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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-12-26
Completed:
2025-12-26
Words:
23,638
Chapters:
2/2
Comments:
1
Kudos:
7
Bookmarks:
2
Hits:
83

sanguespectro

Summary:

Em um mundo sombrio onde toda vez que você tira a vida de uma pessoa, o sangue nas suas mãos se torna uma mancha vermelha permanente, Taehyung é obrigado a abandonar tudo que conhece depois de matar alguém pela primeira vez.

Sem outra alternativa, ele segue em direção a terrível Floresta de Sebrik, o lar dos maiores criminosos do continente. É onde conhece Jeongguk, um homem com mais da metade do corpo manchado de sangue, um número incontável de morte nas mãos e uma reputação de dar arrepios. Conhecido como Besta de Fogo, é ele que mantém a ordem no lugar. E também, é ele a única chance que Taehyung tem de sobreviver naquele inferno.

Seres malignos em formato de sombras vagam por toda parte e a floresta tem regras bem específicas: não fique no escuro, mantenha distância das cachoeiras e nunca, em hipótese alguma, grite por socorro.

Notes:

Oioi, é minha primeira publicando aqui, então talvez eu esteja fazendo algo de errado, porque ainda não sei mexer no site direito. Enfim, essa twoshot deveria ter sido postada no Halloween, mas estamos um pouquinho atrasados no meu calendário.

A fanfic foi inspirada no conto "Sombras nas Florestas do Inferno" do Brandon Sanderson (vulgo meu autor favorito). Também peguei emprestado o nome "Sanguespectro" das histórias dele 🤩

É isso, espero que gostem

Chapter 1: Deus-Pai Dakkon, proteja-nos

Chapter Text

— Dakkon, Deus da vida e da misericórdia, que desceu ao inferno e permaneceu por 4 mil anos, proteja-me. Me livrai desse destino tão cruel. Dakkon, eu te suplico por misericórdia. Meu Deus, meu soberano, eu lhe prometo…

— Cale a boca, seu bastardo! — A mulher gritou, impaciente.

O homem se encolheu no lugar, mas manteve a mão firme sobre o peito e continuou com sua reza interminável. Era careca, como a maioria dos sacerdotes do Deus-Pai Dakkon. Usava uma túnica branca, com três faixas amarelas amarradas na cintura. Um padre recém formado, a julgar pelas cor das faixas. Mal devia ter começado a fazer suas pregações antes de cometer o pecado mais abominável de sua religião.

— Está perdendo seu tempo. — Um homem mais velho, talvez na casa dos sessenta, alertou. Um sorriso divertido enfeitava seus lábios. — Você não é mais de Dakkon, meu amigo. Sua alma pertence a Deusa agora, assim como a de todos nós. Tente rezar para Ela, talvez tenha piedade de você.

O sacerdote arregalou os olhos, horrorizado.

— Blasfêmia!

— Blasfêmia é um homem de Deus ter as mãos manchadas de sangue. — A mulher retrucou, cheia de ironia. — O que foi que aconteceu? Algum dos seus fiéis se recusou a contribuir com as “reformas” da igreja? Uma das sacerdotisas se recusou a ir para a cama com você? Ou será que alguém descobriu que aqueles boatos sobre abusos e prostituição dentro dos templos sagrados são verdadeiros?

O sacerdote cerrou os dentes, seu rosto ficou vermelho e suas mãos começaram a tremer. Em poucos segundos, sua feição se transformou, se assemelhando a um touro descontrolado. Pelo visto, nem mesmo Deus foi capaz de curar o problema de raiva que o homem tinha. 

Taehyung se afastou dele o máximo possível e passou a observar a paisagem do lado de fora da carroça, enquanto seus três companheiros de viagem continuavam a discussão inútil. Que diferença faria, afinal? Nenhuma divindade poderia ajudá-los no momento. Naquela altura, tentar se agarrar à fé seria como segurar em uma folha solta para tentar escapar da correnteza violenta.

A carroça deu um forte solavanco e balançou seu corpo de um lado para o outro. Taehyung suspirou e escondeu as mãos manchadas de vermelho nos bolsos do casaco.

