Work Text:
Mike colocou o rosto na vidraça, irritado com a neve lá fora. Na verdade, não com a neve, e sim com a vida no geral. Sua casa estava cheia de gente (os Bylers estavam morando com os Wheelers e estava tudo meio caótico).
Tudo bem, eles ficavam no porão, mas aquele era o espaço de Mike, e ele o perdera, praticamente. Toda vez que descia lá, havia Joyce fumando meio tensa, ou Jonathan e Nancy tendo mais uma crise em seu namoro, ou Will querendo conversar e nem sempre Mike achava que o que ele falava era só o que ele falava. Era como se houvesse alguma espécie de subtexto, mas o garoto Wheeler não sabia bem definir qual.
Ele se dirigiu ao seu armário e retirou uma pequena caixa de trás de algumas tranqueiras que guardava em uma parte mais inacessível, lá em cima, um lugar que ele sabia que sua mãe não conseguiria alcançar. Ele precisava ir vê-la, afinal de contas, era Natal.
Desde que Vecna abrira Hawkins em quatro partes e que uma grande parte do exército estava instalada na cidade, eles estavam vivendo em quarentena. Quem fugiu, fugiu; quem ficou, estava passando por exames, vigilância, opressão e sendo enganado... menos aqueles que sabiam bem o que o era o Mundo Invertido, Vecna, demogorgons e o Mind Flayer. O exército dizia que um tenebroso terremoto havia ocorrido e que as partículas que escapavam do Mundo Invertido eram um material tóxico que seria contido, justo no ano do terrível acidente de Chernobyl, o que pode ter convencido com mais facilidade a população. Naquele dezembro de 1986, Hawkins já estava "remendada": eles haviam tampado as rachaduras que Vecna abrira (Robyn chamava de band-aids), mas a tensão sempre pairava no ar. "Isso é quase como se vivêssemos numa distopia", Dustin falou há alguns dias. E era mesmo. Hawkins era, naquele momento, e por mais um longo ainda, uma distopia a céu aberto.
Mike desceu rapidamente para o porão, procurando por Joyce:
— Você vai ver o Hopper neste Natal?
— Não sei... – ela olhou pela janela. — Você não acha perigoso?
— Joyce... eu preciso ver a El. É Natal. Se você se dispuser a sair comigo, minha mãe não vai pegar no meu pé.
Claro que ele poderia ir pelos túneis que eles mantinham às escondidas sozinho, mas sua mãe definitivamente iria querer mais explicações, o que o atrasaria, e ela não sabia sobre nada do que ele, Nancy e os Byers estavam fazendo para derrotar o vilão terrível que tinha despedaçado suas vidas.
Joyce inspirou fundo. Ela e Hopper eram adultos, calejados pela vida, ambos sabiam bem se não desse para se verem no Natal, dadas as circunstâncias, mas Mike e El? Definitivamente, aqueles jovens mereciam uma pequena trégua:
— Tudo bem, eu vou dizer para a sua mãe que eu preciso de ajuda lá na loja. É isso. Vou dizer que me chamaram para um plantão na loja e que você vai comigo porque é alto para pegar umas coisas para mim no depósito.
Um detalhe, Joyce havia conseguido de volta seu emprego na loja de variedades do centro da cidade, que estava fechada no feriado, mas isso Karen Wheeler não precisava saber.
[...]
Eleven estava com um suéter cor-de-rosa e uma calça jeans desbotada, com alguns rasgos nas pernas. Seu cabelo estava na altura das orelhas, ondulado e meio bagunçado. Ela olhou para a neve lá fora da cabana. Já fazia três dias que não treinava, o que também a deixava mais tensa do que o normal, mas sua agitação, naquele momento, vinha do fato de ser Natal e de, provavelmente, não poder ver Mike.
Todas as vezes em que se viam durante aqueles meses, eram um bálsamo em meio ao caos; era como se sua alma recarregasse. E não era fácil eles se verem com tanta vigilância, com tanto medo de que tudo desse errado e ela fosse levada pelos militares. Eles trocavam cartas, mesmo estando de novo na mesma cidade; quando ele vinha, sempre trazia pequenos presentes para ela: doces, chocolates, flores, livros, revistas, fitas cassete. E todas as vezes em que precisavam se despedir, nossa... El tinha certeza de que no dia seguinte ela pegava mais pesado ainda nos treinos só para não dar margem à saudade que sentia dele.
Hopper passou por ela, que se encolhera no sofá como uma gatinha assustada, enquanto algo passava na TV mas ela nem ligava:
— Ele dificilmente vai vir, você sabe. Foi um milagre ele ter vindo no Dia de Ação de Graças.
