Work Text:
Kyungsoo não atendeu no primeiro toque. Normal: ele era uma pessoa ocupada. Não tinha porque ficar no celular em um dia comum da semana, especialmente quando poderia estar trabalhando. A última coisa que Jongin podia era ficar chateado com isso.
Ele também não atendeu no segundo toque. Novamente, era normal. Terça era o dia da reunião na empresa dele, se Jongin se lembrava bem. (Era no mínimo estranho que ele soubesse tanto do calendário da empresa da família alheia, mas, a esta altura, nem ele, nem os outros se importavam mais.)
O terceiro e quarto toques já foram mais agonizantes. Kyungsoo estava ocupado, ocupado, então. Geralmente ao ver o nome de Jongin no identificador de chamadas, ele pelo menos deixa um recado avisando que liga depois.
Ok. Tudo bem. Ao contrário do que dizem pelas suas costas e na sua frente, ele não é tão ansioso assim.
Finalmente, depois do sexto toque, sua espera chegou ao fim. Jongin já estava pensando em desistir e mandar uma mensagem de texto, quando Kyungsoo atendeu a ligação. O moreno soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo, um alívio genuíno tirando a pressão dos seus ombros.
— O- — Kyungsoo começou, mas nem teve tempo para falar alguma coisa.
— Oi, você pode ir lá em casa hoje à noite? — Curto e direto, Jongin o interrompeu.
Ele quase conseguia ver seu amigo revirando os olhos do outro lado da linha quando ele retornou a fala. — O que aconteceu com o “olá” e o “como você está”?
— Olá, Doh Kyungsoo, como você está?
— Estou bem, e você? — As vozes, carregadas de sarcasmo, poderiam ser até engraçadas se a situação não fosse desagradável.
Cansado, irritado, frustrado: diversos eram os adjetivos que Jongin poderia usar para se descrever naquele momento. Ali, naquela fila do supermercado, segurando na sua cesta de compras quatro garrafas de vinho baratas e uma tábua pré-montada de frios, o modelo preferiu ser mais simples na sua escolha de palavras: — Estou na merda, obrigado por perguntar. Você pode ir lá em casa hoje à noite?
Os segundos de silêncio que antecederam a resposta foram ensurdecedores. Jongin conseguia imaginar as engrenagens girando no cérebro de Kyungsoo, e ele quase riu disso.
— Claro. — Em tom suave, seu amigo concordou. Sem perder mais tempo, ainda acrescentou: — Aconteceu alguma coisa?
Jongin soltou um suspiro cansado, vendo a fila do caixa andar. — … Não pelo telefone. Hoje à noite, lá em casa, eu levo o vinho.
— Certo. Ok. Chego às sete, só vou passar em casa para trocar de roupa.
Todos os dias ele agradece aos céus por ter um amigo como Kyungsoo. Um bom amigo, um grande amigo. Melhor amigo, até. — Ok. Valeu.
— Até mais.
Ao desligar a ligação, os ombros de Jongin se levantaram e abaixaram em um movimento resignado. A fila andou um pouco mais, e logo ele estava no caixa, pagando pelas suas compras. Tudo vai ficar bem, Jongin pensou consigo mesmo; a esperança era a última coisa que poderia morrer naquele dia.
O apartamento de Jongin tinha 70m² e era mais decorado que uma loja de departamento. Com detalhes construídos ao longo dos anos que ele havia morado ali, os móveis planejados se misturavam aos que ele havia comprado por impulso em feiras e viagens. Cada quadro, cada planta, cada almofada – tudo havia sido escolhido pelo seu olhar minucioso.
Kyungsoo adorava aquele apartamento; muito mais que o seu, em outro canto da cidade, que ele havia herdado dos pais e nunca teve energia para torná-lo seu. Ao contrário do seu amigo, que guardava recordações em todas as estantes, o apartamento de Kyungsoo tinha no máximo porta-retratos.
Ao entrar na casa do seu melhor amigo, com a chave que ele havia ganhado há anos, a primeira coisa que ele notou foi um novo tapete na sala. Lindo, com um padrão de madeira de bétula em um fundo verde. Em cima do tapete, estava uma tábua de frios e o dono da casa, deitado e comendo pedaços de queijo gouda.
Por um segundo, Kyungsoo pensou em tirar uma foto do estado de Jongin (raramente ele via o amigo em um estado além da mais pura perfeição), mas algo lhe avisou que isso pioraria a situação. Pulando os cumprimentos, ele deixou seus sapatos no hall de entrada e prontamente foi na direção do sofá.
— Eu imagino que algo catastrófico tenha acontecido, — ele começou, pegando um cacho de uvas da tábua de frios, — mas conhecendo você, também pode ter sido apenas algo embaraçoso.
Jongin, despertando do seu estado absorto, parou antes de pegar mais um pedaço de queijo. — Ouch? E se eu tivesse acabado de ser demitido por conta de algo embaraçoso?
Improvável: Jongin era extremamente necessário no seu trabalho. Para outros, ele era apenas um modelo numa agência; para quem realmente sabia, ele era o mais competente entre os seus colegas. Sua experiência era inestimável, sua competência era invejável até por Kyungsoo (e ele trabalhava em um escritório entediante). Perdê-lo seria algo, sem exageros, catastrófico.
— Você foi demitido depois de derrubar um copo de café gelado naquela roupa da sua chefe?
— … Não.
— Pior do que isso, impossível.
Ele tinha um bom ponto, e Jongin sabia disso. Exagerado, dramático: os adjetivos para descrevê-lo eram vastos.
— Então, o que aconteceu?
Finalmente, finalmente, Jongin tirou sua atenção do queijo e olhou para cima. Os olhos cansados de Kyungsoo encontraram um olhar vazio do amigo, e ele estava pronto para ouvir algo grave.
— Hoje tive um almoço com meus pais, alguns tios e meu avô.
