Work Text:
— Dói, doí, dói, dói, dói — Dalmo cantava e batucava enquanto jogava os escombros pela janela. — acompanha a batida, Labirinto!
Remi, perdido no Labirinto que escondia as memórias daquele corpo, conseguiu achar uma lembrança: ele sabia tocar.
Como se fosse algo natural, Labirinto batucou na mesa o ritmo da cantoria de Dalmo.
— É isso aí mesmo! Caralho, tu se garante, Careca! — O grande homem falou, impressionado com a habilidade do colega, que continuava batucando na madeira.
— Dói, dói, dói, dói, dói. Um amor faz sofrer. Dois amor, faz chorar. — Dalmo continuou cantando enquanto faxinava a casa recém habitada pela equipe.
Labirinto não reagiu, mas, perdido naquela mente, Remi sentiu a letra ressoar. Não como lembrança, como um presságio. Um mau presságio.
A grande igreja parecia ficar cada vez menor. Remi sentia como se o ar não fosse suficiente. O cheiro de sangue e morte invadia seu corpo. Sentia-se suprimido, sufocado, prestes a explodir.
Lena e Juan, choravam junto a ele, os três abraçados. Remi sentia que aquele choro não era tudo, ele tinha mais. Ele precisava soltar algo que ninguém poderia ver: sua fraqueza.
— Saiam — ele disse, a voz firme demais em meio ao choro. — Por favor. Eu preciso fazer uma última coisa.
— Você vai voltar? — Juan perguntou com a voz embargada. As lágrimas de sangue do sacrifício se misturavam com os restos líquidos de Haziel e Alvira que ainda manchavam seu rosto. — Remi, promete que você vai voltar.
— Eu vou voltar… — o mais alto olhou para os vários corpos mutilados — A gente precisa dar um jeito nisso, eles podem virar problema depois e isso só ia piorar tudo.
Lena soltou um dos braços que acolhia Juan e pousou a mão no ombro de Remi, fazendo o rosto tatuado olhar em seus olhos.
— Então vamo' queimar tudo? — A loira sugeriu, tentando acolher de alguma forma o amigo que estava claramente segurando gritos de dor.
Remi respirou fundo, líderes não podiam chorar.
— Eu vou explodir essa porra. Me esperem lá fora. Eu preciso fazer isso sozinho.
Ninguém discutiu. Lena puxou Eloy pelo braço. Juan hesitou, mas compreendeu logo quando olhou os olhos do amigo. Ele estava se segurando. A porta pesada rangeu ao abrir, deixando uma corrente de ar frio da noite. Remi não virou para ver quando a porta se fechou. Não precisava.
O silêncio era desolador, lembrando o ocultista de que ele era o único vivo ali dentro. Só aí seu corpo pareceu entender o que a mente gritava.
Remi sentiu suas pernas fraquejarem. Seu peito ficou pesado de mais. Seus olhos procuraram, mas não encontraram seu par.
O corpo de Jae estava incompleto.
Haziel não deixara muito. O tronco ainda vestia as roupas rasgadas, encharcadas, o tecido escuro colado à pele como uma camada inútil, o capuz banhado em sangue. Onde deveria haver um rosto, havia apenas carne destruída, ossos expostos, algo irreconhecível. Mesmo assim, Remi podia ver em detalhes as partes que faltavam daquele rosto que Maria o tinha feito amar.
Ele caiu de joelhos ao lado dela, o impacto ecoando pelo espaço vazio.
— Eu odeio quando não fazem o que eu mando — disse, e a frase saiu torta, quebrada no meio de um soluço que ele não conseguiu segurar.
Seus dedos tremiam quando tocaram o ombro de Maria. Ainda estava morno. Se eu tivesse feito outra escolha… Esse detalhe o atravessou como um erro imperdoável, mesmo sabendo que tinha garantido um futuro para Lana, não podia deixar de se sentir falho. Ele puxou o corpo com cuidado — cuidado demais para alguém que tinha espancado aquele corpo contra uma parede, com toda a força. — e apoiou a própria cabeça no ombro ensanguentado de Jae, sujando suas vestes, o pescoço e seu rosto.
Por um instante, fechou os olhos.
Lembrou da risada. Do sarcasmo ácido. Da forma como Maria nunca abaixava a cabeça, nem para ele. Do jeito que dizia “talvez a gente seja igualmente desprezível” como se fosse um voto, não uma acusação. Eles eram podres de um jeito que só eles se entendiam
— Me desculpa… — murmurou, sabendo que era inútil. Sabendo que era tarde. — Eu… achei que ia dar um jeito.
— Minha flor mais linda, seus espinhos venenosos só deixam você mais bonita pra mim. — A voz trêmula tentava criar uma melodia, mas falhava. — Eu vou escrever uma música 'pra você, meu amor.