Ela piscou um pouco, tentando disfarçar as lágrimas, mas a sua voz saiu apática e rouca:
— Eu sei...
— Ele te ama, El. Demorei muito para entender a extensão desse sentimento, mas ele te ama de verdade. – o ex-xerife colocou a mão sobre o joelho da filha.
— É só... – ela suspirou. — É Natal, sabe. Natal é tão mágico... eu queria estar com ele.
Hopper quis ter palavras para consolá-la além das que já tinha falado, mas não havia. Toda aquela situação era uma merda, e El não era mais uma criancinha assustada e sem conhecimento de mundo. Era uma adolescente que perdera demais, sofrera demais, estava se cobrando por tudo o que havia acontecido e só queria passar um Natal com o namorado. Simples, era só isso, mas era tão, tão distante.
A garota foi para o quarto. Pegou uma revista com a Madonna na capa, mas não ficou com vontade de ler. Decidiu que iria escrever uma carta para o namorado, quando, por milagre, a voz dele ressoou na cabana. Ela fez um gesto para abrir a porta do quarto com os seus poderes e exclamou:
— Mike?!
Ele abriu um sorriso luminoso, indo em sua direção, enquanto a garota corria para ele e o abraçava forte:
— Não poderia deixar de te ver no Natal. - ele suspirou nos cabelos da amada. Ela tinha cheiro de mel, algodão, flores. Ela era perfeita.
— Não foi arriscado? – ela indagou, preocupada.
— Até que não... acho que os militares também comemoram o Natal. – ele sorriu de lado.
Hopper, que estava abraçado à Joyce na sala, observava-os.
— Nós vamos deixar os sete centímetros abertos, tá? – El disse.
— Podem fechá-la. Sei que vocês não vão abusar da minha confiança. – o pai respondeu, levando a namorada para a cozinha.
Mike e Eleven se entreolharam, felizes. Ela fechou a porta levantando a mão, encontrando os lábios do garoto no meio do processo. Ele segurava sua cintura firmemente e ela sorriu durante o beijo, sentindo todas as borboletas do seu estômago voarem dentro dela. El o puxou mais ainda para si e eles caíram na cama dela, o beijo se tornando alguns outros, os lábios se tocando ora de forma leve, ora de forma mais intensa. Então Mike quebrou delicadamente o último beijo e roçou sua boca abaixo da orelha esquerda de Eleven:
— Isso me dá arrepios... - ela sussurrou, fechando os olhos.
— Você fica tão linda assim... - ele beijou seu pescoço. – Aliás, você sempre é linda.
A garota segurou a bochecha dele, sorrindo. Mike estava mais alto, e seu cabelo estava mais curto, diferente. E ele já não estava mais tão magro, seus ombros estavam mais largos, seus braços mais fortes, dava para perceber.
— Você também é lindo. – ela disse.
— Eu? – ele riu, sem jeito, baixando os olhos.
— Sim, você. E eu sei que é lindo por dentro e por fora.
Mike a puxou para mais próximo ainda e a beijou com novo fervor. Quando seus lábios se separaram, ele retirou do bolso de trás da calça uma pequena caixa de joias:
— Eu economizei por meses e também usei o dinheiro que minha avó me dá todo final de ano. Espero que você goste. É simples, eu vou logo avisando, mas eu acho que...
— MIKE! – El gritou, jogando-se sobre ele quando o garoto abriu a caixa.
Era um anel simples, com uma delicada pedra no meio.
— É lindo! – ela suspirou, estendendo a mão para a frente de si. — Eu não... eu não tenho nada para te dar...
— Tudo bem, El. Claro que tá tudo bem.
Ela não parava de olhar para o anel:
— Isso é a prova do meu compromisso com você. Não importa o que aconteça, eu sempre vou estar com você. – ele disse olhando fundo em seus olhos. – Eu quero tudo com você, El... Jane... - ele falou baixinho, tocando o rosto dela com carinho.
— E eu sempre vou querer você. – ela fechou os olhos com os carinhos que ele fazia em seu rosto. Prometo.
— Eu também prometo.
Beijaram-se mais uma vez. Foi lento, doce, delicado. Mike segurava o rosto da namorada e ela puxava um pouco o suéter dele. Então, ele falou ao seu ouvido:
— Te amo. Feliz Natal. Você é o meu maior presente, El.
*** Eu sei que disseram que o anel que ela usa foi dado pelo Mike entre a terceira e a quarta temporada, mas acho que assim que ficou mais fofo.
