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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-12-24
Updated:
2025-12-24
Words:
10,962
Chapters:
3/?
Hits:
15

Onde finalmente foi Natal

Summary:

Entre um passado marcado por dores, um presente repleto de conflitos e um futuro que ele poderia mudar. Ao fim, Guilherme concluiu o desafio da Morte: ele mudou o próprio destino. Mais além, ele descobriu que alguns encontros não apenas salvam, mas ensinam a viver. Este conto é sobre recomeços, sobre aprender a amar depois do caos e sobre um Natal que, finalmente, aconteceu.

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História sem fins lucrativos. Todos os direitos reservados à Rede Globo de Televisão, à telenovela Quanto Mais Vida Melhor e ao ator Mauro Wilson.

Chapter 1: Capítulo I - Antes da Luz

Chapter Text

O Natal chegava sempre da mesma forma para Guilherme: barulhento, tenso e inevitável.

Ele nunca se importara com aquela data. Na verdade, Guilherme não era do tipo que valorizava celebrações, rituais ou símbolos... sempre os considerara supérfluos diante da lógica objetiva da vida. Não fora atoa que foi apelidado de “Doutor Gelo” pelo seu próprio filho. Bom, Guilherme fora assim, ao menos, até a queda do avião há pouco mais de dois meses, acidente que o fez encarar a Morte de frente e ouvir dela mesma a sentença silenciosa: um prazo de um ano para mudar a própria vida... ou morrer por definitivo.

Desde então, Guilherme não conseguia evitar o pensamento incômodo de que cada data festiva que desprezara poderia ser a última. Talvez, então, devesse se esforçar para que datas como aquela tivessem algum sentido. Talvez aquele Natal merecesse alguma tentativa para ser uma boa memória, um recomeço. Estava decidido. Guilherme tentaria vivê-lo ao lado de quem acreditava amar: seus pais, seu filho… e Rose.

Mas o clima de um casamento em ruínas esmagava qualquer possibilidade de redenção do médico.

A casa estava iluminada demais para um ambiente tão escuro por dentro. As luzes piscavam na árvore como se insistissem numa alegria que ninguém ali sentia. O cheiro da comida misturava-se ao peso das palavras não ditas, e das que seriam ditas sem cuidado algum.

Rose caminhava pela sala com o celular na mão. Não fazia questão de esconder que alguém do outro lado da tela era mais interessante do que o Natal em família, mas também não oferecia explicações ao marido que a encarava de sobrancelha erguida. E aquilo era suficiente para irritá-lo.

Guilherme observava cada gesto, cada vibração do aparelho, cada mudança mínima na expressão dela. Ele odiava aquela sensação: a de estar sempre em alerta dentro da própria casa. O controle que exercia já não vinha da autoridade, mas do medo. Medo de perder algo que ele já sabia, no fundo, estar perdido. E Guilherme não precisava se esforçar muito para imaginar com quem ela trocava mensagens.

Quando se sentaram à mesa, Guilherme respirou fundo, mas a insistente vibração no celular de Rose o levou à gota d’água.

— Você não larga esse celular nem no Natal? — Perguntou, com a voz contida, dura demais para ser casual

Rose respirou fundo antes de responder.

— É uma mensagem de ‘boas festas’, Guilherme. Só isso.

— São várias mensagens de ‘boas festas’ a julgar pelas notificações insistentes. Vejo que minha esposa é bem quista pelo remetente de todos esses torpedos. — Guilherme ironizou — É ele, não é? — Inclinou o corpo para a frente, sentindo o sangue ferver — O jogador não pode deixar você cear com a sua família? Ou é você quem faz questão de procurar por ele bem diante do idiota do seu marido? Me mostra esse celular, Rose! — Ele insistiu, sem perceber que o tom já soava acusatório

— Você está maluco, Guilherme?! Não vou te mostrar nada, eu tenho direito à privacidade! — Rose recusou, bloqueando a tela do celular e segurando firmemente o aparelho

Celina largou os talheres na mesa.

— Tá vendo, Daniel? Sempre assim. Sempre escondendo coisa. Mulher direita não vive grudada em celular.

— Celina, chega! — Daniel pediu, cansado — Não é o momento.

— Nunca é o momento quando se trata dessa história! — Ela rebateu. — Desde o começo eu avisei. Isso aí foi golpe. Golpe da barriga! Quem garante que Antônio é mesmo nosso neto?!

Rose virou-se de uma vez.

