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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-12-22
Updated:
2025-12-22
Words:
4,042
Chapters:
1/2
Kudos:
14
Hits:
87

Coração de Chiclete

Summary:

Kyungsoo é um ômega recessivo que cresceu ouvindo que nunca seria suficiente. Após romper com a família, passa a trabalhar em uma pequena sorveteria, onde os aromas doces ajudam a esconder quem realmente é. Para o mundo, ele é apenas um beta discreto atrás do balcão.
Até o dia em que um alfa entra pela porta e insiste em provar todos os sabores, um após o outro, frustrado por não encontrar aquele que seu corpo reconhece. Um gosto que não está no cardápio, mas que paira no ar sempre que Kyungsoo se aproxima, com uma expressão de desgosto e o bloco de notas em mãos.

Notes:

Olá!! Tudo bem?
Vamos lá, a minha kaisoolet-barra-amiga secreta é a Dana (@boxianstars) e ela tem gostos muito parecidos com o meu e eu fiquei bem feliz em preparar algo pra ela! Espero que goste (apesar de estar curtinho e rapidinho, mas prometo postar um extra).
O plot veio desse tweet: https://x.com/katvefe/status/2000050508338466892?s=20, na hora que eu li, soube que precisava escrever algo nessa pegada.
A capa fofíssima foi feita pela Milla (@webyixing), que é a mãe de todas nós kaisoolets e organizou o amigo secreto.
Dana, espero de coração que te agrade e peço desculpas se algo ficar fora do seu gosto. Só puxar a minha orelha que eu conserto.
Boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Limão siciliano, maracujá e abacaxi

Chapter Text

 

Kyungsoo guardou o celular no bolso da calça, ignorando completamente mais uma das ligações de sua mãe. Suspirou dramaticamente enquanto observava Baekhyun sentado no balcão da sorveteria. O ômega vinha ali todos os dias no horário de almoço, jogando o paletó sobre o encosto da cadeira e pedindo um milkshake de morango com muito chantilly. Ele dizia que era isso ou o bar no final da rua. 

— Te contei que voltei a me exercitar? — Baekhyun disse remexendo o canudo na taça ainda cheia. 

— Sim — respondeu, observando um casal de adolescentes em uma das mesas do fundo. — Na mesma academia que o Chanyeol frequenta? 

— Sim, mas isso não tem nada a ver com ele. Todo mundo que trabalha neste centro comercial malha lá — justificou encolhendo os ombros. 

— Assim como o fato de você vir aqui todo dia? — perguntou, arqueando uma sobrancelha grossa. — Você nem toma mais o milkshake e mesmo assim faz um biquinho triste quando o Chanyeol não está aqui para preparar do jeitinho de que você gosta. 

— Doh Kyungsoo! — resmungou, olhando para os lados em busca de um certo alfa, mesmo que hoje fosse dia do Chanyeol passar trancado no escritório do segundo andar. — Isso é uma acusação muito séria.  

— Me engana que eu gosto, Byun. — Soltou uma risadinha, afastando-se quando o sino tocou e duas crianças entraram na loja. 

Tinha começado a trabalhar na Cherry Magic há apenas três semanas e, mesmo assim, se via apegado à pequena sorveteria-barra-confeitaria-barra-loja de doces. Era um lugar de tamanho médio, com uma cozinha antiga, assim como tudo ali. Foi fundada há quase sessenta anos pelos avós de Chanyeol, que ficou com a missão de reestruturar o estabelecimento para os tempos modernos, mantendo, ainda assim, os ingredientes tradicionais nos sorvetes e guloseimas. 

A loja tinha um piso quadriculado preto e branco, cadeiras e mesas verdes menta e rosa pastel. O balcão seguia a mesma paleta, contando com duas vitrines: uma gelada com os sabores de sorvetes caseiros e outra com tortas, cookies e bolos produzidos por Minseok, o confeiteiro de confiança. Além de uma estante cheia de doces açúcarados o suficiente para deixar um dentista de cabelo em pé.  Parecia um paraíso em cores pastéis e muito açúcar adicionado. 

