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Rosa sob o Preto | SukuIta ( Especial de Natal )

Summary:

Em um mundo onde almas gêmeas compartilham mechas da mesma cor de cabelo, o destino costuma se revelar cedo demais. Mas não era o caso deles.

Sukuna aprendeu a esconder o próprio rosa sob tinta de seus cabelos naturais pretos, recusando qualquer decepção precipitada de seu coração ansioso. E Yuji, técnico especializado em conserto de máquinas, carregava seu rosa natural à vista — e um rebaixo preto que nunca soube explicar.

Na véspera de Natal, um chamado de emergência os coloca no mesmo estúdio, entre metal, tinta e luzes de neon. O que começa como um conserto urgente se transforma em reconhecimento, tensão e escolhas que não podem mais ser adiadas.

Porque o destino pode ser irritante.
Mas às vezes, é exatamente onde você sempre esteve esperando.

 

Universo Alternativo — Almas Gêmeas

Notes:

Meus queridos aqui está uma história de natal .✨🎄💕🥹❤️ Tenham uma boa leitura.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

𝐃𝐈𝐒𝐂𝐋𝐀𝐈𝐌𝐄𝐑:

  𝘈𝘭𝘨𝘶𝘯𝘴 𝘱𝘦𝘳𝘴𝘰𝘯𝘢𝘨𝘦𝘯𝘴 𝘴ã𝘰 𝘰𝘳𝘪𝘨𝘪𝘯𝘢𝘪𝘴, e os 𝘱𝘦𝘳𝘴𝘰𝘯𝘢𝘨𝘦𝘯𝘴 𝘥𝘦 𝘑𝘶𝘫𝘶𝘵𝘴𝘶 𝘒𝘢𝘪𝘴𝘦𝘯 𝘴ã𝘰 𝘥𝘦 𝘎𝘦𝘨ê 𝘈𝘬𝘶𝘵𝘢𝘮𝘪, 𝘯ã𝘰 𝘮𝘦 𝘱𝘦𝘳𝘵𝘦𝘯𝘤𝘦𝘮, 𝘱𝘰𝘳é𝘮 𝘵𝘰𝘥𝘰 𝘰 𝘦𝘯𝘳𝘦𝘥𝘰 𝘥𝘦𝘴𝘴𝘢 𝘩𝘪𝘴𝘵ó𝘳𝘪𝘢 𝘢𝘭𝘵𝘦𝘳𝘯𝘢𝘵𝘪𝘷𝘢 é 𝘮𝘦𝘶, @𝘔𝘪𝘹𝘣𝘭𝘶𝘦𝘴__.

 

𝐋𝐄𝐆𝐄𝐍𝐃𝐀

( “ Conversa duas aspas ” )

(‘𝘗𝘦𝘯𝘴𝘢𝘮𝘦𝘯𝘵𝘰 𝘶𝘮𝘢 𝘢𝘴𝘱𝘢 𝘤𝘰𝘮 𝘪𝘵á𝘭𝘪𝘤𝘰’)

( 𝘕𝘢𝘳𝘳𝘢çã𝘰 𝘦𝘴𝘱𝘦𝘤𝘪𝘢𝘭 𝘦𝘮 𝘪𝘵á𝘭𝘪𝘤𝘰 𝘴𝘦𝘮 𝘢𝘴𝘱𝘢𝘴 )

 

_______

 

A cidade de Sendai parecia respirar diferente naquela semana.

As luzes de Natal se espalhavam pelos postes, vitrines e sacadas como se alguém tivesse derramado cor demais sobre o concreto. Pisca-piscas piscavam fora de ritmo, renas de plástico encaravam o nada, e a neve fina e insistente cobria as calçadas com uma camada irregular que logo se transformava em lama sob os passos apressados das pessoas.

Itadori Yuji mal tinha tempo de reparar em qualquer detalhe.

Após tomar um café sem muito tempo, ele atravessava a rua quase correndo, a caixa de ferramentas pendurada no ombro, o cachecol vermelho frouxamente enrolado no pescoço. O gorro não escondia muito o cabelo rosa vibrante, que chamava atenção mesmo sob a iluminação fria do fim da tarde. Algumas pessoas olhavam, outras sorriam, outras desviavam o olhar, e ele já estava acostumado.

O letreiro do salão de Miwa brilhava em azul claro, com um floco de neve adesivado torto na vitrine.

“Yuji, meu querido!” A voz veio antes mesmo que ele empurrasse a porta. “Graças a Deus, você chegou!”

O interior do salão estava um caos organizado. Cadeiras ocupadas, capas pretas jogadas sobre os clientes, secadores ligados ao mesmo tempo, música natalina tocando baixo demais para competir com as conversas. A mulher de cabelos azulados andava de um lado para o outro, segurando o celular na mão enquanto gesticulava para ele.

