Chapter Text
Jéssica desceu do táxi aos tropeços, o pé enroscado na alça de uma das bolsas que tentava equilibrar ao mesmo tempo. Soltou um palavrão abafado, tentando ajeitar a alça no ombro sem deixar cair as outras duas sacolas que já segurava. A mochila com o notebook pesava nas costas, e ela se sentia como uma tartaruga desastrada tentando atravessar a rua.
O motorista, um senhor de cabelos brancos e olhar distante, tirou a mala do porta-malas com uma lentidão quase filosófica. Nem sequer piscou ao notar que a mala estava coberta de estampas com o rosto dela — o mesmo sorriso forçado que aparecia nas orelhas de seus livros autopublicados. Jéssica não sabia se ele era apenas um homem de poucas palavras ou alguém que já vira maluquices demais na vida para se surpreender com uma mala narcísica.
Não que ela estivesse reclamando.
Depois de horas dentro de um ônibus lotado, ouvindo uma sinfonia de roncos, choros e o inconfundível som de um celular sem fone tocando funk, o silêncio da última hora de viagem foi um presente divino.
O motorista colocou a mala ao lado dela na calçada, desejou uma boa tarde e entrou no carro sem esperar resposta. Jéssica observou o veículo desaparecer na curva, o motor ecoando pela rua quase deserta, antes de finalmente voltar o olhar para a casa.
A fachada azul e branca parecia saída de uma fotografia antiga. As janelas de veneziana estavam abertas, deixando o vento do litoral brincar com as cortinas finas. O jardim era pontuado por palmeiras altas, que ela lembrava de ver sempre que vinha visitar os avós quando criança. Elas balançavam lentamente sob o sol, e Jéssica imaginou por um segundo que acenavam para ela — ou zombavam de seu equilíbrio precário com as malas.
— Ok, guerreira, é só até a porta. — zombou e riu baixinho.
Puxou a mala, tropeçou de leve no degrau, mas se recusou a fazer duas viagens. Estava determinada a carregar tudo de uma vez, nem que seus braços implorassem por misericórdia.
Quando finalmente alcançou a varanda, as alças escorregaram dos ombros e caíram no chão com um thump sonoro. Jéssica respirou fundo, suada e descabelada, antes de começar a procurar as chaves.
A mãe havia dito que o avô deixaria a chave com a vizinha, que por sua vez a colocaria debaixo do tapete da porta. Jéssica só esperava que a mulher tivesse boa memória, porque a ideia de ter que bater de casa em casa depois daquela viagem era insuportável.
Ela chutou o tapete para o lado, sem olhar, e, num reflexo, fez uma breve prece silenciosa.
Senhora, que rege a Lua e o mar, que eu não tenha vindo até aqui pra nada.
Era um costume que aprendera com a avó, embora nunca tivesse seguido o caminho wiccano com a mesma devoção. Ainda assim, nas horas de desespero, um pedido à Deusa parecia inofensivo.
Abaixou-se, viu o pequeno molho de chaves cintilando à luz do entardecer e suspirou de alívio.
— Obrigada, Deusa — e, por via das dúvidas, — e obrigada, dona vizinha.
Gemendo como se tivesse o dobro da idade, abaixou-se para pegá-las. Outro gemido, mais dramático, a acompanhou ao se levantar.
— Nem trinta anos e já rangendo por todos os lados. Parabéns, Jess, o auge da decadência.
Ela girou a chave na fechadura e empurrou a porta. Assim que o ar da casa escapou para fora, uma onda de lembranças a envolveu.
O cheiro era exatamente o mesmo de sua infância — madeira encerada, maresia e o perfume floral da avó. Um aroma doce e acolhedor, que parecia ter ficado impregnado nas paredes. Por um instante, Jéssica sentiu-se de novo com oito anos, correndo pelos corredores atrás dos gatos, enquanto o riso da avó ecoava da cozinha.
Mas a nostalgia durou pouco. Um miado interrompeu o devaneio. Depois outro. E mais outro.