Chanyeol foi o tutor de Kyungsoo assim que entrou no curso de Administração. Como um veterano, ele se afeiçoou ao ódio de Kyungsoo pelas matérias e acabou iniciando uma amizade estranha que durou até mesmo após a sua  formatura. O Doh realmente detestava aquele curso e até hoje não conseguia entender como tinha conseguido chegar até a metade dele sem matar ninguém. Quando a pressão dos pais ficou insuportável, trancou o curso e começou Artes, o que foi suficiente para romper a harmonia familiar que andava em corda bamba.

Além das ameaças de ser deserdado por ter mudado de curso, eles insistiam que Kyungsoo deveria conhecer um alfa, filho de grandes e antigos amigos, e que, com certeza, não se importariam com o seu probleminha. Kyungsoo era um ômega recessivo, o que deixava os pais insatisfeitos, já que Seungsoo era um exemplo de alfa: casado, com um filho a caminho e trilhando os passos do pai no mercado financeiro. 

Enquanto isso, Kyungsoo, que por muito tempo foi visto como beta, teve uma revelação tardia pouco antes de entrar na universidade. Um diagnóstico de problemas hormonais e de segundo gênero recessivo. Ou seja, ele era um ômega com feromônios fracos, cios irregulares e um corpo que mais o desobedecia do que tudo. Não suportava perguntas indecorosas e muito menos a pressão que exerciam para que se enquadrasse nos padrões. Tudo o que queria era pintar alguns quadros e ensinar arte gótica em escolas. 

Atendeu aos dois pré-adolescentes, que escolheram alguns doces que embalou em um papel fofo de cor azul-claro.  Depois de receber o dinheiro contado, voltou para o seu posto atrás do balcão principal, sentindo o celular vibrar mais uma vez contra o bolso. Baekhyun estava se levantando da cadeira enquanto vestia o paletó novamente; se não estava enganado, ele era um desses advogados que defendiam figurões políticos. 

— Já vai? 

— Deu o meu horário — disse, encarando o relógio no pulso. — Uma pena que não consegui ver o Chanyeol hoje. 

— Amanhã ele vai ficar o dia inteirinho na loja, quem sabe você não tem mais sorte? 

— Sem gorjeta para você hoje, Kyungsoo. 

Deu uma risadinha debochada, caminhando com a bandeja cheia de louça que tinha recolhido antes para dentro da cozinha. Não ficou até Baekhyun passar pelas portas duplas, mas sabia que ele tinha deixado algumas notas extras sobre o balcão. 

Quando chegou na cozinha, encontrou Minseok sovando uma quantidade enorme de massa sobre a mesa de inox. Ele parecia concentrado, então apenas colocou a louça suja para ser tratada por Nayeon, que não deveria demorar para voltar do almoço. Como estava sozinho na loja, roubou um chocolate picado da bancada de Minseok, passando correndo pela porta. 

— Kyungsoo, não vou ser mais  modelo para as suas pinturas.

— Te amo, Min. 

Voltou para o seu lugar atrás do balcão bem a tempo do próximo cliente entrar, ajeitando a boina cor-de-rosa que fazia parte do uniforme. Aquele lugar nunca ficava vazio por muito tempo. A porta se abriu com o tilintar suave do sino preso acima dela, deixando entrar uma lufada de ar junto com um homem alto, que estava concentrado para equilibrar o celular em uma das mãos e as pastas debaixo do braço. Kyungsoo ergueu o olhar por reflexo, ainda com um pedaço de chocolate roubado entre os dedos, e sentiu o estômago revirar em resposta à aparência do desconhecido. Não era incomum pessoas bonitas frequentarem o estabelecimento, mas aquele alfa —  tinha que ser um pela presença —  era mais do que estava acostumado. 

