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Santa Doesn't Know You Like I Do

Summary:

Na patrulha de 24 de dezembro e a poucas horas do amigo secreto da delegacia, Tim e Lucy conversam sobre planos para o Natal e seus sentimentos pela data; ao descobrir que Tim ainda não comprou seu presente, Lucy tenta adivinhar quem ele tirou. À noite, após o amigo secreto, um momento eletrizante deixa ambos desnorteados.

Levemente inspirada na música “Santa Doesn't Know You Like I Do” da Sabrina Carpenter <3

Notes:

-Essa fanfic é oneshot, ou seja, começa e termina neste capítulo. Os acontecimentos da história não interferem no canon e acontecem entre o episódio 4x09 (onde Lucy, Tim e Genny reformam a casa de infância dos Bradford) e o 4x10 (onde descobrimos que Ashley tem medo de cachorros).

Work Text:

-Não acredito que você pagou tão caro nesse café só por causa de um copo bobo.

Existia um tom ainda mais ácido que o normal nas palavras de Tim, mas o problema não parecia ser com ela. Ele já vinha meio enfezado há algumas horas.

Ela riu. O ano de novata já havia ficado para trás, mas certas coisas nunca mudavam quando se tratava de patrulhar com ele.

-Não é um café normal, é um latte natalino! - Ela levantou o copo, que era vermelho e Ilustrado com temática de natal, e tirou a tampa da bebida, tão quente que soltou uma trilha de fumaça. - Gengibre e canela. Cheira.

Ele não teve escolha quando Lucy aproximou o latte de seu rosto. O aroma era mesmo muito bom, mas seu único comentário foi:

-Ainda é superfaturado.

Ambos pararam naquela cafeteria depois de concluir um caso em uma feira de rua que acontecia ali por perto, onde dois comerciantes iniciaram uma discussão tão acalorada que terminou com ambos rolando no chão, brigando de um jeito que espantava os clientes das barracas vizinhas. Era um dia diferente do tradicional inverno ameno de L.A, pois fazia um pouco mais frio que o normal para as três da tarde e havia chovido. Um café ajudaria.

É claro que Tim nunca entraria naquele lugar cheio de frescuras e adolescentes tirando fotos de copos de matcha sozinho, Lucy teve que convencê-lo. O fato de que era a única cafeteria no quarteirão ajudou.

Lucy deu um gole no latte. Estava um pouco doce demais, mas tudo bem.

-Eu esqueço que você odeia o Natal.

Ele não argumentou. Depois de terminar o próprio café preto em um só gole e descartar o copo, indicou a porta do local com um aceno.

-Vamos. E coloca a tampa de volta nesse copo antes que você tome um banho de gengibre e canela e não sei o quê, porque vou rir da sua cara.

Lucy precisou apertar o passo quando notou que ele já estava saindo antes que ela pudesse provocá-lo de novo. A porta quase se fechou diante dela, mas sua mão se espalmou no vidro para mantê-la aberta. Tim já estava do lado de fora.

-Por que a pressa? Ouviu algo no rádio que eu deixei passar?

Ele só foi se explicar quando ambos já haviam entrado na viatura e Lucy colocava o cinto de segurança.

-Lá dentro eu me lembrei que preciso passar em um lugar. Você vai comigo, mas espera do lado de fora. - Não era uma pergunta. - Vai ser rápido.

Ela estranhou outra vez o tom impaciente. Parecia algo sério.

-Tudo bem.

O silêncio reinou na viatura por algumas ruas. Lucy observava o asfalto úmido e o céu cinza, um clima diferente do que costumava ser a Califórnia na véspera do feriado.

O último natal não foi nada fácil.

A lembrança da data surge ainda mais amarga que o normal na mente de Lucy. Sendo uma época que ela sempre adorou, foi exaustivo fingir algum ânimo quando, poucos dias depois do episódio mais traumático de sua vida, o resto do mundo estava se ocupando de jantares em família, troca de presentes e outras tantas atividades que deveriam trazer alegria, mas que para ela já não surtiam muito efeito. Sua mente não lhe deu um dia sequer de recesso.

Para dissipar o pensamento, ela decidiu fazer o que faz de melhor para perturbar Tim: jogar conversa fora sobre trivialidades.

-Vai fazer o quê amanhã?

Ele não tirou os olhos do trânsito.

-Trabalhar, jantar com minha irmã e meus sobrinhos. Só.

Lucy sorriu.

-Legal.

-Só as crianças acham legal - rebateu ele, ríspido. - A Genny só sabe se estressar por causa da comida, que nunca fica do jeito que ela quer, e eu já não sou fã de Natal, você sabe.

-É, eu sei.

Para Tim, o Natal nada mais era do que outro dia do ano, até um pouco pior. As pessoas insistiam em criar expectativas para a data, mas no fim do dia, não existia mágica que mudasse o fato de que os sozinhos continuariam sozinhos, os doentes permaneceriam doentes e quem não tinha dinheiro para comida e presentes continuaria sem nada. E todo mundo espera que você esteja feliz e tranquilo mesmo se sua vida estiver um completo inferno.

Ele se lembra muito bem de como foram alguns natais particularmente difíceis. O primeiro depois que Isabel foi embora. O primeiro depois do período no Afeganistão. Vários na infância, quando a estupidez do pai estragava a alegria dele, da irmã e da mãe.

Pensar em natais terríveis deixou Tim ainda mais mordido. Apesar do desprezo pela data, existia, por trás de toda a suposta indiferença, uma frustração quase infantil, um sentimento que ele não conseguia suportar.

-E você? Vai trabalhar na fábrica do Papai Noel? Andar de trenó voador?

Ela deu risada. Sabia que Tim estava provocando, mas o tom de julgamento da pergunta soou até um pouco afetuoso.

