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Fandom:
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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-12-18
Words:
1,221
Chapters:
1/1
Comments:
2
Kudos:
19
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1
Hits:
115

Ela Gosta de alguém

Summary:

Alê se vê presa aos sentimentos secretos que guarda sobre sua companheira Cindy.

Notes:

Depois de muito tempo, estou aqui postando uma história novamente! Agora, em minha língua natural. Espero que alguém leia;)

Work Text:

O colégio nunca parecia realmente silencioso, mas havia momentos em que o barulho se tornava apenas um fundo distante – um zumbido constante que não exigia atenção. Para Alê, esses momentos quase sempre aconteciam quando Cindy estava por perto.

Ela chegava cedo, mesmo quando dizia que não se importava com horários. Caminhava pelos corredores com passos decididos, a mochila jogada de qualquer jeito em um ombro só, como se nada ali pudesse realmente afetá-la. O riso surgia fácil, alto, sempre acompanhado de algum comentário desnecessário ou de um gesto exagerado. Tudo era calculado. Do jeito que ela gostava.

Cindy gostava de ser vista.

Alê gostava de vê-la.

Ela ocupava uma carteira no centro da sala, espalhando cadernos e canetas sobre a mesa como se aquele espaço fosse maior do que realmente era. Fingiu procurar algo na mochila, revirando tudo com certa teatralidade. Alguns alunos olharam. Cindy sorriu, satisfeita. Gostava de chamar atenção; era uma forma de garantir que seria lembrada. Podia ser exagerado – e ela adorava exatamente por isso.

Alê percebeu o movimento sem levantar muito a cabeça.

Sentava algumas carteiras atrás, postura fechada, braços próximos ao corpo. Ele tentava se concentrar no quadro, mas os olhos insistiam em escapar. Era sempre assim. Mesmo quando prometia a si mesma que não faria isso, mesmo quando ele se lembrava de como aquilo costumava terminar.

Cindy se virou na cadeira.

– Alê...

O nome saiu limpo, sem tropeços. Aquilo sempre chamava a atenção dela. Ele nunca precisou corrigir Cindy, nunca precisou explicar nada. Era como se, naquele ponto específico, ela simplesmente soubesse – e aceitasse. Quando Alê se assumiu para ela, tudo aconteceu com uma naturalidade quase absurda. Cindy sempre a apoiou, e isso nunca mudou.

– Você entendeu essa parte? – perguntou, empurrando o caderno para trás.

Alê se inclinou, aproximando-se mais do que pretendia. Ela explicou com calma, apontando correções, conectando ideias como se aquilo fosse simples. Alê sempre falava baixo, e Cindy nunca reclamava disso – o que fazia ele se sentir estranhamente confortável. Cindy ouvia com atenção real, os olhos acompanhando cada palavra, embora às vezes se perdessem no rosto de Alê.

Por alguns segundos, não havia mais ninguém na sala. E era isso que confundia.

Alê sentiu o peito apertar com um pensamento antigo e recorrente: Cindy só ficava tão próxima quando precisava. Ainda assim, ficava. E isso era suficiente para manter a esperança viva, mesmo que frágil. Perceber o olhar dela fixo em si fez com que ele se perdesse por um instante, a voz falhando.

– Ah… desculpa, eu… eu me perdi um pouco – disse, tentando disfarçar. – Preciso de alguns segundos.

Cindy sorriu. Confirmou com um leve aceno de cabeça e se aproximou um pouco mais. A mão dela foi até a cabeça de Alê, acariciando de leve.

– Tá tudo bem. Leva o tempo que quiser. Eu não vou reclamar.

Alê engoliu seco.

Aquilo definitivamente não daria certo.

Na banda, os dias passavam de forma diferente.

A sala de música tinha um cheiro próprio - mistura de poeira, metal e madeira antiga. O som dos instrumentos sendo afinados ecoava pelas paredes estreitas. Caio falava alto, como sempre, quase gritando. Franco fumava um cigarro no canto enquanto ajeitava a guitarra. Eloy batucava em qualquer superfície disponível, já se preparando.

Cindy chegava por último, como se soubesse que todos a esperavam. Apesar de ser líder, pontualidade nunca foi seu forte.

– Desculpa o atraso – disse, ajustando o baixo. – Bom, vamos começar então.