“A máquina simplesmente morreu no meio da escova.” Ela explicou, apontando para o objeto. “Eu juro que tratei ela como um bebê desde que você veio aqui.”

Yuji riu, largando a caixa no chão e se abaixando ao lado da cadeira.

“Elas escolhem os piores momentos pra isso,” disse, já abrindo o compartimento com naturalidade. “Fim de ano é sempre assim.”

Enquanto trabalhava, Yuji sentia o peso da rotina acelerada daqueles dias. Desde o início de dezembro, mal tinha parado em casa. Salões cheios, tatuadores em pânico, barbeiros desesperados. Todo mundo queria estar perfeito para o Natal, para as fotos, para os encontros, para as promessas que vinham junto com o fim do ano.

Ele ajustou um fio solto, testou a alavanca e escutou o som limpo do motor do difusor de cabelos.

“Pronto.” Anunciou. “Era só um mau contato. Ela aguenta firme até o Ano Novo. Mas aconselho comprar um novo ano que vem.”

Miwa quase pulou de alívio. “Você é um anjo salva vidas. Sério.”

“Um técnico com contas pra pagar,” ele brincou, fechando a caixa.

Quando se levantou, levou a mão à nuca num gesto automático, coçando distraidamente a pele sob o cabelo curto. O movimento fez o gorro escorregar um pouco, revelando o rebaixo preto que contrastava com o rosa intenso do restante do cabelo.

Era sempre assim.

Não lembrava de um único dia da vida em que aquela parte não tivesse sido diferente. Nunca pintou. Nunca desbotou. O preto permanecia ali, sólido, como se tivesse sido marcado de propósito.

Quando era criança, perguntava aos adultos. Quando cresceu, parou de perguntar. 

Nesse mundo, todo mundo sabia o que significava.

Um pedaço grande assim do nada com outra cor. Era um reflexo que não pertencia só a você.

Era uma marca da alma gêmea.

Ele só carregava o sinal, como uma resposta sem pergunta, nunca encontrou a dele. Ele ou ela, fosse quem fosse. 

Ao ajustar o gorro de volta e receber o dinheiro, se despediu da moça, saindo novamente para o frio.

A cidade parecia ainda mais viva agora. Sacolas de presentes, risadas altas, casais de mãos dadas. O cheiro de comida quente escapava dos restaurantes, misturando-se ao ar gelado. Caminhava rápido, checando o celular entre um atendimento e outro, a agenda lotada piscando na tela.

Era complicado trabalhar para si mesmo, sem alguém para auxiliar e sem um lugar próprio.

De repente mensagens no seu número comercial se enchiam: outro salão. Outra máquina. Outro “salva a gente, pelo amor de Deus, tem como você passar aqui hoje?”

Ele gostava do que fazia. Gostava de entender engrenagens, fios e motores. Gostava de consertar coisas no limite, devolver funcionamento ao que tinha parado. Havia algo reconfortante nisso — problemas tinham solução clara, diferente de certas perguntas que o acompanhavam desde sempre.

Quem era essa pessoa que carregava a mesma cor que ele? Estava algum lugar da sua cidade de Sendai? Ou perdida por aí no mundo? 

O celular vibrou no bolso do casaco.

Ao parar perto de uma vitrine decorada com bolas douradas com  árvores artificiais, atendeu sem olhar o número.

“Itadori falando.”

Do outro lado, a voz era tensa, apressada.

“É o técnico? O de emergência?”

“Sou eu, sim. Qual o problema?”

Houve um segundo de silêncio, seguido por um suspiro irritado, como se alguém tivesse arrancado o telefone da mão da outra pessoa.

“Nossa máquina de tatuagem parou. No meio do trabalho.” A voz agora era grave, ríspida, claramente sem paciência. “Preciso de alguém aqui, agora!”

Yuji franziu levemente a testa, já abrindo o aplicativo de mapas.

“Certo, senhor. Onde fica o estúdio?”

“Ryo Ink. Segundo andar.” Uma pausa curta. “Não chegue atrasado, vou mandar a localização por mensagem!”

A ligação caiu antes que Yuji pudesse responder.

“Cadê a educação?”

Ele ficou alguns segundos olhando para a tela apagada do celular, sentindo a neve pousar nos ombros do casaco. O nome do estúdio ecoou na cabeça, acompanhado por uma estranha sensação no estômago — como se algo tivesse se deslocado do lugar.

Respirou fundo, colocou a caixa de ferramentas no chão e abriu o aplicativo de transporte para não se atrasar. Olhando para o céu de neve com lágrimas contidas.