-Tamara já disse que tem planos com os amigos da escola e vai estar fora de casa e eu, sinceramente, nem pensei muito nisso. Só sei que estou fugindo da minha família como o diabo foge da cruz.

Tim mal conseguiu segurar o sorrisinho maldoso. Para ele, era engraçado pensar nos Chen, tão certinhos e estudiosos e especialistas em saúde mental e educação positiva, como as pessoas que mais deixavam a própria filha maluca.

-Brigou com os pais perfeitos?

Ela grunhiu de forma dramática.

-Eles são insuportáveis e ano passado foi horrível. Bom…- Sua risadinha saiu com pesar. - De qualquer jeito seria péssimo, mas com eles foi ainda pior.

Tim sentiu um nó na garganta quando ouviu essas palavras.

Ele sabia que o último Natal tinha sido pesado para Lucy. Ela mal havia voltado ao trabalho depois do sequestro e estava dando tudo de si para convencer todo mundo de que estava bem. Ele se lembra dos turnos que pareciam tão longos, da preocupação e das perguntas que ela respondia de forma genérica. De como ela havia parado de tagarelar o tempo todo e passou a deixar o silêncio preencher a viatura, olhando pela janela e permitindo que a mente viajasse para algum lugar que ele nunca era capaz de alcançar. Quando o rádio solicitava ambos, como num estalo, ela voltava a se concentrar.

-Sinto muito por isso.

-Obrigada. - Ela não disse mais nada de imediato, mas depois completou: - Acho que entendo um pouco sua bronca pelo fim de ano agora. Natal não tem a menor graça quando os problemas conseguem te drenar por inteiro.

Apesar da constatação deprimente, Tim gostou das palavras. Ela descreveu em uma frase o que ele vinha sentindo em dezembro a vida toda.

-É exatamente isso. É um porre fingir que a época é boa quando a sua vida está, sei lá, cinza.

-Cinza… - Lucy pensou na palavra. - É isso aí. - Olhou de esguelha para ele e deu um sorrisinho. - Ainda assim… a vida não é cinza todo ano para justificar essa bronca constante. Ou a sua vida está cinza nesse momento?

Tim lançou um olhar torto em sua direção, as sobrancelhas franzidas, quando percebeu que ela estava insistindo no assunto para poder contrariá-lo.

-A minha? Eu diria que não, mas poderia estar melhor. E a sua?

Ele se deu conta que esse ano também não seria mil maravilhas para Lucy. Faziam poucos meses que eles haviam perdido Jackson, afinal.

Ela levou um minuto para pensar.

-Poderia estar melhor, mas também poderia estar pior. Acho que prefiro ver o copo meio cheio.

Ele assentiu.

-Que bom.

-Que bom - imitou ela, e mesmo com a atenção no volante, ele sabia que estava sorrindo.

Tim não reclamou quando Lucy passou vários minutos só naquela semana argumentando sobre decoração natalina, ou quando abriu o armário em certa manhã e encontrou um cartão de Natal do Grinch. Ou ainda quando Grey sugeriu um amigo secreto entre o turno vespertino e ela quase pulou da cadeira, se oferecendo para organizar o sorteio com entusiasmo.

Quer dizer, é claro que reclamou, mas era pura implicância. Lucy havia voltado a ficar levemente taciturna nos dias que antecederam o aniversário do próprio trauma, quase que de forma imperceptível, ele só notou porque prestava muita atenção nela. Seu astral estava voltando aos eixos ao final do mês, o que tranquilizava Tim.

Eles estavam no meio de uma rua de comércios quando ele parou a viatura em uma vaga e saiu do carro sem dar muitas explicações, nada mais que um “já volto”.

Lucy acompanhou seus passos para o sentido oposto da rua até onde deu. Quando Tim sumiu de vista, destravou o próprio cinto e tentou espiar pelo vidro traseiro.

Ele estava entrando na livraria que ficava a alguns metros. Assim como a cafeteria, aquele era um lugar que tinha tudo a ver com ela e nada com ele, mas nesse, Lucy já havia estado inúmeras vezes e adorava.

Quando entendeu o motivo da parada, foi impossível não rir. Ela havia acabado de ganhar outro motivo para irritar Tim.

Levou menos de 3 minutos até que a porta do motorista se abrisse e ele estivesse de volta.

-Tudo certo?

Ela puxou o cinto outra vez e travou.

-Deixou para comprar o presente de Amigo Secreto de última hora, né? - Só aí ela notou que ele havia retornado de mãos vazias. - Ou não?

Ele bufou.

-É só uma lembrancinha qualquer que esqueci de comprar antes.

-Meu Deus, que azar deve ser quando seu nome sai na mão da pessoa mais ranzinza do mundo. Eu comprei o meu presente faz uns 5 dias.

-Que bom para você e para a pessoa que você tirou - replicou ele, azedo.

-Mas você voltou sem nada.

-Não achei nada de interessante lá. - Ele deu partida na viatura. - Vou comprar uma garrafa de algum vinho aleatório mesmo.

Ela já ia perguntar como alguém entra em uma livraria daquele tamanho e não encontra “nada de interessante”, mas pensando bem, fazia sentido. Tim mal gostava de ler, tudo para ele devia parecer a mesma chatice.

-Quanta consideração - provocou ela - livros, vinho… presentes genéricos. Quem você tirou?

-Acho que você não entendeu direito como funciona o amigo secreto, Chen.

-Eu posso te ajudar a escolher se você me contar.

-Esquece, de jeito nenhum.

O comentário surpreendeu Lucy, que arregalou os olhos.

-Você me tirou?

Um chamado no rádio interrompeu a conversa. Logo, ambos estavam indo atrás de um caso de assalto à mão armada em um supermercado a algumas ruas dali.

-Tim?

-Sim?

Ela repetiu a pergunta em tom divertido.

-Você me tirou?

Ele suspirou. Quando respondeu, foi olhando no fundo dos olhos dela.