O sacerdote começou a gritar e exigir que a mulher pedisse perdão a Deus pela insolência. O homem mais velho soltou uma gargalhada, mas a mulher se calou e recuou, um pouco apreensiva. Tinha cometido um erro, ela percebeu. Irritar alguém mais forte que você nunca era uma boa ideia, principalmente se essa pessoa fosse um fanático religioso. Com os olhos arregalados, o rosto todo vermelho e veias saltando pelo pescoço enquanto gritava, o sacerdote parecia mesmo uma obra de Sebrik, a Deusa da morte e da tormenta.

O sacerdote voltou os olhos para Taehyung, que permanecia em silêncio desde o começo da viagem. Taehyung tateou os bolsos do casaco rapidamente e ergueu um colar. A estrela de quatro pontas brilhou contra a luz do sol. O símbolo sagrado do Deus-Pai Dakkon, cada ponta da estrela representava um milênio que Ele passou no inferno, em busca das almas humanas que a Deusa-Mãe Sebrik roubou.

A expressão do sacerdote amenizou um pouco, mas seus olhos continuaram a faiscar de ódio sempre que encarava os outros dois ocupantes da carroça. Nem chegaram à floresta ainda, mas já tinham um inimigo perigoso. Taehyung apertou o colar entre os dedos e voltou a observar a paisagem. Não era religioso, mas sua mãe sim. O colar foi a única coisa que ela lhe entregou antes de Taehyung fugir.

Ao redor, a paisagem se tornava cada vez mais densa. Plantações abandonadas, engolidas pelo mato e pelos animais selvagens. Não havia casas, nem pessoas por perto. Era muito diferente de Pardak, a capital do império, sempre movimentada e cheia de vida. Taehyung estava muito longe de casa.

Casa… Engoliu em seco e apertou o colar com mais força. Não tinha mais isso. Talvez nunca mais tivesse algo assim, para chamar de lar. Graças às novas manchas vermelhas em suas mãos, Taehyung nunca mais teria uma vida normal. Aonde quer que fosse, seria tratado como um pecador. Um assassino.

Assim como seus outros três companheiros de viagem.

A mulher tinha apenas os dedos da mão esquerda manchados. Se tivesse sorte, talvez conseguisse escondê-los por um tempo, embora a inspeção sempre fosse intensa nas cidades maiores. Ninguém contratava uma pessoa, assinava um contrato de casamento ou permitia sua entrada nos estabelecimentos mais importantes sem antes ver as mãos.

As manchas que o homem mais velho possuía também não eram grandes, apenas nos dedos, nas palmas e alguns respingos nos pulsos. O pior de todos era o sacerdote. Suas duas mãos, metade dos braços, o pescoço e uma parte do rosto estavam com vestígios de sangue, sinal de que o assassinato que cometeu foi brutal. Talvez tivesse matado mais de uma pessoa.

A carroça deu outro solavanco, enquanto a estrada ficava cada vez mais irregular e descuidada. As primeiras árvores surgiram no horizonte, tão grandes quanto as torres do palácio do imperador Kang. Mesmo de onde estava, Taehyung sentiu o clima sombrio do lugar e um arrepio percorreu seu corpo.

Floresta de Sebrik.

Também conhecida como “O Inferno de Sebrik”, a região possuía a maior concentração de criminosos do vasto continente de Lektar. Quando se cometia um pecado tão asqueroso como assassinato, havia apenas duas possibilidades: aceitar uma morte honrada que poderia lavar seus pecados e lhe conceder um lugar nos Salões Divinos, ou fugir para aquela floresta. 

Taehyung não queria morrer. Era covarde demais para isso e achava essa história de “morte honrosa” uma baboseira. Então, depois de ter apunhalado seu próprio pai pelas costas, sua reação foi reunir o máximo de dinheiro e mantimentos que conseguiu e fugir.

— Aquilo são… as sombras? — A mulher perguntou.

— Não. — O homem que guiava a carroça respondeu secamente. — São apenas sombras comuns das árvores. As outras só vagam durante à noite.

Taehyung engoliu em seco. Só percebeu que apertava o pingente de estrela com força excessiva quando perfurou sua pele e seu próprio sangue começou a deslizar entre os dedos. Abriu a mão rapidamente e encarou os cortes. Seus dedos estavam trêmulos.

O que fez a floresta ser conhecida como o inferno não foram os criminosos que se refugiaram ali. Eram os outros habitantes do lugar, mais antigos do que o próprio império. Sombras demoníacas, que se alimentavam da vitalidade e da carne humana. Os animais de estimação da Deusa Sebrik, que nada mais eram do que as almas dos pecadores condenados que caíram nas mãos Dela.