Péssimo sinal logo no início: a família dele era insuportável. Os Kim conseguiam ser piores que a família de Kyungsoo, e a dele até hoje o coloca nas trincheiras da empresa para limpar as bagunças que eles fazem.
— Eles ainda querem que você faça Medicina? — Kyungsoo tentou aliviar a tensão. Funcionou, um pouco: Jongin sorriu, ainda que minimamente.
— Antes fosse. — Ele pausou antes de continuar, provavelmente medindo suas próximas palavras. — Minha mãe perguntou como andava o meu relacionamento.
— O que você não tem há um ano?
— Esse mesmo.
— E o que você disse?
O silêncio foi a resposta imediata, o que nunca era um bom sinal. Deixando de lado suas uvas, Kyungsoo voltou novamente a olhar para Jongin, que estava brincando com as azeitonas da tábua de frio – outro péssimo sinal.
— Jongin. — Kyungsoo sussurrou, esperando uma resposta que fosse melhor do que ele estava pensando. — O que você disse para os seus pais?
Ao invés de responder imediatamente, Jongin fechou os olhos e respirou fundo. A tensão enrijeceu os músculos de Kyungsoo. Não podia ser uma resposta ruim. Havia apenas uma resposta ruim, e Kyungsoo tinha certeza de que Jongin não a teria dado.
Ainda de olhos fechados, a resposta veio: — … Eu disse que estava noivo.
Não havia nada que Kyungsoo poderia dizer além de: — Uau. Ok.
E eles nem haviam aberto uma garrafa de vinho ainda. Como se tivesse lido a sua mente, Jongin se levantou do chão: — Vou pegar o vinho.
— Traga as garrafas.
A regras do sofá de Jongin são as seguintes:
- Não comer no sofá;
- Não colocar os pés no sofá;
- Não deixar o namorado que eu não conheço sozinho no sofá, Chanyeol.
Com exceção da última regra, um resquício da época da faculdade, a dupla quebrou as duas primeiras em questão de minutos. Era uma ocasião especial, afinal: o noivado imaginário de Jongin merecia que duas garrafas de vinho barato e uma tábua de frio estivessem no sofá com eles.
Depois que eles se acomodaram (desconfortavelmente) no sofá, Jongin começou finalmente a se explicar. — A culpa é obviamente da minha mãe, ela está me perturbando desde o aniversário da tia Eunji. Eu falei que ia levar alguém comigo na festa de Natal da revista daqui a duas semanas, e ela não acreditou em mim, e eu disse “espere e veja!”
— Ok, ok, ok. Dizer que você vai levar alguém em um aniversário é uma coisa. Dizer que tem uma noiva é outra coisa, completamente diferente.
— Eu sei, eu sei! Mas eu entrei em pânico! Ela ficou perguntando “e quem é ela, quem é a namorada, quando você vai apresentar a namorada, e blá blá blá”! E aí eu disse “ele é muito privado”, e aí ela falou “ele?”, e eu disse “é”, e ela disse “eu não acredito em você”, e eu disse “bem, a senhora está convidada para o nosso casamento daqui a quatro meses, e lá você poderá conhecê-lo melhor”.
As palavras despejadas na confissão deixaram Kyungsoo atordoado demais para fazer qualquer comentário. Para fechar com chave de ouro, Jongin finalizou o seu discurso com:
— E aí eu me levantei e fui embora.
Encontrar algo para dizer depois disso não estava sendo fácil, ainda mais com o vinho que aos poucos estava deixando a sua mente enevoada. Kyungsoo abriu a boca algumas vezes, esperando que algo inteligente saísse, mas tudo o que ele conseguiu dizer foi: — Incrível.
— Não foi minha melhor resposta.
— Realmente, foi provavelmente a pior.
O mais fascinante era que Jongin decididamente era uma pessoa inteligente. Era uma das coisas que Kyungsoo mais admirava nele, desde a adolescência; Jongin nunca foi apenas um rosto bonito. Formado com honras em todas as etapas da sua vida, com uma carreira de sucesso, ninguém chegaria onde ele chegou sem ao menos um quarto da sua sagacidade.
Sua última decisão impulsiva havia sido pintar o cabelo de vermelho, depois de um término complicado; Kyungsoo estava lá, ajudando a pintar a parte de trás.
— Você como meu melhor amigo deveria me apoiar… — Como em todas as vezes que as coisas não saem do jeito que ele queria, Jongin fez bico. Por mais adorável que fosse, sua audácia era inacreditável.
— Eu te apoio! — Kyungsoo foi rápido em defender sua posição. — Mas fingir um noivado, Jongin? Noivado? E ainda mais para sua mãe, que é jornalista?
Jongin ainda abriu a boca para falar alguma coisa na sua defesa; ele desistiu rapidamente. Ao invés de retrucar, ele se afundou ainda mais no sofá, e tomou mais alguns goles da sua garrafa de vinho.
— Tá, e agora? — Ele perguntou, a voz diminuta e arrastada.
— E agora o quê?
— O que eu faço?
A resposta mais óbvia era “contar a verdade”. Iria ser irritante, para dizer o mínimo, desfazer um estrago já feito, mas a longo prazo era a melhor alternativa. Um pensamento engraçado passou pela mente de Kyungsoo, que o fez rir consigo mesmo: Jongin também poderia mentir novamente e dizer que terminou o noivado. Ou então…
Se ele estava na chuva, por que não ficar encharcado?
Talvez tenha sido o álcool, ou o fato do vinho ser tão ruim que estava lhe dando ideias ainda piores, mas naquele momento, Kyungsoo estava se sentindo inteligente o suficiente para dizer em voz alta:
— Arruma um noivo falso então.
Obviamente, ele se arrependeu dessas palavras assim que elas saíram das suas cordas vocais.
Jongin deixou de beber o seu vinho para olhar diretamente para ele. Primeiro, a expressão de descrença estava escancarada no seu rosto; suavemente, ela se desfez para uma expressão pensativa. Nem mesmo uma risada nervosa ou uma resposta automática de negação foi dita.
