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Sr. Encrenqueiro
Por Elizabeth Sloan
A taverna exalava o perfume áspero da vitória — uma mistura agridoce de bebida forte, gordura de ave celestial assada e a inconfundível marca da estrada, com lama, orvalho e musgos tão antigos quanto a idade do cardeal-presbítero que atuava na região. Um aroma que, para qualquer aventureiro, significava lar temporário.
O tilintar das canecas, o eco de risadas e o calor das tochas pintavam o salão em tons de ouro e pedras de rubi, e lá, no centro de toda bagunça, estava o grupo da velha guarda de Satoru, orgulhoso como se tivesse roubado o próprio sol para oferecer ao rei.
Afinal, tinham trazido a cabeça do Anjo Demoníaco, o general de guerra do Rei Demônio. E estavam radiantes.
— Satoru! — chamou Suguru, seu fiel amigo e escudeiro, com um sorriso que sempre parecia saber mais do que dizia. — Um discurso! Não vai se esconder atrás do seu copo, hein?
— Você sabe que não sou bom em discursos — mentiu. Estava apenas com preguiça.
— Vamos lá! Todos querem ouvir! Discurso!
E todos começaram a gritar junto com ele.
A taverna vibrou com a empolgação, forçando ele a agir.
Satoru ergueu-se, fazendo ranger o banco sob seu peso. Vestia ainda as roupas que haviam visto batalha: o gibão de couro reforçado, marcado por arranhões e respingos de sangue já seco, a capa azul-escura, rasgada na bainha, carregando poeira de sete reinos, e, sobretudo, aquele ar de insolência luminosa que parecia deixá-lo mais alto que qualquer outro homem na sala. Seus cabelos, tão brancos quanto a neve das montanhas do norte, estavam desalinhados, mas brilhavam sob a luz das tochas, como se refletissem histórias não contadas.
Quando subiu à mesa, o barulho cessou. Até os mais rudes mantiveram o olhar fixo nele. E não era só pela vitória — havia algo na forma como Satoru se movia, como se pronunciasse: eu sou o mais forte.
Ele olhou para a multidão, os olhos vagando pela taverna, e a alegria em seu rosto, por um instante, vacilou.
Ela não estava ali. De novo.
— Meus amigos — começou, com aquela voz firme, que soava como aço, mas com a leveza de um vento de verão. — Hoje nos sentamos como homens que retornaram vivos do inferno. Como aqueles que desafiaram o impossível… e venceram.
Pausou, e um sorriso breve apareceu.
— A batalha foi cruel. Por inúmeras vezes acreditei que todos iriam falhar… exceto eu, óbvio. Eu nunca falho.
Risadas ressoaram.
— Estão vendo aquele ali? — apontou para Suguru, que sorriu largo com a caneca na mão. — A garra do dragão passou direto pelo escudo dele! Mas nada, repito, nada poderia ferir o coração de um nobre guerreiro!
Ele ergueu o copo no ar, olhando para todos ali, cujas emoções transbordavam em expectativa.
— Por todos que acreditaram na nossa vitória, por suas orações e… E a minha querida esposa… que, de novo, não apareceu aqui. Obrigado a todos!
O salão explodiu em aplausos e assobios, mas ele já havia decidido. Enquanto a festa continuava em grande animação e o vinho se multiplicava, Satoru desceu discretamente pela porta dos fundos.
“Quanta energia, hein?”, comentou para si mesmo, sorrindo.
O caminho até seu lar era no nostálgico não importa quantas vezes cruzasse a mesma estrada.
A casa apareceu ao longe, com a chaminé soltando um fio tímido de fumaça, um suspiro na noite. A madeira era gasta, mas cada janela parecia ter guardado sua ausência com paciência. O portão de ferro rangia.
Já era tarde, e ele planejava entrar sem fazer alarde. O vento frio cortava o caminho de pedras, e a única luz vinha da lamparina presa ao portão. Tudo parecia quieto demais — até o farfalhar das árvores soava como um sussurro de aviso.
Estranho.
Satoru avançou um passo, atento. Cada estalo do piso soava alto demais, cada sombra parecia se mover. A mão foi instintivamente ao cabo da espada.
Então, algo se lançou contra ele.
Por um segundo, o guerreiro reagiu por puro reflexo — o braço pronto para o golpe, o coração disparando em alerta. Mas, antes que o aço brilhasse, um som o atravessou igual um feitiço desarmador: risadas. Risadas cristalinas, leves, familiares.
O peso em suas pernas não era inimigo algum. Eram eles — seus pestinhas.
Satoru abaixou-se, e o rosto dele se abriu num sorriso que derreteu toda a fadiga e o medo. Os braços pequenos o envolveram com força, como se quisessem costurar os meses rasgados pela distância.
— Papai!! — gritaram.
— Que saudades! — Satoru exclamou, pegando a filha primeiro, uma pequena de olhos claros como o amanhecer e cabelos escuros como a noite que o protegia. — Céline… você cresceu mais? — Voltou-se para o filho, de sorriso travesso e olhar azul profundo como o mar distante. — Kael… você está mais forte! Meus meninos!