Ele era lindo. Mas não aqueles lindos que se veem na televisão. Lindo de morrer. Apolíneo.  Tinha a altura perfeita, com a pele beijada pelo sol, que bronzeamento artificial nenhum conseguiria copiar. Sem falar no rosto esculpido pelos deuses, com uma mandíbula angulosa e marcada, explodindo em viralidade, assim como os olhos pequenos e escuros que transmitiam ferocidade. O nariz reto e masculino com os óculos de armação fina empoleirados e os lábios carnudos esticados em um sorriso simpático faziam o rosto de Kyungsoo esquentar.

 

O homem vestia uma blusa de botões na cor amarelo-claro, amassada, calça jeans e o cabelo castanho levemente bagunçado, como se tivesse passado as mãos por ele várias vezes antes de entrar. Havia algo distraído em sua postura e, mesmo assim, seus olhos percorreram o ambiente com atenção demais. Aumentando o sorriso pequeno enquanto guardava o celular no bolso da calça.

 

— Boa tarde, posso ajudar? — Kyungsoo perguntou, remexendo-se no local e desejando captar mais do cheiro quente do alfa. 

— Uau, aqui tem muita coisa, fui praticamente fisgado pelo cheiro enquanto passava pela calçada. O que você me recomenda? — A voz melodiosa ressoou pelo ambiente quando ele se aproximou, segurando as pastas com força. 

Kyungsoo forçou o cérebro a entrar na configuração de atendimento ao cliente e não dar pane pelo perfume de canela que vinha do outro homem. 

— Como hoje está um dia mais quente, recomendo um dos nossos sorvetes artesanais. 

O desconhecido parou por um instante com as sobrancelhas franzidas, as narinas dilatando-se levemente enquanto passeava os olhos pelo balcão, lendo as plaquinhas de sabores disponíveis. Fez o mesmo com os dos doces, torcendo o rosto em desgosto. Talvez ele não fosse o maior fã de doces. 

— Recomenda algum sabor? — pediu aparentando estar confuso. 

— O de pistache está saindo muito.

— Nossa, os meus  alunos estão viciados nisso. — Ele respondeu balançando a cabeça com a mesma expressão de desgosto. 

— Sendo sincero, não acho isso tudo — Kyungsoo deu uma risadinha, mordendo o lábio inferior. — Que tal o clássico: chocolate? 

— Pode ser — disse, concordando com a cabeça, o que fez uma das suas pastas caírem. — Esses papéis ainda vão me enlouquecer!

Kyungsoo riu do homem atrapalhado, se preparando para montar o sorvete depois de higienizar as mãos. 

—  Apenas chocolate? 

—  Sim —  murmurou, se abaixando para pegar os papéis que escaparam. 

Kyungsoo tinha sido treinado pacientemente por Nayeon para fazer bolas de sorvete perfeitas. Depois de encher a tigela, foi para a seção de calda e confeitos. 

— Calda? 

—  Assim está perfeito — falou, observando com a mesma expressão confusa a vitrine de sorvetes. 

Kyungsoo segurou a tigela quando percebeu que o homem agora estava com as duas mãos ocupadas com a sua papelada. 

— Se quiser, eu levo para você em uma das mesas. 

Assentindo, o estranho foi para uma das mesas, depositando o seu material com um baque surdo e sentando com um suspiro longo, retirando os óculos. Kyungsoo colocou o sorvete simples em uma bandeja, caminhando com passos calmos até o desconhecido. Deixou com calma sobre a mesa, tomando cuidado para não acabar esbarrando nos papéis. 

— Ajudo em algo mais? 

— Se precisar, eu te chamo —  parou, por um momento, lendo o crachá —  Kyungsoo. 

Kyungsoo quis derreter com o seu nome na voz do desconhecido, mas manteve a expressão neutra saindo com passos firmes para atender o cliente que olhava para a estante de doces. Gostaria de ficar até o momento de pagamento para que pudesse perguntar o nome dele, mas em seguida Nayeon retornou do almoço, obrigando-o a ir fazer o próprio intervalo. Dedicou um último olhar para o estranho que comia sorvete com uma expressão insatisfeita. Vai que ele não é o maior fã de chocolate. 