“Eu preciso comprar um carro…”

Com a respiração um pouco acelerada, ele subiu os degraus do prédio antigo, mais pelo frio do que pela pressa. O hall de entrada era estreito, iluminado por uma luz amarelada que contrastava com o reflexo da neve ainda presa na barra do seu casaco. 

O segundo andar do prédio antigo estava longe de ser silencioso.

Antes mesmo dele empurrar a porta preta do Ryo Ink, já ouvia vozes misturadas, risadas curtas, o som constante de uma máquina de tatuagem em funcionamento e, por baixo de tudo, uma música natalina baixa: um instrumental discreto remixado de rock, mas nada exagerado.

Ao entrar, a primeira coisa que o atingiu foi o ar com aquecedor.

Cheiro de álcool, tinta, metal limpo e algo levemente amadeirado vindo de produtos de cabelo. Á primeira vista parecia ser um ambiente vivo, ocupado, mas organizado de um jeito que deixava claro a seriedade. 

A recepção ficava logo à frente, e ao redor havia alguns sofás estofados, onde dois clientes já aguardavam. Na parede estava um balcão baixo, retangular, de acabamento escuro. Atrás deste, uma mulher de cabelo branco de mechas vermelhas digitava algo no computador, com uma expressão neutra e entediada. Pequenos detalhes de Natal decoravam o espaço: um fio de luzes brancas preso discretamente à prateleira, um mini pinheiro artificial no canto do balcão.

“Boa tarde”, ela disse, levantando o olhar na mesma hora e vendo o horário perto das dezoito horas. “Você deve ser o técnico.”

“Sou sim”, ele respondeu, ajeitando a alça da caixa de ferramentas no ombro. “Itadori Yuji.”

“Sou Uraume.” Ela assentiu, já pegando uma prancheta. “Sukuna é dono daqui, ele está nos fundos.” Os olhos violetas dela passaram pela franja rosa dele  e deram um breve arregalar, antes de voltarem ao normal. “A máquina principal de tatuagens que ele estava usando parou no pior momento possível, cuide disso por favor.”

“Beleza”, ele comentou com um meio sorriso educado.

“Quando terminar, volte aqui para receber o pagamento.” Ela o olhou de cima a baixo quando o viu se afastar a uma certa distância. “Ele está bem irritado, mas não ligue muito pra isso.”

“Tudo bem.” 

A mulher, ao vê-lo se  curvar  em comprimento e sair, pegou rapidamente o celular e discou uma mensagem aos colegas funcionários. Seus olhos foram até os próximos clientes sentados e respondeu calmamente com um sorriso leve. 

“Sinto muito senhores, houve uma emergência e vamos fechar mais cedo hoje.”

Voltando ao corredor principal que levava direto ao coração do estúdio, Yuji avançava. E conforme explorava, o espaço se abria em camadas. Era engraçado porque se assemelhava ao layout que os dentistas usavam — talvez tenha sido isso antes. Não que estivesse reclamando, era ótimo para privacidade.

No centro, a estação de tatuagem principal chamava atenção imediatamente. A cadeira hidráulica reclinável estava ocupada, um cliente deitado enquanto um homem alto de cabelos brancos trabalhava com uma concentração relaxada demais para alguém cercado por equipamentos caros. Ele usava um gorro vermelho de Natal torto na cabeça que mostrava pouco algumas mechas pretas nos cabelos. Também usava calças verdes, completamente destoante do que parecia ser a seriedade do lugar.

“Se mexer mais um pouco eu vou te tatuar uma estrela fora do lugar”, comentou, sem tirar o foco do trabalho. “Se quiser pode encarar meus olhos belíssimos.”

“Desculpa, desculpa”, o cliente murmurou, nervoso. “Tudo bem.”

O tatuador de olhos azuis desviou os olhos para Yuji e piscou.

“Oi docinho, feliz Natal.” O olhou de cima a baixo. “Sukuna tá te esperando.”

Rindo um pouco sem graça, Yuji assentiu e desviou o olhar, seguindo adiante. À direita, o espaço de cabeleireiro estava em plena atividade. Um outro homem de altura semelhante ao anterior cortava o cabelo vermelho de uma mulher sentada na cadeira de barbeiro profissional. O espelho grande refletia as luzes douradas do estúdio, e na prateleira abaixo dele, navalhas, pentes, produtos e lâminas estavam organizados como instrumentos cirúrgicos. Uma guirlanda pequena pendia do canto do espelho, o único toque claramente festivo naquele setor.

“E aí irmão! Se quiser café, tem na copa”, o cabeleireiro de cabelos presos num coque preto com finas mechas brancas, arregalou de leve os olhos e comentou ao notá-lo passando, com uma bolsa. “Ah, você deve ser o rapaz da máquina, boa sorte. Feliz Natal.”