De todos os cantos da casa, começaram a surgir gatos — pretos, brancos, malhados, de olhos dourados e verdes, como uma pequena procissão felina em sua direção.
— Meu Deus… — Jéssica riu, abaixando-se no meio da sala. — Vocês são um exército agora?
Os bichanos a cercaram como velhos conhecidos, alguns se esfregando em suas pernas, outros mantendo distância desconfiada. Ela passou a mão em um por um, tentando lembrar os nomes que a avó usava e procurando nas coleiras pelas plaquetas com os nomes dos moradores novos.
— Vamos ver se ainda lembro... você é o Ravioli, né? — disse, coçando o queixo de um gato cinza gorducho que ronronou em aprovação. — E você deve ser a Moqueca. — apontou para uma fêmea tigrada que a olhava com superioridade. — Lasanha… Poutine… Risoto… — o último se deitou sobre os pés dela. — Claro, você sempre foi preguiçoso.
Outros se aproximaram com curiosidade.
Gyoza, uma gata siamesa com jeito de espiã; Cookie, um amarelo travesso que tentava roubar o chaveiro da mão dela; Tempura, Brigadeiro, Churros, Wasabi e Paella completavam o grupo, miando e se enroscando nela até que parecesse impossível dar mais um passo sem tropeçar em algum deles.
— Tá bom, tá bom, um de cada vez. — riu, sentando-se de pernas cruzadas no chão. — Eu prometo comida e carinho pra todo mundo, mas não hoje. Hoje eu só quero cair morta na cama.
O relógio da sala marcava quase seis da tarde. O sol atravessava as janelas, pintando o chão com retalhos de luz dourada e sombra. O som do mar, distante, misturava-se ao ronronar coletivo dos gatos, e por um momento ela se sentiu estranhamente em paz.
Essa casa era um refúgio, mesmo com todos os fantasmas que carregava.
Ou talvez por causa deles.
Ela olhou em volta. O mesmo móvel de madeira escura onde a avó guardava seus livros. As cortinas bordadas à mão. O quadro com conchas e flores secas na parede — agora ligeiramente torto. Tudo parecia congelado no tempo, como se a avó tivesse acabado de sair para uma caminhada e pudesse voltar a qualquer instante.
Um arrepio leve subiu pela nuca. Talvez fosse apenas cansaço.
Jéssica espreguiçou-se, olhou para a escada que levava ao andar de cima e suspirou.
— Ok, gatos, missão número dois: achar comida, banho e uma cama. Nessa ordem, se possível.
Ravioli respondeu com um miado prolongado, como se dissesse boa sorte.
Jess suspirou e passou a mão pelo cabelo curto e oleoso, sentindo o suor seco e o leve cheiro de estrada grudados na pele. A viagem havia sido longa — seis horas dentro de um ônibus lotado e gelado demais— e tudo o que ela queria naquele momento era um banho quente e um travesseiro que não tivesse cheiro de gasolina.
Ela finalmente empurrou a mala e as bolsas para dentro e fechou a porta, sentindo o clique familiar da fechadura ecoar pela casa. O som trouxe uma sensação inesperada de conforto.
— Lar… mais ou menos doce lar — murmurou, olhando em volta.
Jess tirou a mochila das costas e quase gemeu de prazer por finalmente se ver livre do peso. Massageou o pescoço e os ombros, sentindo os nós de tensão acumulados ali. Se não fizesse nada a respeito, sabia que no dia seguinte estaria com uma dor insuportável.
Decidida a resolver pelo menos uma das suas dores, seguiu até a cozinha, procurando pelo gabinete de remédios.
A cozinha ficava nos fundos da casa e era um espaço aberto, banhado por luz natural. Uma grande porta de vidro dava acesso ao jardim, e mesmo fechada, deixava ver as flores do avô — margaridas, girassóis e jasmins — todas em plena floração, como se o velho senhor tivesse um pacto com a primavera.
Jess se inclinou sobre os armários, abrindo um por um até encontrar uma pequena maleta de primeiros socorros. Lá dentro, comprimidos de vitaminas, remédios para dor de cabeça e relaxantes musculares estavam organizados em fileiras.
