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Aos olhos de Labirinto, agora Remi, o momento ocorre em câmera lenta. As garras de Raziel rasgaram o peito de Maria, abrindo-o por completo. O desespero tomou conta de seus movimentos, e o caos do ambiente — o centro daquela antiga igreja — turvava seus pensamentos. Ao seu lado, Aguiar ofegava, recém-chegado de um ataque frustrado contra Alvira, claramente desorientado pelas intenções da máscara. Acima deles, a voz de Lena ecoava carregada de desalento e de uma preocupação visceral com a vida de sua equipe.
No entanto, os olhos de Remi permanecem presos ao corpo do amado, atirado ao chão e ensanguentado, ignorando o tumulto à sua volta. Certamente havia um jeito de tirá-lo dali em poucos minutos; afinal, seus corpos não reagiam a grandes ferimentos da maneira natural, eram muito ligados ao paranormal para isso. Apesar da aparente facilidade, ele precisava cumprir suas promessas, pois Eloy — o elo mais forte de Kemi, ou Lena — estava morrendo ao lado de Maria, claramente muito mais próximo da morte do que ela. Remi avançou silenciosamente pelo salão, usando o choro de Alvira e os ganidos de Zefero como camuflagem sonora. Cada passo sincronizava-se com um ruído da batalha. Ao se ajoelhar entre os dois corpos, conduz toda sua concentração a eles, rapidamente conjura a intenção do cachorro vampiresco — morto por Juan no outro lado da sala; os rascunhos vermelhos voam até suas mãos, a forma monstruosa se agita inutilmente. A decisão de vida ou morte dos dois pairava sobre sua cabeça. Se Eloy morresse, Lena enlouqueceria; havia feito uma promessa a ela, teria de cumpri-la. Mas, se Maria morresse, algo dentro dele apodreceria; o amor que sentia podia ser jovem e inconsequente, porém era amor.
Bruscamente, conduziu a essência de Zefero para o corpo do baterista, que agoniza afogando-se no próprio sangue, aos poucos os ferimentos pelo robusto corpo foram fechados, como uma partitura sendo composta naquele instante. O suspiro de vida de Eloy ocasionou um arquejo sofrido de Remi, o qual virou-se imediatamente em direção a Maria, que se mantinha quieta com um pequeno sorriso enfeitando suas feições manchadas pelo sangue. Em um ato heroico, ele puxa Maria para junto de si, silenciosamente a levando para os quartos da instalação. Temporariamente escondidos, Remi aproxima-se com leveza no intuito de examinar os machucados delu. Suas mãos acariciam-no fracamente na intenção de aliviar a tensão; os cortes no peito são profundos e jorram sangue como um cano perfurado jorra água. Procura pelas suas roupas as esparsas bandagens e gazes que havia levado consigo para emergências; as mãos tremem pelo nervosismo. Cuidadosamente, enfaixa o frágil corpo abaixo de si, não deixa de notar o quão encharcadas as bandagens ficam logo após entrarem em contato com os ferimentos.
Remi o abraça, forte o suficiente para acordá-lo do torpor de quase morte, porém fraco para não piorar os ferimentos já possuídos pelo outro. Eles se levantam juntos, o mundo sendo silenciado pelas suas emoções encantadoras, permitindo-se exibir pequenos sorrisos em seus rostos tão magoados pela aflição, não que não se importassem com as circunstâncias, na verdade, estavam apenas aliviados pelo outro estar vivo. O ocultista delicadamente segura a mão de Maria e a guia até a segunda saída existente naquela sala, a fim de conduzi-la para fora do combate mais intenso.
Os gritos de Cindy e Caio irrompem, ensurdecedores. As mãos se apertam com mais força ainda, temem por suas vidas. À frente, Raziel avança como um demônio sobre o corpo de Caio, engolindo com ferocidade o rosto do vocalista. Ao observar tal cena, Remi decide usar um de seus rituais para atrair a atenção do vampiro; com a antena preparada, ele atira a rajada caótica no bolo de pessoas, assim atingindo Alvira. Subitamente, o monstruoso se afasta lentamente de Caio; mesmo sem uma fisionomia humana, foi possível reconhecer seu sofrimento com a morte dela; toda a sua postura pomposa desapareceu, ele estava em choque. Recolheu a “freira” em seus braços, gritava o seu nome. Definitivamente, a distração havia funcionado; com isso, Jasper aproveitou-se da proximidade forçada e atacou o vampiro. No primeiro andar, Jasper e Juan desferiam golpes contra Raziel, enquanto Lena o pressionava com tiros precisos. O vampiro estava fadado à derrota. Durante esse momento, Remi manteve Maria em suas costas como forma de protegê-la, enquanto assistiam juntos ao grupo trucidar ferozmente contra Raziel.
Poucos minutos depois, um grito de Jasper ecoou pela vitória, enquanto lágrimas silenciosas de alívio traçavam caminhos discretos em seu rosto. Ao contrário, Eloy desmoronou em frente a Lena, seu estava oficialmente morto e não havia lugar entre os mascarados para ele, sentia-se desolado. Juan voltava ao corpo de Zefero para cortar-lhe a cabeça, atendendo ao pedido do Pomba, ou Juninho Paçoca, não fazia tanta diferença agora. Com um grito, Remi chama a atenção do grupo, todos ali sabiam que precisavam queimar o espaço ou teriam que lidar com alguns vários zumbis de sangue. Silenciosamente, eles saíram do ambiente, agora, fora do controle da Coroa de Espinhos, sentiam as dores por facadas, tiros, mordidas, entre outras agressões. Contudo, a melancolia não exatamente preenchia seus corações, mas sim a esperança de que talvez pudessem acabar com Hecatombe, talvez pudessem viver.
Maria permanece ao lado de Remi enquanto ele incendeia a catedral de sangue. Seu sorriso não demonstra ironia, e sim alívio; sente-se aliviado por estar vivo.
“Remi, muito obrigado”, diz quando o outro termina de conjurar o ritual, fazendo-o virar-se em sua direção. “Eu te devo a minha vida agora.” É possível escutar a risada dele, mesmo que abafada pela máscara. Maria sobe as mãos delicadamente e retira a peça da cabeça dele, observando o sorriso que adorna seus lábios. Ela se ergue na ponta dos pés e aproxima o rosto do dele, vagarosamente. Então, o beija — um beijo terno e demorado, carregado da doce e recente certeza de que seu amor, afinal, era correspondido.
“OH, CASAL!! Vamos ir ou não?” Kemi solta um grito e, ainda com o braço em volta do baterista do Psikolera, faz com que ambos se afastem num salto. Seguem o resto do time, as mãos ainda atadas uma à outra.
