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A Deal With God (If He exists)

Summary:

Arthur, Dante e Agatha deram as ordens. Remi sabe o que tem que fazer e está disposto a isso, mas também sabe que há alguém que está disposto a sacrificar até a si mesmo pelo sucesso dessa missão. Por isso, ele vai até Jasper.

Notes:

isso também foi postado em minha conta no twitter (@qjaidebit)!
sinto tanta saudade do jasper que sinto que tô sendo corroída por dentro :(

Work Text:

Não há espaço para erros. A frase ecoava na mente de Remi enquanto caminhava para fora da sala do Senhor Veríssimo, onde teve sua possível última reunião — em seu corpo — com Arthur, Agatha e Dante sobre como seria sua missão. Jamais admitiu em voz alta, isso era um sinal de fraqueza, mas essa era, provavelmente, a operação mais arriscada a que ele já tinha sido enviado pela Ordem. Pelo Velho. Inconscientemente, soltou o ar preso em seu peito em uma lufada, ainda caminhando em passos pesados, vendo o restante dos agentes que iriam trabalhar consigo se dispersando para outros locais.

Maria foi para a enfermaria, segundo ela, para despedir-se dos colegas daquela época, pelo que Remi escutou por cima da conversa entre ela e Jasper. Lena e Tuco foram em direção à saída da base secreta, provavelmente indo dar uma última aproveitada no Suvaco Seco, o bar que constitui a fachada da Ordo Realitas. Remi viu Jasper seguir na direção dos dormitórios. Seu coração aberto.

Remi poderia, sim, ir nessa missão. Poderia, sim, obter sucesso e era isso que buscava. Porém, isso não se tinha outra coisa com a qual se importasse no jogo. 

Ele e Jasper nunca tinham feito uma missão juntos, mas se conheciam pelos encontros e pelos desencontros dentro da base. Tudo começou com um olhar cruzado durante uma reunião geral e foi avançando aos poucos. Tive algumas conversas, com o tempo foram compartilhando confidências e, bom, Remi não sabe dizer ao certo em que momento ele sentiu seu coração acelerar ao ouvir a voz de Jasper, mas sabe dizer que isso acontece com mais frequência do que gostaria. Pela primeira vez, ele expõe seu podridão, clara e desnuda, diante dos olhos do albino, esperando uma exclusão ou, pelo menos, um olhar de desprezo, como costumava a lançar aos outros; mas tudo o que recebi foi um olhar dócil e um abraço apertado com direito a um afago na nuca. 

Foi nisso que pensei ao ver Jasper entrando na sala do Veríssimo consigo, com um olhar de quem estava disposto a se fazer por aquela missão suicida. 

Remi não poderia falhar. Mas não poderia perder mais ninguém. Não de novo. 

Ele atacou Jasper até o quarto em que o albino tinha sido tomado para si. Lembrou-se dele comentando consigo que, enquanto não encontrou um novo apartamento para morar, ia manter-se na base da Ordem. “Pelo lado bom, a gente vai passar mais tempo junto” foram as palavras dele. Quando Jasper entrou no quarto, antes que pudesse fechar a porta, Remi interviu, segurando-a.

— Jasper. 

— Remi — o albino virou-se para encarar o outro — O que está fazendo aqui? Achei que fosse descansar pra missão… Quer dizer, pode entrar se quiser — disse, abrindo mais a porta e dando espaço o suficiente para que o outro agente a sua frente pudesse entrar. 

— Eu vim conferir como você estava, só isso — falou, entrando no pequeno dormitório.

A Ordem conseguiu bons investimentos vindos da família Leone, que era um tanto quanto familiar a Remi, o que fez o espaço e a arquitetura dos dormitórios melhorarem consideravelmente, mas isso não fez com que eles fossem os melhores lugares do mundo. O quarto de Jasper já era conhecido por ele, pelas diversas idas e vindas, e não tinha mudado muito desde a última vez que veio. A cama no canto permanece, surpreendentemente, arrumada, de maneira metódica; nas paredes, alguns murais com fotos de pessoas que Remi poderia conhecer ou não. Tinha até algumas fotos dele e Jasper juntos nas vezes que marcaram de sair para livrar um pouco a mente da ideia de serem agentes secretos lutando contra o paranormal diariamente. Também havia murais com estudos de missões antigas, relatórios, fotos de evidências e entre outras coisas. A mesinha de canto — essa sim, estava um pouco bagunçada — segue um pouco acabada, com um laptop ligado e, ao lado, uma lâmpada, acompanhada por pilhas de anotações sobre a mesa, algumas sujeiras por manchas de café já um pouco mais secas e alguns resquícios de comida. A guarda-roupa pequena no canto da sala estava fechada e o ar condicionado do quarto estava ligado a uma temperatura ambiente, como sempre.