Ela pegou um comprimido de cada e foi até a geladeira em busca de água. Ao abrir a porta, a primeira coisa que viu foi uma fatia generosa de bolo de chocolate coberta com uma camada espessa e brilhante de brigadeiro. Ao lado, um bilhete cuidadosamente dobrado.
— Ah, vô... — murmurou, sentindo o peito apertar de carinho.
Pegou o bolo e o bilhete, quase fechando a porta quando se lembrou da garrafa de água. Equilibrou tudo precariamente nos braços e empurrou a porta com o quadril. O som abafado do selo da geladeira se fechando foi seguido pelo leve ronronar de Ravioli, que observava a cena do alto do balcão, curioso.
Jess pousou tudo sobre o balcão central da cozinha, pegou um garfo da gaveta e se sentou. A primeira mordida foi pura felicidade — o bolo estava macio, úmido, e o brigadeiro tinha o equilíbrio perfeito entre o doce e o amargo do cacau.
Enquanto saboreava o pedaço seguinte, pegou o bilhete e o abriu com cuidado. A caligrafia forçadamente elegante do avô a fez sorrir.
“Sei que sua primeira parada seria a geladeira — por isso, achei que um incentivo doce seria bem-vindo. O bolo é uma receita nova do curso de confeitaria que comecei (sim, ainda há tempo de aprender!).
Não se preocupe com os gatos hoje, a Isabel, a vizinha, ficou de vir cuidar deles. A comida deles está na despensa, e deixei um dinheirinho no pote de cerâmica azul, caso precise comprar mais.
Espero que goste da casa, das flores e da paz daqui. Que esse lugar te ajude a reencontrar o que você perdeu nas palavras. Boa sorte com o novo livro, minha escritora favorita.
Com carinho,
Vô Dante.”
Jess terminou de ler, e por um instante, o bolo perdeu o gosto. Uma onda de melancolia a atingiu, lenta e densa. O bilhete ainda em mãos, ela sentiu a garganta fechar.
— “Minha escritora favorita”... — repetiu em voz baixa, o riso vindo trêmulo. — Se ao menos eu conseguisse escrever alguma coisa.
Ravioli roçou-se em seu braço e Jess fez um carinho distraído em sua cabeça, olhando o jardim do outro lado do vidro. As flores balançavam com a brisa, indiferentes a qualquer crise existencial humana.
Ela apoiou o queixo na mão, observando o bolo quase terminado. Tinha vindo ali para tentar recomeçar. Mas a verdade é que ela se sentia à deriva — desempregada, bloqueada criativamente, e cansada de ser “quase escritora”.
Jess fechou os olhos e respirou fundo, longa e lentamente, tentando deixar a onda de melancolia passar por ela como uma maré que recua. O ar tinha cheiro de chocolate e flores, e por um instante, ela imaginou que poderia se esconder naquele aroma reconfortante.
— Ok, Jess… — murmurou para si mesma, os cotovelos apoiados na mesa. — Alguns livros que não venderam não são o fim do mundo. Tem gente que leva anos até conseguir emplacar.
Ravioli ronronava ao seu lado, sentado sobre o balcão como um juiz paciente, as orelhas se movendo a cada sílaba que ela dizia. Jess começou a acariciá-lo atrás das orelhas, falando com ele como se o gato fosse seu terapeuta particular.
— É completamente normal não conseguir tração logo nos primeiros livros, sabia? — disse, com um tom professoral. — Leva tempo… o público precisa te conhecer, confiar em você. E o bloqueio criativo? Normal. Todo escritor passa por isso. O importante é continuar.
O gato piscou devagar, o que Jess interpretou como concordância absoluta.
— Isso mesmo, Ravioli. Concentrar no processo, não no produto final. — Ela riu, mas o som soou cansado. — Fácil de dizer, né?
Ela apoiou o rosto nas mãos por um momento, bufando em seguida.
