Work Text:
Silêncio.
Vazio.
Escuro.
Ele sabe muito bem quem é: Jasper. Esse é o seu nome. E a imensidão em que se encontra agora não passa disso – um vazio silencioso e escuro.
O batimento do próprio coração é frenético. O sangue que corre em suas veias é apenas isso – sangue. Não há para onde ir além disso. E por que haveria?
Nenhuma intenção o domina, a não ser a própria.
Nenhum badalo o atormenta, exceto o dos mortos.
Nenhum caixão à vista – a menos que em um futuro distante.
Há um formigamento nas mãos, consequência de um corpo dormente, ele sabe. É como se inúmeros insetos rastejassem sob a pele, picando até arder.
Jasper olha para baixo e vê a própria mão. Pálida – inevitavelmente pálida –, pois ele é albino; o sol jamais poderia ter marcado sua pele por tempo suficiente para lhe conceder qualquer traço de bronze. Ela parece estranha aos seus olhos: um pouco menor, mais suave, quase frágil. Nada ali lembra os anos de disciplina brutal, o peso repetido do machado, as palmas endurecidas e calejadas de um assassino moldado pelo treino incessante. O que vê agora é outra história gravada na carne, uma que não corresponde às memórias que ainda habitam seu corpo.
Jasper sabe muito bem quem é.
E essa pode ser a pior coisa que já o aconteceu.
Sua cabeça dói de forma infernal; talvez seja por isso que ele acorde sobressaltado quando um grito explode no ambiente, carregado de xingamentos.
“Onde ele está!? O que vocês fizeram com os outros!? Me responde, Gaspar!”
“Não complique desnecessariamente as coisas, Henri—”
Jasper só pode ter ouvido errado. Seus tímpanos ainda zumbem, insistentes, como se tivesse levado um tiro – o som distorcido, a dor latejante, a realidade chegando atrasada demais.
“Esse não é a porra do meu nome mais! Vou perguntar mais uma vez, é melhor você me responder, seu babaca metido a padre!”
“Lu—”
“Não! É Juan agora! Mas essa merda não importa!”
“Dante, temos que—”
“Eu estou dizendo, ele não é um problema.”
Jasper reconhece a voz antes mesmo de seu cérebro ligar completamente. Aquela cadência solta, quase divertida. A arrogância despreocupada de sempre.
Remi.
“Lena sabe do que estou dizendo. Né não, Lena?”
Ah.
Então é isso.
A memória vem sem pressa, fragmentada, mas cruelmente nítida: o estampido seco, a força súbita empurrando tudo para o vermelho.
Um tiro.
O tiro da Lena.
Certo… foi melhor assim. Pelo que consegue lembrar, o assassino já havia retomado o controle do corpo. Lena tê-lo matado foi um ato de misericórdia disfarçado de violência. Um fim limpo para algo que já estava perdido.
Pelo menos ele está aqui agora.
De volta ao próprio corpo.
A constatação, porém, não traz o alívio que deveria. Há um peso estranho nisso, uma pontada silenciosa que se instala no fundo do peito. Estar vivo – inteiro – parece menos uma vitória e mais uma concessão indesejada. Como se tivesse sido devolvido a algo que ele já havia começado a largar, arrancado de um descanso que, no fundo, parecia mais honesto.
“Vocês não sabem o que ele fez—”
Mais gritos ecoam pelo lugar – um claramente de dor, enquanto o outro soa como um brado de guerra. Animalesco. Cru. Completamente familiar.
Mesmo se seu… irmãozinho? Na verdade as coisas ainda estão embaralhadas demais para ter certeza. De qualquer forma, mesmo se Juan não tivesse gritado o próprio nome, Jasper ainda teria reconhecido aquele som em qualquer lugar.
O corpo reage antes da mente. Ele sente os músculos se retesarem, lutando para se erguer da maca, como se obedecessem a um comando antigo, automático. A dor protesta imediatamente, latejante, puxando-o de volta para o presente.
“Arthur!”, a voz preocupada de… Dante. Dante grita.
“Que porra, Juan! Me ajuda a te ajudar, caralho!”
“Juan, que droga! Eloy, segura isso aqui—”
O som de passos apressados ecoa, aumentando e diminuindo de intensidade, como se quem corresse não tivesse certeza de para onde ir, avançando e recuando no próprio impulso. Logo, outros passos se somam ao primeiro, descompassados, pesados – e junto deles, gritos atravessam o espaço, rasgando o ar com urgência.
“AGUIAR! AGUI—JASPER! Você tá aqui!? Responde!”
“Juan! Você sabe o que aconteceu lá—”
“Não, não, não! Tem que haver uma chance!”
A correria cessa de repente – Jasper não sabe dizer se por pura desistência ou porque alguém finalmente conseguiu segurar Juan. O silêncio que se segue é curto, tenso demais para durar.
“Gaspar, só me responde e, talvez, eu não mate todos vocês quando sair daqui”, Juan continua, adotando um tom enjoativamente doce, que não combina em nada com a rouquidão arranhada na voz.
“Eu não sei como isso é da sua conta”, Dante rebate, a irritação transbordando. “Você não disse palavra alguma o caminho todo! O que dá para imaginar é o tamanho das mentiras que você contou para estar agindo assim na frente deles, agora que finalmente acordaram!”
“Dante, eu não acho…”
“Calma lá, não precisa insinuar nada do tipo também.”
“Eu não sei bem do que vocês estão falando, mas o Henri é foda demais! Ajudou todos nós naquele inferno! O Juninho sabe mais sobre isso, fala aí, garoto.”