-Não te tirei. Eu juro.

Ela assentiu devagar.

-Ok. Então por que não pode me contar? Sei que você não liga se eu descobrir. Você nem liga para o amigo secreto no geral!

Ele revirou os olhos.

-Quer mesmo saber?

-Quero!

-Porque se eu te contar antes de comprar o presente, você vai ficar falando na minha orelha, tentando me convencer a escolher algo que você considera mais “especial”. Ou seja, vai me dar mais trabalho. E se eu contar depois de comprar, vai criticar a minha escolha falando na minha orelha também. Eu dispenso. - Ele parou a viatura no estacionamento do supermercado e notificou a central no rádio. - Vamos, existe coisa mais importante para fazer do que discutir presentes.

___

A patrulha seguiu sem muitas surpresas. Logo já eram sete da noite, apenas uma hora até o fim do turno, e os dois estavam de volta à delegacia, Lucy fichando um suspeito ligado ao tráfico, Tim ajudando Angela em um interrogatório ligado a um caso de ambos.

Quando o interrogatório terminou com uma confissão e Tim saiu da sala, ela já estava esperando por ele do lado de fora com uma expressão convencida.

-Pois não? - questionou, objetivo.

-Eu reparei em uma coisa…- disse ela, e parecia estar se divertindo com a conversa. Tim logo notou que não ia falar de trabalho.

Ele cruzou os braços e ergueu as sobrancelhas, desinteressado no suspense, meio impaciente.

-Reparou no quê?

-A gente estava literalmente dentro de um supermercado mais cedo, mas você não comprou vinho.

-E daí?

-E daí que você desistiu de dar uma garrafa de vinho barato de presente, o que já me deixa muito feliz.

-Eu nunca disse que o vinho era barato - argumentou.

-Você disse que o presente era uma lembrancinha qualquer - ela rebateu - mas o ponto é: eu já sei quem você tirou.

-Sabe quem eu tirei sendo que não comprei presente nenhum?

-É justamente por isso! - suas mãos começaram a gesticular para enfatizar o raciocínio. - Você teve duas chances de comprar algo barato e sem significado, mas não achou que seria bom o suficiente. Por outro lado, poderia ter escolhido um presente melhor antes, mas não sabia o que comprar. Você tirou alguém que é importante pra você e cuja opinião você leva muito em conta. Alguém que você admira.

Tim fez o que pôde para manter o rosto neutro.

-Você bem que podia canalizar esse pensamento analítico para coisas que realmente importam, não acha?

Ela cruzou os braços, imitando sua postura, e colocou uma expressão convencida na cara. Seu sorriso arrogante foi tão grande que quase chegou nas orelhas.

-Não precisa mais esconder. Você tirou o Grey.

Tim até poderia dizer alguma coisa, mas simplesmente sorriu. Considerou muito mais divertido ver a decepção tomando conta lentamente do rosto dela, fez o momento durar mais.

O sorriso vacilou e os ombros se abaixaram quase que em câmera lenta. Por fim, seu rosto foi tomado pelo desagrado.

-Não é o Grey.

-Não, não é. Aliás, não que eu precise me explicar, mas um: não comprei livros porque nem eu mesmo sequer gosto deles e só percebi que era um presente ruim quando vi aquelas prateleiras cheias de papel pegando poeira. E dois: o mercado estava muito cheio e todos os caixas tinham uma fila imensa que eu preferia morrer a pegar. É simples assim. - De longe, Tim notou Grey gesticulando para que ele se aproximasse. - Agora, se me der licença, tenho que trabalhar. Mas ver essa sua cara convencida sumindo fez meu dia.

Ela revirou os olhos.

-Isso, vai caçoando de mim… quem não tem presente para um amigo secreto que acontece em duas horas é você.

Ele riu.

-Nossa, que problemão.

___

A confraternização começou às 8 no bar, mas o amigo secreto ficou marcado às 9, para garantir que nenhum atrasado que quisesse passar em casa após o turno perdesse o início da troca de presentes. Tim estava levando o tempo de tolerância bem ao pé da letra. Faltavam 10 minutos para as 9 e ele não havia chegado. Lucy sabia que ele estava em algum shopping ou loja de departamentos procurando seu presente tosco no último segundo.

Com seu embrulho a tiracolo e uma garrafa de cerveja na mão, ela estava atenta a uma história absurda de Aaron sobre alguma festa muito extravagante e caótica quando Tim chegou, exatamente um minuto antes das 9 e com um presente na mão. Se sentou um pouco longe, mas seus olhares logo se encontraram.

Ele vestia uma jaqueta jeans preta. Ela estava usando um cardigã vermelho-cereja e brincos prateados, que apareciam de vez em quando em meio à cachoeira de cabelos soltos. Seu batom era de um vermelho tão próximo da blusa que parecia cuidadosamente escolhido.

Tim só notou que estava encarando até demais quando ela lançou um sorriso de provocação para ele.

Teoricamente, ele sabia que aquilo nada mais era do que Lucy tirando sarro de seu quase-atraso e do presente improvisado, assim como ela fez o dia todo. Na prática, aquela expressão combinada com o visual deixou sua garganta seca. Ele desviou o olhar como se houvesse sido pego no flagra e prontamente foi atrás de uma cerveja.

Lucy, a entusiasta declarada do amigo secreto, foi eleita para iniciar a troca de presentes. Tim observou enquanto ela se levantava da mesa com aquele embrulho dourado nos braços e pedia a atenção das pessoas.

-Tá todo mundo aqui, né? - seu olhar varreu as mesas juntadas do bar para confirmar a presença de todos os policiais, detetives e funcionários do turno vespertino da delegacia que prometeram estar ali. - Vou começar!

Ela iniciou seu discurso com uma risadinha encabulada, jogando uma mecha de cabelo para trás da orelha. Ele gostou de ter uma desculpa para observá-la, já que todo o resto do pessoal também estava atento em suas palavras.