“Obrigado. Talvez depois”, Yuji respondeu, rindo de leve. “Feliz Natal pra você também.”

O estúdio era mediano, e nada ali parecia desperdiçado. Cada área tinha uma função clara, integrada à outra. As luzes em trilhos no teto eram ajustáveis, direcionadas com precisão para o centro do ambiente, criando ilhas de foco sem deixar sombras desnecessárias. Não eram fortes demais, nem fracas. 

Na parede lateral, uma galeria inteira exibia os designs autorais com o nome de Ryomen Sukuna como artista. Skulls agressivos, dragões retorcidos, criaturas híbridas, padrões geométricos complexos. Tudo disposto de forma simétrica. Yuji diminuiu o passo por um segundo, absorvendo o impacto visual.

Ali não havia nada genérico.

À esquerda, o espaço de higienização brilhava em aço inox. Pia industrial, caixas esterilizadoras, armários altos com gavetas fechadas. No fundo do estúdio, pendurado na parede, um letreiro de neon simples rosa chamava atenção.

 Uma palavra estilizada piscava de forma irregular, falhando em alguns pontos. Yuji notou automaticamente. O problema não era grave, mas estava ali, latente, como um aviso.

Então ele viu o que poderia ser o dono do lugar.

Sukuna estava inclinado sobre a bancada metálica, uma máquina de tatuagem desmontada à sua frente. Os ombros largos estavam tensos sob a camiseta escura, braços tatuados expostos enquanto ele examinava o equipamento com evidente irritação. Um gorro azul-escuro cobria sua cabeça, puxado para baixo o suficiente para esconder completamente o cabelo preto.

Havia um cliente esperando perto dali, inquieto, olhando o relógio. Sukuna falou algo rápido para um assistente, apontou para outra estação e voltou a atenção para a máquina, como se aquilo fosse uma afronta pessoal.

Ao se aproximar com cuidado, Yuji apontou ao redor gesticulando.

“Boa noite! Você é o dono daqui da—”

Sukuna ergueu o rosto no meio da frase. O olhar que encontrou Yuji era afiado, profundo e avalista.

“Sim.” Ele endireitou o corpo devagar. “E você é o pirralho que veio salvar meu estúdio hoje?”

“Sim, esse é o meu trabalho, senhor.” Yuji piscou uma vez, mas manteve o tom calmo. 

“Me chame de Sukuna.”

“Ok, senhor Sukuna.”

A mandíbula do homem se contraiu. “Só Sukuna, caramba.”

Yuji mordeu a língua para não rir. “Só Sukuna então”, corrigiu, abaixando-se para apoiar a caixa de ferramentas no chão. “Qual é o problema?”

Sukuna pegou a máquina desmontada e a estendeu na direção dele, apontando com o dedo para uma das peças internas.

“Aqui.” O tom era duro. “Isso travou no meio da sessão. A fonte está funcionando, e o pedal tá respondendo, mas o motor não gira como deveria. Essa droga.”

Yuji pegou a máquina com cuidado, os dedos reconhecendo o peso e o modelo quase instantaneamente. “Entendi”, murmurou, analisando. “Pode ser rolamento, ou fio interno rompido.”

O tatuador cruzou os braços, observando cada movimento com atenção quase agressiva. “Você sabe consertar isso?”

“Sei…”

“Beleza… mas é o seguinte…” Ajustou a touca na cabeça, o encarando. “Troque a peça errada”, ele disse, finalmente, “e eu faço você engolir essa caixa inteira.”

Foi inevitável quando Yuji soltou uma risada baixa, antes de conseguir se conter. Ergueu o olhar, encontrando o de Sukuna.

“Prometo tentar evitar que isso aconteça”, respondeu, com um sorriso que não parecia nem um pouco intimidado.

O tatuador estreitou os olhos por um segundo, claramente irritado. Mas depois, um meio sorriso saiu daqueles lábios medianos, revelando covinhas que eram encurraladas pelas tatuagens faciais, o que combinavam com a pura raiva. Yuji achou fofo e sexy ao mesmo tempo, mas imediatamente retomou a consciência do trabalho, então começou a organizar suas ferramentas sobre a bancada.

Apoiou um dos joelhos no chão frio enquanto organizava as ferramentas em fileiras cuidadosas. A caixa aberta revelava chaves, alicates e peças pequenas que tilintavam suavemente sempre que ele se movia. O cabelo rosa respirava do gorro e do cachecol vermelho que ele já tinha tirado, balançando de leve conforme se inclinava sobre a máquina desmontada.

