Work Text:
O trem parecia demorar horas para chegar na estação, eu esperava escorado a porta, já um pouco bêbado, observando as luzes se acenderem no painel acima. Podia sentir o suor se acumulando na minha testa e os olhares de reprovação dos outros passageiros, focados na garrafa de vinho barato que eu carregava nas mãos.
“Para denunciar delitos, vandalismo ou comércio ambulante nos trens e estações envie um SMS para 9733…”
— Não pode fazer nada né?
Falou um um senhor vendendo algum produto falsificado, eu sequer tinha percebido ele a minha frente até então.
“Próxima estação, next station…”
Não respondi e sai do trem, o chiado dos trilhos me perseguindo enquanto eu subia as escadas para a saída. Uma onda de ar frio bateu no meu peito ao chegar na rua, então fechei o casaco sobre ele enquanto andava em direção a onde imaginava que meus amigos estariam. Os bares lotados de jovens me deixavam ansioso e paranóico, decidi procurar pelos locais em que meus amigos ficavam mais frequentemente. Felizmente foi de tiro e queda.
Sentados na calçada de uma esquina escura estavam Vlad, Dylan, Brenda e uma garrafa de vodka na metade.
— Eric! — Eles chamaram, e eu sentei com eles.
Brenda pegou o vinho da minha mão e deu um gole generoso, passando para Dylan ao seu lado. Vlad estendeu a vodka para mim mas eu recusei, eles estavam breacos demais e ainda por cima era vodka pura. Sério? Não eram nem 9 horas e eles já estavam caindo de bêbados, logo mais Dylan ia começar a passar mal e eu teria que segurar o cabelo para ele vomitar:
— Que foi, princesa? Muito forte pra você? — Vlad da mais um gole de vodka.
Eu ignorei o comentário, ele geralmente fica irritante quando bêbado.
— Porra eu acabo de chegar e vocês já tão nas últimas, é foda…
— Tá de mal humor é? — Brenda perguntou. — Tava te esperando pra fuma um.
— Eu não quero, valeu.
— Não quer??? — Klebold arregalou os olhos. — E a gente tava esperando pra quê?
— Calma. — Roslyakov riu e se levantou, me puxando pelo braço. — Eu tenho algo melhor.
Ele me arrasta até a entrada de um beco deserto e bate as costas contra o muro pixado. Pegando o celular do bolso, ele tira a capinha revelando um saquinho de pó:
— Pera, mas e o Dylan?
— Logo a Andrew chega ai pra ficar de olho nele…Segura pra mim. — Ele diz, me entregando o celular o celular.
Essa não era a primeira vez que eu faria aquilo, segurar o celular para alguém cheirar, quer dizer, mas ainda era uma experiência um tanto surreal, estar tão perto de uma droga tão viciante e podendo facilmente entrar em contato com ela. Vlad despejou o pó na tela, suas mãos trêmulas e separou duas carreiras com um cartão. Rapidamente, ele pega uma nota de dois reais da carteira, enrola e cheira as duas linhas, ele respira fundo, garantido que consumiu tudo, limpando a tela com o dedo e passando o restante na gengiva.
Ele parecia ter se acalmado, guardando o celular, passa a me encarar intensamente com um olhar difícil de decifrar e eu fico um pouco desconfortável.
Vlad era sempre muito distante, estando imerso nos próprios pensamentos. Em momentos como esse, porém, ele conseguia ser muito intenso e até intimidador, de certa forma, não podia deixar de me hipnotizar por aqueles olhos, aneis azuis envolvendo pequenos buracos negros e, de seus lábios, surgia um pequeno sorriso torto:
— Vem aqui. — Vladislav me puxou pela cintura me fazendo tropeçar sobre ele.
Apoiando meus braços na parede, eu tentava me forçar para longe, mas ele me segurava com força. Confuso, eu olho em seus olhos, esperando uma explicação, algo que indicasse um tom de piada ou acidente. Sinto a boca dele invadir a minha, ele aperta o meu rosto com uma mão, minha bunda com a outra e o gosto do álcool no hálito.
Minha cabeça gira e eu congelo. Que porra estava acontecendo? Por que ele estava fazendo isso comigo?
Meu corpo encontra forças para empurrar-lo, mas ele me agarra de novo, como se eu conseguisse respirar o ar da superfície por um segundo antes de ser afogado novamente pelas ondas.
Sinto uma dor aguda em meu lábio inferior, uma mordida maliciosa, sem intenção de ser sensual, apenas de me machucar, eu puxo minha cabeça com força, o gosto de metal invadindo meus sentidos. Ele segura o meu pescoço e me chupa e beija, um frio percorre a minha espinha e meu estômago se embrulha, acho que vou vomitar.
Finalmente consigo me desvencilhar dele, cambaleando para o meio da rua, meu coração aperta no meu peito e meus olhos se enchem de água.
Eu olho para ele e ele me olha de volta. Por quê? Por que ele fez isso? Eu confio nele, então por que ele faria isso comigo?
Eu tento me recompor e começo a voltar para onde estávamos previamente, engolindo minhas lágrimas, eu dobro a esquina e passo pelos meus amigos, eles riam de alguma outra coisa até eu chegar:
— Ah, oi, Eric, acabaram de transar? — Andrew debocha, sentada entre Dylan e Brenda.
Eu seguro o braço do Dylan e puxo ele para que se levantasse e me seguisse. Arrastei ele entre as pessoas, até chegarmos em outra parte da rua, aonde teríamos mais privacidade. Nesse ponto, as lágrimas já não eram mais possíveis de se conter e eu soluçava, segurando meu amigo com força:
— O que foi, Reb? O que aconteceu??
Eu tento falar mas minhas palavras parecem presas na minha garganta por um nó.