— Tá, chega, chega de pensar nisso, senão eu vou espiralar de novo — resmungou, endireitando-se. — Novo ambiente, nova energia. Eu tenho até o fim do mês pra relaxar, e se os livros não forem pra frente, tudo bem. Não precisa ser o meu trabalho, é só… um hobby.
Mas a palavra soou amarga na boca dela. “Hobby”. Ela sabia que não era verdade. Escrever nunca fora apenas um passatempo — era a única coisa que a fazia sentir que estava vivendo de verdade. Mas admitir isso significava aceitar a dor de não estar conseguindo, e ela não tinha energia para mais uma derrota.
Pegou o garfo e começou a brincar com o restante do bolo, cortando pedacinhos minúsculos, distraída. A mente já se afastava da cozinha, da luz suave da tarde, dos gatos, do som distante de um carro passando na rua.
Pensava na história.
Nos sonhos.
Tinha começado tudo como uma ideia vaga — fragmentos noturnos de um homem de terno escuro, o brilho de um isqueiro em um beco molhado, vozes em italiano sussurrando algo sobre lealdade e traição. Era diferente de tudo que ela costumava sonhar. O cenário, a época, o ritmo. Ainda assim, ela se pegava acordando no meio da noite com frases inteiras ecoando na mente, diálogos prontos, imagens nítidas.
— Uma história sobre mafiosos… — murmurou, mexendo o bolo. — Não é bem o meu tipo de coisa, mas pode funcionar. Talvez se fosse um romance...
Ravioli inclinou a cabeça, curioso.
— Só que não é — continuou Jess. — É uma bagunça. Toda vez que eu tento mudar alguma coisa, o sonho volta igual, só muda quem morre primeiro. Ou eu morro, ou eu mato alguém. É um pesadelo em looping.
Ela riu, um som breve e cansado.
— Acho que eu simplesmente não tenho talento pra escrever política, nem subterfúgio… — disse, levantando o olhar para o gato, que agora a observava em silêncio. — Talvez eu devesse ficar só nas minhas histórias de fantasia. Dragões, florestas mágicas, coisas inventadas do zero são mais fáceis de lidar.
Passou as mãos pelos cabelos, sentindo mais uma vez o quanto estavam oleosos.
— E eu definitivamente preciso de um banho. — Disse, olhando para Ravioli como se esperasse aprovação. — É, vou tentar focar nisso, já que se depender de inspiração, hoje não sai nem uma linha.
O gato respondeu com um miado baixo, como se concordasse novamente.
— Pois é — murmurou Jess, levantando-se. — Uma história que não anda, um cérebro que não funciona e um cabelo que parece um ninho. O combo perfeito.
Pegou o prato e os talheres e levou até a pia, largando-os ali com a promessa silenciosa de que lavaria tudo amanhã. Hoje, não. Hoje ela queria apenas existir — sentir a água quente escorrer pelo corpo e o colchão macio a engolir inteira depois.
Enquanto subia as escadas, o som suave dos passos ecoando pela casa vazia, Jess se permitiu um último pensamento antes de se perder na promessa de um banho.
Talvez, só talvez, aquele novo ambiente realmente ajudasse. E quem sabe, nos sonhos daquela noite, o homem de terno escuro finalmente dissesse algo diferente.
…
De banho tomado, cabelo lavado e o pijama mais confortável que encontrou — uma camiseta velha com a estampa desbotada de uma banda dos anos 2000 e um short folgado —, Jess se jogou na cama macia com um suspiro longo e satisfeito.
O colchão a acolheu como um abraço antigo, e ela se deu alguns segundos para simplesmente ficar ali, imóvel, ouvindo o som distante do vento sacudindo as árvores lá fora. O vento entrava pela janela entreaberta, trazendo o cheiro salgado do mar misturado com o perfume suave de lavanda vindo do quintal.
Jess virou a cabeça, observando o quarto à luz amarelada do abajur. Era estranho estar ali de novo. O cômodo parecia um pequeno museu das várias versões de si mesma. As paredes azul-claras ainda conservavam as marcas do tempo e dos adesivos que ela mesma colara quando criança — fadas e unicórnios, meio descascados agora. Um dos espelhos do guarda-roupa ainda exibia um canto coberto de glitter.
