se vai ter

- Confere e eu te respondo.

- Ta!

Os diálogos fluiam com tranquilidade dentro do grupo, várias vezes Aguiar e Labirinto acabavam conversando só um com o outro, mas no geral, as conversas eram tranquilas. Ainda com Jae, Henri, Kemi, Dalmo e a filha dentro da água, Labirinto e Natalia, a noiva de Dalmo, sentados na beirada e Aguiar completamente fora, próximo o suficiente só pra conseguir conversar.

Jae sabia que era uma ideia horrível, no fundo elu sabia, mas queria ver o que ele faria, queria ver o que Aguiar tanto escondia, ele não podia ter tanto medo assim de água, era só água. Então elu o jogou na piscina. Aproveitou um momento em que tinha saído da piscina pra ir no banheiro e na volta, com Aguiar de costas pra elu, só agiu por impulso, as duas mãos nas costas dele e o empurrando pra dentro d’água.

Ele começou a gritar enquanto caia, mas foi interrompido pela água.

De primeira, todos gargalharam, Jae particularmente alto, mas então as risadas morreram quando Aguiar não subiu pra superfície imediatamente, xingando como eles esperavam, na verdade o corpo dele tinha se retesado sob a água, as bolhas subindo lentamente.

- Aguiar... - Labirinto foi o primeiro a se preocupar, arregalando os olhos - Dalmo, ajuda!

Imediatamente, Dalmo, o maior entre eles, deixou a filha na beirada e nadou em direção ao corpo sob a água, passando os braços sob os do mais novo e o levantando.

- Henri! Me ajuda! - Labirinto pediu, se levantando da beirada e pegando o braço de Aguiar que saiu da água de onde Dalmo o levantava, Henri o ajudando com o peso.

Assim que saiu da piscina, Aguiar começou a tossir, cuspindo água e engasgando com as tentativas ofegantes de voltar a respirar, mas suas reações ainda pareciam minimizadas, seu corpo tenso e retesado, como se ele não pudesse reagir.

Labirinto tentava amparar o amigo, mas ele se afastou do toque, murmurando pedidos de desculpa entre os acessos de tosse e se encolhendo cada vez mais. A ação incomoda o mais alto, que se virou para os amigos, tentando entender se algum deles sabia o que estava acontecendo.

Dalmo entregou Manuzinha para a noiva e Natalia se afastou com a pequena, entendendo que era um momento do grupo. Jae tinha a decência de parecer envergonhado pelo que tinha feito. Henri e Kemi estavam inseguros em se aproximar, mas deram um passo a frente mostrando estarem prontos para ajudar.

A decisão era de Labirinto entretanto, ele e Aguiar eram mais próximos do que qualquer outra dupla dentro do grupo. As vezes, Labirinto se deixava sonhar ser mais do que só um amigo, mas parecia demais para Aguiar, ainda mais o vendo agora, encolhido e ainda tossindo, mas fugindo de qualquer toque.

- Aguiar... sou eu, o Labirinto, me deixa te ajudar? Eu vou te tirar de perto da água.

- Des..desculpa - o estudante de direito continuava murmurando, sua mente bem longe dali - Mestra... não, por favor... por... favor...

Com cuidado, Labirinto se aproximou mais um pouco, suas mãos tirando o cabelo molhado do rosto de Aguiar, que se encolheu ainda mais, o corpo tremendo de frio e de medo, mas não fez nenhum movimento, parecendo assustado, como um cachorrinho acanhado.

- Aguiar, é o Labirinto, ok? Você se lembra de mim? Do Laby, você me salvou, lembra? - seus moviemntos eram calculado e ele chamou Henri pra perto, não conseguia levantar o corpo pesado de Aguiar sozinho, mas precisava ajudar - Sou eu que tô te tocando, eu e o Henri, nós vamos te tirar de perto da água, as mãos te tocando são as minhas e as dele, ok?