Uma lâmpada articulada foi puxada para mais perto, lançando uma luz branca e fria sobre o equipamento.

O som do estúdio continuava ao redor deles, o zumbido constante de outra máquina em funcionamento, passos indo e vindo. Ainda assim, havia algo diferente naquele espaço específico, como se o ar estivesse mais denso.

“Vai dar pra terminar essa sessão?” O homem de cabelos azulados e rosto cicatrizado na cadeira cruzou os braços, impaciente.

“Sim, por enquanto vou usar outra máquina pra adiantar outra parte.”

“Tch, que seja.”

 

Esse era um cliente dos chatos. Então Sukuna voltou para ele com uma das máquinas reservas, claramente irritado por ter sido obrigado a mudar o fluxo da sessão logo nesse momento.  Ajustou o pedal com força um pouco maior do que o necessário e retomou o traço, concentrado, mas não o suficiente para ignorar completamente o que acontecia a poucos metros dali.

Ele percebia cada movimento do técnico. Era um gatinho, e respondão ao seu ver.

O jeito como os dedos dele giravam a peça com cuidado. A facilidade com que reconhecia o encaixe errado, como se já tivesse desmontado aquele modelo dezenas de vezes. O corpo inclinado para frente, atento, presente.

“Tá vendo isso aqui?” Yuji comentou, quebrando o silêncio enquanto apontava para o interior da máquina. “O rolamento não tá girando livre. Provavelmente travou por causa de micro sujeira ou desgaste.”

O dono não respondeu de imediato, mas diminuiu levemente a pressão do traço no braço do cliente, ouvindo.

“O motor tenta compensar”, continuou o de cabelos rosados, com a voz tranquila, quase didática, “mas acaba forçando o eixo. Aí esquenta demais, perde rotação… e morre no meio da sessão.” Ele puxou um fio com cuidado, analisando a extremidade. “E aqui tem um fio interno meio rompido. Ainda passa corrente, mas qualquer vibração maior faz falhar.”

Falava com naturalidade, sem esforço, como alguém que realmente gostava do que fazia. As palavras saíam claras, bem articuladas e sem pressa.

Sukuna percebeu bem depois que estava prestando atenção demais.

Havia algo irritantemente atraente na forma como o jovem técnico explicava: seguro de si, direto e sem tentar impressionar. Era inteligente de um jeito funcional. Parecia ter vinte e poucos anos. 

E, apesar da situação e sua irritação para com ele, estava absurdamente calmo.

“Dá pra consertar”, Yuji concluiu, levantando o olhar por um instante. “Mas vai levar uns vinte minutos, por aí.”

“Desde que funcione”, Sukuna respondeu, seco, voltando os olhos para o cliente.

Mesmo assim, algo tinha mudado.

Enquanto trabalhava, Sukuna sentiu o calor se acumular sob o gorro. O estúdio estava meio vazio agora e as luzes não estavam tão fortes. Seu corpo estava estranho em tensão constante desde que esse rapaz chegou. 

Um fio de suor escorreu pela têmpora.

Sem pensar muito, ele levou a mão à cabeça e puxou o gorro azul-escuro para fora, passando os dedos pelo cabelo curto e escuro. Coçou a nuca num gesto automático, exatamente onde a tinta preta começava a perder força perto da raiz.

O movimento foi rápido. Instintivo.

Mas não passou despercebido.

Yuji, inclinado sobre a máquina, captou o detalhe no canto do olhar. Um tom diferente, quase escondido sob a tinta escura. Um rosa suave surgindo na base do cabelo de Sukuna, discreto demais para ser casual.

Ele franziu a testa por um segundo, confuso.

Aquilo… não parecia tinta recente. Nem descuido. O pensamento foi rápido demais, quase inconsciente.

Sukuna, por outro lado, sentiu o próprio estômago se contrair no instante seguinte.

Ele tinha visto. Não tinha como não ter visto. Mas estava tão no automático nesse dia que estava meio alheio ao cabelo quase totalmente rosa do jovem que passou por suas portas.

O suor frio surgiu antes que ele pudesse impedir. A mão voltou para o gorro, ajustando-o de volta com força demais, como se isso pudesse apagar o que já fora revelado. O coração batia mais rápido do que deveria.

Não agora.

Ele tentou se concentrar na tatuagem, mas o traço perdeu a fluidez por um breve segundo. Apertou a mandíbula, respirou fundo.

Destino era uma palavra que ele se recusava a aceitar.

Atrás dele, Yuji voltou a focar na máquina, mas a sensação estranha permanecia. Algo fora do lugar. Familiar demais para ser coincidência.

Ele encaixou uma peça nova com cuidado, testando a resistência.