─── ⋆⋅☆⋅⋆ ──

Jongin saiu da sorveteria com a sensação de que estava perdendo algo. E não era um dos trabalhos de seus alunos que deixou cair. Terminou o sorvete de chocolate mesmo que tivesse um cheiro diferente do que azucrinava os seus sentidos. O perfume que o atraiu não se parecia com o açúcar queimado dos doces ou com os morangos que decoravam uma torta grande na vitrine e nem com a baunilha artificial dos sorvetes. Era cítrico, com uma doçura sutil quase efervescente que fazia a sua boca salivar, implorando para provar o que quer que fosse. Leu cada um dos nomes dos sorvetes em busca de algo cítrico o suficiente e quase pediu ao atendente para provar o de limão siciliano, mesmo que soubesse que esse não era o aroma que sentia. 

 

E o atendente era estranhamente adorável. Kyungsoo tinha um rosto bonito com lábios grossos que poderia jurar que formaram um coração quando ele sorriu para a colega de trabalho, as bochechas macias que adoraria morder e encher de beijos. E tinha também os olhos grandes e expressivos, que pareciam duas poças de chocolate amargo derretido, que combinavam perfeitamente com o cabelo preto azeviche que escapava da boina rosa.

 

Tentava convencer-se de que estava apenas curioso com o cheiro da Cherry Magic e que o atendente, um beta fofo, não tinha nada a ver com isso. Em uma quarta-feira, passou pela porta da sorveteria que estava pouco movimentada, admirou Kyungsoo que estava atendendo com paciência a um senhor idoso. 

Estava curioso e movido pelo aroma levemente doce que fazia todos os seus instintos vibrarem. 

 

— Olá, Kyungsoo — disse, timidamente, segurando com mais força a alça da sacola que estava pesada com potes de tintas guache. 

— Ei! O que vai ser hoje? — perguntou com o sorriso de coração no rosto. 

Jongin respirou mais fundo. Kyungsoo estava do outro lado do balcão, batucando nervosamente o tampo da vitrine, ele tinha uma pose relaxada e os olhos arregalados observavam o cliente que tinha a mesma expressão confusa da primeira vez. Isso foi suficiente para os seus sentidos já confusos entrarem em polvorosa e para o alfa esquecer o que tinha ido fazer ali.

— Eu sou o Jongin. 

— Hum, prazer em te conhecer, Jongin — respondeu, sorrindo novamente e encarando o alfa esperando o pedido. 

— Quero um sabor cítrico — pediu, segurando a vontade de se inclinar para mais perto do atendente. 

— Que tal o de limão siciliano? — sugeriu, fitando o alfa desconcertado. 

Jongin apenas assentiu trocando a sacola de mão e esperando que Kyungsoo lhe entregasse o sorvete no potinho. Agarrou com expectativa de que aquele doce gelado fosse o responsável pelo cheiro que o atraía até aquele local. Mas no momento em que sentiu o sabor na língua, se frustrou.Muito azedo e nada parecido com o cheiro que sentia. Torceu o rosto em desgosto, deixando os ombros caírem.

— Acho que talvez você não goste de sorvete — brincou Kyungsoo. 

— Tem algum outro sabor cítrico? — perguntou descartando o restando do sorvete. 

— Temos maracujá. 

— Vou querer provar. 

E essa rotina se repetiu pelos próximos dias. Jongin sempre ia até Cherry Magic em busca de descobrir qual sabor tinha aquele cheiro que mexia com os seus instintos, mas nunca conseguia nada que o agradasse. Em um dia, provava dois ou três sabores e saía quando ficava frustrado, e o atendente começava a direcionar olhares impacientes. 

Já tinha provado boa parte dos sabores e cada vez o cheiro ficava mais forte, principalmente quando Kyungsoo cruzava o espaço revirando os olhos e segurando firmemente o seu bloco de anotação. Mas nunca conseguia descobrir o cheiro que fazia a sua pele se eriçar e o coração bater mais forte. Era a quarta vez que voltava naquela sorveteria na mesma semana, quando Kyungsoo, que estava ocupado limpando mesas, ergueu o olhar e bufou na mesma hora. 

— Como posso te ajudar? — perguntou com um tom monótono.