Os pôsteres — alguns novos, outros sobreviventes das mudanças de gosto — dividiam espaço com as prateleiras repletas de cristais e pequenas velas coloridas. Havia ametistas, quartzos-rosa e uma pequena obsidiana em formato de coração, presente da avó. Sobre a cômoda, um pentagrama de madeira com inscrições gravadas em torno servia de suporte para incensos.
A cama, no entanto, era uma mistura curiosa de passado e presente. Lençóis e travesseiros novos, cheirando a sabão e sol, mas o cobertor ainda era o mesmo: grosso, macio, estampado com gatos, cartas de tarô e pentagramas dourados.
Jess sorriu, aconchegando-se debaixo dele, deixando as pernas de fora como sempre fazia. O corpo relaxou quase imediatamente, os pensamentos começaram a perder forma, dissolvendo-se como areia na maré do sono.
Mas então, o pensamento veio — súbito, inconveniente, quase como uma voz debochada na cabeça.
Os comprimidos.
Ela abriu os olhos de uma vez, o sono evaporando. Passou as mãos no rosto e resmungou.
— Eu me formei numa faculdade. Eu tenho um diploma. Eu devia ser capaz de lembrar de tomar um remédio, pelo amor de tudo que é sagrado. Meu cérebro tem capacidade pra isso.
Ficou deitada por alguns segundos, olhando fixamente para o teto, tentando se convencer de que a dor não seria tão ruim assim de manhã. Mas a consciência insistia em cutucar: e se algum gato resolvesse brincar com os comprimidos? Ou pior — comer um deles?
— Merda. — resmungou, se levantando de supetão. — Se algum de vocês morrer, o vô me mata.
Descalça, ela desceu as escadas devagar, iluminada apenas pela luz amarelada que escapava do quarto. O piso de madeira rangeu sob seus pés, e o som ecoou pela casa adormecida. Do lado de fora, o vento soprava pelas frestas, fazendo as cortinas da sala se moverem como sombras.
Quando acendeu as luzes da cozinha, piscou várias vezes, os olhos tentando se ajustar à claridade súbita. Tudo estava exatamente como havia deixado — o prato na pia, a garrafa fechada, e os dois comprimidos esquecidos sobre o balcão.
Jess soltou um suspiro aliviado.
— Graças à Deusa.
Pegou os comprimidos e os colocou na boca de uma vez, pegando a garrafa de água e engolindo com um gole generoso. A água agora estava morna, mas ainda assim refrescante.
Quando abaixou a garrafa encontrou um par de olhos verdes a observando da bancada, imóveis e intensos.
A gata cinza, de pelo curto e orelhas triangulares, piscou lentamente, encarando-a com uma expressão de tédio imperial.
Jess encarou de volta, esperando para ver se a gata faria alguma coisa. Depois de mais alguns segundos de ambas se encarando quase sem piscar, ela decidiu que brincar de encarar um gato não era tão divertido assim.
— E aí, como vão as coisas por aqui? — Jess tomou mais um gole de água.
A gata virou a cabeça de lado, o rabo se movendo de um lado para o outro num gesto impaciente.
— Não pode ser tão ruim assim. Dormir o dia inteiro, comer, ignorar humanos…
Mas antes que pudesse continuar a conversa unilateral, um miado grave e abafado veio do andar de cima. Não era o miado pedinte de quem queria comida, nem o irritado de quem fora contrariado, mas sim o de alguém que se enfiara onde não devia e agora estava preso.
Jess olhou para Gyoza. A gata olhou de volta.
— Deixa eu adivinhar… — disse Jess devagar. — O Cookie se enfiou em algum lugar e ficou preso? Ou foi o Brigadeiro dessa vez?
Gyoza piscou lentamente, depois se levantou com um bufar indignado e virou as costas, caminhando em direção ao corredor.
— Ei! — Jess a chamou, erguendo as mãos. — Pelo menos mostra onde ele tá! Não tô com paciência pra procurar gato preso em armário à meia-noite!