Foi quando aconteceu um estalo seco em sua mão. Um choque leve percorreu seus dedos, rápido e inesperado.

“Porra—” Yuji soltou a ferramenta por reflexo, o metal caindo e batendo na bancada com um som alto demais para aquele ambiente controlado.

Antes que ele pudesse reagir, uma mão firme se fechou ao redor de seu pulso.

Sukuna havia se virado num movimento instintivo, largando a máquina do cliente no suporte. Os dedos apertavam com força suficiente para impedir que Yuji recuasse, mas não para machucar.

“O que foi isso?” ele perguntou, a voz baixa e tensa.

Yuji piscou, surpreso, sentindo o calor do toque subir pelo braço.

“Nada grave”, respondeu, engolindo em seco. “Só um choque estático… acontece.”

Por um segundo longo demais, nenhum dos dois se mexeu.

A proximidade tinha sido tão súbita que foi desconfortável a reação.

Ao se levantar, o rosto de Yuji se ergueu para encarar Sukuna. A luz fria da lâmpada refletia nos olhos do tatuador, que agora pôde-se notar melhor os vermelhos profundos. Destacava-se cada detalhe: as tatuagens no rosto, a atenção nele e a respiração curta.

Sukuna, por sua vez, estava perto demais para ignorar. Perto o suficiente para ver o rosa vibrante do cabelo de Yuji contrastando com o rebaixo preto da nuca. Era óbvio para reconhecer. Uma clareza assustadora, aquela combinação.

Rosa e Preto. Exatamente como os dele. O que fez o mundo parecer desacelerar.

O barulho do estúdio virou pano de fundo. A música, as vozes, tudo se dissolveu num zumbido distante. Só existia aquele instante, aquele toque, aquele reconhecimento silencioso que nenhum dos dois estava pronto para nomear.

Os olhos se encontraram.

E nenhum dos dois desviou o olhar primeiro, até ouvirem o cliente fazer um barulho com a garganta.

“Erramm.” Pigarreou, quebrando o silêncio denso que tinha se formado. “É… acho melhor a gente remarcar”, disse, olhando para o pulso ainda incompleto. “Tá meio tarde. E já deu por hoje.”

Sukuna demorou um segundo a responder, como se tivesse esquecido completamente da presença dele ali. Piscou, voltou ao mundo real, soltou o pulso de Yuji.

“Volta amanhã”, respondeu ao outro, seco. “Primeiro horário.”

O cliente assentiu rápido demais, aliviado. Pegou o casaco, murmurou um “feliz Natal” quase desdenhoso e se afastou, passando por Gojo e Geto sem dizer muita coisa. Em poucos minutos, o estúdio foi esvaziando aos poucos. Uraume fechou o sistema da recepção, avisou que ia descer para resolver algo no estoque. Gojo terminou a própria sessão e se despediu com um aceno preguiçoso. Geto apagou as luzes do espaço de cabeleireiro e saiu logo depois.

Quando a porta se fechou pela última vez, o estúdio ficou diferente.

Não silencioso, pois o neon ainda falhava no fundo, a música natalina continuava baixa — mas íntimo. Como se o espaço tivesse encolhido.

Yuji respirou fundo e voltou a atenção para a máquina.

“Bom”, disse, limpando as mãos num pano. “Agora dá pra terminar direito.”

Ele se ajoelhou novamente, ajustando o encaixe final, testando a rotação com cuidado. O barulho do motor voltou mais estável dessa vez, contínuo, como deveria ser.

“Pronto”, levantando-se,  estendeu a máquina. “Testa aí.”

Sukuna pegou o equipamento sem dizer nada, conectou à fonte e ao pedal com movimentos rápidos e experientes. 

Ligou, e o som saiu limpo.

Ele observou por alguns segundos, sério, atento a qualquer falha. Nada. Funcionava perfeitamente.

“Funcionou”, admitiu, depois de um momento. Não era exatamente um elogio, mas chegava perto.

“Eu disse”, Yuji respondeu, tranquilo. “São pequenos detalhes.”

Sukuna puxou uma cadeira para perto da bancada e, sem pensar muito, estendeu o próprio pulso. “Vou testar num traço curto.”

Yuji arregalou um pouco os olhos. “Em você?”

“Relaxa”, respondeu. “Não vai ser nada grande.”

Ele preparou tudo rápido demais para que Yuji pudesse argumentar. Ajustou a agulha, passou álcool, escolheu um desenho simples no tablet — um pequeno tigre estilizado, linhas firmes, agressivas.

Ao se inclinar para trabalhar, Sukuna ficou mais próximo do que antes. A postura mudou, concentração absoluta, respiração controlada.