Capturou-os com um abraço só, beijando as bochechas gordas com exagero, fazendo-os rir ainda mais.
E então, o som leve de passos.
Utahime apareceu na soleira da porta, recortada pela luz quente que vinha de dentro da casa. A barriga enorme transformava o vestido branco em moldura de uma obra viva — e, ainda assim, não havia doçura alguma em seu olhar.
— Hime… — Satoru paralisou, surpreso, as palavras morrendo em sua garganta.
— Então, o grande herói resolveu voltar — disse ela, com a voz baixa, afiada idêntica a uma lâmina recém-amolada.
O silêncio entre eles durou menos que o tempo que levou para ela alcançar a jarra de barro sobre a prateleira e atirá-la em sua direção. Satoru devolveu os filhos ao chão com a rapidez de anos de treinamento, o projétil passando rente ao ombro dele, explodindo em cacos no chão.
— Hime! — ele começou, erguendo as mãos, mas ela já havia encontrado outra vítima para sua raiva: uma cesta de pão, que voou no ar como se fosse um dardo.
— Sete meses, Satoru! — a voz dela subiu, quebrada pela emoção. — Eu contei cada lua, cada estação, cada maldita carta que você não respondeu!
Ele desviou do cesto com um passo leve, mas não pôde evitar o impacto da colher de pau que ela arremessou logo depois.
— Céline! Kael! — Utahime gritou sem desviar os olhos dele. — Saiam de perto do seu pai antes que eu erre a mira!
Mas as crianças, longe de obedecer, se agarraram a cada perna dele, gargalhando como se aquilo fosse o espetáculo mais divertido que já tinham visto.
— Mamãe! Mira na cabeça! — Céline incentivou, rindo.
— Isso! — Kael completou, empolgado. — Ele nem vai sentir!
Satoru arqueou a sobrancelha para os filhos, fingindo indignação.
— Traidores! Vocês vendem seu próprio pai por uma colher?
E foi exatamente outra colher que Utahime acertou na lateral da cabeça dele. De novo.
Não doeu — seu corpo estava acostumado a impactos muito piores — mas a raiva dela penetrou mais fundo que qualquer golpe em batalha.
— Você prometeu voltar em um 30 luas — disse ela, respirando rápido. — 30 luas! Eu te esperei no portão. No frio. Na chuva. Achei que estava morto… até que vieram as primeiras cartas. — A voz dela falhou, mas ela não recuou. — E depois? Silêncio. Nem mesmo uma palavra para dizer se ainda respirava.
Satoru abriu a boca para responder, mas ela o interrompeu, avançando um passo.
— Eu criei dois filhos sozinha por três estações. Seus filhos! Enquanto carregava mais um; sem saber se você voltaria para conhecer seu próprio bebê! Sabe o que é acordar no meio da noite porque sonhou com os sinos da igreja tocando e encontrou o corpo do marido numa vala? Sabe o que é passar o dia sorrindo para as crianças para que elas não vejam o medo no seu rosto?
As palavras dela caíam como chuva de flechas, ele sentindo cada ferimento sendo aberto à força bruta.
— Hime… — tentou de novo, mas ela ergueu a mão.
— Não! Não me chama assim, como se pudesse apagar tudo com um apelido doce. Você é o Sr. Encrenqueiro, Satoru Gojo. E, um dia, essa mania de se jogar no perigo vai te tirar de mim.
O silêncio durou um instante que pareceu uma vida. Então, num gesto tão rápido quanto a faísca de um raio, ele se soltou dos filhos, que caíram no chão com um “oof!” de surpresa, e cruzou o espaço entre eles. Utahime deu dois passos para trás, mas já era tarde. Ele a envolveu nos braços, prendendo-a contra o peito.
— Me desculpa — disse, e agora sua voz era baixa, verdadeira. — Eu sei que errei. Sei que te fiz sentir medo. E juro que não há ferida pior para mim do que saber que você chorou sozinha.
Ela tentou empurrá-lo, mas as mãos dele eram muralhas.
— Não vou sair do seu lado dessa vez — A testa dele encostou na dela. — Não vou deixar que meus filhos cresçam sem mim. E se isso significa abandonar títulos e glórias, que seja.
Utahime fechou os olhos, e o nó na garganta finalmente cedeu. As lágrimas vieram sem tempo de avisar, molhando seu rosto. Raiva e alívio misturados, porque ele estava de volta e bem.
— Eu só quero você vivo, Toru. Aqui. Com a gente — ela pediu, as mãos se agarrando nele com saudade e ternura.
Ele sorriu, um sorriso pequeno, e a abraçou mais forte.
— Então é isso que vou ser. O homem que vive ao seu lado, com Céline, Kael e esse bebê lindo que virá. E… vou deixar de ser o Sr. Encrenqueiro.
Ela soltou um riso abafado, ainda contra o peito dele.
— Quero ver.
[...]
Dias se passaram. O trono dourado reluzia com o sol da manhã. O salão real, vasto e silencioso, parecia prender a respiração quando Satoru atravessou suas portas. O rei o aguardava, sentado com o manto carmesim repousando sobre os ombros, e um olhar que misturava admiração e impaciência.
