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Acordar com um teto branco não era bem o que Remi esperava. Era assustador, no mínimo. Seu corpo estava pesado, dolorido e cansado, mas nada pior do que sua mente. Ela parecia derreter, flashbacks e sentimentos iam e vinham rápido demais, sequer um pensamento podia ser elaborado. Então, ele desmaiou.
A segunda vez que acordou, Remi se sentiu anestesiado. Seus olhos encaravam o branco imaculado com estranheza, tinha tantas perguntas. Tanto para organizar na sua cabeça.
— Remi? — Uma voz masculina o chamou.
Seus olhos vagaram para o lado, seu rosto afundando no travesseiro fofo. O que estava acontecendo?
Um homem loiro com tatuagem na testa o encarava com expectativa, Remi sente que o conhece. É difícil falar, então ele apenas grunhe e espera que seja suficiente.
— Suas memórias devem estar confusas e você se sentindo péssimo, mas logo vai melhorar. Pelo menos foi assim com os outros.
Remi encarou, nenhuma lembrança parecia fazer sentido.
— Onde… estou…?
— Na enfermaria da Ordem. Você esteve dormindo por três dias desde que voltou — respondeu o loiro.
Ordem? Ah sim, é onde ele trabalha. Então ele voltou de uma missão? Qual? E por quê ele estava acamado? Tinha cumprido sua missão? Mas o que ele teria ido fazer, por que sua cabeça tinha tantas memórias esquisitas… tantos labirintos…
— Você impediu o Hexatombe — Sentiu uma mão no seu ombro — A missão foi um sucesso. Você vai se lembrar eventualmente, não force demais. Irei avisar que você acordou e retorno mais tarde.
Assim o homem se virou e se foi, deixando Remi digerir sua realidade lentamente.
๑
E de fato ele se lembrou, a enxurrada de memórias, agora claras e coesas, deixavam Remi sem fôlego. Ele voltou ao seu antigo corpo. As lágrimas caiam incessantes pelas bochechas, o peito tomado pela dor de tantos, tantos sentimentos que o faziam agarrar a roupa de hospital com força, como se pudesse diminuir a dor de alguma forma.
Dever cumprido. Alívio. Sobreviver. Desespero. Angústia. Culpa. Medo.
Tudo era desenterrado do fundo da sua mente, apenas para soterra-lo. Remi sentia que não conseguia respirar. Não ouviu seus arredores, tampouco as duas pessoas se aproximando. Uma delas segurou seus ombros.
— Remi? REMI! — Chamava, a voz alta de urgência e preocupação — Preciso que você respire comigo! Vamos, conte comigo, por favor!
A pessoa o empurrava levemente para cima, permitindo que ele levantasse a cabeça para olha-la. Quando foi que Remi se sentou e encolheu daquela forma? Estava tudo sendo rápido demais, tudo foi rápido demais.
O sangue, muito sangue… A face sem rosto, sem o sorriso que aprendeu a amar. Os olhos, aqueles olhos tão puros que olhavam para ele com tanto carinho e confiança, agora sem brilho. Sem vida. O cheiro pútrido da morte e do sangue… tanto sangue… Tanto esforço, tanta culpa, tanto… fracasso. Remi era um fracasso e um mentiroso, não era?
Como alguém poderia dizer ser tão bom se sequer conseguiu prote-
— …EMI! Remi por favor me escuta — A voz desesperada agora conseguiu atravessar o espiral de pânico — Você está bem e seguro, preciso que respire.
Com muito esforço, Remi inspirava pequenas doses de ar, focado na voz que o ajudava a criar um ritmo. Em alguns minutos sua respiração acalmou, o corpo pesando o suficiente para que se deitasse de novo.
Mais calmo, Remi encarava quem o ajudou, este que agora segurava sua mão entre as dele, apertado para que a sensação de que estava ali como apoio não fosse esquecida. Ele não o reconheceu. Com cabelos brancos e um rosto cansado, os olhos de um azul profundo o encaravam com carinho e preocupação, e um toque de expectativa.
— Remi? Labi-
— Sou eu, Remi — cortou com desgosto, mas recebeu um suspiro de alívio.
— Você está bem? Você — hesitou — já se lembra? — A pessoa agora encarava as mãos unidas.
— Estou melhor, obrigado. Me lembro de tudo, quase tudo, eu acho.
Remi ainda encarava, os olhos semicerrados, analisava o que podia no rosto e gesto do outro, qualquer pista para descobrir quem quer que fosse aquela pessoa. Então ela o encarou novamente, e ao invés de desconforto, Remi se sentiu… em casa?
Nós vamos sair dessa juntos, somos uma família.
Não, não poderia ser. Ele está morto. Céus. Remi ainda se lembra das emoções dele. Tão vívidas como se fossem suas. Mas aqueles olhos depositavam uma confiança que Remi jamais tinha visto em nenhuma outra pessoa, pelo menos nunca para ele. Bom, exceto…
— Jasper? — sussurrou.
Os belos olhos azuis se arregalaram por uma fração de segundos, e então simplesmente brilharam para ele. A expressão de Jasper desabava enquanto ele tentava segurar o choro, sem sucesso. A cabeça balançou, concordando.