A gata parou por um instante, lançou-lhe um olhar irritado e então começou a subir as escadas, com a cauda erguida e um ar de quem tinha mais o que fazer.
Jess seguiu atrás dela, os pés descalços fazendo pouco barulho nas tábuas de madeira.
A casa parecia maior no silêncio da noite, e conforme subiam, o miado soou de novo — mais baixo agora, mas mais urgente.
— Cookie, seu maluco, onde é que você se meteu? — murmurou, a voz ecoando pelo corredor vazio.
Gyoza parou diante da porta do antigo escritório da avó — uma porta que Jess tinha passado o dia inteiro sem abrir.
Ela franziu o cenho.
— Aí dentro?
A gata respondeu apenas com um movimento lento de rabo.
Jess revirou os olhos.
— Tá bom, vamos ver o que o desastrado aprontou dessa vez. — murmurou, estendendo a mão para a maçaneta.
O metal estava frio sob seus dedos. Ela girou, uma vez, duas, três. Nada. A porta nem sequer se mexeu.
— Ah, ótimo. — ela sussurrou, pressionando a testa contra a madeira. — Trancada. Claro que está trancada.
Ela tentou de novo, com mais força, certa de que estava apenas emperrada. O trinco gemeu, mas continuou firme. Depois de mais algumas tentativas frustradas, ela suspirou, aceitando o inevitável.
— Certo, Cookie, Brigadeiro, seja lá quem for... — disse, levantando a voz para o gato do outro lado. — Agora me explica, por favor, como é que você conseguiu se trancar aí dentro?
O único retorno foi um miado abafado, um som arranhado que vinha de algum ponto atrás da porta.
Jess inclinou a cabeça, escutando.
— Ahn... deve ter entrado pela janela, né? — Ela se endireitou, cruzando os braços.— Então faz o favor e sai por onde entrou, tá bem? Problema resolvido.
O gato respondeu com outro miado — mais alto, mais desesperado — e ela bufou.
— Ai, meu Deus... você se enfiou dentro de algum móvel, foi isso? — perguntou, massageando as têmporas. — Dentro de uma gaveta? Do armário? Do piano?
Jess respirou fundo. O cansaço pesava nas pernas, e tudo o que ela queria era estar de volta na cama. Mas o tom aflito do miado anterior ainda ecoava em sua cabeça.
— Tá, tá, tá. Eu vou resolver isso. — resmungou, descendo as escadas apressada, os degraus frios contra os pés descalços.
As chaves estavam penduradas ao lado da porta da frente, num gancho de ferro em formato de lua crescente. Um conjunto de cinco chaves, cada uma com um pingente diferente — uma estrela, um coração, um gato, um sol e um olho. A avó sempre dizia que cada uma abria um “portal”.
Jess pegou todas, subindo de novo com passos rápidos, o eco leve dos pés acompanhando o miado distante lá de cima.
De volta à porta, começou a testar as chaves uma por uma.
— Vamos ver... estrela, coração... gato seria simbólico, né? — murmurou.
Nenhuma funcionou. A última chave, a do olho, era a mais antiga, de ferro gasto e ponta torta.
A chave entrou — mas não girou.
Jess jogou o molho de chaves no chão com um suspiro frustrado.
— Ótimo. Perfeito. Maravilhoso.
Ela se encostou na parede e olhou para Gyoza, ainda sentada diante da porta, com a cauda enrolada ao redor do corpo e aquele olhar julgador.
— Você é a única que presta. Quieta, discreta... uma verdadeira dama.
Gyoza piscou lentamente, indiferente.
— Queria que os outros fossem assim. — Jess continuou. — Mas não, um deles tá sempre roubando comida e passando mal depois e o outro se tranca em cômodos trancados.
O miado do escritório veio de novo, dessa vez mais irritado do que aflito.
Jess olhou para a porta, arqueando uma sobrancelha.
— É, eu tô falando de você mesmo. Quem foi que ficou preso, hein?
Silêncio.
— Foi o que eu pensei.
