Work Text:
Mia conhece muita gente na Ordem e tem imensos contatos. Ser filha do líder tem suas vantagens. Por mais que seu pai tentasse que ela não soubesse de muita coisa, Mia cresceu com visitas de Chizue, Arnaldo e Aaron, era óbvio que ela saberia sobre o que a Ordo Realitas fazia mais cedo do que Veríssimo gostaria.
Arnaldo era melhor escondendo segredos, seu filho, Thiago, só soube da existência da Ordem e do paranormal depois da morte dele. A neta de Chizue, Naomi, tinha por volta da idade de Mia e havia crescido sabendo da Ordem. Talvez Aaron seja o que melhor escondia tudo. Ele não fala, esse sim guarda o segredo bem.
Crescendo com o Tristan e a Clarissa, Mia aprendeu muita coisa. Uma vez, Tristan tinha contado que o irmão mais velho dele via televisão demais e por isso que desapareceu. Clarissa falou que era baboseira, ver televisão não fazia pessoas desaparecerem e que ele não devia falar coisas como aquela.
Agora Mia sabe que era uma tentativa de fazer com que ela não ficasse vendo TV o dia todo, ela também sabe o que aconteceu com Beto, algo que Tristan nunca soube. O tiro que levou deve ter doído, mesmo que nem o próprio se lembre. É uma pena que Tristan não pôde crescer com o irmão ou saber o que aconteceu. Porque nunca aconteceu, não é Mia?
Clarissa era mais direta. “Você não pode pular de tão alto, Mia!” a loira dizia. Depois ela explicava que poderia se machucar e que a gravidade era mais forte do que as vontades de voar de Mia.
Os dois eram nove anos mais velhos do que ela, mas ainda eram jovens. Uma pena que um morreu durante uma missão aos vinte e nove e a outra traiu a Ordem um ano depois. Mia sente falta dos dois até hoje.
Thiago se juntou à Ordem porque queria descobrir o que aconteceu com seu pai, Arnaldo Fritz. Mia já o conhecia. Antes de Arnaldo… morrer?… (Mia não sabe a palavra certa) ele deixava Thiago “tomar conta” de Mia. Basicamente, a ama de Thiago ficava encarregue dos dois, mas, como auto-proclamado irmão mais velho (ele era sim mais velho treze anos), ele gostava de dizer que tinha a responsabilidade toda.
Ele durou duas missões, se sacrificando pela Equipe E aos trinta e três (oitenta e quatro?). Ele tinha ido dois dias antes do aniversário de Mia, falou que seria rápido, que ia e voltava antes do dia treze de abril. Infelizmente morreu dia dezasseis. Três dias depois.
Mas Naomi, a neta da senhora Chizue, continuava ali. Cresceu no mesmo ambiente que Mia. As duas eram de equipes diferentes, mas se viam sempre que podiam. Conversavam sobre tudo. Sobre Jiro, Olivia, Samuel, música, filmes. Qualquer coisa. Até o Lupi se juntava com latidos.
Mia passou a conhecer Agatha. Agora a tratava como uma irmãzinha mais nova. Apesar da jovem idade, Agatha sofreu bastante na vida e Mia queria ser uma constante para ela. Um ombro onde poderia se apoiar.
Mas havia um agente. Um único agente de dezenas, se não centenas, que Mia não sabia o nome. Nunca teve sequer oportunidade de o conhecer ou falar com ele. Esse agente sabia quem ela era (até Dante, o agente cego da Equipe Abutres, conseguia ver que ela e Veríssimo tinham os mesmos olhos). Se olhares de ódio matassem, Mia estaria com Thiago e Tristan.
Ela não sabia qual o motivo e, sinceramente, nem queria saber. O esquisitão do canto, como chamava o sem noção mentalmente, podia fazer o que quisesse. Mia não mandava em ninguém e não dava motivos para ninguém. Ela ia ficar no seu cantinho com o Lupi, talvez falar com seus amigos. Ir na Dona Ivete pedir uma água.
Beber uma água seria bom. Talvez se o desagradável não estivesse do lado do balcão olhando para ela como se a quisesse matar. Mas ela estava com o Sam no fliperama, se pedisse com muito jeitinho, ele iria por ela…
“Mia, Samuel, tô indo na Dona Ivete buscar bebida, querem algo?” Sua salvadora, Carina Leone, chegou! Amen! Mia podia finalmente respirar! Graças a Marco e Patrizia Leone que tiveram uma filha maravilhosa!
“Pode ser uma água, por favor,” respondeu, aliviada. “Sam?”
“Se tiver batatinha, traz.”
O mundo é lindo. Carina Leone existe nele, como não poderia ser? O doce mais doce na Terra! Gelato vindo direto de Milão! A melhor pessoa do universo! Pessoa essa que estava voltando com uma bandeja cheia de bebida (e batatinha), mas com uma cara de descontentamento… Com cara de descontentamento? Carina?…
“Aqui a água…” Carina olhava de canto para algo. Alguém. O fitador não-anônimo. “Oh, Mia… aquele cara não tá te encarando um pouco demais?”
“É… não é a primeira vez,” Mia aceitou a garrafinha e bebeu um gole. “Ele é assim já faz um tempo”
Carina pareceu pensar por um momento. Seus olhos, que deram a Mia uma esperança de ter uma garrafa de água para beber, alternavam entre ela, o cara que ainda estava olhando e o resto da Equipe dela.
“Ele também olha assim para o Arthur às vezes, até o Dante vê.”
“Pensa, Mia,” Samuel pega nas batatas dele. “Pelo menos ele tá com o Tuco, qualquer coisa a gente fala com ele e ele pede pra parar.”
O Samuel sempre tem uma maneira de ver coisas que Mia pode deixar passar, mas como que ele, o cara dos computadores, tem mais capacidade social nesse momento do que ela que trabalha com outros agentes? Como que ela não viu Tuco Belez bem ali? Claro que tudo vai ficar bem, Belez é conhecido por ser razoável e um bom lutador. Ele… pera. O que está Arthur Cervero fazendo se aproximando do encara-mas-não-fala?
“Carina…”
“Eu tô vendo,” Mia decide que ela não está vendo é nada. A Senhorita Leone está de costas para o acontecimento, como caralhos está vendo? E pela expressão de Samuel, ele também chegou à mesma conclusão.
“Querem jogar uma sinuca?” pergunta Arthur sem um braço para o vigiador sem uma mão.
“Não, obrigado,” ele responde. E Mia se encontrava no chão. Não literalmente. Calma, rebobina… a mente de Mia se encontrava explodida. Era a primeira vez que via o espreita-espreita abrir a boca pra falar. Mas ele ainda continua. “Vou pra baixo, Tuco. Te vejo depois.”
Bom, ao menos agora Mia podia beber sua água sem ter que levar com olhares de ódio, mas o que foi aquilo?