— Você não tem o direito de dizer isso! — A voz dela falhou antes de se firmar. — Nunca teve! Não envolva o meu filho no ódio que você sente por mim, Celina!

— Direito eu tenho de proteger o meu filho que sempre foi cego por você! — Celina disparou

— Me proteger de quê, mamãe?! — Guilherme interveio, a paciência finalmente se esgotando. — De mensagens? De suposições? Isso já passou dos limites. Rose, me entrega esse celular e vamos acabar logo com isso, eu mereço jantar em paz!

— Sabe o que já passou dos limites, Guilherme? Foi esse casamento! ESSE INFERNO DE CASAMENTO! — Rose gritou. — VOCÊ PREFERE ME VIGIAR A ADMITIR QUE NÃO EXISTE MAIS NADA AQUI! SEQUER CONSEGUE ACREDITAR NAS MINHAS PALAVRAS!

O silêncio foi quebrado apenas pela respiração pesada de Guilherme. Ele sentia o sangue ferver, mas não era raiva pura. Era frustração. Era impotência. Era a sensação insuportável de falhar em algo que ele sempre acreditou que poderia controlar.

Havia prometido a si próprio que salvaria aquele casamento, que conseguiria manter Rose na linha e que seu filho não teria pais divorciados, mas tudo parecia escorrer pelos seus dedos e Guilherme se sentia inútil.

— Abaixa o tom, Rose. — Ele disse, frio. — Tem criança aqui.

Antônio levantou-se abruptamente.

— EU NÃO SOU CRIANÇA! — Gritou — PAREM DE FINGIR QUE EU NÃO VEJO TUDO NESSA CASA, PORQUE EU VEJO! EU CRESCI NESSE INFERNO, CRESCI VENDO AS BRIGAS INTERMINÁVEIS, CRESCI VENDO VOCÊS SE ODIAREM!

Os olhos do adolescente estavam vermelhos, mas não somente de raiva, e sim de um cansaço antigo demais para os seus dezessete anos.

— EU NÃO AGUENTO MAIS ESSE INFERNO! — Gritou outra vez — Eu vou embora! Ficar aqui dá vontade de desaparecer. EU ODEIO VOCÊ, PAI! ODEIO QUE MINHA MÃE SEJA CASADA COM VOCÊ!

Irado, Antônio saiu da sala de jantar a passos largos. A porta bateu forte. A árvore tremeu. Um enfeite caiu e rolou pelo chão.

A ceia morreu ali.

Meu filho me odeia.

O pensamento atingiu Guilherme como um golpe físico. Ele poderia suportar quase tudo, até mesmo um divórcio. Mas jamais aceitaria a ideia de ser odiado pelo próprio filho. Construíra um império pensando em Antônio, em dar-lhe uma vida segura, um nome respeitado, um legado. Apesar de todo seu esforço, nada disso servira para impedir aquela dor de ser rejeitado pelo próprio filho. Em que estava errando, afinal?

— Que menino insolente! Certamente não é um Monteiro Bragança! — Celina murmurou

Guilherme explodiu.

— CHEGA, MÃE! CHEGA! FICA QUIETA! — Guilherme jogou o guardanapo sobre a mesa e se levantou, fora de si

— Guilherme! — Daniel tentou intervir — Não fala assim com a sua mãe!

— Deixa, Daniel, deixa. — Celina dramatizou — É isso que eu recebo por tentar abrir os olhos do meu filho pro golpe que essa daí nos deu.

— Eu não sou obrigada a aturar mais isso. — Rose riu seco — Esse Natal acabou. Aliás, nem deveria ter começado. Espero que esteja satisfeito, Guilherme!

Rose subiu para o quarto sem olhar para trás.

Guilherme a acompanhou com o olhar, parado no mesmo lugar enquanto refletia o peso daquelas palavras. Rose estava certa: aquele Natal nunca deveria ter existido. Tudo aquilo era um erro. Ele próprio era um erro. Talvez devesse mesmo ter morrido naquele acidente, não faria falta para Antônio e Rose... bom, Rose estaria livre para se envolver com o maldito jogador.

Apressado, Guilherme caminhou até a sala e pegou a chave do carro que havia deixado sobre a mesa de centro.