Yuji observava em silêncio, até conseguir ver melhor.

O gorro havia escorregado um pouco para frente conforme Sukuna se inclinava. A tinta preta do cabelo desbotada na raiz revelando o tom rosado, suave, quase escondido na raiz, mas inconfundível.

Rosa.

Exatamente o mesmo tom do dele. Yuji sentiu o estômago apertar novamente ao perceber de vez agora olhando diretamente.

O traço da tatuagem avançava com precisão, mas a atenção dele não estava mais ali. Estava presa àquele detalhe pequeno demais para ser ignorado.

“Seu cabelo natural também é rosa?” Perguntou, antes mesmo de pensar melhor.

A máquina continuou funcionando por um segundo a mais do que deveria.

“Não.” A resposta veio rápida demais.

Yuji inclinou a cabeça, como se tentasse confirmar o que já sabia. Levantou a mão e apontou para a própria nuca, indicando depois a de Sukuna, sem tocar.

“E essa parte?” A voz saiu calma, quase curiosa. “Você pinta sempre o cabelo? Porque… esse tom assim…”

Sukuna ergueu o rosto lentamente.

O olhar que lançou em Yuji era afiado, cortante, cheio de aviso.

“Não é da sua conta.” O silêncio que se seguiu foi pesado.

Havia algo ali,  não só no tom de Sukuna, mas na rigidez do corpo, na forma como ele evitava se mexer demais. Yuji sentiu o impacto daquelas palavras, mas não recuou. Pelo contrário. 

Depois de alguns segundos, Sukuna voltou a atenção para o próprio pulso. Terminou o desenho com mão firme, como se nada tivesse sido dito. O tigre ganhou forma sob a pele, pequeno, perfeito, agressivo.

Ele desligou a máquina e limpou o local com cuidado.

Era o sinal óbvio de encerramento. A deixa para o técnico guardar as ferramentas, agradecer e ir embora. 

Mas Yuji não se moveu.

Diante da situação, soltou uma risada baixa seca, quase divertida, e deu um passo à frente. A confiança que antes era só profissional agora tinha outro peso. Não podia ignorar.

“Será que não é?” Perguntou, inclinando-se um pouco mais, perto demais para ser casual.

 O estúdio parecia prender a respiração junto com eles.

Sukuna terminou de limpar o pulso e pousou o braço na bancada com mais força do que o necessário. Não respondeu de imediato. O maxilar ficou tenso, os olhos fixos em um ponto qualquer da parede, como se ignorar fosse uma escolha viável.

Yuji não conseguia se afastar agora.

Pelo contrário, inclinou a cabeça de leve, observando com mais atenção agora. Não havia pressa no gesto. Era curiosidade misturada com certeza.

Ele deu um passo curto para o lado, mudando o ângulo, para observar com clareza.

A raiz do cabelo de Sukuna, perto da nuca, não era completamente escura. A tinta preta perdia força ali, revelando um rosa discreto, quase escondido — mas inconfundível. Não era o rosa vibrante do cabelo de Yuji. Ainda assim, era o mesmo tom que surgia no reflexo quando ele olhava para o próprio rebaixo no espelho.

Levou a mão à própria nuca sem pensar, puxando o cabelo rosa para cima e deixando o preto à mostra.

Não precisou dizer nada. A comparação era inevitável.

Sukuna percebeu o gesto pelo canto do olho. O corpo reagiu antes da mente: ele se afastou meio passo, como se tivesse sido encurralado. A expressão endureceu, mas  não era raiva pura. Era tensão e um medo disfarçados.

“Pare”, disse, baixo. Não soou como ordem. Soou quase como pedido.

Os olhos castanhos estavam atentos, mas suaves ao ergueu o olhar, encontrando os vermelhos. Tentou ao máximo ser abrasivo sem ser intrusivo.

“Eu não vim aqui por isso. Mas não dá pra fingir que eu não vi.”

Sukuna soltou uma risada curta, seca, sem humor. Passou a mão pelos cabelos, espalhando ainda mais a tinta escura sobre a raiz rosada, como se isso resolvesse alguma coisa.

“Você tá se precipitando. Isso não significa nada.” Respondeu meio brando, mas sua expressão dizia outra coisa.

O jeito como evitava olhar diretamente para Yuji. A respiração curta demais. O silêncio prolongado entre uma frase e outra.

Ao dar mais um passo à frente, Yuji agora estava perto o suficiente para dividir o mesmo espaço de ar que ele.

“Eu cresci com isso”, disse, tocando de novo a própria nuca. “Fiquei sem entender a maior parte da minha vida. Sem explicação. E agora…” Ele hesitou por um segundo, mas continuou. “Agora faz sentido demais pra ser coincidência.”

