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Caindo

Summary:

Cindy tem problemas e Alê sempre está lá para ajudar, mesmo que isso signifique buscá-la pela madrugada e dirigir sem rumo

Work Text:

A chuva caía como se o céu estivesse cansado de se segurar. Grossa, constante, invadindo o asfalto e transformando as luzes da cidade em borrões instáveis. O carro avançava pela estrada quase vazia enquanto os limpadores de pára-brisa lutavam para acompanhar o ritmo incessante das gotas. Uma música baixa e lenta tocava em uma estação de rádio aleatória enquanto a chuva batia constantemente sobre o teto.

Cindy estava no banco do passageiro, vestida com um moletom preto com a logo da banda estampada na frente ‘Psikolera’ na coloração vermelha e um short preto. Surpreendentemente, usava uma maquiagem leve. A janela estava entreaberta, deixando o vento frio entrar sem pedir licença, mas ela não parecia se importar. Estendia a mão para fora, permitindo que a chuva atingisse sua pele como se aquilo fosse um desafio pessoal.

– Olha isso - disse, rindo, a voz misturada ao som da tempestade. – Parece que tudo tá desmoronando.

Alê dirigia em silêncio.

Ela mantinha os olhos fixos na estrada, mas a mente estava longe dali. Sempre estava, quando Cindy estava por perto. O volante parecia escorregar sob seus dedos suados - não pela chuva, mas pela tensão constante de tentar manter algo que nunca foi estável.

No chão do carro, garrafas vazias rolavam a cada curva. O som era irritante, mas familiar demais para ser ignorado.

– Fecha a janela - Alê disse, baixo. – Você vai ficar doente.

Cindy virou o rosto devagar, observando-o com aquele olhar provocador, quase divertido.

– Desde quando você se importa com isso?

Alê não respondeu.
Porque se importava.
E Cindy sabia.
Alê sempre se importou com tudo que diz respeito a ela.

O celular de Cindy vibrava sem parar no banco entre elas. O nome piscava na tela: Pai. Cindy empurrou o aparelho para o lado, como se isso fosse suficiente para afastar aquela presença insistente. Por alguns instantes, o sorriso desapareceu de seu rosto.

– Ele não para - murmurou. – Nunca para.

– Talvez ele só esteja preocupado - Alê arriscou, ainda olhando para frente.

Cindy soltou uma risada curta, amarga.

– Preocupado comigo… ou com a imagem perfeita que eu ‘to estragando?

O aperto no peito de Alê cresceu. Elu conhecia aquele tom. Conhecia aquela queda. Não era a primeira vez que saía para buscá-la no meio da noite. Nem a primeira vez que apenas dirigia sem rumo, ouvindo suas reclamações enquanto ela tentava fugir de si mesma.
E, a cada fuga, ele se sentia pior por ela. O coração apertava diante de cada expressão melancólica, de cada palavra dita com descuido, de cada lágrima contida.

– Você não precisa fugir assim - elu disse, por fim. – Não o tempo todo.

– Preciso sim - Cindy respondeu de imediato. – Porque quando eu paro, tudo me alcança.

Ela abriu outra garrafa e, sem cerimônia, despejou o resto do líquido no chão do carro. Alê não reclamou.

– Mais drogas, né? - Cindy disse, irônica. – É sempre isso que falam de mim.

– Não é incrível – Alê respondeu, a voz quase quebrando. – É só… triste.

Por um segundo, o deboche de Cindy vacilou. Apenas um segundo. Depois, ela sorriu - aquele sorriso perigoso, que fazia Alê esquecer tudo o que sabia ser errado.

Isso definitivamente nunca deu certo.
Ele sabia. Sempre soube.

– Mesmo assim, você fica - Cindy disse. – Sempre fica.

E era verdade.

Alê nunca se importou em acordar de madrugada. Nunca se importou em passar horas dirigindo sem destino. Nunca se importou. Às vezes, se perguntava o porquê. Mas, sempre que o coração acelerava daquele jeito, ela já sabia a resposta.

Enquanto dirigia sem rumo, Passaram pelo prédio antigo onde Cindy costumava trabalhar. Abandonado. Janelas quebradas. Uma lembrança mal resolvida cravada no meio da estrada. Cindy apontou discretamente para o lugar.

— Para aqui.

Ela disse enquanto retirava o cinto.

Alê reduziu a velocidade, o coração acelerando, talvez uma péssima idéia.

— Pra quê? - Perguntou confusa.

— Pra fechar um ciclo — respondeu ironicamente, já abrindo a porta.

Cindy entrou no prédio e não demorou a voltar, segurando uma caixa nos braços. Sorria. Não havia recibo, nem permissão. Apenas impulso.

— Isso é ilegal — Alê comentou.

Cindy deu de ombros.

— Você não liga.

Alê não respondeu.
Porque não ligava.
Não quando era por ela.

Quando Cindy voltou para o carro, estava encharcada. O cabelo grudado no rosto, maquiagem borrada, o sorriso largo demais. Caótica. Linda. Destruída de um jeito que Alê nunca soube consertar.

— Dirige — Cindy disse. — Mas antes…

Cindy se inclinou na direção de Alê, o espaço entre elas diminuiu lentamente, carregado de expectativa.

Quando tocou seu rosto, fez isso com delicadeza. Os dedos ainda frios pela chuva contrastam com a pele quente, fazendo o corpo dele reagir antes mesmo que a mente o acompanhasse. O coração de Alê disparou de imediato, pesado, quase doloroso, como se estivesse prestes a explodir. Era sempre assim...

Por um instante, Cindy apenas ficou ali, encarando o rosto delu. Os olhos percorreram o rosto de Alê com atenção silenciosa, sem deboche, sem pressa. A chuva e a música baixa preenchia o silêncio ali imposto.

Então, antes que Alê pudesse dizer qualquer coisa, Cindy a beijou.

O contato começou suave, quase hesitante, como sempre. Alê demorou a reagir, ela nunca sábia como reagir. O mundo pareceu se reduzir àquele ponto de contato, ao calor inesperado, à respiração misturada. Quando ele finalmente correspondeu, o beijo ganhou intensidade, não por urgência, mas pelo acúmulo de tudo o que nunca foi dito, sua mão segurou levemente o pescoço dela.

O gosto da bebida era evidente, misturado ao amargo de cigarro barato. Ainda assim, por baixo de tudo, estava o perfume leve de flores - familiar demais, íntimo. Aquilo fez o peito de Alê se apertar ainda mais. Ele conhecia aquele cheiro. E principalmente Conhecia demais.

O beijo durou pouco. Talvez porque nenhum dos dois soubesse até onde poderia ir se continuassem. Quando Cindy se afastou, o rosto ainda estava próximo, a respiração irregular, os lábios entreabertos. O sorriso que surgiu não era provocador; Era cansado e verdadeiro.

— Obrigada por ainda estar aqui — murmurou, com a voz baixa, quase vulnerável.

Ela se afastou devagar, a mão de Alê, que antes estava no pescoço dela, voltou para o volante, Cindy voltou para o banco do passageiro, os pés novamente apoiados no painel. O carro permaneceu imóvel, cercado pela chuva.

Alê ficou em silêncio, as mãos firmes no volante parado, o coração batendo forte demais para ser ignorado - carregando tudo aquilo que ele nunca teria coragem de dizer em voz alta, respirou fundo.
O carro seguiu em frente, atravessando a chuva, a noite, o caos.

E Alê entendia.

Amar Cindy nunca foi sobre salvá-la.
Era sobre continuar dirigindo,
mesmo enquanto ela caía e amar ela mesmo estando no fim do poço.