-Primeiro de tudo, eu espero muito que essa pessoa goste do presente. Tentei escolher algo que fizesse jus ao estilo dela, que anda sempre belíssima pela delegacia enquanto nós, meros mortais, temos que nos contentar com o uniforme.

Risadas ecoaram com o comentário sobre as roupas e alguns olhares já se viraram na direção de Angela Lopez, decifrando a indireta.

-Nossa, já descobriram? - Ela ergueu as sobrancelhas. - Beleza, mas meu discurso não acabou! Quero dizer algumas coisas. Minha amiga secreta é bem mais que uma mulher estilosa. É uma detetive excepcional, uma esposa e mãe maravilhosa. O Wesley e o Jack são sortudos por formarem uma família com ela. - Seu olhar caiu sobre o presente nas mãos, reunindo as palavras certas. - Ser uma mulher na polícia tem lá os seus momentos frustrantes, e essa pessoa me mostrou que uma boa profissional não deve ter que agir como um homem para receber respeito e reconhecimento. Ela me inspira a ser uma policial melhor.

Tim notou o exato segundo em que o sorriso de Angela se tornou emotivo. O momento não durou muito, pois o time já estava aplaudindo e fazendo barulho e Lucy havia acabado de gesticular para que ela fosse buscar o presente.

Sua surpresa foi grande quando a caixa revelou um par de botas de salto alto pretas. Pela reação, Lucy acertou em cheio no presente. As duas trocaram um abraço cheio de carinho antes de Angela dar sequência à brincadeira.

Depois de algumas rodadas (Lopez tirou Nolan, Nolan tirou Harper, Harper tirou Aaron), Lucy se animou quando Aaron deu algumas dicas e indicou que o presenteado era Tim, que recebeu uma camisa de futebol americano azul e amarela autografada.

Finalmente ela descobriria quem foi o motivo de tanta enrolação e martírio para comprar um simples presente.

Ele pigarreou antes de iniciar sua fala.

-Geralmente, sou um homem de poucas palavras, mas assim como o restante de vocês, também preparei um discursinho. Tentem não chorar muito, eu sei como meus discursos são emocionantes quando eu me esforço um pouco.

Todo mundo riu, mas o sarcasmo fez Lucy revirar os olhos. Que discursos? Tim nunca discursa por nada.

-A pessoa que eu tirei costuma dizer que me conhece muito. Chega a ser estranho, para ser sincero - ele inicia. - Basta eu entrar pela porta da delegacia de manhã com alguma coisa diferente no rosto, às vezes nem eu mesmo sei o quê, e logo escuto “Aconteceu alguma coisa?” ou “Você está mau-humorado hoje.”

-Você sempre está mau-humorado, sargento - provocou Aaron.

-E é isso que eu respondo - Tim explica. - E essa pessoa ainda me olha torto e diz “Não… mais que o normal”.

A frase saiu em tom de imitação e ficou bem óbvio de quem.

-É a Lucy! - gritou Angela.

Todos concordaram e mais uma vez, a “platéia” do jogo ficou caótica quando a pessoa foi revelada.

Enquanto os outros tiravam sarro, Lucy ainda estava assimilando o fato de ter perturbado Tim várias vezes pela demora em escolher um presente para ela. Mesmo inconscientemente, era como se soubesse.

Ele sinalizou para que ela fosse buscar a sacola, mas Lucy não se moveu.

Tim não dava a mínima para o amigo secreto, ele mesmo admitia isso, ok. Mas não era possível que fosse um sacrifício tão grande escolher algo para ela, a colega que passou um ano patrulhando ao seu lado todos os dias, que tinha um vínculo com ele que não existia com os outros policiais. Ou será que essa ligação era só coisa da cabeça dela?

-Por que está me chamando se você não terminou o seu lindo discurso? - perguntou, as sobrancelhas arqueadas e os braços cruzados em deboche. - Vamos lá, estou esperando.

-Você já sabe que o presente é seu.

O gesto apressado que ela fez com a mão deixou Tim irritadinho.

-Jura?

-Quero ouvir o que você tem a dizer sobre sua amiga secreta.

Ele desviou o olhar e assentiu. Em um segundo, a postura ranzinza foi embora e deu lugar a uma cordialidade fingida.

-Tudo bem, vamos falar da minha amiga secreta, Lucy Chen - declarou. - A Chen jura de pés juntos que me conhece muito bem, mas ela não é a única. Se tem uma coisa que você aprende contra a sua vontade trabalhando com ela é uma quantidade absurda de informações aleatórias e inúteis. Por exemplo, eu sei que ela pode dar de cara com o maior cão farejador da LAPD e, quando acha que ninguém está ouvindo, tentar conversar com ele com a mesma voz de bebê ridícula que usa com o Kojo, meu cachorro.

Lucy teve vontade de interromper para dizer “ele era o MEU cachorro primeiro!”, mas decidiu deixar Tim terminar o discurso antes que ele mudasse de ideia.

-Ela finge ser uma pessoa corajosa quando diz que não tem medo de altura, nem de espíritos, nem de nadar - prosseguiu. - Mas tem muito medo de ir parar no hospital numa situação de vida ou morte, simplesmente pela chance de ter escolhido as roupas de baixo erradas nesse dia e as pessoas descobrirem que, às vezes, ela usa calcinha furada.

Lucy cobriu o rosto com as mãos, já arrependida de ter confessado isso para ele e mais arrependida ainda de ter insistido para que ele falasse mais.