— Gojo — começou o monarca, com voz grave. — Há uma nova ameaça ao sul. Os exércitos do Rei Demônio estão se movendo. Preciso que você lidere nossas tropas novamente.
Satoru manteve-se em pé, as mãos cruzadas atrás das costas.
— Majestade… não vou.
O murmúrio dos conselheiros ecoou como trovão contido. O rei inclinou-se no trono, estreitando os olhos.
— Repita.
— Eu disse que não vou — A voz dele saiu calma, quase gentil, mas havia nela a mesma força de quem enfrenta dragões.
O silêncio caiu pesado.
— Está recusando uma ordem direta de seu rei? — a voz do monarca ergueu-se, carregada de incredulidade. — Você é o mais forte dos meus homens! Um símbolo do nosso reino! O povo canta o seu nome nas ruas, Satoru Gojo!
Satoru sorriu de leve, mas sem alegria.
— É… — deu de ombros, olhando para algo mais interessante no salão de ouro. — Mas do que adianta o povo cantar o meu nome se meus filhos crescerem sem ouvir a minha voz?
O rei se endireitou, o semblante endurecendo.
— Está dizendo que abandonará o seu dever? Que deixará o reino nas mãos do caos por causa de… amor?
Satoru quase riu com a forma que o rei mencionou o sentimento com tamanho desdém. Claro, para alguém tão frio e solitário mesmo com um harém de escravas, que vive em um trono idiota, podia pensar com amo era uma coisa tola.
Mas ele sabia que não era.
Satoru deu um passo à frente, o olhar azul faiscando sob a luz dourada.
— Escuta aqui, meu rei — disse, a voz firme como pedra —, não há nada mais nobre para mim do que ficar em casa com quem eu amo. Valorizando, amando, protegendo de perto.
Ele fez uma pausa, e então sorriu, quase divertido.
— Porque, sabe de uma coisa? Eu poderia ver seu reino caindo em pedaços, devorado pelas chamas, e não me importaria nem um pouco com seus nobres arrogantes ou com essa coroa estúpida feita de diamantes roubados de impostos tributários.
Um dos conselheiros engasgou. Outro deixou cair a pena de escrever. Mas Satoru continuou, sereno:
— Eu lutarei pela minha família. Só por ela. Seu salário é bom, majestade, mas… não vale mais que o sorriso da minha amada esposa.
O rei se levantou, furioso, a capa abrindo-se como asas de um corvo.
— Você ousa insultar seu rei?! Depois de tudo o que lhe dei?!
Satoru arqueou uma sobrancelha e apontou um dedo para a coroa.
— Sim! Eu rejeito! Por quê, você deseja saber, seu velho doido? Porque eu poderia ser mastigado pelos dentes de um dragão feroz, mas o ferimento mais fatal que já levei em campo foi chegar em casa e ver minha mulher chorando!
Os guardas deram um passo à frente, o rei ficava vermelho de raiva, e Satoru abriu um sorriso enorme, mostrando o dedo do meio com a maior das ofensas.
— Então, meu rei, pega sua proposta de enfrentar o Rei Demônio e enfia bem na sua…!
[...]
— Você disse tudo isso pro rei? Como não degolaram sua cabeça? — perguntou Suguru, incrédulo.
Satoru gargalhou, com aquele brilho impassível de sempre.
— Eles até tentaram, mas não foram muito longe. Vão abafar o caso, sabe? Seria um ultraje que os outros reinos descobrissem que houve um massacre diante do trono com um rei humilhado. — ele contou, rindo. — As únicas mãos que podem apertar esse pescoço lindo são as da Utahime.
— Imaginei — o escudeiro riu. — Então é isso? Vai se aposentar?
Satoru olhou para o teto do corredor de sua casa, reflexivo.
— Aposentadoria — repetiu, sorrindo. — Pensei que esse dia nunca chegaria. Mas chegou… É isso. Uma parte da jornada é o fim. Quando passar por aqui, manda um oi. É sempre divertido ter o grupo e você por perto.
— Vai mesmo desistir?
O choro do bebê preencheu o ar, suave e poderoso, como uma nova melodia. Satoru abriu um sorriso largo, quase menino. Os passos da parteira ecoaram pelo quarto, e ele se posicionou atrás da porta, o coração batendo como em véspera de batalha.
— Aprende uma coisa, Suguru… não há nada mais bravo e heróico do que ser pai.
A porta se abriu, e Satoru avançou, correndo até Utahime. A alegria o atravessou por inteiro. O quarto se encheu de luz, de promessas e de amor. Enquanto ele beijava a testa de sua amada, sentindo a mão pequena do bebê segurar seu dedo, os gêmeos invadiram o quarto em seguida, gritando empolgados. E Utahime sorriu, cansada mas maravilhada.
Uma nova aventura. Uma família.
Desta vez, unida para sempre.
O sol se despediu do guerreiro Satoru Gojo, mas, no mesmo horizonte, nasceu a luz travessa de um novo Sr. Encrenqueiro.