"Um amor faz sofrer"
Arrastou-se pelo chão, ainda abraçado ao que restava de Maria, até o outro corpo caído alguns metros adiante.
Jasper.
Estava de costas, o corpo grande estendido de forma estranhamente calma, como se tivesse simplesmente se deitado. Um buraco limpo na testa. Sem resistência. Sem luta final. O sangue formava uma poça escura sob a cabeça, já esfriando.
Os cacos da máscara do Mutilador Noturno estavam banhados na poça de sangue.
Remi soltou Maria com dificuldade, como se seus braços se recusassem a aceitar a separação, e virou Jasper com cuidado. Demasiado cuidado.
— Não… — sussurrou, a palavra pequena demais para o que sentia. — Era pra ter sido diferente…
"Dois amor faz chorar"
Caiu em lágrimas mais uma vez. Dessa vez, tudo aquilo que Remi reprimia pareceu ser vomitado em lágrimas. Seus olhos ardiam. Seu corpo desidratado devia estar tirando água de algum órgão vital, porque aquele choro doía muito.
Colocou o corpo no próprio colo. Ironicamente, Jasper parecia leve demais agora. O peso de tudo que ele carregava silente parecia ter saído daquele corpo. Culpa, medo, amor. Tudo em silêncio.
Tudo aquilo que Remi agora carregava em si, gritando.
Remi passou os dedos pelos cabelos da nuca de Jasper, ainda macios, ainda reais. O calor ali era diferente. Mais frágil. Um lembrete cruel de que ele chegara segundos tarde demais. Ele deixou uma brecha, e erros passaram por ela.
Mais uma vez, erros com consequências irreversíveis marcavam a vida de Remi. Remorso. Era tudo o que ele podia sentir.
Os braços marcados com labirintos abraçaram os corpos levemente mornos. Um, puxou Jae com dificuldade, colocando-a sentada ao seu lado, encostada na pilastra manchada. O outro, tentou levantar um pouco o grande corpo de Aguiar, posicionando a cabeça em seu peito, como pode.
Remi descansou a cabeça no peito de Jae.
Silêncio. Aquele coração já não batia e não bateria nunca mais.
— Eu vou fazer isso por vocês — disse, a voz baixa, quase como uma súplica . — Eu vim aqui pra mudar. Eu vou ser melhor por vocês.
Beijou a face de Jasper —devolvendo tardiamente o último gesto de carinho dado durante a batalha — sentindo o gosto salgado do sangue misturado às próprias lágrimas. Depois, com uma delicadeza quase ritualística, fechou seus olhos. Como se visse Jasper dormir ao seu lado, uma última vez.
" Você vai conhecer o amor lá fora, eu prometo." lembrava das palavras de Lana.
Ele agarrou a mão agora fria de Jae e beijou os nós dos dedos. Enxugou as próprias lágrimas com as digitais do coreano, como Maria fazia.
— Eu vou aprender a amar. Eu vou voltar a sorrir e eu vou viver por vocês. Isso é uma promessa.
Ficou ali por alguns minutos, que pareceram séculos. Abraçado aos cadáveres ensanguentados dos seus amores enquanto se desculpava repetidas vezes. Mesmo todo torto, aquela posição desajeitada parecia ser o lugar mais confortável para a dor de Remi.
Quando finalmente se levantou, seus joelhos protestaram, o corpo inteiro pesado de exaustão e culpa. Vestiu o casaco de Maria — ainda quente, ainda impregnado do cheiro dela — e pegou o machado de Jasper do chão. Aqueles itens podiam ter sido de Jae e Aguiar antes, mas agora carregavam a história de agentes da Ordem, dos seus Maria e Jasper.
Ele vestiu a máscara de Labirinto. Mas dessa vez ele, estava no controle.
O ritual veio fácil demais. Não era ele, era Labirinto. Remi resistiu.
— Eu que mando nesse corpo.
O ocultista fez o símbolo ele mesmo. Desajeitado e torto, mas do seu jeito.
As paredes começaram a rachar. A madeira dos bancos estalou. As imagens dos santos escureceram, apodrecendo de dentro para fora, como se nunca tivessem sido sagradas de verdade.
Remi não olhou para trás.
Fechou a porta.
Ele não se sentiu aliviado. Seu vazio agora era preenchido por dor. Ele consumia todas as memórias daquele lugar. Toda a dor.
"Vencer sem Maria dói."
"Viver sem Jasper dói."
"Lutar sem Tuco dói."
"Decepcionar Juan e Lena dói."
"Falhar de novo dói."
Remi era um líder. Ele podia sofrer, mas não podia chorar. Seus olhos precisam ficar abertos.
Desceu a colina com passos firmes, o rosto limpo, a postura recomposta. Ele estalou os dedos. Atrás dele, a igreja cedeu, desmoronando e as lamparinas explodiram, queimando tudo.
Sempre há espaço pra erro e, por isso, seus olhos precisam estar sempre abertos.