Sukuna fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia exaustão ali, como um cansaço antigo.

“Eu pintei”, admitiu… e finalmente sua  voz saiu meio baixa. “Porque eu não queria ser enganado pelo de—…”

A frase parou, e Yuji não respondeu de imediato. Mas a verdade se assentou entre eles com um peso quase físico.

O Destino. Essa era uma palavra simples demais para explicar aquilo.

Totalmente ao contrário do que parecia querer, Sukuna foi o primeiro a se mover.

Aproximou-se devagar, como se cada passo fosse uma decisão consciente. Quando parou diante de Yuji, ergueu a mão e segurou seu queixo, os dedos firmes, obrigando-o a levantar o rosto. Seus olhos  analisaram cada detalhe da expressão de Yuji: o leve franzir de sobrancelhas, a respiração contida, a expectativa silenciosa.

Depois, o olhar desceu. Fixo no rebaixo preto da nuca caramelizada, contrastando com o rosa vivo do cabelo acima.

“Então é você…” Somente murmurou, deixando transparecer no tom de voz a aceitação. “Minha alma gêmea.”

A palavra foi fundo em seu peito e Yuji engoliu em seco, mas não desviou os olhos. Em resposta, levou a mão ao cabelo de Sukuna. O toque começou cuidadoso, quase hesitante, antes de ganhar confiança. Seus dedos deslizaram pela lateral da cabeça até a nuca, afastando os fios escuros o suficiente para revelar o rosa claro escondido sob a tinta.

Ali. A prova estava exatamente ali.

Sukuna prendeu a respiração quando sentiu o toque. O corpo inteiro reagiu:  não de surpresa, mas de reconhecimento. Como se o sentimento que tivera a meia hora atrás quando esse jovem passou pelas suas portas estivesse finalmente sendo nomeado.

O silêncio entre eles não era vazio. Era cheio demais.

“O destino tem um humor de merda”, Sukuna murmurou, a testa inconscientemente quase encostando na de Yuji. Sua voz soava rouca, carregada de uma moleza que ele raramente deixava escapar.

O corpo de Yuji ficou trêmulo, e ele soltou um sorriso pequeno e nervoso. “Tem… mas pelo menos te trouxe alguém que sabe consertar suas máquinas.”

Por um segundo, Sukuna apenas o encarou. Então riu num tom baixo e verdadeiro, que suavizou as linhas duras do rosto.

“Um ótimo presente de Natal.”

Seus olhos desceram, e um ímã de repente tomou conta de seus corpos, fazendo seus lábios se chocarem num beijo nada  delicado.

Foi urgente, como se ambos tivessem passado tempo demais evitando aquilo. Sukuna puxou Yuji para mais perto pelo queixo, aprofundando o beijo sem pedir permissão. Yuji respondeu na mesma intensidade, a mão ainda presa à nuca dele, sentindo os lisos e suaves fios dos cabelos pretos.

O beijo ganhou ritmo rápido, quase ansioso. Respirações se misturaram quando Sukuna mordeu de leve o lábio de Yuji, arrancando um som baixo, satisfeito, antes de aprofundar ainda mais o contato. 

Não havia timidez ali, apenas necessidade. Está que não pode crescer por muito tempo, pois a falta de conversa não permitia. Quando se separaram, as testas ficaram coladas, os dois respirando arfantes.

“Eu esperei muito por você”, Sukuna sussurrou, a voz mais baixa agora. Mais honesta. “Sabe quantas vezes eu tentei esconder isso?”

“Eu imagino.” Em resposta, Yuji fechou os olhos por um instante, absorvendo cada palavra. “Eu sempre mostrei, mas porque não estava aguentando mais ficar sem você em minha vida.”

“Agora eu tô aqui.” Sua cintura foi circulada num abraço, junto há um beijo na mandíbula.“Você tem mais alguém pra atender hoje?” Sukuna cheirou o pescoço dele, passando o nariz ali.

“N-Não, não tenho.”  Yuji quase fechou os olhos com os arrepios, respirando fundo com a clara mudança nas atitudes do homem que antes era um total idiota de pedra.

“Ótimo.”

Sukuna estendeu a mão e puxou a cortina daquele pequeno espaço, isolando-os do resto do estúdio. Em seguida, apagou a luz superior, deixando apenas o neon falhando na parede aceso: Ryo Ink.

O rosa e o preto se refletiam no rosto dos dois agora grudados entre beijos, misturados e inevitáveis.

Como sempre foram.

 

 

FIM

 

Notes:

Obrigada por ler pessoal. Espero que tenham gostado. 🎄💕🎄💕🎄💕💕
🎄🎄 FELIZ NATAL!🎅🎅