— Kyungsoo, desculpas por te atrapalhar, mas você tem certeza de que eu já provei todos os sabores de sorvete? 

— Olha, Jongin, eu acho que você foi a primeira pessoa a conseguir esse feito — alfinetou com um leve revirar de olhos. — Posso pedir ao Chanyeol, o dono, para que invente novos sabores. 

— Não acredito que ainda não encontrei — disse, com um sorriso envergonhado.

— Ah, Jongin, você ainda quer sorvete? — Insistiu na pergunta, olhando rapidamente para a vitrine que estava sendo reposta por um homem alto. 

— Posso provar aquele de abacaxi outra vez?

— Claro. 

Por ser um sábado, o estabelecimento estava especialmente cheio. Com todas as mesas ocupadas e uma conversa animada reverberando pelo ambiente. Nayeon se desdobrava em duas para atender a todos, Minseok tinha feito três bolos de morango extras e Chanyeol estava preocupado com que um dia de verão levasse embora o estoque de sorvete. 

Kyungsoo detestava o verão. Detestava o calor escaldante, a sensação do suor escorrendo na pele e o cansaço que o abatia nessa época do ano. Era péssimo porque não conseguia se alimentar bem e sempre acabava no hospital. Essa semana tinha feito turnos extras para conseguir comprar novos materiais para a aula de escultura. O pequeno apartamento alugado não tinha uma boa ventilação e as suas noites estavam sendo um inferno com as altas temperaturas e mosquitos atrapalhando o seu sono.

Naquele sábado quase ligou para Chanyeol avisando que não iria trabalhar. Mas lembrou-se do preço da argila e se arrumou para o dia. Estava controlando bem até que o cliente insistente dos últimos dias entrou vestindo uma regata preta e com os óculos na ponta do nariz. Esse era chiclete. No começo, estava até agraciado pela boa aparência do homem que descobriu ser professor infantil, por isso sempre carregava materiais como cartolinas, massa de modelar e papéis coloridos. Ele tinha um sorriso bonito e um perfume de canela que fazia a pele de Kyungsoo se eriçar.

Com o passar dos dias, o fato de que ele sempre fazia a mesma expressão de desgosto quando provava os sabores de sorvete fazia apenas Kyungsoo desejar mandá-lo desistir de ir ali. Mas ele continuava insistindo, comendo somente uma colherada e pagando pelo pote todo. Talvez o glitter inalado tivesse destruído os sentidos dele. 

Kyungsoo estava com a bandeja cheia de louças e caminhava até o balcão com Jongin em seu encalço quando foi surpreendido por uma criança pequena, de no máximo cinco anos, que passou correndo ao seu lado, fazendo com que perdesse o equilíbrio, deixando a bandeja cair e os pés escorregarem. Jongin, que estava tão atento aos movimentos do atendente, foi rápido em segurá-lo, recebendo o corpo menor nos braços abertos. 

Kyungsoo sentiu o mundo girar e o barulho da bandeja de metal contra o piso estourar nos seus ouvidos. Nem mesmo o grito da mãe da criança responsável pela bagunça foi suficiente para esconder o que escapou de seus lábios com medo de ir de encontro ao chão. Seria o ápice do constrangimento, fechou os olhos com força esperando o baque, mas tudo o que sentiu foi braços firmes em volta de seu corpo e suas costas batendo contra um peito largo. 

Quando abriu os olhos, o cliente chiclete —  que tinha acabado de descobrir o nome —  o encarava com as sobrancelhas franzidas e os lábios entreabertos. Soltou uma risadinha porque o rosto dele ficava engraçado visto pelo lado contrário e o calor, provavelmente, tinha derretido parte de seus neurônios. 

Jongin, por outro lado, estava petrificado, sentindo o corpo de Kyungsoo em seus braços. Pela proximidade forçada e de praticamente ter esfregado o nariz contra o pescoço dele, tinha descoberto a fonte do cheiro que estava o enlouquecendo lentamente. 