-Se ela ver Diário de Uma Paixão, mesmo que seja em uma televisão de loja de departamentos enquanto lida com um caso de roubo, vai dizer que ama esse filme e que sempre chora no final. E se pedir hambúrger vegetariano e enviarem um clássico, vai passar o dia todo se decidindo entre voltar no lugar e reclamar ou deixar passar dessa vez. - Seu olhar encontrou o de Lucy e sustentou o contato. - Ela vive iniciando conversas que não quero ter para me dar conselhos que preciso muito. E passa o tempo todo tentando mostrar que por baixo dessa leveza, bom humor e sensibilidade existe uma profissional competente e uma pessoa forte. E existe mesmo.

Lucy se esqueceu por um instante que ela e Tim estavam rodeados pelas pessoas da delegacia. Era como se só houvesse os dois ali, ambos e as palavras que ela nunca imaginaria que ele diria em público, fora da zona segura da viatura, onde já era difícil arrancar confissões dele às vezes.

Foi ela a primeira a quebrar o contato visual. De alguma forma, as palavras do final fizeram com que ela se sentisse ainda mais exposta do que a história da roupa íntima furada ou a da voz de bebê que usava com os cães. Tim deve ter notado, porque logo deu andamento no discurso usando um tom zombeteiro:

-Ela passou o dia tentando adivinhar quem eu tirei e não conseguiu, aliás. - A expressão que ele lançou para Lucy era de puro deboche. - Vamos ver quem conhece quem melhor agora.

Lucy finalmente se levantou para buscar o presente e trocou um abraço com Tim. Ele já ia soltando quando ela reforçou o enlace em seu pescoço.

-Adivinhei, sim. E você jurou que não era eu, seu mentiroso.

-Claro, de que outro jeito eu ia conseguir te convencer?

Os dois se afastaram, Lucy balançando a cabeça em negação.

Ele sorriu e finalmente estendeu o presente, uma sacolinha de papel preta com um laço de cetim branco unindo as alças.

-Espero que goste. Demorei pra achar.

Lucy desatou o laço e puxou o conteúdo de dentro da sacola. Uma correntinha prateada com um pingente surgiu em sua mão.

-Que bom gosto - comentou, e Tim riu.

Seus dedos brincaram com o pingente, que ela observou com mais atenção. Era uma opalina bem pequena, uma pedrinha de vidro redonda e esbranquiçada que refletia certa luz azul.

Só aí Lucy notou o paralelo entre o presente e o anel de pedra da lua em seu dedo, as pedras distintas, mas carregando certa semelhança. Levantou a mão em que estava usando o anel e segurou o colar na outra, achando a coincidência curiosa.

-Combinou.

Tim sorriu de um jeito afetuoso, os olhos brilhando.

-Era a intenção.

Uma onda de surpresa atingiu Lucy.

-Eu… - mais uma vez, se lembrou que estava rodeada pela equipe da delegacia. -Obrigada.

Ela notou que o pessoal começou a conversar entre si, decidindo quem dos participantes que restaram iria reiniciar a sequência já que Lucy já presenteara Lopez. Ficou decidido que Grey seria o próximo.

Antes de se sentar, Tim sentiu a mão de Lucy em seu braço.

-Eu adorei - disse ela baixinho. - De verdade.

___

Bêbada era uma palavra muito forte, Lucy no máximo estava meio aérea. O colar descansava em seu peito acima do cardigã. E ela não conseguia parar de pensar nele.

Quanto mais ela refletia, mais a escolha do presente mexia com ela. Muito além de bonitinho, o acessório carregava um contexto, um significado, que Tim conhecia muito bem.

O anel de pedra da lua era uma das poucas coisas visíveis que haviam restado daquele dia. A outra era a tatuagem. Pessoalmente, Lucy gostava mais do anel, claro. Era uma prova mais charmosa de que ela havia sido esperta o suficiente para sobreviver.

Ela ainda usava bastante aquela jóia. Passava o polegar sobre a frieza da pedra como forma de lembrar que, por mais desesperadora que a situação pudesse parecer, sempre havia uma saída. Quando chegou o início do último mês do ano e logo teriam se passado 365 dias após o fatídico 9 de dezembro de 2019, o peso daquele terror recaiu sobre ela outra vez. Lucy não entendia por que a mente humana pregava peças como essa, o aniversário de um evento traumático revivendo tudo de pior que deveria ter ficado no passado. Felizmente, agora que o Natal se aproximava, ela já se sentia melhor.

O que estava realmente machucando seu coração naquele momento era a ausência de Jackson. Enquanto o time jogava conversa fora e enchia a cara após o amigo secreto terminar, Angela mencionou seu nome em uma história, relembrando algo engraçado que ele disse. Apesar do clima ter ficado pesado, logo o diálogo seguiu adiante. Bom, pelo menos para o resto das pessoas. Lucy percebeu que os meses brigando com o luto e tentando seguir em frente não impediam que um simples detalhe trouxesse à tona toda a tristeza sufocante que ela vinha sentindo, a mesma avalanche dolorosa de saudade. Depois de fingir que nada havia acontecido por alguns minutos, percebeu que estava falhando e pediu licença da mesa, dando a desculpa de que ia pedir outro drink.

Tim não viu que ela estava na área externa do bar quando cruzou o corredor para ir ao banheiro, mas na volta, notou sua figura apoiada no parapeito do deck, os braços cruzados, encarando o nada enquanto as pessoas ao seu redor utilizavam aquele espaço para fumar. Ele caminhou até ela.

-Você disse que ia pegar outra bebida e sumiu.

Ela só olhou de esguelha para trás.

-Esbarrei com o Smitty indo para o balcão e ele, que já está mais pra lá do que pra cá, começou com um papo de que iria me apresentar para algum sobrinho - justificou ela. - Então fiz um favor a nós dois e deixei ele falando sozinho.

Tim riu. Tinha a impressão de que aquele não era o real motivo do isolamento repentino, mas não perguntou mais nada. Apoiou-se ao lado dela no parapeito e ali ficou.

-Também não estou vendo muita graça em ficar lá dentro.

