Chapter Text
Isaac acabara de derrotar o mago que controlava as pessoas da cidade. O mestre de forja havia ordenado que suas criaturas trouxessem até ele os cadáveres aptos à transformação.
Ao olhar ao redor, Isaac viu a pilha de corpos acumulada em um canto daquele cômodo destruído. No centro havia uma mesa de madeira, e sobre ela repousava um cadáver. O corpo era de um jovem de idade semelhante à dele. Sem muitos danos, seria o primeiro a ser transformado após a batalha.
Isaac segurou sua adaga firmemente quando ela começou a emanar uma aura vermelha. Ele cortava a pele do cadáver e moldava seu corpo. Isaac não tinha controle de como suas criaturas seriam, porém o mestre de forja podia ter o mínimo poder de escolha sobre suas características.
Conforme Isaac fatiava o cadáver ele percebia que apesar de estar fazendo tudo com sua maneira habitual, algo estava diferente do usual.
O homem de pele escura perfurou o peito do morto, como uma maneira de cessar duas dúvidas e iniciar a transformação.
Quando a lâmina o atingiu, os olhos do jovem se abriram e gritos de dor ecoaram por toda a torre.
As roupas rasgaram à medida que sua massa muscular e estatura aumentavam. Chifres despontaram na testa enquanto asas se abriam em suas costas. Sua pele tornou-se cinzenta, e múltiplos olhos surgiram em seu rosto — um maior no centro da testa e outros dois abaixo dos olhos originais.
Isaac observou tudo com atenção. Sabia que algo diferente havia acontecido, embora não entendesse exatamente o quê.
Quando o processo terminou, ele pôde analisar a criatura com calma.
O demônio tinha uma aparência surpreendentemente humana em comparação aos outros que Isaac criara e também incrivelmente bela apesar de se recusar a admitir, ele lembrava um anjo não uma criatura vinda do inferno. Suas criações anteriores eram mais animalescas. Além disso, havia nele uma aura incomum, algo forte e especial. Por isso, Isaac sentiu a necessidade de nomeá-lo.
O mestre de forja ponderou por um momento, observando sua criação. Então decidiu: Abel. Um nome hebraico, simples e breve, representando pureza e bondade.
Ele disse com seriedade:
— Vá com os outros. Reconstrua a cidade e enterre os cadáveres inadequados para a forja, Abel.
Os olhos da criatura brilharam em entendimento. Ambos pela ordem e pelo nome.
Abel então seguiu seu caminho para fora do edifício. Cambaleava um pouco, tentando se adaptar ao novo corpo.
A criatura da noite, atendendo ao pedido de seu mestre, deixou a torre e caminhou até o local onde os demais sepultavam os mortos.
No trajeto, Abel encontrou um rio. Agachou-se e observou seu reflexo na água.
Era noite, e a lua também brilhava na superfície. Ele encarou o próprio rosto: era algo diferente agora, algo novo. Uma criatura nascida do inferno, com o único propósito de servir ao seu mestre de forja.
Abel tocou a própria bochecha com a mão agora dotada de garras. Sua mão fria contrastava com a pele quente. Subiu o toque até onde os chifres começavam, e depois o deixou cair novamente.
Ele pensou em seu mestre — no homem que lhe dera uma segunda chance de existir. Um propósito. Um nome.
Abel não tinha memórias de sua vida passada, mas isso não importava. Ele já ganhou tudo de que precisava de Isaac. E, para retribuir, ofereceria sua lealdade.
Seguindo sua missão, chegou a um campo aberto. Um lugar que seria tranquilo e majestoso como um sonho se não fossem as dezenas de criaturas da noite enterrando cadáveres.
Abel pegou uma pá largada pelo chão e começou a cavar.
(. . .)
Alguns dias depois, Isaac terminara seu trabalho na torre. Agora queria avaliar o progresso da reconstrução e verificar o estado de uma criatura específica: Abel.
O mestre de forja caminhou pela cidade, observando suas criações trabalhando arduamente na restauração dos edifícios.
Se continuassem naquele ritmo, poderiam partir para o castelo de Carmilla em alguns dias.
Isaac prosseguiu até o campo de enterros. Havia poucas criaturas ali — algo em torno de uma dezena — e poucos corpos restantes.
No horizonte, ele avistou Abel. A criatura carregava um cadáver com facilidade, seus movimentos muito mais harmoniosos do que no dia de sua criação. Abel depositou o corpo com cuidado no buraco e cobriu com terra.
Isaac observou o processo por um tempo considerável, atento a cada gesto.
Abel então virou o rosto e encontrou o olhar de Isaac, embora o contato visual durasse apenas alguns instantes antes que ele voltasse ao trabalho.