— Guilherme, meu filho, aonde pensa que vai? Ainda não fizemos a ceia. — Celina levantou-se, preocupada com o resto daquela noite

— Para algum lugar em que eu tenha paz, Celina! — Murmurou, saindo apressado

— Daniel, ele me chamou de Celina! — A matriarca reclamou dramaticamente com a mão no peito

— Deixa o nosso filho, Celina... Guilherme está exausto dessa vida... — O advogado observou, incapaz de não notar a falta de brilho nos olhos do filho

✧ ✧ ✧

Com as mãos trêmulas, Guilherme dirigiu sem rumo, os pensamentos atropelando-se. Não queria olhar para Rose. Não queria discutir mais. Não queria admitir que aquele casamento já não existia, tampouco admitir que ele falhara. Mas tudo o fazia concluir que ele falhara terrivelmente em sua missão de consertar a própria vida.

Parou em um hotel qualquer.

O quarto era impessoal, silencioso, excessivamente organizado. Tudo ali parecia provisório demais, como se ninguém devesse permanecer tempo suficiente para criar vínculos. Perfeito para alguém que dizia a si mesmo que não queria sentir.

Mas ele sentiu. Sentiu até demais.

Sentado na beira da cama, Guilherme largou o paletó sobre a cadeira e apoiou os cotovelos nos joelhos. Massageou a têmpora com força, como se pudesse pressionar para fora da cabeça aquela sensação sufocante de fracasso. Quando percebeu, as lágrimas já desciam silenciosas.

Chorar não fazia parte dos planos do médico. Nunca fizera.
Ele sempre fora o homem que resolvia. O que sustentava. O que mantinha tudo de pé à força, mesmo quando já não havia estrutura alguma. E se orgulhava de ser esse homem. Queria ser forte. Queria acreditar que ainda podia corrigir a própria vida, salvar o casamento, reconstruir o que se perdera. Mas, com uma clareza cruel, Guilherme sabia: aquele esforço era inútil. Não havia mais nada a ser salvo. Permanecer ali significava apenas continuar infeliz e, pior, continuar arrastando todos ao redor para o mesmo abismo.

O celular vibrou sobre a cama. Ele respirou fundo antes de olhar.

Talvez você conheça.

Guilherme franziu o cenho e tocou na notificação quase por impulso.

Flávia.

O coração dele deu um salto desconfortável. Como se o destino estivesse rindo da sua cara, era justamente ela que a sua rede social indicava como alguém para conexão na internet. Flávia sorria na foto de perfil como se o mundo não tivesse o direito de ser cruel com alguém assim. Cabelo solto, o delineado azul marcando o olhar, a expressão leve, e uma beleza que não precisava se impor.

O aperto no peito foi imediato.

Como alguém pode ser tão bonita… e parecer tão minha?

— Não! — Guilherme murmurou para si mesmo. — Isso é errado. Você é casado, Guilherme. Não deveria sequer pensar dessa forma sobre essa garota...

Tampouco desejá-la dessa forma... completou em pensamentos.

Mas então por que Flávia aparecia tantas vezes em seu caminho? Por que ela frequentava os seus sonhos a noite? Por que o destino parecia lançá-la em seus braços sempre que possível? E se isso..., bom, e se fosse um sinal? E se ele devesse mesmo segurá-la em seus braços e esquecer-se do mundo?

Guilherme não tinha certeza do que fazer, mas o dedo já estava ali no botão de seguir. Abriu os stories, um depois do outro. Riu sozinho de um vídeo bobo, se encantou por um vídeo curto em que ela cantava Marisa Monte, parou tempo demais em uma foto em que ela sorria abertamente. Viu cada destaque criado por Flávia. Rolou o feed devagar, absorvendo e admirando cada detalhe: os sorrisos contidos, os ângulos, a espontaneidade quase insolente com que Flávia parecia existir no mundo. Curtiu uma foto, depois outra... rastros pequenos, mas plenamente conscientes. E, naquele instante, Guilherme soube: não havia mais volta. E, talvez pela primeira vez em muito tempo, ele não queria que houvesse.

Uma nova notificação chegou no celular de Guilherme. Uma mensagem.

“Gostou do que viu, Doutor? Tenho mais fotos em meu celular, posso te enviar...”

Flávia o provocou.

Guilherme soltou um riso baixo. Era típico dela perceber. Sempre atenta, sempre provocadora na medida exata para enlouquecê-lo.

Sem pensar demais, Guilherme digitou:

“Você é bonita, não é, garota?”

A resposta veio rápido demais para alguém que supostamente não estava esperando.

“Isso foi um elogio ou um diagnóstico clínico?”

Ele sorriu, de verdade. Acomodando-se na cama, Guilherme seguiu respondendo no tom exato para manter aquele flerte consciente.