A princípio, ela não respondeu, e ambos ficaram em um silêncio confortável. Tim estava muito satisfeito com aquele cenário, mas depois de alguns segundos, Lucy perguntou:

-Sabe quando você faz um esforço absurdo para superar algo e pensa que conseguiu por um tempo, já que não pensa naquele assunto com tanta frequência, mas basta um gatilho minúsculo para te colocar de volta na estaca 0?

Sim, disso ele conhecia bastante.

-É o que acontece com todo mundo - disse ele. - Mas você está falando do sequestro?

- Não só - esclarece ela. - Há um tempo atrás sim, com aquele dia horroroso. Mas hoje por causa do Jackson.

Tim assentiu. Ela observou a paisagem desinteressante do local, composta por três lixeiras e um muro, só para evitar encará-lo. Ele aproveitou o momento para estudar sua expressão apreensiva.

-Eu bem que notei que você ficou diferente depois da Lopez mencionar o Jackson - confessou em uma voz suave. - E notei você meio quieta esses últimos dias também.

Ela suspirou.

-Queria que ele estivesse aqui - disse. - E você pode achar que isso é infantil porque não gosta do Natal, mas o fato de ser o primeiro sem ele é de cortar o coração.

Ele refletiu sobre as palavras dela.

O fato de ser o primeiro sem ele é de cortar o coração.

Tim passou muitos fins de ano digerindo amarguras, sempre por algum motivo, mas seria mentira dizer que todos os seus natais foram ruins. Em certa época, a data foi ressignificada. Algo fazia com que o feriado fosse motivo de felicidade para variar. Algo não, alguém.

-Não acho que seja um sentimento infantil, Lucy - assegurou ele. - Até porque seria hipocrisia pensar assim, considerando que estou sentindo exatamente a mesma coisa.

Ela o encarou com o cenho levemente franzido, curiosa. Algo lhe dizia que a conversa não era mais apenas sobre Jackson.

Seria sobre a infância? Há poucos dias, Lucy havia descoberto sobre a existência de sua irmã e a relação difícil com o pai, além de ter ajudado na reforma da casa dos Bradford e abraçado Tim quando ele, arrasado, contou para ela que descobriu sobre o caso extraconjugal. Dava para notar que a hostilidade daquela relação ainda estava marcada nele, talvez mais ainda depois do episódio que ela presenciou.

-Agora pouco, ali dentro, esbarrei com um cara que costumava ser meu vizinho, mas se mudou há cerca de 5 anos. Quando me viu, fez questão de me abraçar e me perguntar “como vai a família?”

Ela levou uns segundos para ligar os pontos, mas percebeu que estava enganada. Aquilo não tinha relação nenhuma com seus pais ou Genny.

-A “família” da pergunta sendo a Isabel?

-Não só ela, mas pelo jeito, as crianças que a gente falava pelos quatro cantos que teria em breve. - Tim riu, mas não estava alegre. - Imagina só, alguém por aí que não te vê há anos imaginando que está dando tudo certo para você, que seu casamento é ótimo e seus filhos melhores ainda, só para depois descobrir que nada disso existe mais ou nunca existiu.

Até ele mesmo sabia que sua dor de cotovelo era patética para ser demonstrada dessa forma, mas já estava meio alto e era mais fácil ignorar os filtros assim.

Lucy matutou seu relato, tentando imaginar o dissabor daquela situação. Ela nunca havia sido casada, mas entendeu porque aquele momento corriqueiro havia perturbado tanto Tim. Dessa forma, assimilou a ligação entre as duas situações: as pessoas não precisavam de muito para que o dedo fosse parar em certas feridas como se fosse o primeiro dia, tudo de novo, enquanto tentavam superar um evento difícil.

Agora foi ele quem desviou o olhar, se sentindo de repente muito vulnerável.

Ela pensou e repensou antes de fazer a pergunta espinhosa que estava na ponta de sua língua, mas decidiu fazer mesmo assim.

-Você ainda ama a Isabel? Tipo, de um jeito romântico?

A pergunta causou desagrado nele, claro. Pelo menos o uso da expressão “jeito romântico” tornou a resposta mais simples:

-Não. Mas quer saber a verdade? - Ele também pensou antes de falar. - Posso não amá-la desse jeito mais, mas sinto falta de ser casado. Acho que é por isso que o Natal me deixa assim. Pensei que a essa altura a vida seria diferente. E por mais que eu saiba que nunca vou retomar o casamento, ela foi o mais perto da ideia de família que eu tive. Quando penso em uma vida com alguém…

-Ainda é o rosto dela que você vê nessa fantasia - Lucy completou.

Tim assentiu a contragosto. Ela sabia que ele iria se arrepender de ter se aberto tanto e não ia demorar.

-Enfim, meu clima pra essa festa já acabou. Eu estava indo embora, na verdade.

-E por que não foi ainda?

-Porque vi você aqui fora.

Ela sorriu.

-Fica mais, quem sabe o Smitty não arruma uma das parentes dele para você.

Tim revirou os olhos, arrancando dela uma risada.

-Avise ele que já estou namorando uma pessoa.

Lucy ficou surpresa.

-É mesmo? Quem?

-Lembra da Ashley, a filha do Jerry?

-Lembro… você mencionou mesmo que tinha um encontro marcado com ela.

-Pois é.

-Vai levá-la para jantar com sua família no Natal?

Uma expressão indignada tomou conta de seu rosto, como se aquilo fosse absurdo.

-Claro que não, é muito recente. Nem sei para onde isso vai.

Ela se virou para ele, apoiando o cotovelo no parapeito, e sorriu.

-Talvez ela esteja presente nos próximos - encorajou, tentando soar otimista.

Tim não ficou muito convencido disso.

-É, talvez. - Seu olhar foi do rosto dela até o pescoço. Quando viu o colar, seu rosto se iluminou. - Nossa, você gostou mesmo.

