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Os primeiros dias foram um estado esquisito de consciência transitória. Jasper não sabia nem entendia nada, mas sentia. Sentia-se envolto na imensidão vermelha, no turbilhão de sentimentos e na infinidade de sensações que só o sangue podia proporcionar.
A primeira das sensações foi a dor. Física e emocional. Seu corpo parecia ser mastigado, costurado e descosturado e os fragmentos de sua mente estavam sempre em um constante loop de “Eu falhei, de novo. Eu não consegui protegê-los.”
Somente dias depois da morte do corpo de Aguiar, Jasper enxergou algo diferente da imensidão do fluxo do outro lado. Abrir os olhos na luz cegante da enfermaria da ordem pareceu quase uma tarefa impossível. Parecia exigir força demais. Falar então, mais ainda, mas o choro era inevitável. Ele sentia que tinha falhado e assim que se percebeu vivo, desmoronou.
Ele lembrava da morte de Maria, Cindy e Caio e das de Dalmo, Franco e Alê no dia anterior. Todas elas pesavam em seus ombros, além do peso de não saber se mais alguém havia sido perdido depois que ele caiu. Chorou, como uma criança desesperada, de soluçar e o som anunciou para Marcela a consciência do garoto.
A médica veio correndo, com um olhar simultâneamente surpreso e aliviado. “Jasper? Ei, calma, respira. Você tá a salvo, você tá na ordem.” As palavras eram ditas no seu tom suave de sempre mas as mãos ágeis da mulher já mediam seus sinais vitais, apressada em ter certeza que ele ficaria estável.
Em meio ao choro e a visão embaçada, Jasper pode reconhecer o corpo forte de Tuco na maca ao lado, adormecido de uma forma que parecia mais profunda que um sono comum. Jasper não sabia se devia se sentir aliviado ou preocupado.
Marcela acompanhou seu olhar e tentou tranquilizá-lo novamente. “Vocês saíram ontem do caixão dos corpos. A Agatha fez o ritual mas… a gente não tinha certeza de que vocês acordariam. Mas, você ter acordado é um bom sinal. Acho que é questão de tempo pra ele também. Prometo que tô fazendo tudo que posso.”
Jasper ainda de coração apertado, olhou pra ela. “E… Maria?” Falou numa voz rouca e que fazia sua garganta doer.
O olhar de Marcela se entristeceu. “Parece que era o corpo que vocês lutaram no primeiro dia. A consciência não tinha pra onde voltar. Sinto muito, Jasper.”
O mundo pareceu se tornar um pouco mais cinza depois da fala da mulher. Tudo parecia incerto. Ele não tinha forças pra perguntar mais nada, não sentia nada além de culpa e raiva. Raiva de si mesmo, por ter falhado e raiva de Deus, por ter permitido algo assim. Jasper nunca contou a ninguém, mas ele ainda buscava conforto na fé, naquilo que lhe foi ensinado a vida toda. Mas se Deus existia e ele era um instrumento de sua criação, por que sempre lhe permitia falhar? Por que sempre deixava a culpa cair em seus ombros?
Em algum momento, entre seus surtos de culpa e choro, ele adormeceu. A consciência ainda ia e vinha e ele não soube dizer quantos dias exatamente passou na enfermaria, até se sentir completamente dentro de seu corpo. Todo sono era conturbado. Cheio de memórias distorcidas e pesadelos onde o mutilador noturno vencia, absorvia sua consciência por completo e destruía tudo que Jasper tinha tentado salvar.
No dia que acordou por definitivo e Marcela o liberou, os pensamentos ainda pesavam demais, os sentimentos mais ainda e seu corpo ainda parecia parcialmente desconectado do mundo. Os sons ainda pareciam abafados, a visão ainda era embaçada e as comidas ainda pareciam não ter gosto.
Rever Remi e Lena foi mais um turbilhão de emoções. Os abraços foram os mais apertados de sua vida e nunca tantos “me desculpe” foram trocados em uma única conversa. Remi se culpava pela morte dele e de Maria, Lena se culpava por ter atirado nele e Jasper se culpava por ter caído.
A chegada de Tuco na conversa tornou tudo mais leve. Seu carinho paternal absolvia a culpa de todos, sendo racional e falando como eles fizeram seu máximo e que não há como mudar o passado. Tudo isso temperado por seu humor caótico e ofertas de paçoca que Jasper se perguntava como ele havia conseguido tão rápido.
O enterro de Maria foi uma cena densa e emocional para os poucos que compareceram. Remi chorava compulsivamente agarrado ao ombro de Jasper que tentava consolar o amigo tanto quanto podia tentando não desmoronar junto.
A reunião para colocar todos a par dos resultados da missão foi igualmente pesada. Agatha, Arthur e Dante não pareciam nem um pouco felizes com a decisão deles de terem entrado no portal para o hexatombe ao invés de apenas terem coletado informações e voltado, como planejado.
Apesar disso, ouviram atentamente cada informação, especialmente as que eram sobre o sino, que aparentemente era um dos sinos de Tenebris. Ainda com todas aquelas informações densas o cercando, foi um alívio ouvir de Remi e Lena como eles tinham conseguido interromper o Hexatombe e saído vivos, junto a Pomba, Eloy, Henri e Giovanni, o último estando trancado em uma das celas da ordem.
Henri também quase fora trancado, mas após muitos interrogatórios e a compaixão de Dante, os novos Veríssimos, decidiram dar a ele uma chance de reabilitação desde que prestasse serviços para a ordem. Henri pareceu contrariado no começo, mas dada a alternativa de ser trancado em uma cela, aceitou.