Tirando sua mão dentre as de Jasper e levando ao peito, Remi parecia incrédulo. O toque agora queimava e fazia sua mão formigar, mas lentamente Remi tocou a lateral da cabeça de Jasper, o polegar mal roçando a bochecha. Como se tocá-lo o fizesse desaparecer, mas o outro se inclinou ao toque. Jasper era real.
— Como?
— Depois que eu… Depois que eu morri, eu voltei pro meu corpo, dá para acreditar? — Jasper chorava, mas tinha um sorriso bonito no rosto.
Remi puxou para que suas testas encostassem, como de costume. Ele não acreditava em milagres, só que porra! não tinha como alguém como ele ser tão abençoado assim.
— Você está vivo — chorou — Você tá aqui de novo — repetia, como se falar várias vezes o convencesse que era tudo real.
— E você sobreviveu. Vocês impediram aquela merda e voltaram vivos. Pomba e Eloy estão a salvo graças a vocês. — A mão de Jasper procurou os cabelos de Remi num carinho terno. Agora ele tinha cabelo de novo!
— Espera, e os outros? Também voltaram para seus corpos? — Remi se afastou para poder olhá-lo nos olhos.
— A Lena e o Tuco também voltaram — Quando Remi o olhou com expectativa, Jasper desviou o olhar, seu sorriso indo embora para deixar uma expressão de dor no lugar — A Ma… — soluçou — Maria foi o caixão que abrimos antes da hora. Me desculpe, Remi, eu não fui forte o suficiente para protegê-lo do Raziel, nem para vingá-lo.
Soltando seus cabelos, Jasper se afastou mais, o rosto manchado das lágrimas, os braços pendendo ao lado do corpo e as mãos em punho, mas Remi não tirou os olhos dele. Ambos remoíam o passado que não poderiam mudar.
— Não foi sua culpa. Era minha obrigação proteger vocês. Droga Jasper — Remi suspirou — Eu também não consegui te salvar. Eu absorvi suas intenções, as senti como se fossem minhas e, porra, você não merecia sentir aquilo, não merece. Não é sua culpa!
— Pare — Jasper soluçou — Pare, Remi. Eu disse que morreria por vocês e aqui estou eu, vivo e bem! E você não precisa carregar esse fardo. Minhas dores e culpas são minha responsabilidade.
— MAS EU QUERO — A mão gesticulava com raiva, apontando para o nada — E eu vou. Porquê você é importante pra mim e, se eu tive essa oportunidade de saber como você se sente, de compartilhar suas dores, mesmo que uma parte, vou garantir que eu não me esqueça delas. — Remi não conseguia enxergar com as lágrimas que transbordavam sem parar — E garantir que você nunca mais vá se sentir assim, você me entendeu, Jasper?
Aquele quinto dia de Hexatombe foi sua virada de chave. Tudo o que experienciou nos outros dias, culminaram naquela decisão. Seria uma pessoa melhor, por eles. Por ele, cuja alma era tão bela e pura aos olhos de Remi. Aprenderia o que é amor para que pudesse retribuir para aqueles que lhe entregaram os deles tão facilmente a alguém que era tão desprezível.
Tocar a alma de Jasper foi como voar com as asas de Ícaro. Como se visualizasse horizontes novos, que nunca veria grudado no chão. Se sentia tão aquecido sob o Sol que era Jasper. Mas uma pessoa como ele não era digno de tocar o Sol. E diferente de Ícaro, ele não destruiria suas asas sendo ganancioso em busca do Sol.
Um par de braços o envolveram com força, a cabeça de Jasper apoiada nos seus ombros, permitindo que sentisse suas lágrimas ali.
— Se você sentiu, sabe que eu estava orgulhoso também. E feliz.
— Não era o suficiente. Você sabe que sou um merdinha egoísta e ganancioso. Não me contento com tão pouco.
Os dois riram, um som engraçado misturado com o choro. Remi retribuiu o abraço com a mesma força.
— Estou feliz que você sobreviveu — Jasper sussurrou.
— E eu tô feliz que você voltou — Para mim, Remi completou mentalmente, se afastou e segurou Jasper pelos ombros — Saiba que está proibido de ficar afastado de mim, é uma ordem, ouviu? — Ok, talvez ele ainda seria um pouquinho egoísta.
— Depois eu que sou o viado, fala sério — A outra pessoa que até agora não havia se manifestado, se fez presente — A gente nem era pra tar aqui, o Ga- Dante proibiu de visitarmos até que ele recebesse alta!
Os dois se soltaram e encararam Juan, deitado pleno em uma maca vizinha.
— O quê? Estou feliz por nós e tudo mais, mas… — Rolou os olhos.
— Vem aqui seu idiota — Remi se permitiu rir, com os braços abertos.
Juan não perdeu tempo em abraçar, nem Jasper se permitiu ficar de fora. E se os três estivessem se esmagando enquanto choravam e riam, quem poderia culpá-los?
Estar vivo era maravilhoso.
Mas por dentro, Remi decidiu que nunca mais voaria de novo.