Bem fraco, Aguiar assentiu e Labirinto e Henri se aproximaram, o segurando sob o ombros e o arrastando pra área gourmet da casa de Dalmo, em uma das espreguiçadeiras mais distantes da piscina.

Assim que colocaram Aguiar sentado, Dalmo os entregou uma toalha seca, que Labirinto colocou com cuidado sobre os ombros de Aguiar, tentando parar os tremores. A camisa branca que ele usava estava grudada na pele de seu torso e por mais que Labirinto quisesse dizer que tinha reparado somente na forma como o tecido se aderia a cada gominho do abdomen de Aguiar, ele se viu distraido pelas marcas roxas nas costelas e pela cicatriz ainda vermelha e cruel que ele via descer pelo peitoral largo. O que Aguiar vinha escondendo aquele tempo todo?

Henri não conseguiu conter a reação de surpresa, entretanto, arregalando os olhos e soltando uma exclamação que atraiu a atenção de todos novamente, e fez Aguiar se encolher.

- Desculpa, mestra... eu não vou fazer de novo…

- É o Labirinto, Aguiar, eu vou cuidar de você. Eu, Henri, Dalmo, Kemi e Jae, seus amigos, se lembra?

Era quase cômico a velocidade com que ele se mexia, tão devagar ao levar a toalha aos fios molhados de Aguiar que era quase imperceptível. Ou era o que ele achava, porque assim que começou a passar os dedos longos entre os fios castanhos, o paranaense pareceu relaxar aos pouquinhos, deixando seu corpo tombar até que estivesse com a cabeça sobre o ombro de Labirinto, as vezes, ainda era sacudido por uma crise de tosse, murmurando pedidos de desculpa, seus olhos e sua mente ainda distantes.

Labirinto levantou o olhar para seus amigos, seus braços ainda ao redor de Aguiar, tentando passar segurança. Todos os seus amigos o olhavam com desespero nos olhos, Jae estava encolhido ao lado da piscina, abraçando os joelhos, a culpa inundava seus olhos e elu olhava para Aguiar como se quisesse tirar toda a dor dele e passar para si mesmo.

A fragilidade que eles viam em Aguiar era algo inédito, todos ali estavam acostumados a vê-lo como um pilar do grupo e ver um dos pilares do grupo desabar nunca seria fácil. Jonas Aguiar nunca tinha contado muito para seus amigos sobre seu passado, eles sabiam o básico, seus pais biológicos tinham morrido, ele conheceu Henri no orfanato, foi adotado e ainda morava com a mãe adotiva, queria ser policial e estava dando a vida no curso de Direito e num curso paralelo que um colega policial lhe dava pra tentar passar mais rápido. E isso era tudo.

- Aguiar? Você tá comigo? - Labirinto perguntou, esfregando a toalha nos braços do amigo, os dedos de Jonas se agarraram quase involuntariamente a camisa de Labirinto - É o Labirinto, Aguiar…

- Aqui tem outra toalha - Dalmo entregou, desesperado para ser útil

Com cuidado, Labirinto tirou a toalha molhada dos ombros de Aguiar e colocou a seca, levantando o tecido para secar os cabelos castanhos e só então vendo mais uma porção de marcas nas costas. A bile subiu à garganta de Labirinto, ele não ia conseguir suportar a visão de seu melhor amigo daquele jeito.

- Aguiar? - foi Kemi quem chamou, se ajoelhando diante dele - Cometemos um erro, achamos que era só um medo bobo, desculpa a gente. Queremos o seu bem…

- Água… punição - ele murmurou baixinho, se todos não estivessem prestando atenção nele, ninguém ouviria - Não gosto de água…

- A gente não tá te punindo, foi só uma brincadeira que deu errado…

- Eu não queria te machucar, Aguiar - Jae falou baixo, se sentindo cada vez pior de ter machucado o amigo - Me desculpa…

- Não tinha como saber… parecia drama

O grupo inteiro se calou, trocando olhares entre si de forma tensa, enquanto Aguiar apertava ainda mais a toalha ao redor de seus ombros e a camisa de Labirinto em sua mão. O mais alto não protestou, só passou seu carinho para os braços musculosos, mas que agora pareciam tão frágeis.