Durante o restante do trajeto, ninguém mais se atreveu a falar. As discussões sobre Deus e pecados morreu. Todos os olhos estavam fixos na floresta.

Com outro solavanco, a carroça parou a uns cem metros das primeiras árvores.

— Saiam! — O dono ordenou com rispidez.

Taehyung pegou suas coisas e foi o primeiro a saltar para fora da carroça. A viagem foi paga com antecedência e seus mantimentos acabaram naquela manhã, então a única mochila que trazia estava leve demais, contendo apenas algumas peças de roupa limpa. Apressou o passo, querendo manter distância dos outros três viajantes. Assim que a carroça virou para ir embora, os gritos preencheram o ambiente. Taehyung começou a correr, sem olhar para trás. Estavam perto demais da floresta.

Se algum deles gritasse por socorro…

Taehyung correu mais rápido, até seus pulmões arderem. Quando já estava a poucos metros das árvores, se atreveu a olhar por cima dos ombros. O homem mais velho estava caído no meio do caminho, completamente imóvel. Uma poça de sangue se formou ao seu redor. A mulher continuava a gritar, enquanto o sacerdote a perseguia com uma expressão enlouquecida.

Taehyung estagnou na entrada, com a respiração ofegante e os olhos arregalados. Observou as árvores enormes, os galhos retorcidos de maneira macabra. A entrada era grande, mas conforme seguia para dentro da floresta, a trilha estreitava. Sombras se moviam ali dentro. A princípio, pareciam normais, mas poderiam ser outra coisa.

A mulher e o sacerdote corriam naquela direção também, se aproximando cada vez mais. Taehyung sabia que precisava continuar avançando, mas… Pelos Quatro Salões Divinos, aquele lugar dava calafrios!

Um medo começou a se alastrar por seu corpo, muito maior do que o medo que sentia pelo sacerdote fanático. Taehyung recuou um passo, depois outro. O que estava pensando? Faltava pouco tempo para o sol se pôr. Não podia entrar naquele lugar sem uma fonte de luz, até os forasteiros sabiam disso. Era a primeira regra da Floresta de Sebrik.

Nunca fique no escuro.

A mulher passou por ele e entrou na floresta sem hesitar, sendo seguida de perto pelo sacerdote. Ela continuava a gritar.

— So-...

— Não! — Taehyung gritou.

Mas já era tarde demais.

— Socorro!

Com o coração acelerado e o medo percorrendo cada centímetro de seu corpo, Taehyung se virou e correu para longe da floresta. Um chiado estranho percorreu as árvores e um vento gelado tomou conta do lugar.

Taehyung tropeçou no meio da estrada e foi ao chão. Bem lentamente, se virou e voltou a observar as árvores. Os gritos da mulher se tornaram mais altos, muito mais aterrorizantes. Ela estava caída de joelhos no meio da trilha. Acima de seu corpo, três figuras de olhos vermelhos flutuavam. Eram acinzentadas, quase transparentes. Pareciam feitas de fumaça. Uma delas abocanhou o braço da mulher e o arrancou fora. Outra avançou sobre o rosto dela e começou a sugar sua energia vital. A terceira abriu um longo corte ao longo de seu peito e começou a devorar seus órgãos.

Aquela era a segunda regra da floresta.

Nunca grite por socorro.

O sacerdote estava caído pouco atrás da mulher, com uma expressão de puro horror no rosto. Ele foi esperto o suficiente para se arrastar pela trilha, para fora da floresta. Quando estava fora do alcance das sombras demoníacas, ele se ajoelhou e começou a rezar.

Os gritos da mulher finalmente cessaram e um silêncio pesado dominou a região.

Taehyung fechou os olhos, respirou fundo e passou uma das mãos pelo rosto. Seu corpo inteiro estava trêmulo. Não conseguiria levantar dali tão cedo. Quando voltou a abrir os olhos, as sombras tinham ido embora. Na entrada da floresta, o sacerdote continuava com suas súplicas por misericórdia. Os últimos raios de sol começaram a sumir no horizonte.

Não podia ficar ali. Não sem uma fonte de luz. Coisa que, em sua fuga apressada de casa, Taehyung nem ao menos se lembrou de pegar.

De repente, uma silhueta surgiu na trilha. A princípio, Taehyung pensou ser outra sombra e essa simples possibilidade o deixou à beira das lágrimas, até notar que a forma era sólida demais. Era um homem. Um dos habitantes da floresta.

