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A neve caía pesada lá fora, cobrindo as torres de Hogwarts com um manto branco que abafava qualquer som vindo dos terrenos. Dentro do castelo, o clima era de uma quietude quase melancólica. Harry estava sentado no tapete em frente à lareira da Sala Comunal da Grifinória, cercado por almofadas vermelhas e douradas. Ele segurava um livro de Defesa Contra as Artes das Trevas, mas suas pupilas mal se moviam pelas linhas. Seus pensamentos estavam longe, perdidos na sensação de vazio que o Natal sempre lhe trazia.
Ron e Hermione tinham ido para casa, e embora ele tivesse insistido que ficaria bem, a solidão começava a pesar como uma capa de chumbo. Ele olhava para as chamas e via apenas o reflexo de sua própria vida antes de Hogwarts: o armário sob a escada e o silêncio frio dos Dursley.
De repente, o som do retrato da Mulher Gorda se movendo o assustou. Ele não esperava ninguém, muito menos alguém que não fosse da sua casa. Quando a silhueta esguia e elegante de Draco Malfoy atravessou a entrada, Harry esfregou os olhos, achando que era uma alucinação causada pelo cansaço.
— Malfoy? O que você está fazendo aqui? E como conseguiu a senha? — Harry perguntou, levantando-se e deixando o livro cair no tapete.
Draco caminhou até o centro da sala com uma postura impecável, embora seus olhos carregassem uma suavidade que ele só mostrava quando estavam sozinhos. Ele carregava uma pequena cesta de vime e usava um suéter de lã verde escura que o deixava com um aspecto menos formal e muito mais acolhedor.
— Quer me expulsar ? Aliás a senha é terrível. Grifinórios realmente não tem um pingo de criatividade! — Draco disse, deixando a cesta sobre uma mesa baixa. Ele se aproximou de Harry, parando a poucos centímetros de distância. — Eu mandei uma coruja para minha mãe dizendo que precisava repassar algumas poções complexas para os exames. Ela não ficou feliz, mas aceitou.
Harry sentiu o coração disparar.
— Não! nunca. Você... você ficou por minha causa? Draco, sua família dá festas enormes no Natal. Você sempre diz o quanto a comida da Mansão é superior.
Draco soltou um suspiro longo e esticou a mão, tocando o rosto de Harry com as pontas dos dedos frios.
— A comida pode ser melhor, mas a companhia é deplorável. Eu não suportaria passar a noite de Natal cercado por discursos surpremacistas e etiquetas vazias sabendo que você estaria aqui, olhando para esse fogo com essa cara de quem carrega o mundo nas costas. Eu escolhi ficar onde meu coração está, seu idiota.
Harry não aguentou. Ele avançou e envolveu a cintura de Draco em um abraço apertado, escondendo o rosto no peito do loiro. Ele sentiu os braços de Draco o envolverem de volta, e o cheiro de menta e frio de inverno que emanava dele pareceu preencher todos os espaços vazios na alma de Harry.
Eles se acomodaram juntos no sofá grande em frente à lareira. Draco abriu a cesta que trouxera, revelando uma garrafa de suco de abóbora gelado, tortas de melaço que ele claramente tinha pedido aos elfos para fazerem especialmente para Harry, e uma caixa de veludo.
— Coma — ordenou Draco, empurrando uma tortinha para Harry. — Você está muito magro, Potter. Se eu não cuidar de você, vai acabar sumindo.
Harry deu uma mordida, sentindo o sabor doce aquecer seu peito.
— Obrigado, Draco. De verdade.
Enquanto comiam, Harry começou a contar sobre seus Natais na Rua dos Alfeneiros. Ele nunca falava muito sobre isso com Ron ou Hermione, pois sentia que eles tinham famílias tão perfeitas que não entenderiam. Mas com Draco, que também tinha suas próprias cicatrizes familiares, ele se sentia seguro.
— Uma vez, eles me deram um cabide de arame de presente — Harry confessou, dando uma risada sem graça. — E em outro ano, um par de meias velhas do meu tio.