“Eu… é…”
“Meio que vocês deveriam estar indo presos também…”
“Arthur!? Que porra, não! O Pomba é só um menino! E o Eloy não tem culpa de nada! Ele foi jogado lá dentro por causa da piranha da ex-baixista da banda dele!”
“Kemi, não precisa—”
“Calem a boca!”, Juan grita, a voz cortando o ar. “Me responda, Gaspar! O Jasper, ele…” Juan vacila. A frase morre no meio e o silêncio que se instala é abrupto, quase reverente. “Ele conseguiu?”, continua, mais baixo agora. “Ele voltou para o corpo dele?”
Jasper finalmente se afasta da enfermeira. Cada movimento exige mais esforço do que deveria, mas ele ainda assim caminha até a porta e se ancora ali, usando o batente como apoio. A dor pulsa, o mundo ainda gira um pouco fora de eixo, mas o momento pede presença.
Ele ergue o olhar na direção deles e diz, a voz seca, porém firme: “Por que você não pergunta para ele?”
Imediatamente, sete cabeças se viram em sua direção. Jasper finge não se surpreender com a intensidade das reações – a emoção crua que atravessa os rostos de Lena e Remi, dor e alívio se misturando de um jeito quase difícil de sustentar.
Mas de um único olho, o cego, não brota nada além de raiva. O rosto se contorce e um rosnado escapa antes mesmo das palavras: “Quem é você, porra? Não se mete nisso—”
“Juan”, Jasper diz, suspirando o nome com um cuidado quase doloroso. “Eu disse que ficaria tudo bem. Prometi cuidar de você. E… eu não sei se fiz um bom trabalho.” A voz falha. De forma vergonhosa, ele sente as lágrimas escorrerem, quentes demais para serem contidas. “Eu sei que não fiz”, admite, num fio de honestidade crua. “Me desculpa. Me desculpa, Henri. Me perdoa. Me perdoa por ter sido fraco. Me perdoa por qualquer coisa que aconteceu depois que eu morri. Me perdoa… por favor—”
Antes que consiga continuar, o cheiro forte de sangue o atinge em cheio, sufocante, absoluto. E mesmo não sendo mais um predador, mesmo tentando se convencer de que aquela parte ficou para trás, o odor o domina de um jeito antigo demais – tão familiar que Jasper tem certeza de que poderia rastreá-lo em qualquer lugar, a qualquer hora.
Braços o envolvem de repente, firmes, desesperados. A única mão se agarra às suas costas como se soltá-lo fosse impensável, como se aquele contato fosse a única coisa mantendo o mundo inteiro no lugar.
Há muito tempo Jasper percebeu que Juan era um chorão. Um chorão completo. Do tipo que soluça alto, com o corpo inteiro tremendo, como se cada respiração fosse um esforço. Nada disso é diferente agora, enquanto ele se agarra a Jasper, puxando-o para perto demais, enterrando o rosto em seu pescoço como se precisasse se esconder ali para continuar existindo.
Jasper sai do transe e o aperta contra si, envolvendo-o num abraço firme, obrigando Juan a se inclinar um pouco para caber ali, para ser sustentado.
“Jasper, eu pensei… eu p-pensei que—”
“Tá tudo bem. Tá tudo bem, Hen—Juan”, Jasper interrompe, a voz grave, urgente. “Eu tô aqui, porra. Eu vou cuidar de você. Eu prometi, não é? Eu prometi. Desculpa por ter te deixado. Me desculpa—”
“Para com esse chororô!” Juan explode de repente, a voz falhando junto com a raiva. Ele dá um soco no ombro de Jasper, mas não forte o bastante para machucar. “Se não fosse por você, a gente já estaria morto há muito tempo!” A raiva se esvai tão rápido quanto veio. “Pensei que tinha te perdido…”, ele murmura, ainda fungando, a mão se recusando a soltar completamente a camisa de Jasper.
“Eu vou te compensar, prometo. Mas deixa eu…” Jasper se afasta um pouco, desfazendo o abraço apenas o suficiente para segurar Juan pelos ombros, apertando-os com firmeza, como se precisasse ter certeza de que ele estava mesmo ali. “Não… não mudou muita coisa, né? Eu ainda sou mais alto.” Ele ri baixo, quase incrédulo, enquanto observa de perto o olho esbranquiçado e o vazio onde deveria haver o outro.
“O que…” Juan treme, a voz falhando, as lágrimas de sangue ainda escorrendo sem controle.
Jasper sobe as mãos devagar, deslizando pelos braços até alcançar o rosto dele: “Finalmente…” Ele o segura com cuidado e força o mesmo tempo, acariciando as bochechas de Juan com os polegares antes de firmar o toque, os indicadores atrás das orelhas, mantendo-o ali, presente. “Finalmente posso te tocar com as minhas próprias mãos”, sussurra, os olhos completamente marejados.
Aquilo quebra Juan de vez. Os lábios dele tremem, mais lágrimas se acumulam no único olho, a voz se partindo: “Jasper…”, ele chora, prolongando o nome enquanto volta a enterrar o rosto em seu pescoço, soluçando abertamente.
“Juan”, Jasper responde, apertando-o contra si com intenção, como se nunca mais fosse soltar. “Eu vou ser melhor. Eu prometo. E-Eu vou ser melhor. Não vou te deixar. Eu vou continuar cuidando de você.” Ele enterra o nariz no cabelo de Juan, sem se importar com as condições ao redor, deixando que todo o sentimento simplesmente exista ali, inteiro e incontido.
Jasper sabe muito bem quem é.
E essa pode ser a melhor coisa que já o aconteceu.