— E onde eu vou achar um noivo falso? Na Gmarket? — Jongin soava pensativo, o que era preocupante.
— Bom, não. — Kyungsoo, que não havia pensado em nada além da ideia ruim, respondeu. — Acho que na Coupang seria melhor. Mas não.
Pegando uma torrada com geleia na tábua de frios no seu colo, Jongin continuou a pensar. — Então onde eu poderia arrumar um noivo…
Mais tarde, eles estariam pensando em quão ridícula aquela discussão pseudo-filosófica estava sendo. Um noivo falso. De todas as ideias ruins que eles já tiveram, aquela com certeza era a segunda pior. No entanto, naquele momento específico, onde eles estavam quase bêbados com vinho ruim, a ideia era genial, e eles levariam essa genialidade com eles até o túmulo.
A pior ideia de todas veio logo depois:
— Você poderia ser meu noivo.
Kyungsoo congelou onde estava, sua mão ainda esticada para alcançar a tábua de frios. — Eu o quê?
— Meu noivo! Pensa comigo…
— Não sei se eu quero pensar nisso.
— Vai pensar sim! — Jongin colocou o vinho no chão e a tábua no sofá, deixando suas mãos livres para agarrar a de Kyungsoo. — Todo mundo já te conhece há anos, e sabe que você é “meu grande amigo que tem a chave da minha casa”, não seria algo… descrível? Não crível. Seria acreditável!
Kyungsoo é uma pessoa que tem orgulho do seu pensamento rápido, que lhe auxilia no trabalho diariamente e todas as outras coisas que ele coloca no seu LinkedIn. Mesmo assim, ele precisou de alguns segundos para processar o pedido do amigo. Ele? Noivo de Jongin?
A parte do seu cérebro que não gritava o quão ridícula era aquela ideia estava… Curiosa. Entreter esse pensamento era um território perigoso, sim, mas sonhar era gratuito. A proposta era simples, sua cabeça estava complicando tudo: por uma única noite de Natal, ser o querido e adorável noivo de Kim Jongin, uma categoria acima de ser o seu melhor amigo.
Era isso que amigos faziam, não era? Coisas estúpidas, juntos.
— E o que eu ganho com isso?
Kyungsoo perguntou, e viu em tempo real os olhos de Jongin ganharem um brilho inigualável – uma prévia de como aquele seria o maior desafio da sua vida.
— Primeiramente, um noivo. — Kyungsoo teve que rir. — Eu posso ir com você no jantar da sua família que você nunca quer ir!
— Tentador, mas continue.
— Segundo, você pode se gabar de ter um noivo que é modelo.
— Achei que isso já estava incluso no primeiro ponto.
— Não, isso é separado. — Jongin parou por um instante para beber mais vinho. — Hm… Eu consigo alguma peça de qualquer marca que você quiser.
— Isso é uma desculpa para você ir fazer compras. Você fez a mesma coisa com o Minseok no aniversário dele.
— E foi o melhor dia da vida dele.
— Eu tenho certeza que o melhor dia da vida dele foi o casamento dele.
— Segundo melhor dia, então.
Novamente, Jongin agarrou as mãos de Kyungsoo e o encarou, como se pudesse ver cada canto da sua alma – e talvez ele pudesse mesmo.
— Por favor. Por favorzinho.
Kyungsoo podia dizer não. Seria tão insuportável, fingir para a família dele que eles estavam noivos, responder mil e uma perguntas invasivas, e ter que fazer cara de apaixonado… Certo que talvez esse último requisito não seja muito difícil, embora ele não queira admitir para si mesmo ainda, mas era aterrorizante ser confrontado com isso.
Dizer “não” era fácil; negar um favor a Jongin era estupidamente difícil.
— Tá, ok. — Ele respondeu, no fim. — Você é tão insuportável.
— Você me adora.
Soltando a mão de Kyungsoo, Jongin o abraçou de repente. O gesto foi desajeitado, já que a tábua de frios continuava no colo, mas ainda tirou todo o seu ar.
— E vai ser rápido, é só uma noite. Prometo que não vão te encher o saco. Quando você quiser ir embora, inventamos alguma desculpa.
Seria a noite mais longa da sua vida, disso ele tinha certeza. Mas para ver Jongin sorrindo, Kyungsoo faria qualquer coisa – até mesmo destruir sua sanidade.
Uma semana se passou desde a proposta inusitada. Depois de se certificar que o plano ainda estava de pé, Jongin havia gastado – ou, como ele preferia dizer: investido – os últimos dias planejando todas as ações da dupla durante o jantar, para que nada saísse do controle deles.
Por horas, eles revisaram possíveis perguntas, decoraram datas e eventos chaves na “vida do casal”, e até mesmo decidiram a data do casamento: primeiro de abril. Com sorte, a data curiosa não seria dita em voz alta, quatro meses sendo uma resposta aceitável, mas eles não conseguiram pensar em um dia mais simbólico para aquela situação.
Enquanto Jongin esperava por Kyungsoo na praça de alimentação de um shopping próximo ao trabalho dele, ele repassou os planos do dia. Comprar o anel do noivado era a prioridade, mas ele também queria comprar algo a mais para o amigo, como mais uma forma de agradecê-lo pela companhia no plano. Existia a possibilidade de Kyungsoo negar o presente, mas ele iria insistir mesmo assim.
Como mágica, o dito cujo surgiu subindo a escada rolante, poucos metros à sua frente. Com seu terno de três peças e cara levemente emburrada, iluminado pela decoração de Natal do shopping, Kyungsoo parecia o protagonista de um drama que precisava aprender o verdadeiro sentido da data festiva.
Jongin não conseguia imaginar uma outra palavra para descrevê-lo além de formoso. Lindo era simples demais, elegante era muito impessoal. Formoso era um meio termo perfeito, e combinava com ele.