O rosto de Draco se transformou em uma máscara de indignação. Seus olhos cinzentos faiscaram de raiva por Harry.
— Eles fizeram o quê? — Draco perguntou, a voz baixa e perigosa. — Aqueles trouxas imundos... Harry, eu juro que se eu os encontrasse, eles passariam o resto da vida transformados em algo muito desagradável.
Harry sorriu, tocando o braço de Draco para acalmá-lo.
— Está tudo bem agora. Eu tenho você.
Draco respirou fundo e pegou a caixa de veludo.
— Por falar em meias, abra isso. Mas saiba que se você comparar com as do seu tio, eu te jogo no lago congelado.
Harry abriu o presente. Dentro, havia um par de meias de lã de altíssima qualidade, de um tom cinza azulado que combinava com os olhos de Draco. Quando Harry as tocou, percebeu que elas tinham um feitiço de aquecimento constante e pequenos detalhes bordados que brilhavam no escuro.
— Elas são lindas, Draco.
— Elas são encantadas para que você nunca sinta frio nos pés, nem mesmo nos calabouços — Draco explicou, tentando esconder o orgulho na voz. — E tem mais uma coisa.
Ele tirou um pequeno pingente de prata de dentro do bolso. Era uma miniatura perfeita de um Pomo de Ouro.
— É para colocar na sua mochila ou na sua chave. Ele brilha quando eu estou por perto. Assim, mesmo que a gente não possa se falar nos corredores por causa das nossas casas, você vai saber que eu estou ali.
Harry sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ele puxou Draco para mais perto, beijando-lhe a bochecha repetidamente até que o loiro começasse a rir e tentar se afastar, embora sem sucesso.
As horas passaram voando entre conversas sussurradas e risadas baixas. Harry acabou deitado com a cabeça no colo de Draco, enquanto o loiro passava os dedos pelos fios rebeldes do cabelo preto de Harry, desembaraçando-os com uma paciência que ninguém em Hogwarts acreditaria que ele possuía.
— Sabe o que é engraçado? — Harry murmurou, quase pegando no sono. — Eu achava que iria ficar sozinho por aqui.
O movimento da mão de Draco parou instantaneamente. E Harry observou o namorado.
— E você acha mesmo que eu ia deixar você aqui sozinho? — Draco resmungou. — Eu nunca iria deixar você sozinho, mesmo que isso fosse custar caro. Eu sou rico!
Harry riu, olhando para cima e tocou as mãos de Draco.
— Eu já disse que te amo? Meu amor
Draco suavizou a expressão e inclinou-se, dando um beijo casto na testa de Harry.
— Hoje ainda não.
Harry se aproximou e deu um beijo quente na bochecha de Draco e sussurrou — Eu te amo, Malfoy.
Draco sorriu e deu uma risada boba.
Quando o relógio de parede marcou meia-noite, anunciando oficialmente o dia de Natal, Draco se levantou e puxou Harry pela mão. Eles foram até a grande janela que dava para o terreno da escola. Sob o luar, a neve brilhava como se milhares de diamantes tivessem sido espalhados pelo chão.
— Olhe para cima — Draco disse suavemente.
Harry obedeceu e viu um várias borboletas azuis lindas. Draco o tinha enfeitiçado para segui-los silenciosamente durante a noite.
— Acho que é Natal. — Draco observa e sente o ar frio. — Feliz Natal, meu Harry — Draco sussurrou.
— Feliz Natal, Draco.
Eles se beijaram enquanto a primeira neve do dia de Natal começava a cair lá fora. Foi um beijo profundo, cheio de promessas e de uma ternura que só o primeiro amor pode proporcionar. Harry não se sentia mais sozinho; ele não era apenas o "Menino que Sobreviveu." Naquele momento, ele era apenas Harry, e ele era amado pelo garoto mais improvável e maravilhoso que ele já conhecera.
Eles ficaram ali, abraçados, vendo o amanhecer tingir o céu de rosa e laranja, sabendo que, não importa o que o futuro trouxesse, eles sempre teriam aquele Natal para se lembrar.