A mão dela foi instintivamente parar no pingente, levando-o pela correntinha prateada de um lado para o outro.

-Sim. Você disse que demorou para achar… essa era sua ideia desde o começo?

-Não foi a primeira ideia, mas a melhor - explicou ele. - Não tive muito tempo de procurar nos últimos dias.

-A livraria era o seu plano B?

-Mais ou menos isso. Cheguei a escolher um livro sobre true crime que vi na internet para o caso do colar dar errado, mas eles não tinham no estoque e eu não tinha um plano C. Tive que rodar o shopping depois do fim do turno, mas valeu a pena.

-Você realmente escolheu esse porque combinava com o anel?

Ele deu de ombros.

-Você adora esse anel, e com razão. Acho que se eu estivesse no seu lugar, também seria meu acessório preferido.

Passou na cabeça dela outra vez a conversa que eles tiveram na academia da delegacia, quando Tim falou sobre cicatrizes visíveis e metafóricas e lhe entregou o anel de volta. De alguma forma, tudo aquilo parecia um paralelo com a conversa que eles estavam tendo agora.

No fim das contas ele havia se dedicado ao presente, escapando da investigação dela com uma indiferença fingida pelo amigo secreto. Lucy notou que seu raciocínio estava correto, de certa forma. Tim não havia tirado Grey, mas a demora para arranjar o colar vinha, sim, de um lugar que era detalhismo e carinho ao invés de indiferença.

Você tirou alguém que é importante pra você e cuja opinião você leva muito em conta. Alguém que você admira.

Um sentimento estranho começou em seu estômago e se espalhou pelo corpo.

Com Tim sempre era dessa forma, uma mistura de farpas com gestos de cuidado e palavras atenciosas, momentos de sensibilidade em meio à parceria caótica do trabalho na polícia.

Então por que dessa vez parecia diferente?

Era como a conversa no casamento de Angela e Wesley, ou a noite em que ele ofereceu sua cama para ela e estava se preparando para dormir no sofá. Uma mudança de atmosfera que a deixava desnorteada.

Ela já não sabia o que dizer, mas nem ele, pelo jeito, pois um silêncio estranho reinou entre os dois. Lucy quebrou primeiro:

-Você disse que já estava indo embora, né? Eu também estou a fim de ir.

-Te vejo na delegacia amanhã? Não tirei folga.

-Eu tirei! - anunciou Lucy, triunfante. - Vai ter que ficar sem mim, porque vou passar o dia em casa maratonando filmes de Natal.

-Sozinha?

-Provavelmente. - Ela deu de ombros. - Mas não ligo, vai ser ótimo. Vamos entrar?

Tim deixou Lucy seguir em sua frente. Conforme ela caminhava pelo deck, as botas de salto fazendo barulho na madeira, ele estava pensando nela dentro do apartamento, sem Tamara e nem ninguém, deitada em frente à TV o dia todo e tentando espantar a tristeza pela falta de Jackson ao seu lado.

O que ele não sabia era que os pensamentos dela voaram para um lugar semelhante. A diferença era que ele era o protagonista dessa imaginação. Lucy visualizava Tim rodando por Mid-Wilshire o dia todo numa viatura, buscando confusões natalinas para resolver. E depois disso, indo jantar com a irmã para adiar o momento que iria encontrar a casa vazia quando chegasse.

Os dois adentraram o corredor que desembocava nos banheiros à direita e na área interna do bar à esquerda, agora caminhando lado a lado.

De repente, Lucy interrompeu os próprios passos e segurou o braço de Tim.

-Antes da gente voltar…

Ele parou e se virou na direção dela, atento.

-Sim?

-Só queria dizer que você sempre pode conversar comigo. Sei que nessa altura você acha que fico lendo suas expressões para arranjar motivos para implicar com você, tentando adivinhar seu humor. Mas juro que é algo que eu não controlo! - A argumentação arrancou um sorriso dele. - É só porque me importo.

-Digo o mesmo. Bom, não que eu precise, né? Falar não é bem uma dificuldade sua.

Ela riu.

-Mas saiba que mesmo quando estou reclamando da sua tagarelice - prosseguiu ele. - Sempre estou ouvindo.

Ela meneou a cabeça como se fosse óbvio.

-Sei que está.

Os dois compartilharam uma risada. Mais uma vez, ali naquele espaço vazio, estreito e mal-iluminado, um momento era só de ambos. Não havia trabalho, orgulho ou inibição para entrar no meio daquela dinâmica. Nada e nem ninguém.

Lucy se pegou observando o rosto de Tim.
Surgiu em sua mente outra vez o casamento de Angela e Wesley. Em uma realidade paralela, ela teria dançado com ele naquele dia. Nesse momento, percebeu o quanto queria que o convite tivesse se concretizado. Não pela variante feliz de um dia cruel, não só, mas também pelo simples prazer de dançar com ele, poder encher o pé de seu ouvido de conversa fiada, rir enquanto ele, um braço segurando sua cintura e a outra mão segurando a dela, fingia um mau-humor.

Tim ainda não era capaz de ler pensamentos, então enquanto Lucy lhe dava aquele sorrisinho reticente, o olhar carregado de uma doçura inebriante enquanto esquadrinhava seu rosto, tudo que ele podia fazer era retribuir.

Como se já não houvesse olhado para ela um milhão de vezes naquela noite, não resistiu uma última. Estudou os cabelos compridos e escuros. Passeou pelos cílios e viu que os olhos, como sempre, brilhavam. Naquela meia-luz do corredor, mais ainda, aliás. O colar reluzia em contraste com a blusa.

Infelizmente, não adiantava tentar disfarçar mirando nas íris castanhas ou na opalina em seu pescoço. Quase como um imã, o que atraía sua atenção a todo custo era o batom vermelho que estava bem no meio do caminho. Torceu para que Lucy não percebesse.