Era Kyungsoo. O aroma que sentiu assim que colocou os pés naquela sorveteria vinha dele. Era doce, fresco e com aquele toque cítrico que o eletrizava por inteiro. Flor de tangerina. Kyungsoo cheirava a flor de tangerina. Não eram os sorvetes, doces ou bolos. E, de perto, poderia afirmar que ele era um ômega e não um beta como tinha presumido. 

Engoliu o caroço que se formou em sua garganta, controlou o seu lobo que se revirava em seu peito, rolando de costas e satisfeito por ter descoberto o dono do perfume que vinha o mantendo acordado durante a noite. Com cuidado, ajudou Kyungsoo a se firmar novamente, alisando vergonhasamente o avental rosa pastel. 

— É você —  sussurrou, com os olhos brilhando, admirando as bochechas coradas do ômega. 

— Eu? — questionou, encarando a bagunça ao seu redor e desviando-se dos olhares dos clientes. 

Kyungsoo se abaixou, começando a juntar os cacos de louça que estavam espalhados, enchendo novamente a bandeja. Jongin se abaixou também, ajudando no automático. Era Kyungsoo. 

—  Sim, é você que tem o cheiro divino que me trouxe até aqui — confessou, colocando um pedaço de taça na bandeja entre os dois. 

— O quê? —  Kyungsoo rebateu com os olhos arregalados, segurando com força demais um dos cacos. Soltou assim que sentiu a dor do corte na palma da mão e o sangue quente. — Tá maluco? Eu sou um beta. 

Antes que Jongin pudesse se explicar, Kyungsoo se levantou, segurando a bandeja com força e seguindo para trás do balcão. 

— Kyungsoo, me escuta, por favor. — Tentou se aproximar, mas a sorveteria lotada dificultou.

Kyungsoo não olhou para trás. Ele entrou na cozinha como um furacão, ignorando as perguntas preocupadas de Minseok. A palma de sua mão ardia, mas não tanto quanto o pânico que subia pela garganta. Ele era um beta. Tinha que ser. Não era suficiente para ser um ômega.

— Kyungsoo, você está sangrando! — Minseok exclamou, tentando pegar a bandeja dele.

— Eu tô bem! — resmungou, a voz falhando. Mas ele não estava. O calor do verão, a exaustão dos turnos extras e, agora, aquele alfa que tinha acabado de derrubar suas defesas com uma única frase.

Ele sentiu a presença antes de ouvir os passos. Jongin não se importou com a placa de "entrada restrita" na porta da cozinha. Ele entrou, ignorando os olhares confusos de Minseok, que tentava acalmar Kyungsoo, assim como fez com Chanyeol, que o seguia tentando interromper a invasão.

— Kyungsoo, espera — Jongin pediu, a voz suave como quando falava com seus alunos. — Me desculpa se te assustei, mas algo me puxou para cá desde o primeiro dia. Sempre senti esse cheiro que me fazia desejar morar aqui, devorar tudo em busca de algo que acalmasse o meu lobo. Estava ficando louco atrás disso. De você, na verdade.

— Seu lobo está enganado — Kyungsoo disse, de costas, pressionando um pano limpo contra o corte na mão. — Eu sou um ômega recessivo, Jongin. Eu mal tenho cheiro e é impossível que um alfa seja destinado a mim. 

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som do forno que anunciava que a nova fornada de cookies estava pronta. Kyungsoo sentiu Jongin se aproximar lentamente, parando a uma distância respeitosa, mas perto o suficiente para que o cheiro de canela e sol o envolvesse. Poderia repensar se gostava um pouco mais do astro quente.

— Impossível? — Jongin repetiu, e havia uma nota de indignação genuína em sua voz. — Eu provei todos os sabores dessa loja em busca de você. Os meus instintos não estão enganados. Eu senti você, Kyungsoo, e pouco me importo com o seu segundo gênero. 

Kyungsoo finalmente se virou, os olhos grandes e úmidos. Estava surpreso que aquele cliente insistente estivesse em busca do seu cheiro fraco. Como poderia um alfa tão bonito estar em busca dele? 

— Tem certeza? 