Ah, ele pensou, isso vai ser difícil. Jongin precisaria da força de mil homens para se lembrar que o plano de um noivado falso era apenas isso: falso. Duraria um dia, no máximo dois, e depois eles iriam rir do fato como se nada tivesse acontecido. Mais alguns dias e ele voltaria a ser apenas o amigo de Kyungsoo.
— Você está tão chique, eu devia ter me vestido melhor. — Jongin disse, quando Kyungsoo finalmente chegou na mesa onde ele estava.
— Acredite em mim, de algum jeito, você conseguiu estar melhor que eu. — Ele teve que rir. Em que mundo uma camisa simples da Burberry era mais elegante que um terno? — Podemos almoçar primeiro? Eu preciso parar de pensar em números por alguns minutos.
E assim o fizeram: vinte minutos depois, ao invés de um almoço completo, optaram por fast food. Cada um com seu hambúrguer, iria ser o suficiente para aguentar o resto do dia dando voltas em joalherias. (Sem álcool desta vez, para evitar ideias piores que as últimas.)
Conversaram sobre uma miríade de assuntos, evitando sempre o elefante na sala. Falaram sobre a última campanha de Jongin – Ralph Lauren, para uma revista de moda que ele adorava, – sobre o trabalho de Kyungsoo – e os gastos infinitos que ele tinha que controlar na empresa da família, – sobre seus amigos e todo um mais.
Quando terminaram de almoçar, e antes do usual debate sobre sobremesas, chegou a temida hora: falar sobre o que eles deveriam fazer.
Kyungsoo foi o primeiro a tocar no assunto: — Qual o plano? Uma aliança simples?
— Só para as aparências. — Jongin afirmou, balançando a cabeça. — Eu já avisei que nós não usamos anéis normalmente, mas “vamos fazer essa exceção” na festa.
Uma risada incrédula saiu do seu amigo. — Achei que você seria mais sentimental com essa escolha.
Como em muitas das vezes que eles conversavam sobre algum assunto, Kyungsoo estava certo a respeito disso também. O sonho de Jongin, que até então não havia sido realizado, era propor alguém em casamento usando o mesmo anel que seu pai havia usado para propor para sua mãe.
— Um dia vou ser. — Ele disse, imaginando esse dia. — Mas por enquanto… Prata?
— Prata.
Poucas coisas no planeta estressam Kyungsoo da maneira que ele estava estressado naquele dia. Primeiro foram seus primos, exagerando nos gastos de fim de ano e colocando tudo na conta da empresa. Ele teria que fazer mais uma reclamação no conselho sobre isso antes do recesso e antes do jantar na casa dos avós.
Depois, e talvez ainda mais estressante, veio a escolha da sua roupa para a festa de Natal. Kyungsoo não era uma pessoa de se importar tanto com o que ele vestia, mas Jongin era; e se ele era o suposto noivo de Jongin, então ele teria que se vestir com estilo. Um pesadelo, em todos os sentidos, mas ele teria que fazer esse sacrifício, em nome do amor. E da amizade; em primeiro lugar, era a amizade, claro.
Portanto, para lhe auxiliar nessa missão, ele recrutou a… sexta pessoa mais estilosa que ele conhecia. Na defesa de Junmyeon, o estilo dele era diferente dos seus amigos, algo entre prático e alternativo o suficiente para chamar a atenção de outros.
Eles se encontraram em Hongdae no fim da tarde, e para a surpresa de Kyungsoo, não era apenas Junmyeon que estava o esperando por lá.
— Olha só, o noivinho… — Ele deveria estar grato por Baekhyun estar lá também; segundo o seu ranking, ele era o segundo mais bem vestido. — Espero que eu seja o escolhido para ser o seu padrinho.
— Eu vou te barrar na porta.
— Isso é tão divertido, estou feliz por estar aqui. — Um misto de ironia e entusiasmo estava na voz de Junmyeon. — O que você precisa? Um terno?
— Poderia ser uma jaqueta de couro. — Seria a tarde mais longa do mês.
— Baekhyun, por que você está aqui mesmo?
— Eu estava muito entediado, e eu não quero que o Jongin passe vergonha com você aparecendo com um terno brega na festa. — Justo. Tolerar as suas opiniões seria uma tortura, mas valeria a pena a longo prazo. Baekhyun começou a andar na direção de uma galeria, e os outros dois apenas o seguiram. — Por isso, eu digo: jaqueta.
— Que tipo de jaqueta? — Kyungsoo perguntou, e logo acrescentou: — Que não seja de couro.
— Estraga-prazer.
— Que tal um sobretudo? — A pessoa mais sensata do trio sugeriu, apontando para uma das vitrines. O próprio Junmyeon estava usando um sobretudo bege, embora a blusa de baixo fosse uma camiseta de banda. — Você já tem mil camisas sociais, poderia colocar um colete ao invés disso.
— Mil vezes melhor que uma camisa social, realmente. — Baekhyun deu uma olhada em volta e apontou para uma vitrine específica. — Então sobretudo, colete e uma blusa de gola alta? Calça pode ser um jeans escuro, tanto faz, você é baixo, ninguém liga.
Kyungsoo suspirou. Para o seu desespero, ele não teria pensado nessa roupa sozinho; a ajuda deles era necessária. Depois de decidido o que seria comprado, as compras foram até rápidas. Ele até levou um bracelete, dourado e delicado, para ser um presente para a sua (suposta) sogra. Um trabalho a menos concluído com sucesso e comemorado com um lanche de rua.
O bate-papo entre o trio fluiu como sempre fluiu: mais fofoca do que conversa de verdade. Depois de meia hora, Kyungsoo estava sabendo mais sobre a vida alheia do que antes da saída. A conversa foi diminuindo até que chegasse ao fim, com Baekhyun anunciando a sua saída.
— Agora eu vou indo, — ele começou, — porque eu tenho que comprar um presente para o meu marido de verdade.
— Obrigado, eu ainda te odeio. — Kyungsoo revirou os olhos, mas o deu um abraço de despedida mesmo assim.