Quando ela assumia o centro da sala, algo mudava. O caos se organizava. Os olhares se alinhavam. Cindy não precisava gritar para liderar; fazia isso com maestria. Alê adorava aquilo, mesmo sem dizer. Seu corpo sempre reagia antes que a mente tivesse tempo de esconder. Alguns minutos se passaram enquanto todos se ajeitavam. Até que Cindy se apressou para começar.

– Alê, começa.

Alê respirou fundo antes de tocar.

Ela segurava o teclado como se aquele fosse o único lugar onde podia existir sem ruído. Ele deixou os dedos encontrarem as teclas com cuidado, criando uma base firme, constante. A música se erguia a partir dali. Era uma composição nova, escrita recentemente por Eloy, buscando algo mais firme, mais intenso.

Cindy acompanhava com atenção. O olhar focado, sério, diferente de qualquer outro. Não havia deboche. Não havia excesso. Apenas presença. Ela dançava levemente conforme a música avançava, sentindo cada vibração. Aos poucos, o olhar de Cindy repousou em Alê. Os dois se encararam por breves segundos. E toda vez que Cindy olhava daquele jeito, Alê pensava que talvez fosse possível. Que talvez ela sentisse algo parecido. Que talvez aquele silêncio compartilhado significasse mais do que ele ousava admitir.

Mas não durou.

Após alguns treinos e outras músicas, o ensaio terminou. Os olhares se quebraram como gelo fino.

E o mundo voltou ao lugar conhecido.

Nos corredores, Cindy ria alto ao lado de Caio. Tocava o braço dele sem pensar. Dividia fones de ouvido, piadas internas, empurrões leves. Tudo parecia fácil entre os dois. Natural demais.

Alê observava de longe, fingindo estar ocupada, desenhando teclas invisíveis com os dedos sobre a mesa. Ela tentava se convencer de que não era nada.

Ele tentava se convencer de que aquilo passaria.

Mas o sentimento permanecia.

Os dias se acumulavam. A rotina se repetia. Cindy pedia ajuda com trabalhos, com matérias que fingia não entender. Procurava Alê sempre que precisava de alguém que realmente escutasse. Alê nunca recusava; gostava do tempo que passavam juntos. Fora da escola, encontravam-se em lugares aleatórios — sorveteria, cinema, até mesmo a biblioteca.

– Ainda bem que você tá aqui – Cindy disse certa vez, enquanto ambas estavam sentadas, encostadas em uma árvore no parque. Cada vez que Cindy dizia aquilo, Alê sentia algo se quebrar e se reconstruir ao mesmo tempo.

Ele sorriu para ela. Não era seu melhor sorriso, mas Cindy sabia que significava algo.

Ela sabia que Cindy gostava dela.

Ele sabia que não do jeito certo.

À noite, Alê se deitava com os fones no ouvido – músicas baixas demais para incomodar, altas demais para afastar os pensamentos. Cindy surgia na mente sem pedir permissão: rindo, tocando baixo, chamando seu nome. Tudo aquilo a deixava à beira da loucura.

Ela pensava em como seria se Cindy a olhasse do mesmo jeito que olhava para Caio.

Ele pensava em como seria se não precisasse imaginar isso.

Às vezes, se pegava imaginando-se no lugar de Caio com Cindy – sorrindo, brincando, talvez até algo a mais... A mente se impregnava desses pensamentos, e ela se julgava por cada um deles.

No dia seguinte, em mais um ensaio antes do show, Cindy errou uma entrada. Parou a música abruptamente.

– De novo – disse, a voz menos firme do que de costume. Respirou fundo, ajeitou-se e se preparou para tentar outra vez.

Ela olhou para Alê por mais tempo do que o normal. Um segundo a mais. Dois.

Alê sentiu o coração acelerar por um motivo que se recusava a nomear.

Mas Cindy desviou o olhar.

– Foco, gente. – Talvez fosse coisa da cabeça dele. Mas ele tinha quase certeza de que aquilo era mais para Cindy do que para o grupo.

A música recomeçou.

E Alê entendeu, mais uma vez, que gostar de Cindy era viver nesse espaço incerto: entre o quase e o nunca.

Ela estava sempre ali.

Ele também.

Mas Cindy gostava de alguém. E não importava quantas vezes Alê sustentasse a música – a melodia principal nunca era dele.