— Ah é? — Jasper brilhante, um sorriso ladino, sem mostrar os dentes. 

— É. — Remi tentou por firmeza em sua voz. Com as outras pessoas era fácil, mas com o albino era sempre tão difícil.

— Isso foi fofo da sua parte, Remi, mas eu estou bem. Só um pouco cansado e, talvez, preocupado com esse ritual que a Agatha vai fazer. — ele tira os óculos do rosto, usando a outra mão para pressionar suavemente seus olhos — Você sabe, rituais paranormais não são exatamente minha praia… 

— Eu sei. Foi por isso que eu vim. 

Jasper o encarou, um sorriso surgiu em seu rosto e uma aparência suave que era praticamente impossível de disfarçar. 

— Agora você pode falar a verdade. Por que você não me quer na missão? — O contraste entre a sua expressão e a franqueza na qual a frase foi dita assustava Remi. 

Seu colega não era idiota e conhecia Remi bem o suficiente para saber seu interesse antes do mesmo ser mencionado. Havia algo no tato social e na percepção comportamental da alheia de Jasper que sempre fazia o castanho ser pego de surpresa. 

— Jasper…

— Remi. 

— Você não faz ideia do que vai acontecer com nossos corpos. Nem como é esse tal ritual, se a gente vai realmente estar seguro, se vamos saber nos adaptar bem… Eu nem sei se a Agatha ou o Dante sabem fazer esse ritual complexo direito ou se são capazes disso…– — ele pretende continuar sua linha de raciocínio, até ser parado por uma gargalhada vinda do albino.

— Remi, sério? A Agatha e o Dante sem capacidade? Eu sei que você se acha muito forte, mas eles são eles . E eu confio neles. Você deveria confiar também. E, cara, faz tempo desde a minha última missão, eu me recuperei muito bem e restauraram a minha foice, ela tá até mais irada! — Jasper pontua, ainda com um sorriso de compaixão no rosto — Além do mais, eu sei me cuidar. Pra ser sincero, minha prioridade no Hexatombe vai ser cuidar de você. 

A frase parece ecoar mais alguns segundos na mente de Remi, fazendo o agente sentir seu rosto esquentar. 

— Cuidar de mim? Tá falando sério, Jasper? — ele diz, ríspido, vendo o outro mantendo seu sorriso doce no rosto. 

Jasper se aproxima, em passos curtos, mas confiantes. Ele envolve os dois braços na cintura exposta de Remi, que se desconcerta com o toque. 

— Claro que eu vou cuidar de você. Quem mais vai seguir seus planos perfeitamente bem e lidar com suas crises de egocentrismo, meu bem? — a voz do albino é sussurrada, quase como uma confissão, mas pode ser captada em alto e bom som pelos ouvidos do outro, que tenta resistir à tentativa de baixar a guarda.

— Eu não posso permitir que você continue com isso — Remi fala, seu tom de voz carregado pela seriedade em cada palavra — Que você se voluntarie pra essa loucura. Eu não posso te perder, Jasper. Eu não sei o que eu faria se eu te perdesse. 

Uma das mãos do albino vai até o rosto de Remi e acaricia uma de suas bochechas, com movimentos circulares. A expressão de Jasper se mantém em um sorriso triste e um olhar preocupado, mas ainda sim, com uma pequena felicidade em perceber a importância que ele carrega para o outro.

— Eu também não saberia o que eu faria se te perdesse, meu bem. Por isso, eu não vou te deixar só. Eu não posso largar quem eu amo pra participar de ritual que, provavelmente, envolve o Diabo e voltar pra casa e dormir como se nada acontecesse acontecendo e como se eu fosse te ter de volta no dia seguinte. Eu não posso te deixar. Não como eu deixei o Rafa. Não como eu deixei a Eliza. Eu não posso perder você. — Um olhar obstinado surge no rosto de Jasper e Remi sabe que está prestes a perder aquela discussão.

Remi deixou a cabeça se encaixar na curva do pescoço do mais alto, dando um longo suspiro sôfrego. Um silêncio tomou contato com o ambiente enquanto os dois agentes permaneceram abraçados, apenas suas respirações pesadas podendo ser ouvidas com clareza. 

— Remi, você acredita em Deus? — foi Jasper quem rompeu o silêncio, apertando suavemente os dedos contra a cintura do mais baixo.