O loiro deu meia volta e voltou para as lojas. Quando ele não estava mais à vista, Kyungsoo suspirou. O modo como Junmyeon o encarava fixamente indicava que o confronto, adiado por algumas horas, era agora inevitável, e ele não tinha como fugir.
Com uma voz calma, o mais velho começou: — Agora que estamos sozinhos e você já fez as suas compras, nós precisamos conversar.
— … Sobre o quê? — Se fingir de inocente não seria um escape útil para ele, mas a tentativa foi válida.
Junmyeon suspirou, e voltou-se para as lojas de onde haviam acabado de ir embora. — Vem comigo, eu tenho que comprar um presente também.
A infalível tática de desarmar suas defesas com um assunto para atacá-lo com outro logo em seguida, Kyungsoo era familiarizado com esse truque. Todos os caminhos dessa conversa levariam para uma derrota da sua parte. Talvez ele pudesse enrolar o suficiente para que a discussão não se estendesse? Era um sonho possível, mas ainda assim um sonho.
Eles passaram por algumas vitrines de roupas e acessórios, até que Junmyeon decidiu por uma loja de equipamentos esportivos. Ele comentou, enquanto passava pelas araras de roupas, que Yixing estava precisando de um novo casaco para esquiar, e isso seria um ótimo presente para o seu marido. Era admirável a dedicação que eles tinham um para com o outro.
A parte irracional do seu cérebro imaginou-o fazendo a mesma coisa por Jongin, mas ele fez o possível para expulsar esse pensamento do seu cérebro.
Na fila para o pagamento, Junmyeon novamente pediu a sua atenção. — E então? Você vai dizer os seus motivos ou eu vou ter que arrancar de você?
— Não sei do que você está falando…
— Certo.
A paciência de um santo, era como ele era frequentemente associado com. Junmyeon olhou no fundo dos seus olhos, e em voz baixa para que só ele pudesse escutar, falou de uma só vez:
— Você está noivo do seu amigo de infância, o mesmo amigo que você já quase beijou mil vezes, mas o noivado é falso e só vai durar uma noite na frente da família dele. E a ideia foi sua.
E com isso, foi pagar o casaco.
— Não foi minha melhor ideia, mas ele também tem culpa. — Kyungsoo tentou se defender, mas Junmyeon apenas riu.
— Claro que ele tem, ele também é estupidamente caidinho por você!
Quando colocado sob essa perspectiva, Kyungsoo – e por proxy, Jongin também – realmente parecia ser a pessoa mais estúpida do mundo. A essa altura, talvez eles fossem mesmo, dançando a mesma dança há anos e sem perspectiva de melhoras. Ele queria, e como ele queria, que fosse mais simples. Que um dia ele tivesse a coragem de admitir esses sentimentos de uma vez por todas, sem o medo de perder sua grande amizade.
— E eu tenho uma outra pergunta. — O mais velho olhou para ele mais uma vez, dessa vez com um olhar mais gentil. — Você acha mesmo que isso é uma boa ideia? Continuar prolongando esse sofrimento todo que não está dando em nada de bom pra cabeça de vocês?
A pior parte era que Kyungsoo não tinha mais certeza; nem disso, nem de nada mais.
Depois do que parecia ter sido a semana mais longa de suas vidas, o dia do Jantar de Natal da Revista Aurea havia finalmente chegado. A grande noite onde Jongin iria apresentar o seu noivo para amigos e familiares, apenas para anunciar o triste término do casal duas semanas depois. Não tinha como o plano falhar: a concepção já havia sido torta, o que viesse naquela noite seria puro lucro.
Antes de sair do seu carro, ele se checou no espelho pela milésima vez. Ele se vestiu como sempre gostava quando se tratava de eventos do tipo; um blazer e um colete de lã lhe serviam bem e arrancava elogios. Como costumam dizer, a sua melhor vestimenta é o seu sorriso arrebatador, então Jongin iria apostar nisso para causar uma boa impressão. Ele tinha que ser um noivo mais do que perfeito para Kyungsoo, essa era a sua maior motivação.
Cabelo no lugar, blazer alinhado, ele saiu da Mercedes e foi para a portaria do apartamento de Kyungsoo. Eles combinaram de se encontrar lá antes da festa, por vários motivos. O mais importante: se eles fossem vistos por alguém, seria um bom álibi que eles estavam indo juntos para o evento. Menos importante, pelo menos para Jongin, era para certificar que a roupa que Kyungsoo havia escolhido não era demais ou de menos.
Jongin passou pela portaria com a cópia da chave que ele havia recebido dois dias depois da compra do imóvel, e subiu para o apartamento. No elevador, ele notou algo: por algum motivo, suas mãos estavam suadas. Ao mesmo tempo que isso o surpreendeu, também o assustou. Não havia motivo para ele estar nervoso. Amigos saem juntos o tempo todo, ele disse a si mesmo, em mais uma tentativa de se convencer que isso – essa estúpida e ridícula ideia – era normal.
Ele secou as mãos no blazer, e ao chegar na porta de Kyungsoo, tocou a campainha duas vezes. O dono do apartamento gritou “pode entrar!” de dentro, e assim Jongin o fez. Para não precisar tirar o sapato, ele ficou no hall de entrada, e a voz de Kyungsoo continuou a ecoar pela casa.
— Estou quase pronto, eu perdi uma coisa! — Ele soava nervoso, o que não era bom. Para o plano funcionar e eles poderem mentir melhor, eles precisavam estar tranquilos.
— Geralmente sou eu que perco as coisas… — Jongin comentou, e foi um alívio ouvir a risada do seu amigo no quarto.
— Achei! Ok, estou pronto.
Sendo honesto, Jongin esperava que Kyungsoo estivesse usando um terno normal. Claro, ele sempre ficava bem de roupa formal, mas era raro vê-lo fora da sua zona de conforto sem o seu incentivo, indicando outras combinações de roupa. Então, dizer que ele perdeu o fôlego ao ver o seu falso noivo com a melhor roupa que ele já o viu usar não era nem um pouco um exagero.