Estou em dúvida. Preciso de mais exames.

Flávia não demorou a responder.

“Ah, então o Doutor das Galáxias anda abusando da autoridade… mas podemos marcar um horário para uma consulta... o doutor atende pelo SUS ou dá desconto para mulheres bonitas?”

O sorriso dele cresceu. O quarto já não parecia tão frio.

Mas Guilherme queria mais. Queria ouvir a voz dela. Queria aquela risada baixa, o jeito como ela alongava certas palavras, como se soubesse exatamente o efeito que causava. Era tarde. Ele sabia. Natal. Provavelmente ela estaria em família, em alguma confusão parecida com a dele. Mesmo assim, ligou. A chamada virou vídeo.

— Guilherme? — Flávia apareceu na tela, surpresa. — Tá tudo bem? Pensei que a consulta seria presencial...

Ela estava deitada, o rosto limpo, os cabelos soltos pelo travesseiro, vestindo algo confortável demais para aquela intimidade. Os olhos grandes, atentos, bonitos demais para aquela hora da noite.

Guilherme soltou uma risada baixa, sincera.

— A consulta por vídeo foi por recomendação médica. — Respondeu. — Caso grave de… curiosidade clínica.

Flávia arqueou a sobrancelha, fingindo avaliar.

— Hm… e o diagnóstico preliminar, Doutor das Galáxias?

Ele se ajeitou melhor na cama, apoiando as costas na cabeceira. O celular firme na mão, como se aquela tela fosse, naquele momento, o único lugar onde ele realmente queria estar.

— Ainda inconclusivo, senhorita Santana. — Disse. — Mas os sintomas incluem sorriso fácil, dificuldade de concentração e uma vontade perigosa de ignorar o horário.

Ela riu. Aquela risada baixa, arrastada, que ele já começava a reconhecer demais.

— Nossa, parece sério… — Flávia provocou. — Vai precisar de acompanhamento constante?

— Provavelmente. — Ele respondeu, sustentando o olhar dela pela tela. — E de alguém que colabore com o tratamento.

— Eu sou uma paciente muito obediente, doutor... — Disse, aproximando um pouco mais o rosto da câmera. — Principalmente quando o médico é convincente e gato... muito gato.

O estômago dele revirou. Sabia que não era certo, mas não pretendia recuar.

— Então preciso ser responsável. — Disse, num tom mais baixo. — Algumas prescrições exigem… cautela.

— Que pena! — Flávia fez um bico falso. — Eu estava torcendo por algo mais… experimental.

Ela se mexeu na cama, ajeitando o travesseiro. O tecido da roupa subiu um pouco demais. Guilherme desviou o olhar por um segundo, incomodado consigo mesmo.

— Você faz isso de propósito, não faz? — Murmurou.

— Faço o quê? — Ela perguntou, inocente demais.

— Fica bonita assim, sem esforço algum.

Flávia sorriu, dessa vez sem provocação. Um sorriso pequeno, quase tímido.

— Você também fica bonito quando tenta ser sério e falha miseravelmente.

Ele balançou a cabeça, rindo.

— Você é perigosa, garota!

— E você gosta, Doutor! — Ela rebateu, sem hesitar.

Silêncio. Não um silêncio constrangedor. Um silêncio cheio de coisas não ditas, carregado demais para ser leve.

— Tá tudo bem mesmo? — Flávia perguntou, agora mais suave. — Você parece… cansado.

Ele respirou fundo.

— Tô. — Admitiu. — Mais do que gostaria.

— Então fica aí comigo um pouco. — Disse, ajeitando-se melhor. — Prometo não piorar seus sintomas… pelo menos não muito.

Guilherme sentiu algo afrouxar dentro do peito.

— Você não tem ideia do quanto isso já ajuda. — Respondeu.

O coração dele bateu mais forte do que deveria.

— Esse não parece o seu quarto, Guilherme... —  Flávia observou, curiosa

— Mais ou menos. — Respondeu, sincero. — Fugi da minha própria casa. Estou em um hotel nesse momento

Ela inclinou a cabeça, observando-o com cuidado.

— Eu também fugi... — Disse, com um sorriso triste. — Meu Natal foi um desastre. Estou no apartamento do Murilo agora.

O sorriso de Guilherme vacilou por um instante. Mínimo, quase imperceptível. Mas por dentro, algo se contraiu.

Murilo.

O nome ecoou com uma clareza incômoda.