No dia seguinte, Jasper cismou em ir revirar o acampamento Lua da Bem Querença, dizendo que com a consciência dos Mascarados absorvidas neles, talvez achassem mais informações. Remi parecia contrariado em sair da base tão cedo, mas nunca negava mostrar serviço e Lena e Tuco tinham ficado estranhamento superprotetores da nova equipe que tinham formado.
A viagem para o Paraná foi rápida, durou apenas dois dias mas de fato, tinha rendido novos sentidos para as lembranças que tinham e documentos e objetos que antes pareciam não ter importância foram ressignificados e levados a ordem.
Nesse meio tempo, Jasper passou pela cabana que Aguiar ficava e encontrou Princesa, a rotweiller de Aguiar, magra e aparentemente muito mal, deitada na porta da cabana, chorando como se esperasse a volta do assassino. Ele não tinha compaixão pelo mutilador, mas por animais era inevitável. Era um ponto fraco dele, assim como era um de Aguiar.
E ele lembrava lucidamente, como se fosse um sentimento dele próprio o quanto Aguiar amava suas cachorras. Ele lembrava do sentimento de luto por Belinha e o quanto ele sentia que Princesa era a última coisa que havia restado para ele. Era o único ser que verdadeiramente importava para Aguiar.
Então, como um tributo de agradecimento, pelas vezes que a força do assassino o protegeu enquanto ainda estava em seu corpo, Jasper decidiu levar Princesa com ele. Ao se aproximar, ouviu muitos rosnados e a cachorra tentou atacá-lo, mas ela mal tinha forças para atacar naquele estado e Jasper era um adestrador excelente. Pouco a pouco, ele conquistou a cadela que parecia lutar pela própria sobrevivência e estranhamente, parecia saber que seu dono original não voltaria.
A Equipe ficou desconfiada e contrariada com a decisão de Jasper, mas não tentaram convencê-lo do contrário. Ao voltar para a ordem, Mia recebeu Princesa junto a ele, e se ofereceu para ajudá-lo a treinar ela assim como Lupi, para que fosse em missões com ele, num papel investigativo e protetivo, ao invés de um cão de ataque como era criada por Aguiar.
Jasper sentiu pela primeira vez desde o começo daquela missão, uma ponta de esperança. Finalmente tinha companhias leais. Sua equipe e sua mais nova cachorra. Já fazia planos de ir no Pet Shop mais perto de seu apartamento comprar a ração mais cara e a guia mais colorida, quando o viu.
Seu mundo pareceu parar de girar por um instante. Pomba estava lá, na base da ordem. Parecia se encolher no próprio corpo, ainda deslocado, mas lia algum papel que estava na mesa a sua frente.
Jasper correu até ele e o abraçou. Ele mal conseguia expressar tudo o que estava sentindo. O quanto pensou que nunca mais fosse vê-lo, a culpa de não ter vingado sua família e não ter protegido ele até o fim, seus sentimentos reprimidos pelo garoto, a vontade de consertar tudo isso e nunca mais abandoná-lo.
Pomba por outro lado, parecia confuso. Ele não estava acostumado com aproximações físicas desde seus irmãos, fora Lena e ocasionalmente Eloy.
Antes que ele pudesse se perguntar no entanto quem era o garoto albino, uma sucessão de palavras emboladas foram ditas. “Pomba, me desculpa Pomba, eu não te protegi, não te vinguei, não cumpri minha promessa.”
Então, Pomba entendeu. A única pessoa que havia se importado tanto com ele além de Lena, era ele, Aguiar, ou melhor, Jasper. Era ele quem havia prometido essas coisas e era ele que nunca tinha voltado.
Pomba sentiu seu coração errar algumas batidas. Não conseguia acreditar que estava revendo ele. Que ele tinha sim, voltado. Que ele teria uma segunda chance em falar para o outro homem seus sentimentos e ele era ainda mais bonito em seu corpo original. Pomba sentiu o próprio corpo tremer ao retribuir o abraço.
“Jasper, para de falar bobagem! O que importa é que você tá aqui! Meu Deus… Me falaram que você tava vivo mas não parecia real sem te ver.”
Eles se separaram o suficiente para olhar nos olhos um do outro e o Azul de Jasper parecia hipnotizar os cor de Mel de Pomba e vice-versa. Sorrisos que continham mil palavras não ditas nasciam no rosto dos dois.
“Olha eu… Sei que não é o melhor lugar, nem o melhor momento, mas eu sinto que quase perdi essa chance pra sempre naquele inferno. Eu quero te conhecer melhor Pomba. Eu… sinto algo por ti desde que te vi. Esse lugar é uma bagunça e minha vida também, mas se você quiser sair comigo, seria uma honra…”
Pomba abriu e fechou a boca diversas vezes, surpreso. Não achava que seria correspondido. “Eu quero.”, respondeu sorrindo.
Não foi naquele dia, pois os Veríssimos requisitaram seu novo recruta, mas na noite seguinte, Jasper buscou Pomba e eles tiveram o primeiro de seus muitos encontros. Lena, que estava dividindo apartamento com o mais novo, o ameaçou em tom de brincadeira quando o viu, dizendo que sabia seus pontos fracos caso ele machucasse “seu filho”. Jasper riu, mas reconhecia o fundo de verdade na brincadeira da mulher.
O relacionamento de dois agentes da Ordo Realitas nunca seria fácil, sempre atravessado por missões perigosas e contratempos, mas eles fariam funcionar. Se passaram pelo inferno juntos, nada seria tão difícil assim.