O impacto visual foi imediato e surpreendente, a ponto de lhe roubar a capacidade de formar pensamentos além de uau. A roupa escolhida por Kyungsoo, um sobretudo claro de corte impecável, pareado com uma blusa preta de cola alta e uma calça escura, realçava a sua silhueta, sempre escondida por camadas de formalidade indesejada. Ele não estava apenas “bonito”, Kyungsoo havia se tornado o protagonista nos seus olhos.
O mundo de Jongin parou naquele hall de entrada. Ele não sabia, não entendia, o que havia mudado, de uma hora para outra. Kyungsoo era o seu amigo, e ele não era cego: ele sempre foi bonito. Mas agora ele estava no meio da pior situação que ele poderia pedir: a vontade irresistível de beijá-lo ali mesmo.
— Está bom? — Kyungsoo teve a audácia de perguntar, com um sorriso tímido.
Jongin apenas balançou a cabeça, não querendo confiar na sua voz naquele momento para dizer algo além de uma afirmação. — Vamos?
Qualquer plano que ele tinha para aquela noite tinham sido jogados pela janela. Do apartamento para o carro, do carro para o evento, tudo o que Jongin conseguia pensar era em como não arruinar décadas de amizade por conta de impulsos juvenis. O que ele tinha com Kyungsoo era especial demais; o medo que ele tinha de estragar sua relação era ainda maior.
Outro dia; em outro dia eles teriam essa conversa. Quando eles chegaram na sede da revista, Jongin se forçou a esquecer esse assunto e focar no plano.
— Ah, antes que eu me esqueça… — Ele lembrou, antes que saíssem do carro. Do seu bolso, ele tirou uma pequena caixinha de veludo: as alianças. E, porque ele se odeia de uma maneira depressiva, Jongin perguntou a Kyungsoo — Você aceita minha mão em casamento, senhor Doh?
Por alguns instantes, Kyungsoo não riu. Seu sorriso, congelado no rosto, não alcançava o seus olhos – diferente de menos de cinco minutos antes, quando eles riram de uma piada.
Ele deu a sua resposta esperada em um sussurro. — Aceito.
Para uma festa com o título “Jantar de Natal”, o evento da revista tinha mais Natal que Jantar. Kyungsoo não queria reclamar, visto que ele estava ali para ser um acompanhante e beber champanhe caro de graça, mas para uma revista que falava tanto sobre jantares de gala, a parte da comida estava deixando a desejar.
Esse era um comentário que ele queria fazer para Jongin, mas o seu amigo estava uma pilha de nervos. A última vez que ele havia o visto desta maneira tinha sido alguns dias antes da sua formatura na faculdade, quando Jongin decidiu contar aos pais que seguiria na carreira de modelo que até então era apenas um hobby. E agora, ele estava fazendo algo muito parecido: introduzir o seu “noivo” para a mãe.
Kyungsoo tinha que fazer alguma coisa, e depressa. Se ele estivesse nervoso demais, o plano poderia falhar.
— Hey. — Ele chamou a atenção de Jongin, apertando levemente a mão que ele segurava. — Vai dar certo, relaxe. Se convencemos sua mãe, convencemos qualquer um.
Jongin balançou a cabeça, e respirou fundo. Determinados, eles se encararam novamente. Ia dar certo, tinha que dar certo. Eles eram um casal, eles iriam se casar, eles iriam convencer a todos naquela festa que eles eram o casal mais apaixonado de Seul, e Kyungsoo não iria ter um ataque de nervos ao pensar nisso por mais de cinco segundos.
A dupla encontrou a senhora Park Soojin em uma das mesas reservadas para funcionários. Eles esperaram até que as outras pessoas que estavam com ela se afastassem (“meus tios, dois fofoqueiros”) para começarem a se aproximar, como se fosse algo totalmente impensável e definitivamente não planejado. As mãos de Jongin ainda suavam, e as de Kyungsoo não paravam de tremer, mas era agora ou nunca.
— Com licença… — A voz de Jongin estava firme o suficiente. — Oi, mãe!
Ainda na mesa, a jornalista Park os olhou com curiosidade. Seu champanhe foi esquecido por hora, e, com um sorriso ainda neutro, ela apontou para as cadeiras vazias à sua frente.
— Estou feliz que vocês vieram. — Ela disse, olhando-os de cima para baixo. Kyungsoo se sentiu sendo analisado por uma máquina de raio-x. — Ouvi falar muito sobre você.
— Coisas boas, eu espero.
Todos os três sorriram – todos falsos e vazios. Por baixo da mesa, sua mão ainda tremia, mas Jongin segurou-a com mais firmeza. Kyungsoo o observou; a certeza no seu olhar era contagiante. Ele fez o possível para esvaziar-se do seu nervosismo antes de começar a conversa mais importante da noite.
— E então, como se conheceram?
Era a hora de colocar em prática o que eles treinaram por duas semanas.
Jongin começou: — Na escola, mas nos reencontramos há dois anos?
Kyungsoo balançou a cabeça, como se estivesse tomado por nostalgia. — Sim, na festa da Seungwan. Ela foi nossa cupido, se pararmos pra pensar.
De certa forma, era uma meia mentira. Eles haviam se conhecido em uma festa da escola, e Seungwan, na época com sete anos, havia derrubado suco no casaco de Kyungsoo, mais velho por um ano. Jongin, que era da sala dela, foi ajudá-lo, e a amizade começou naquela triste tarde de quinta-feira. Mas nunca houve um “reencontro” formal: eles se viram praticamente todos os dias na época da faculdade.
Sua mãe balançou a cabeça, e bebericou na sua taça de champanhe. Uma pergunta respondida, outras a caminho.
— E quando foi o… Grande pedido? — Foi a sua segunda pergunta, eles haviam demorado para decidir uma resposta boa o suficiente.
— Mês passado. — Kyungsoo respondeu por eles. — Nós fomos a um restaurante que ele adora, e eu pedi para o garçom colocar o anel na nossa taça de vinho.