Mas é claro que ela percebeu, e sentiu o ritmo do próprio coração aumentar. Estava tudo bem até a distância entre eles parecer no limite do que era considerada pequena demais, a ausência de pessoas ao redor deixar de ser uma característica para virar uma oportunidade e a expressão de Tim ultrapassar com folga a linha que dividia uma simpatia inocente de uma vontade de descobrir algo novo na relação deles.

Lucy nem sabia de onde havia surgido o calor dessa vez. O rosto, o peito, tudo começou a queimar.

Também percebeu que a pretensão de ir embora já parecia uma sugestão vaga, algo que só ecoava com fraqueza no campo distante dos pensamentos lúcidos.

Era para lá que as ideias de Tim deveriam voltar, aliás. Antes que a lembrança de que agora ele estava namorando Ashley começasse a queimar na sua consciência, o pensamento foi atropelado por outra informação que parecia mais relevante.

A expressão de Lucy era pura expectativa. Se ele se inclinasse um pouco para um beijo, ela com certeza não recuaria. Foi o que ele fez.

Foi nessa hora que um grupo de garotas em idade universitária surgiu na ponta do corredor conversando de forma escandalosa. A quebra do silêncio assustou ambos. Em um pulo, levou um segundo até que, em todos os sentidos, os dois criassem novamente uma distância.

Ela observou as garotas entrarem pela porta do banheiro feminino para não ter que encarar Tim. Por fim, sorriu amarelo.

-Bons tempos.

Ele não respondeu. Estava ocupado convencendo a si mesmo de que nada havia acontecido.

Do outro lado, Lucy não parava de se perguntar o que havia acontecido.

-Eu… vou me despedir do pessoal e já vou indo - Tim murmurou.

-Eu também. Não quero chegar tarde em casa.

Ele gesticulou para que ela fosse na frente, ainda sem coragem para olhá-la nos olhos de novo. Em um movimento nervoso, ela aceitou a gentileza e saiu em disparada de volta para a área interna do bar.

Por tudo que havia acontecido anteriormente naquela noite, o desfecho foi irônico: ambos se despediram de todos os colegas antes de pedirem caronas de aplicativo, um pouco embriagados para dirigir, e irem para casa. Menos um do outro.

___

O Natal não trouxe muitas surpresas. Assim como o planejado, Lucy aproveitou o dia de folga para acordar bem mais tarde e cozinhou exclusivamente para si as comidas festivas que mais gostava. Não se deu ao trabalho de trocar o pijama para se aconchegar no sofá com um cobertor e assistir filmes natalinos o dia todo, esperando Tamara voltar para casa. Quando anoiteceu, se sentiu um pouco culpada pelo gelo nos pais e ligou para eles por chamada de vídeo.

Tim teve um dia como qualquer outro, com exceção de que feriados como esse sempre resultavam em turnos mais puxados. Às oito, foi direto para a casa de Genny com uma garrafa de vinho em uma mão e presentes para os sobrinhos na outra. Estranhou a ausência mal explicada do cunhado, mas foi o primeiro Natal que ele não passou sobrando, segurando vela para a irmã e o marido, então não foi ruim. Ela parecia até mais leve esse ano. Menos preocupada com o tempo de forno do peru, com os meninos enrolando para ajudar a pôr a mesa e as outras queixas de sempre. Depois do jantar, as crianças arrastaram Tim para o quintal para jogar bola. Por fim, quando os dois garotos se cansaram e decidiram migrar para o videogame, Tim seguiu Genny até a cozinha e lhe fez companhia enquanto ela tomava outra taça de vinho. Longe dos pais e sem um par senão um ao outro, ali ficaram em uma sessão divertidíssima de fofoca ácida, desabafando sobre algumas coisas, gargalhando sobre outras.

Quando Tim abriu a porta da própria casa e acendeu a luz da sala, já era mais de meia-noite. Percebeu que estava satisfeito, mas sentiu, sim, falta de algo o dia todo.

Era estranho passar tanto tempo sem conversar com Lucy.

Ele revisitou a noite anterior. O clima ao final da festa estava desconcertante, sem dúvidas, mas eles teriam que se ver no dia seguinte, então qual era a utilidade daquele estranhamento?

Sacou o celular do bolso e digitou um “Feliz Natal” atrasado para ela. A mensagem parecia seca. Com um coração vermelho, era demais. Por fim, adicionou um emoji de pinheiro. E mais dois, para garantir.

Lucy viu a mensagem pela barra de notificações na mesma hora.

Pensar na noite anterior a deixava nervosa. Só a ideia de encarar Tim na manhã seguinte para outro dia normal de trabalho, sabendo que saiu daquele bar tão sem jeito com o que quase aconteceu, fazia com que ela quisesse gritar em um travesseiro.

Mas ele não precisava saber disso. Digitou uma resposta simpática, adicionando pontos de exclamação e um emoji de estrelas. Depois de enviar, digitou outra. Essa só dizia “até amanhã”.

Lucy foi para a cama pouco depois e Tim fez o mesmo. O Natal estava oficialmente concluído naquele ano.

Teoricamente, na verdade. Lucy rebobinou a conversa da noite anterior em sua mente, dissecando cada palavra, cada gesto. Quando finalmente estava prestes a pegar no sono, percebeu que ainda usava o colar que foi presente de Tim. Já cansada demais para se dar o trabalho de procurar o fecho e retirar, dormiu com aquela correntinha e a opalina escondidas entre o pijama e a própria pele.

Quanto a Tim, a lembrança mais marcante que ficou daquele feriado não incluía a ausência da ex-esposa, o tempo de qualidade com a irmã ou a promessa de um relacionamento duradouro com a nova namorada. Ao fechar os olhos, tudo que ele via era Lucy sorrindo para ele, os olhos cintilando, a boca vermelho-cereja, aquele sorriso de quem sabia de algo que ele ainda não havia descoberto.