A imagem veio antes mesmo que ele quisesse: o corredor da clínica, o cheiro antisséptico, a luz branca demais. Flávia sentada na cama, frágil de um jeito que o desarmara por completo. E Murilo ali. Próximo demais. Íntimo demais. O beijo rápido, mas significativo. Guilherme lembrava-se do calor estranho que subira pelo peito naquele instante. Da irritação sem nome. Do incômodo injustificável. Do olhar de Flávia o encarando como quem o provocava com a presença daquele rapaz.

Ela não é sua, lembrara a si mesmo naquela noite. E lembrava de novo agora, com pesar.

— Murilo… — Repetiu, num tom neutro demais para ser casual. — O amigo solícito.

Flávia sorriu de leve.

— Ele mesmo. O que me acolheu depois que eu quase fui expulsa do jantar da minha própria família. — Disse, com ironia contida. — Nada muito natalino.

Guilherme assentiu devagar, como se estivesse apenas ouvindo. Como se aquilo não o afetasse.

— Ele sempre parece muito… presente na sua vida. — Comentou, sem conseguir conter a acidez em sua fala

Ela arqueou a sobrancelha.

— Isso foi uma crítica, doutor?

Ele respirou fundo antes de responder.

— Foi uma observação clínica. — Disse, seco demais. — Algumas presenças são… invasivas.

Flávia riu, mas havia curiosidade ali.

— Interessante. Porque, se não me engano, você o viu na clínica... comigo. — Ela provocou. — Lembra? Ele apareceu todos os dias enquanto eu estava internada.

Lembrava. Infelizmente, lembrava.

— Lembro. — Respondeu. — Difícil esquecer alguém que faz questão de marcar território em ambiente hospitalar, no meu território.

Ela arregalou os olhos, surpresa, e depois sorriu, dessa vez, lenta.

Território? — Repetiu. — Doutor… isso soou quase como ciúme.

O estômago dele revirou outra vez.

— Não confunda as coisas! — Respondeu de imediato. — Eu sou médico. Zelo pelos meus pacientes.

— Ah, claro. — Flávia disse, contida, mas claramente se divertindo. — Inclusive pelos que recebem beijo de outro homem dentro da sua clínica.

Silêncio.

O olhar de Guilherme se desviou por um segundo. O suficiente para denunciá-lo.

— Aquilo foi desnecessário! — Murmurou. — Você estava vulnerável.

— E você incomodado. — Ela completou, com doçura afiada. — Não precisa fingir comigo, Guilherme. Eu vi a sua cara incomodada quando Murilo me beijou..., mas depois você também pôde provar do meu beijo, não foi?

Ele apertou o celular com um pouco mais de força. Flávia estava em um quarto que pertencia à Murilo, deitada sobre a mesma cama que ele dormia, utilizando uma roupa de dormir que, mesmo através da chamada de vídeo, era possível perceber o quão curta aquela veste era. Ela estava com aquele rapaz. O que poderiam ter feito antes daquela ligação? Ou pior, o que fariam após aquela ligação? Talvez se mantivesse Flávia na linha por muitas horas pudesse ser um empecilho para...

— Doutor? — Flávia o chamou, estranhando o silêncio de Guilherme

— Você está na casa dele agora. — Disse, enfim. — Dormindo na cama dele.

— Estou. — Confirmou, simples. — Mas não como você está imaginando.

— Eu não imaginei nada. — Mentiu.

Ela sorriu, compreensiva demais.

— Mentiu mal.

Guilherme passou a mão pelo rosto, cansado.

— Só… não gosto da ideia... — Confessou, quase contra a própria vontade. — De você na cama desse rapaz. Digo, pode ser perigoso... você está... vulnerável.

Flávia suavizou a expressão.

— Não precisa gostar. — Disse. — Só precisa ser honesto consigo próprio sobre os seus sentimentos, Guilherme. Sabe perfeitamente que o problema não é a minha suposta vulnerabilidade.

Ele a encarou pela tela. Aquela mulher que bagunçava tudo sem esforço. Que o fazia sentir coisas que ele jurara manter enterradas.

— Você tem noção do efeito que causa, garota? — Perguntou, baixo.

— Tenho. — Respondeu, sem hesitar. — E sei que você tenta resistir…, mas falha miseravelmente.

Ele soltou um riso curto, derrotado.

— Você é uma roubada! — Murmurou.

— E você continua atendendo. — Ela provocou. — Não se preocupe… não estamos dormindo juntos, doutor. Hoje eu só precisava não ficar sozinha, por isso vim para cá. Já que não posso dormir nos braços do homem que eu gostaria...