— E eu quase engasguei! — Um improviso de Jongin para colocá-lo de volta na conversa, mas que não pegou Kyungsoo desprevenido. Ele apenas riu e completou:
— Você sempre foi distraído.
— E continua sendo.
O olhar que eles trocaram passava cumplicidade, ou só menos esse era o resultado esperado. Eles eram amigos a tanto tempo, “noivos” há duas semanas, se não conseguiam transmitir leveza com uma interação tão simples, era melhor que desistissem – e eles não iriam fazer isso.
A conversa se estendeu por mais alguns assuntos diversos, mas todos com o mesmo foco: o relacionamento dos dois. Sobre a compra do anel, sobre a reação dos amigos, sobre os planos de morarem juntos… Jongin até a interrompeu por um instante, brincando que a conversa estava parecendo uma entrevista; ela não riu da piada.
Em um certo momento, Soojin voltou a falar do casamento: — Então, em quatro meses, o grande dia. — O casal feliz acenou positivamente. — Só estou surpresa que você conseguiu esconder isso por tanto tempo de nós.
— Ele pediu, e ele é quem manda. — Foi a resposta automática de Jongin, mais uma da lista preparada com antecedência. Para acrescentar, Kyungsoo disse:
— Só queria dizer, em minha defesa, que eu queria contar para toda a família logo, a minha também está nervosa com essa notícia. — Mentira atrás de mentira; ele estava ficando mal acostumado com aquilo. — Mas com os nossos trabalhos, era difícil manter nossa relação privada como gostaríamos.
Fugindo do script, ele colocou a mão que segurava a de Jongin, a mesma que mostrava o anel prateado, em cima da mesa. Não seria adorável, que tudo aquilo não fosse da boca para fora e que realmente ele estivesse se apresentando para a sua sogra? Deixando-se levar pela sua imaginação, ele sorriu de forma genuína.
— Mas finalmente estamos aqui.
Quando ele olhou para Jongin, havia um brilho diferente em seus olhos. — Finalmente. — Ele concordou.
Por um instante, eles mantiveram o olhar fixo um no outro – uma encenação perfeita de um casal muito feliz. Era como se fossem os únicos na festa, compartilhando um sorriso e contemplando seu relacionamento, que com certeza era real. A ilusão, tão doce, tão satisfatória, já estava começando a apertar o coração de Kyungsoo, a ansiedade da despedida o corroendo por dentro.
Vindo ao seu resgate, antes que seus pensamentos o traísse, Jongin foi o primeiro a quebrar o transe em que estavam.
Levantando-se, o mais novo cumprimentou sua mãe mais uma vez. — Certo, eu acho que eu vi o Jongdae ali atrás, nós vamos falar com ele.
Seguindo a deixa do seu noivo, Kyungsoo também se levantou. — Nós nos veremos mais tarde, senhora Park?
— Sim, com certeza.
Eles saíram apressadamente da mesa e atravessaram o salão de festas em instantes. Só então, quase ao mesmo tempo, a tensão finalmente se quebrou: uma onda de alívio os invadiu, seguida por uma risada suave. Estavam quase livres.
— A mais importante já foi. — Jongin disse, quando o riso cessou.
— Certo.
— E acho que foi convincente. — Kyungsoo duvidava dessa parte; ele havia se sentindo mais analisado pela mãe de Jongin do que em toda a sua carreira. — Você pode fingir que está com dor de cabeça e ir pra casa.
— Não, não, podemos ficar mais um pouco.
Um garçom passou por eles, e ambos pegaram uma das taças de champanhe. Bom e caro, da maneira que era esperada de uma revista tão sofisticada. Olhando de relance para Jongin, era fácil entender porque ele se encaixava tão bem nos ambientes mais luxuosos por onde eles andavam. A revista Aurea era a joia preciosa da família Kim, e como um dos herdeiros, ele era a personificação perfeita da mesma.
Quem quer que fosse realmente se casar com ele, teria muita sorte.
Conforme as horas se passavam, eles cumprimentavam mais alguns parentes e conhecidos. Jongin teve razão ao comentar durante suas reuniões que seus tios eram insuportáveis. Era muito provável que no final da noite, ele tivesse cãibras nas bochechas de tanto sorriso falso que ele teve que oferecer.
Em um dado momento, uma de suas tias – ele nem se lembrava mais o nome dela – começou a falar incessantemente sobre o marido. Ela se queixava de que os pensamentos dele eram infiéis, que ele sempre se esquecia de datas importantes e, o mais chocante, que ele já nem a beijava mais.
— Isso é horrível, tia Eunji. — Jongin assentiu, e Kyungsoo concordou, com simpatia (apesar de ter se desligado da conversa um minuto antes).
— Mas chega de falar dessa coisa triste! Vocês dois formam um casal tão bonito! Com certeza vocês não têm problemas tão insignificantes quanto os meus.
— Ah, eu queria. Ele fica me enchendo o saco por causa das minhas roupas! — Kyungsoo teve a perspicácia de tomar a iniciativa. — Nem todos nós podemos ser modelos bonitos.
— Ah, você acha que eu sou bonito, querido?
Perigo. Um perigo à sua frente. Dezenas de sirenes começaram a ecoar na sua cabeça. Dependendo do que ele viesse a falar, um pequeno escorrego poderia resultar no plano indo por água abaixo. Certo: ele havia passado a noite inteira mentindo, contar uma verdade não iria doer.
— Acho, sim. — E para selar a mensagem que ele queria passar (noivos, noivos apaixonados, noivos apaixonados que iriam se casar em quatro meses), Kyungsoo beijou a sua bochecha.
O que ele viu diante de si foi um homem de boca aberta com o rosto mais vermelho que um tomate. Por um momento, teve certeza de que finalmente conseguira depois de tantos anos: ele havia quebrado Jongin. Mas tão rápido quanto a surpresa veio, ela se foi, deixando para trás apenas um homem sorridente e levemente envergonhado.