— Eu… Não sei. Acho que não. — A confiança e firmeza da voz de Remi antes de existir, dê espaço para um tom de hesitação e insegurança. Uma cara que somente Jasper tem acesso.

A língua do albino faz um estalo. 

— É, na situação que a gente vive diariamente, fica difícil acreditar… — ele disse, em um tom até um pouco resignado de início. — Mas, se tem algo que eu aprendi todos esses anos, é que se existe tanta coisa ruim, se existe até mesmo o próprio Diabo, tem que ter pelo menos alguma coisa boa. Tem que haver o outro lado da moeda. E, se não tiver, que seja a gente. 

Remi se tira delicadamente da curva do pescoço e fica atrás do fundo dos olhos de Jasper. O tom de azul quase lilás encontrando-se instantaneamente ao castanho avermelhado. 

— Eu sou podre, Jasper. Eu não sou um exemplo de pessoa boa. Eu não sei como posso estar do outro lado da moeda. 

O albino aproxima seu rosto do outro, encostando lentamente suas testas e seus narizes.

— Para mim, você é tudo de bom, Remi. Acredite nisso, que você é alguém bom. Por mim. — e, finalmente, encosta seus lábios.

O beijo é delicado e carregado com mais sentimentos do que qualquer palavra pudesse explicar. Medo, ternura, aflição, paixão, seleção, amor. Tudo se mistura ao passo que os dois se aprofundam um no outro, permitindo-se ver e explorar um lado alheio que somente o outro tem acesso. A sensação de ser visto é tão crua que, para ambos, é como tirar uma máscara de amargor e de descrição; é revelar seu verdadeiro rosto e revelar o que pensa, o que sente, o que deseja. O desejo, durante o beijo — que prossegue com um carinho despejado por cada toque —, jamais foi ocultado. A confissão é silenciosa, não precisa ser falada.

Jasper quer fazer morada em Remi. Remi quer desaparecer em Jasper e reaparecer em tudo que ele representa. Eles querem permanecer assim. Juntos. 

Ao finalizar o beijo, eles permanecem com as testas encostadas, os narizes quase se tocando.

— Eu morro por você — Jasper diz.

— Eu também morro por você — Remi corresponde. 

— Espero que nenhum de nós tenha que fazer isso. — o albino exala, permanecendo com a mão recostada na bochecha do outro. — Mas, ei, Remi.

— Ei? — A voz é baixa, mas curiosa.

— O tal Hexatombe vai começar esse domingo e a troca de corpos é amanhã. Pelos meus cálculos, acho que a gente volta são e salvo até quarta ou quinta.

— Você está sendo muito otimista, não acha? — Remi fala, tentando conter um sorriso.

— Quem pode me culpar? Tô em equipe com o melhor da Ordem, não é? — Jasper diz, em um tom confirmado, e Remi não consegue evitar uma pequena risada que saiu antes de ele descobrir — Enfim, na pior das hipóteses, sendo uma missão de uns seis dias, quinta a gente volta. Eu vi que vai lançar Protetores do Universo 3 ainda essa semana. O que você acha de um cinema na sexta?

— Não acredito que você está falando sério, sua idiota — Remi continua rindo e o albino não consegue tirar o sorriso do rosto.

— Claro que estou, meu bem. E aí, top ou não? 

Um silêncio de alguns segundos se faz presente.

— Espero que a gente não tenha que adiar que nem nas outras vezes — Finalmente, Remi diz com um grande sorriso, arrancando um pequeno “Ei!” de Jasper, que, mesmo fingindo estar ofendido, também sorri. — Agora, eu teria que ir para o meu quarto, mas, veja só — um sorriso ladino nasce em seus lábios — Eu já estou tão cansado…

— Se quiser dormir comigo é só pedir, Remi. Com todas as letras, por favor. — Jasper conduz o castanho com facilidade até sua cama, caindo nela com ele em seus braços, bagunçando a arrumação perfeita de antes.

— Não me vem com essa. Só quero aproveitar meus últimos momentos nesse corpo com você. — ele diz, aconchegando-se nos braços do mais alto.

— Que bom, eu tava pensando o mesmo, meu bem. — ele diz e faz o mesmo, levando as duas mãos até os cabelos de Remi, brincando com os pequenos fios rebeldes.

O silêncio paira sobre eles durante uma coleta cresce e toma espaço pelo corpo dos dois agentes. O medo é infinito, é sonoro, é intenso, é anacrônico e surge, muitas vezes, do irracional racionalizado. Não há, ainda, como evitar o medo. Porém, enquanto Jasper e Remi estão juntos, eles acreditam que será possível deixá-los de lado pelo menos por um tempo. E isso basta.