Jongin sorriu, e desta vez não era um sorriso de cliente simpático, era algo largo, que mostrava os seus dentes retos e fazia uma covinha aparecer em sua bochecha. Ele deu o passo final, pegando com cuidado a mão ferida de Kyungsoo entre as suas, agindo como se estivesse segurando a obra de arte mais valiosa do mundo.

— Sim, eu tenho — confessou, dando uma espiada no corte escondido atrás do pano. Não tinha sido profundo. — Sendo sincero, eu nem gosto tanto assim de sorvete. Mas me esforcei muito nessa missão, porque estava em busca de você.

Kyungsoo sentiu a resistência derreter. O calor do verão ainda estava lá, mas agora parecia suportável. Ele olhou para Jongin, envergonhado pela situação e surpreso pelo interesse do outro.

— Eu menti, você não provou todos os sabores — Kyungsoo murmurou, tentando manter sua fachada de atendente impaciente, embora o biquinho em seus lábios o entregasse.

— Queria tanto assim se livrar de mim? — Jongin piscou, aproximando-se do rosto alheio. 

Kyungsoo soltou uma risadinha, a primeira que vinha do fundo do peito em muito tempo. Talvez ser um ômega recessivo não fosse um erro da natureza e tivesse sim a tampa da sua panela. A metade da laranja que o esperava. Jongin era obstinado o suficiente para recortar confetes para os alunos e provar sorvete quando nem gostava do doce, parecia valer a pena. 

Lá fora, a Cherry Magic continuava barulhenta e doce. Nayeon tentava atender a todos ao mesmo tempo que a curiosidade crescia para descobrir o que acontecia na cozinha. Mas lá dentro, entre o cheiro de canela e flor de tangerina, Kyungsoo e Jongin davam uma chance ao destino com olhares tímidos e sorrisos verdadeiros. 

— Gente, não querendo atrapalhar o momento romântico, mas todo mundo fora da minha cozinha agora! — Minseok disse, cruzando os braços e batendo o pé impacientemente. 

— Min, isso aqui é muito emocionante, dá um tempo. — Chanyeol falou pela primeira vez, com os olhos grandes e lacrimejando. 

— Ai, Chanyeol — o confeiteiro resmungou revirando os olhos. 

— É o amor! Viva o amor — disse, com a voz grave e batendo palmas. 

— Por que você não aproveita essa onda de amor e chama o Baekhyun para sair? — resmungou e isso foi suficiente para Chanyeol fingir uma tosse, saindo da cozinha com passos apressados. 

Kyungsoo e Jongin aproveitaram a deixa para saírem pela porta dos fundos com passos calmos e envergonhados. Acabaram na parte de trás da loja, que era um depósito desorganizado, e se entreolharam sentindo a tensão eletrizante entre eles. 

— O que você quer fazer agora? — Kyungsoo perguntou, mordendo o lábio inferior. 

— Quero te levar a um encontro. Você aceita? — Manteve a distância respeitosa, mesmo que sentisse vontade de envolver Kyungsoo em um abraço apertado, de sentir o cheiro de flor de tangerina mais próximo. 

— Eu aceito desde que não me convide para um sorvete — descontraiu, com um sorriso de canto. 

— Chega de sorvete pelos próximos anos — afirmou com uma risada curta. 

— Concordo.

Jongin foi embora com um sorriso colado nos lábios depois de salvar o número de Kyungsoo em seu celular e garantir que ele estivesse bem o suficiente para voltar ao trabalho. Queria viver colado a Kyungsoo, que nem chiclete, mesmo que tivesse acabado de descobrir o motivo de estar obcecado por sorvete. 

Kyungsoo, por outro lado, trabalhou o resto da tarde com um sorrisinho nos lábios grossos e as bochechas vermelhas. Tinha um encontro marcado, alguém que estava interessado em si. Parecia um sonho bobo. A sua verdadeira vontade era ir para casa pintar um quadro com cores vivas para traduzir toda a sua euforia. 

 

 

 

 

Notes:

Espero que não esteja muito ruim!!
Dana, NÃO brigue comigo, por favor?