Aquilo o atingiu mais forte do que qualquer provocação. Flávia estava frágil e Murilo fora um apoio para ela... assim como ele poderia ter sido se não fosse tão arredio para com aquela garota.

Guilherme não era totalmente capaz de mentir para si próprio: a ideia de ter Flávia em seus braços jamais fora ruim. Desde o instante em que a conheceu, aquele olhar o desmontou, o fez sentir como uma onda elétrica percorrendo o seu corpo e desfibrilando o seu coração. Certamente não teria uma parada cardiorrespiratória... não com Flávia por perto.

Apesar disso, sabia que a única coisa que a afastava era a sua própria covardia em admitir o que sentia... ou mesmo admitir que sentia algo.

— O seu Natal foi tão ruim assim? — Guilherme murmurou, tentando esquecer o incômodo que a existência de Murilo o causava

— Ruim é um elogio... — Suspirou

Flávia contou sobre Odete, sobre as críticas veladas, sobre como sempre se sentia pequena onde não deveria. Guilherme ouviu em silêncio, absorvendo cada palavra, cada pausa. Como era possível alguém não amar Flávia? Como era possível que ela, justo ela, fosse tão destratada na própria casa? Céus, Flávia era tão jovem... entre os quatro, Flávia era a que mais merecia sobreviver ao prazo da Morte, era a que mais merecia ser feliz.

Flávia era linda radiante, com um sorriso que o fazia admirá-la incansavelmente. Não era certo pensar tanto em Flávia, não era certo olhá-la da maneira como a olhava naquele momento, mas Flávia já estava imersa nos pensamentos mais profundos e insanos de Guilherme. Ela estava. E também estava ali, desejando ouvi-lo, desejando fazer parte da vida dele.

Guilherme também desabafou, sobre como aquela noite gritou para ele que o seu casamento era um desastre irremediável.

— Se a gente tivesse passado esse Natal juntos… — Flávia disse, mais baixo, quase tímida — Talvez nenhum de nós estivesse tão infeliz agora, não é? Estaríamos abraçados, na mesma cama... talvez até estaríamos fazendo amor.

A frase o atingiu em cheio.

Guilherme pensou em como ela ria fácil. Em como parecia leve apesar das dificuldades, apesar das roubadas em que se metia. Linda, sedutora, encantadora, sem esforço algum. Pensou nos encontros rápidos. Nos beijos roubados. Em como ela sempre beijava o canto da boca dele quando achava que ele não percebia.

Ele percebia. E amava.

Odiou a si mesmo por isso. Como podia ser tão fraco quando o assunto era Flávia? Se aquela conversa não fosse através daquele telefone, certamente fariam exatamente o que Flávia sugeriu. Não, não resistiria ao cheiro doce daquela mulher, às provocações, à forma como orbitava ao redor daqueles olhos castanhos.

E se a convidasse para que passassem aquele resto de noite juntos?

— Flávia… eu... — começou, mas as palavras não vieram.

Ela sorriu com doçura.

— Não vou insistir… — disse, bocejando. — O doutor é um homem decidido a insistir em algo que claramente já acabou e…

A frase se perdeu no bocejo.

— Mas o Doutor das Galáxias merece ser feliz. Mesmo que não queira ser feliz comigo. — Completou, a voz já sonolenta.

Os olhos dela começaram a se fechar lentamente. Guilherme ficou ali, imóvel, observando. A respiração tranquila. O rosto sereno. Bonita demais. Próxima demais. Ele sabia que aquilo era errado, mas não conseguiu resistir.

— Boa noite… — sussurrou, quase para si mesmo. — Minha linda.

A palavra escapou como um reflexo.

Flávia já dormia.

Talvez tivesse sido melhor assim... se Flávia não o tivesse interrompido, se não tivesse entendido errado quando gaguejou, não haveria mais volta. Mas Flávia era jovem demais, bonita demais, doce demais para ser a sua amante... e Guilherme ainda não podia dar a Flávia o cuidado e o amor que ela merecia.

Guilherme desligou a chamada com cuidado e se deitou na cama, o coração inquieto, a mente em conflito. Sabia que estava cruzando uma linha, ou talvez já tivesse cruzado há muito tempo. E, ainda assim, pela primeira vez naquela noite, dormiu com um sorriso discreto no rosto. Sonhando com alguém que ainda não era sua…, mas que, de algum modo, já ocupava tudo.