Eu e Vlad sempre flertavamos como piada, eu nunca tive um problema com isso, mas agora, imaginando os olhos dele em mim, eu sinto um enorme asco. Eu confiei nele com a minha amizade, eu confiei nele com o meu corpo e é assim que ele me retribui. Lembro de diversas vezes que fiquei fora de mim, teria ele feito mais alguma coisa? Não quero nem começar a considerar isso uma possibilidade. Ele é meu amigo. Eu gosto tanto dele, então por que eu sinto uma aversão tão intensa agora? Por que eu só consigo sentir raiva e nojo?
— Reb... Eric!!!
Dylan me chama a atenção, me sacudindo pelos ombros, minha cabeça gira e eu sinto algo vindo de dentro de mim. Eu quero vomitar. Vomitar todos aqueles sentimentos pelo chão. Eu sento. Klebold me segura e afaga o meu cabelo, me dando apoio. Eu me sinto culpado, me sinto horrível. Soluço alto e enterro meus dedos no meu cabelo, puxando os fios até que meu couro pulsasse. Concentro meus pensamentos, tentando escolher o que falar sem chorar mais ainda:
— O Vlad, ele me beijou a força.
— Ué, sério? Mas o que você fez? — Dylan fez uma expressão de confusão.
— C-como assim…?!
— Ah, não sei, achei que você gostasse dele…?
Não sabia o que dizer, não era como se fosse minha culpa, certo? O Dylan só estava entendendo errado:
— Eu não queria que isso acontecesse!
— Tá, mas então por que você tava flertando com ele?
— Vodka, você não tá me ouvindo? Ele me beijou a força! — Minhas palavras saem cortadas, meu coração rachado.
— Tudo bem, tudo bem. — Ele acaricia minhas costas, mas eu sabia que ele não estava me levando a sério.
— Eu- eu preciso ir embora.
— Ãn? Reb, você tá surtando, você cheirou ou alguma coisa assim?
— Não?! Não! Você acha que eu tô mentindo?!
— Não é isso, Reb…
Eu me levanto saio andando, preciso ir embora daquele lugar o mais rápido possível:
— Espera, Eric! — Eu ouço a voz do meu melhor amigo se distanciando.
Cambaleio pelo asfalto e entre pessoas alcoolizadas, pelo que pareciam horas, todos me olhando, me julgando. Sinto uma mão puxar meu braço, era Andrew, ela tinha uma expressão impaciente e enojada no rosto:
— Eric. Escuta aqui. Se acalma, você tá assustando todo mundo.
— Andrew… O Vlad me assediou…
— Sim, eu ouvi. Escuta, você não pode sair acusando as pessoas desse jeito!
— O que…? — Eu senti o meu mundo despencar abaixo de mim.
— É, Eric! Podem querer bater nele, sabia??
— Mas, mas… É verdade!
— Qual é cara, o Vlad não faria isso e você sabe.
Senti minhas pernas falharem e eu me recosto na parede do bar, boquiaberto. Logo a Andrew de todas as pessoas, também não acreditava em mim? Aquilo foi definitivamente real. O que eu faço agora? Ele era tudo pra mim, meus amigos são tudo pra mim, mas, agora que eu preciso, eles ficam contra mim? Pessoas ao redor falam com ela, mas eu não não consigo ouvir, minha cabeça gira com possibilidades do que dizer a ela. Não havia o que duvidar, por que eu mentiria sobre algo assim? Quando eu gosto tanto dele. Eu gosto tanto dele e ainda assim, só de pensar em seu rosto tenho vontade de vomitar:
— Eric. — Andrew me segura. — Por que você tá fazendo isso?
— Isso o quê???
— Por que você tá mentindo?
Meu corpo todo reage e em um espasmo eu empurro ela:
— VAI SE FUDER! FILHA DA PUTA!!!
Um bando de gente vai para cima de nós, nos segurar e uma enorme comoção se forma. Eu me solto dos braços que me agarram e saio correndo, desesperadamente procurando qualquer forma de apoio, não consigo ver nada com o molhado dos meus olhos e minha cabeça ferve de raiva. Chego ao banheiro, lavo o rosto, suspiro por apenas um segundo. Vlad segura meu ombro. Me vira. Me abraça:
— Tá tudo bem. — A voz dele ressoa no fundo do meu ouvido, isolando todo o mundo ao redor. — Tá tudo bem, Eric.
As lágrimas ardem descendo pelo meu rosto, de alguma forma, ele me confortava, as palavras dele me sedavam e me faziam sentir bem. Eu me viro e vomito na pia.
A consciência volta a mim aos poucos e com isso a vergonha. Vlad agora falava com Dylan, os dois decidindo o que fazer comigo. Dylan tinha o carro, mas estava muito cedo e ele não queria ir embora:
— Você tem dinheiro, Reb? Consegue chamar um Uber?
E assim minha noite acabou, sem mais nem menos, em um piscar de olhos, eu estava no meu quarto, no porão, abraçando meu travesseiro molhado de lágrimas. Eu checava meu celular constantemente, nenhuma mensagem, nenhum pedido de desculpas ou preocupação, novamente eu estava sozinho.
Era só mais uma noite, como todas as outras, para todas aquelas pessoas, não significou mais nada além de um surto, uma inconveniência, mas para mim, foram anos, anos de amizade, planos, memórias que agora eram distorcidas, infectadas por uma dor imensurável. Como eles esperam que eu siga minha vida normalmente? Por que eles me fazem odiar quando eu me esforcei tanto para que me amassem? Novamente essa é a única coisa que eu consigo fazer. Guardar todo esse ódio dentro de mim e seguir calado, para assim não perturbar os outros com os meus problemas idiotas e sem sentido. Eu não mereço ser ouvido. Eu nunca tive a chance de ser uma pessoa normal.