Por um instante, considerou tentar arrombar a porta. Mas a imagem do avô reclamando a fez desistir rapidamente.
— Melhor deixar como último recurso. — murmurou.
Suspirando, ela se afastou da porta.
— Talvez eu consiga abrir de outro jeito…
Jess atravessou o corredor até o quarto. Ela abriu a gaveta da escrivaninha e remexeu entre velhos papéis, lápis quebrados e uma caixa de tinta seca, até encontrar o que procurava: o estojo preto com caveiras coloridas.
O kit de estecas que a avó havia lhe dado quando ela decidiu aprender a esculpir — um hobby que durou exatamente três semanas.
— Espero que sirvam pra alguma coisa hoje. — disse, pegando o estojo e voltando ao corredor.
Ela se agachou diante da maçaneta e abriu o zíper com cuidado, tirando as ferramentas de dentro: uma esteca fina, uma mais larga e um pequeno gancho metálico. Escolheu o gancho.
— Certo... — disse, dirigindo-se à porta. — Eu vou tentar abrir, tá? Mas não prometo nada. Se não funcionar, você vai ter que torcer pra eu achar um chaveiro aberto a essa hora.
O gato respondeu com um miado breve.
Jess respirou fundo e começou a mexer cuidadosamente na fechadura, sentindo o metal arranhar contra o gancho. A madeira estalava sob seus dedos, tentando se lembrar de como exatamente ela tinha feito isso em um dos sonhos que tivera recentemente.
Não era incomum que ela acordasse de um sonho com algum conhecimento novo.
Primeiro, ela achou que era simplesmente seu subconsciente fazendo uso de alguma habilidade ou conhecimento que ela havia aprendido sem querer, mas no momento em que ela acordou sabendo um poema inteiro em francês, quando nunca tinha estudado a língua e até então não conseguia entender uma palavra, foi o momento em que ela decidiu que não iria questionar muito sobre o que acontecia com sua mente enquanto dormia.
Provavelmente eram só resquícios de vidas passadas. Talvez fosse outra coisa. Independentemente, questionar a mecânica exata não iria mudar sua vida, então que ficasse quieto.
Jess mordeu o lábio, concentrada. Um clique. Depois outro. E então — um estalo seco, profundo, vindo de dentro da fechadura.
Ela congelou.
— Ah... isso foi bom ou ruim? — perguntou, olhando para a gata.
Gyoza apenas inclinou a cabeça.
Jess girou lentamente a maçaneta e a porta se abriu.
Um cheiro de madeira encerada e ervas secas escapou do cômodo, misturado a um leve odor de tinta antiga e pó.
Ela hesitou por um instante antes de alcançar o interruptor.
A lâmpada amarela piscou duas vezes antes de acender com um clique, e o som baixo da eletricidade vibrou por um segundo antes de se dissipar.
Jess observou o escritório — o cômodo parecia exatamente como ela lembrava da infância, embora o tempo tivesse adicionado uma camada de melancolia sobre tudo. A escrivaninha escura, de madeira polida, ainda sustentava a pesada máquina de escrever da avó, as teclas cobertas de poeira e o rolo ainda com um pedaço de papel amarelado preso. As estantes estavam repletas de livros de capa dura, volumes grossos de mitologia, ocultismo e história da arte. No canto, o piano repousava em silêncio, as teclas cobertas por um pano bordado com símbolos florais.
Jess observou tudo por um momento, os olhos atentos, procurando onde o gato poderia estar.
— Brigadeiro? — chamou, num tom cansado, quase suplicante.
Um miado abafado respondeu, vindo do fundo da sala. Jess franziu o cenho, dando alguns passos até o som — até que parou diante do armário de duas portas, aquele que a avó usava para guardar tintas e papéis de desenho.
— Aí dentro... é sério?
Sem esperar resposta, ela caminhou até o armário e puxou as portas com força.
Dentro, empoleirado sobre uma grande caixa de papelão na prateleira superior, estava o Brigadeiro — o gato marrom e branco, com a mancha clara atravessando o peito e grandes olhos verdes.
Por um instante, os dois se encararam em silêncio.