Isaac gostaria de entender melhor a natureza daquele ser de múltiplos olhos. Mas não agora.
(. . .)
O mestre de forja caminhava pela cidade, avaliando o progresso da reconstrução. Também precisava manter seu próprio condicionamento físico.
O ataque ao castelo de Carmilla se aproximava. Ele utilizaria um espelho de teletransporte para levar seu exército de criaturas até lá e derrotá-la.
Pensou brevemente sobre o que faria após a vitória. Ele queria criar um mundo gentil… mas como? Ele sabia que a bondade humana existia, apesar da imensidade de maldade, como fazer as pessoas serem mais como o mercador cego que o presenteou, o capitão que o ajudou com o transporte e Miranda que o instruiu?
Decidiu deixar essa preocupação para depois, ele nem sabia se sobreviveria a batalha contra Carmilla.
Isaac passava sob uma construção perdido em seus próprios pensamentos quando, de repente, sentiu uma asa cobri-lo, Ele pode sentir a textura leve de penas sobre o seu corpo, ele tremeu levemente com o contato. Surpreso ele olhou para cima e encontrou os cinco olhos de Abel.
A criatura estava diante dele, envolvendo-o com asas e braços, como se fosse um abraço. Isaac podia ouvir sua respiração pesada.
Ao analisar mais de perto, percebeu sangue escorrendo pelo rosto do demônio. Tocou sua bochecha por alguns segundos.
A pele dele estava fria. Por um instante, Isaac pôde medir sua fragilidade.
Endireitou a postura e suspirou. Mantendo o contato visual e a seriedade, retirou a mão e disse:
— Me solte.
A frase não saiu com sua frieza habitual. Não chegou a ser gentil, mas havia algo novo em seu tom.
Abel obedeceu, dando um passo para trás. No chão, entre restos de tijolos, respingos de sangue eram visíveis.
Isaac analisou a cena e deduziu que a criatura o havia protegido, ele então observou Abel e comentou com frieza:
— Me permita ver suas asas.
Abel se aproximou, virou-se de costas, agachou-se e abriu as asas com hesitação. Havia ferimentos leves, que se curariam rapidamente com os cuidados adequados.
— Venha comigo.
Eles seguiram para a mesma sala onde Abel havia sido criado. Durante o caminho, a criatura caminhou mais perto de Isaac do que o necessário — seu braço quase tocando o dele.
— Sente-se.
Abel sentou-se em uma cadeira, e Isaac começou a higienizar os ferimentos. Ele pôde sentir a textura macia das penas enquanto limpava as asas. A cada toque, escutava suspiros e gemidos baixos de Abel. As asas tremiam de leve.
O mestre de forja ficou surpreso com os sons — a voz da criatura era incrivelmente suave. A surpresa o fez hesitar por um instante, mas ele continuou.
Isaac sentiu uma ponta de preocupação pelo estado dele. Respirou fundo, deixou seus pensamentos se dissiparem e aplicou a pomada.
Quando terminou, suspirou, aliviado, enquanto observava Abel.
Por fim, disse:
— Não é recomendado que você voe por agora, mas estará recuperado amanhã. — Os cinco olhos de Abel seguiam atentos a cada palavra. — Antes de ir, tenho uma pergunta: por que você fez aquilo, sendo que eu não lhe ordenei?
Abel colocou uma mão sobre o peito, onde seu coração batia. A outra foi às costas, e então ele se curvou.
— Lealdade.
Isaac comentou com um volume baixo, se não fosse pela audição aguçada da criatura da noite ele não conseguiria escuta-lo. O mestre de forja deixou o ar escapar pelas narinas, e seus lábios quase formaram um sorriso.
— Está dispensado.
(. . .)
Abel patrulhava a torre durante a noite fria, enquanto o vento percorria a cidade.
Andando pelos corredores, notou uma porta aberta: o quarto de Isaac. Ele entrou.
Isaac dormia tranquilamente, mesmo com a janela aberta permitindo a entrada do vento gelado.
A criatura de cinco olhos fechou a janela e se aproximou do mestre adormecido.
Suspirou fundo e segurou o cobertor. Hesitou — soltou o tecido por alguns segundos, incerto. Depois o pegou novamente e o ajustou com cuidado.
Abel observou Isaac por algum tempo.
Era estranho vê-lo assim. Normalmente seu semblante era sério. Agora, descansava. Ele analisou as tatuagens presentes no rosto de Isaac, ele sentiu o impulso de tocá-las, porém não o fez. A visão de seu mestre o fez lembrar do toque das mãos de Isaac em suas asas e seu rosto.
Com essa lembrança, algo acendeu dentro de seu peito — um calor suave, uma sensação nova.
E Abel percebeu que gostava daquele sentimento.