Assim que recuperou a compostura, ou pelo menos metade dela, Jongin disse: — Tia, vou roubar meu noivo por um segundo, se não se importar?
Era loucura. Foi a pior ideia que já tiveram em seus trinta e poucos anos de vida. O que Jongin estava pensando? Que poderia ir para casa e que aquele dia seria apenas uma piada entre eles mais tarde? Ah, sim, certamente isso era algo que eles poderiam fazer sem que ele enlouquecesse ainda mais.
Ele guiou gentilmente seu querido noivo pelo salão de baile, até a escada de emergência. Quando fechou a porta, o barulho da conversa e da música diminuiu, dando lugar a um silêncio ensurdecedor. Depois de tanto tempo, eles finalmente estavam sozinhos: ele, Kyungsoo e seja lá o que estivesse acontecendo entre eles.
A parte sensata dele queria iniciar uma conversa razoável. Jongin sabia que eles eram dois homens adultos, capazes de ter um diálogo calmo, onde eles poderiam expor suas preocupações de uma maneira estruturada. Ao mesmo tempo, eles precisavam encontrar também um ponto em comum para que aquilo não se tornasse um caos emocional completo...
Kyungsoo interrompeu os seus pensamentos antes que ele terminasse de os formular: — O que estamos fazendo, Jongin?
— Eu não sei.
Seu falso noivo suspirou. — Mas precisamos saber.
O que ele queria ouvir? A verdade? Jongin brincava com a aliança de prata em seu dedo enquanto ponderava sobre a ideia. A imagem dos olhos firmes e despretensiosos de Kyungsoo, sempre tão honestos e diretos, o assombrava. Olhar para eles e mentir seria uma coisa, feia, mas segura. Dizer a verdade…
Isso exporia anos de sentimentos ocultos, das muitas vezes em que ele considerou colocar essa linda amizade de lado por uma mera chance de segurar a mão de Kyungsoo movido por – e não havia outra maneira de dizer isso – amor.
Mas quando seria a hora certa? Quando seria a data hipotética em sua mente em que todas as estrelas se alinhariam para que ele fosse honesto consigo mesmo e com seu amigo? Quando Kyungsoo escaparia por entre seus dedos e seguiria com sua vida, casado, desta vez de verdade, com outra pessoa?
O pensamento disso fez um arrepio percorrer a espinha de Jongin; ele não podia deixar isso acontecer, não com eles. Não quando Kyungsoo estava ali, ao seu lado, esperando por uma resposta. Antes que a coragem o abandonasse por completo, Jongin virou-se para ele e começou a aliviar o peso que sentia no coração.
— Você é o meu melhor amigo, Soo. Quando eu te conheci, eu não imaginava que iria acabar tendo uma pessoa tão inteligente e fantástica do meu lado por todos esses anos. Tudo em mim anseia te ter por perto.
Kyungsoo estava imóvel, seus olhos quase saltando do rosto. Ele abriu a boca para dizer algo, mas Jongin o interrompeu antes para continuar o seu raciocínio.
— Só um momento. Eu passei todos esses anos tentando me convencer que o que nós tínhamos – temos – é só amizade, mesmo que todo mundo que nos conheça diga ao contrário, porque eu tenho tanto medo de perder você por conta de alguma coisa que eu diga.
“Eu não quis alimentar em mim nenhuma esperança, porque se você não sentisse nada por mim como eu sinto por você, eu acho que eu não iria aguentar o impacto.”
Ao final do seu discurso, Kyungsoo havia abandonado completamente tudo o que pretendia dizer. Estava quieto – talvez quieto até demais. Se Jongin observasse com atenção, quase conseguiria ver as engrenagens girando rapidamente na mente de Kyungsoo.
— E o que você sente?
Ele precisava ouvir alguma coisa, qualquer coisa, vinda dele. Jongin precisava ouvir Kyungsoo gritando com ele, chamando-o de estúpido, ou simplesmente o deixando para trás com seu coração vulnerável… Kyungsoo continuou em silêncio, olhando-o com aqueles olhos brilhantes. Em vez disso, puxou Jongin pelo pescoço e o beijou.
Seus lábios se encontraram em um beijo que era simultaneamente uma confissão e pedido de desculpas. Não era um beijo contido: havia um certo desespero na maneira que eles se moveram, com medo de que aquele momento evaporasse a qualquer instante. A festa, o noivado, as famílias – tudo sumiu, o mundo resumido para apenas eles e o beijo.
Eles quebraram o beijo para recuperar o fôlego. À medida que os segundos se passavam, com eles em silêncio, apenas segurando um ao outro, a compreensão do que havia ocorrido gradualmente os atingia.
— Isso responde? Finalmente, eu achei que eu iria explodir a qualquer momento. — Kyungsoo, estupidamente sorridente, conseguiu arrancar uma risada de um Jongin que ainda estava tenso. — E o que você sente?
Jongin olhou para Kyungsoo; para suas bochechas vermelhas e cabelo desalinhado. Incrédulo era uma boa palavra para descrever o que ele sentia. Quem diria que as pessoas que diziam que seu problema era muito simples estavam certas. Para se certificar que não era um sonho, ele puxou Kyungsoo – seu melhor amigo, seu falso noivo, seu algo a mais – para mais perto.
— Não sei se consigo colocar isso em palavras ainda.
O que ele conseguia fazer era sorrir enquanto o beijava, ainda cético de que isso estava acontecendo. Cada toque dos seus lábios era suave, porém carregado de uma intensidade que o fazia esquecer do plano idiota (brilhante! Plano genial!) que o levou até ali. Segurando-o pela cintura, ele conseguia sentir o calor de Kyungsoo, seus lábios secos, e a doce sensação de estar com ele.
Não era um sonho, o mundo não havia acabado, a mão dele ainda estava na sua nuca traçando círculos. O quão sortudo ele era de estar apaixonado pelo seu melhor amigo – e de ser amado de volta.