— Me explica, por favor, como exatamente você conseguiu se enfiar aí?
Brigadeiro respondeu com um miado baixo, quase contrito, como se dissesse “nem eu sei”.
— Claro. — disse Jess, cruzando os braços. — Gênio felino.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o gato se agachou, preparando-se para pular.
— Ei, não! Espera, Brigadeiro, não—
Tarde demais. Ele saltou, aterrissando com um som seco no chão. A caixa em que estava apoiado tombou junto, espalhando uma chuva de papéis, cadernos e folhas amareladas por todo o escritório.
Jess fechou os olhos e levou as mãos ao rosto, respirando fundo.
— Claro. É claro que sim. Por que não? — murmurou, a voz abafada pelas palmas.
Quando abaixou as mãos, a cena era um pequeno caos: o gato lambendo a pata como se nada tivesse acontecido, e dezenas de folhas cobrindo o tapete.
— Eu só queria dormir...
Depois de um longo suspiro, ela tentou recuperar a calma.
— Certo. Primeiro, impedir que outro gato decida abrir um portal pra Nárnia.
Pisando com cuidado entre as folhas, ela se aproximou da janela. O luar filtrava-se pelas frestas da cortina bege, criando sombras suaves no chão. Jess puxou o tecido para o lado — e congelou.
A janela estava perfeitamente fechada.
E — ela testou — trancada por dentro.
Ela ficou ali parada por alguns segundos, os dedos ainda segurando a cortina.
— Como... — murmurou, franzindo o cenho. — Mas... como você entrou aqui?
Virou-se. O gato já não estava mais no cômodo. Nem Gyoza.
Jess ficou parada, o coração batendo um pouco mais rápido, tentando formar alguma explicação, mas nada de coerente lhe vinha à mente.
— Eu tô exausta demais pra lidar com mistérios felinos. — Ela balançou a cabeça, afastando o pensamento.
Ajoelhou-se sobre o tapete para começar a juntar os papéis espalhados. O tecido áspero raspava contra os joelhos, e o ar no cômodo parecia mais frio agora que a noite se aprofundava.
As folhas estavam cobertas de anotações em uma caligrafia fina e inclinada — a da avó.
Títulos sublinhados, nomes de lugares, trechos de poemas e até desenhos pequenos nos cantos das páginas.
Pegou um pequeno caderno de capa azul-marinho, com manchas de tinta nas bordas. Dentro, havia rascunhos de cartas, listas de compras, e mais anotações sobre sonhos — sempre datadas, cada uma com um dia e hora.
Ela sorriu de leve.
Continuou juntando as folhas sem prestar muita atenção — até que um desenho em particular a fez parar.
Era um retrato em grafite, realista e detalhado. O rosto de um homem jovem, de expressão serena, mas com algo de inquietante no olhar. O nariz fino e curvado, o maxilar marcado, os cabelos escuros penteados para trás, sem um fio fora do lugar. Ele usava um terno de corte antigo, e a sombra sob seus olhos dava-lhe uma aparência ao mesmo tempo elegante e sombria.
Jess sentiu o ar preso no peito. Não podia ser coincidência.
— Vittorio... — sussurrou.
O nome escapou de seus lábios antes que ela percebesse.
Ela o conhecia.
Aquele rosto.
Aquele mesmo rosto que vinha vendo todas as noites pelo último mês nos sonhos que a deixavam inquieta.
Era o mesmo homem que ela havia descrito em seu manuscrito, o protagonista do livro que começara a escrever há poucas semanas.
Mas aquele desenho… Aquele desenho era antigo. O papel já estava amarelado, e o grafite desbotado em algumas partes.
— Isso não faz sentido. — murmurou, levantando a folha na altura dos olhos, examinando-a à luz da lâmpada.
Havia algo escrito no canto inferior direito, em letra miúda.
“V. — esboço de memória”
Atrás dela, um leve som quebrou o silêncio — um estalo seco, como se o piso de madeira tivesse cedido sob o peso de um passo.
Ela se virou depressa.
O escritório estava vazio.