- Meus pais biológicos usavam água pra punir eu e minha irmã, eles batiam também, mas o jeito favorito de castigo deles era afogamento. E eles faziam a gente assistir, quando não era eu com a cabeça na água, eu tinha que assistir a Eliza. Eu tentava acumular punições pra mim pra que eles esquecessem dela… - uma tosse violenta o sacudiu, o corpo tensionando com as memórias evocadas - Depois que eles morreram e eu fui pra casa da Alice… Ela disse que era difícil corrigir uma criança mais velha, porque ela precisava descobrir o que os pais faziam antes. Ela descobriu sobre a água e ela… a mestra, não… minha mãe… ela descobriu e ela piorou tudo…

A hesitação, a troca na forma como se referia a própria mãe, não passou despercebida por nenhum de seus amigos que se entreolharam mais uma vez, no fundo todos eles sabiam o que estava acontecendo. As marcas no corpo de Aguiar ganhavam explicação.

- Aguiar? Sua mãe adotiva… - Kemi prosseguiu, o tom calmo e cuidadoso, tentando evitar gerar mais gatilhos - Ela te obrigava a chamar ela de mestra?

- Ainda obriga… Depois que o Conselho Tutelar parou de fiscalizar e a minha guarda passou pra ela, ela não… mãe… não… Mestra…

- Foi ela que te machucou? As marcas no seu peito e nas suas costas? - Labirinto perguntou, mantendo o carinho constante

- Obediência, eu mereci…

- Puta merda… - foi Henri quem murmurou, sem conseguir se conter - Ninguém merece passar por isso, porra!

Em resposta, Aguiar escondeu o rosto na curva do pescoço de Labirinto, envergonhado de se expor e de contar tudo aquilo para os amigos.

- Eu só tô contando pra vocês, porque… pra isso não acontecer de novo… Vocês sabem agora

- É, mas a gente não vai deixar isso continuar! Você não pode continuar morando com essa mulher! - Jae exclamou

- Não é pra tanto…

- Como não? - foi Dalmo quem se levantou - Ela aumentou um trauma que você já tinha, fez você ter medo de água e ela te machuca regularmente! E eu tenho um quarto livre! Sempre tive, desde que comprei a casa!

- Esse é um dos motivos de eu nunca ter contado, vocês vão se sentir na obrigação de me ajudar.

- Porque somos seus amigos! - Kemi exclamou - E não podemos deixar você continuar sendo torturado!

- Eu não vou vir morar com o Dalmo, eu ia ser um incomôdo, ele vive com a família dele! Como vai explicar pra Manuzinha porque eu vou morar aqui?!

- Esse é o menor dos problemas, o Tio vai passar uns dias aqui, nada demais

- Eu não posso aceitar, não vai ser fácil assim, ela não vai em deixar sair. Eu ainda sou subordinado dela!

- Mas você é adulto e você vai sair. A gente faz na maciota, você vai tirando as coisas as poucos e quando ela assustar você já vai ter se mudado.

- Não… não, ela vai achar vocês, vai me achar de novo e ai vai ficar tudo uma merda, ela vai querer punir vocês também.

- Ela pode tentar - Henri se virou super sério - Nós vamos dar um jeito.

- Nós vamos proteger você! Amigo meu não vai passar por isso, não enquanto eu puder cuidar de você - Kemi declarou, aquela expressão certeira de uma mulher que sabia o que queria e o que faria

Aguiar apenas levantou o olhar, íris verdes vazias de esperança olhando para cada um de seus amigos, ele queria acreditar no que cada um deles dizia, queria acreditar nas promessas de Kemi e Henri, no arrependimento de Jae, no cuidado de Dalmo, mas só conseguiu afundar ainda mais o rosto na curva do ombro de Labirinto. Desejando com todas as suas forças desaparecer, não era fácil se livrar de 12 anos de manipulação.