O alívio de Taehyung durou pouco tempo. Assim que os poucos raios de sol que restavam iluminaram o rosto do homem, outra onda de terror percorreu seu corpo. Quando você mata alguém, as manchas de sangue continuam em sua pele pelo resto da vida. Quanto mais mortes, mais intenso era o vermelho, maiores eram as marcas.

Sua vontade foi de se levantar e sair correndo para o mais longe possível, porque o homem à sua frente tinha os braços, o pescoço e metade do rosto completamente vermelhos. Comparado a ele, as manchas do sacerdote eram insignificantes.

Tanto sangue. Tantas mortes.

O homem avançou. Usava um casaco longo e botas surradas, e trazia um longo machado de dois gumes nas mãos. Em seu cinto, várias facas pequenas se encontravam. Ele parou diante do sacerdote e o observou por longos segundos.

O sacerdote finalmente notou sua presença e o encarou com uma expressão horrorizada.

— Demônio…

O recém chegado observou o corpo mutilado da mulher, em seguida virou o rosto e avistou o corpo daquele outro homem no meio da estrada.

— O que pensa que está fazendo? — Ele perguntou, parecendo estranhamente irritado.

O sacerdote não respondeu. O homem cerrou o maxilar e ergueu seu machado. Assim como seu dono, a arma também estava manchada de vermelho.

— Nessa floresta, quando te fazem uma pergunta, você responde.

— Eles debocharam do Deus-Pai Dakkon! — O sacerdote explodiu. — Eram pecadores e a morte era o que mereciam!

O homem ergueu uma das sobrancelhas.

— Se eles eram pecadores, você é o que?

— Sou um fiel servo de Dakkon! — O sacerdote gritou. — Antes eu não entendia, mas agora está claro o caminho que Ele escolheu para mim. Minha missão nessa terra é exterminar os pecadores, aqueles que não acreditam em seu nome! Aqueles que mancham a humanidad…

Antes que o sacerdote continuasse com seus delírios, o machado desceu sobre sua cabeça, em um golpe rápido e mortal. O corpo do homem tombou para trás e sangrou até a morte.

Os olhos do recém chegado caíram sobre Taehyung. Ele puxou o machado da cabeça do sacerdote e, bem lentamente, caminhou em sua direção. Parou bem na sua frente e observou-o com as sobrancelhas franzidas, como se estivesse decidindo se deveria matá-lo também ou não. O último resquício do sol desapareceu e os dois mergulharam na escuridão.

Taehyung se encolheu e esperou pela morte, tanto das sombras demoníacas quanto pelo assassino. Aquele que fosse mais rápido o mataria primeiro.

Porém, ao invés da morte, recebeu luz.

Um lampião acendeu entre os dois e iluminou o rosto de Taehyung por completo. Surpreso, voltou a encarar o homem. Ele tinha prendido o machado nas costas e estava com a mão esquerda estendida em sua direção. Uma mão completamente coberta de sangue. Taehyung avaliou suas duas possibilidades: aceitar a ajuda de um assassino que poderia matá-lo a qualquer momento ou ficar ali, no meio do escuro, e ser devorado vivo pelas sombras demoníacas.

Sem hesitar, Taehyung segurou a mão do homem. Com um puxão forte, ele o ajudou a se levantar e ergueu o lampião. Tão próximo assim, Taehyung notou que até mesmo um dos olhos do homem possuía manchas de sangue. Por sorte, não estavam dentro da pupila, então não devia atrapalhar sua visão.

— Venha. — Ele soltou sua mão e começou a caminhar para dentro da floresta.

Sem outra alternativa, Taehyung correu para segui-lo e tentou ficar o mais próximo possível da fonte de luz.

— Conhece as outras regras da floresta? — O homem perguntou, encarando-o por cima dos ombros.

— Só… — Taehyung pigarreou e se esforçou para que sua voz saísse. — Só ouvi boatos. 

— A maioria são falsos ou exagerados demais. As verdadeiras regras são apenas três. Nunca fique no escuro. Mantenha distância das cachoeiras. — Ele encarou o que restou do corpo da mulher no meio da trilha. — E nunca, em hipótese alguma, grite por socorro, seja durante a noite ou durante o dia.

Taehyung engoliu em seco, assentiu e contornou o corpo da mulher. Olhou para trás, para os três corpos caídos ao redor da floresta. Um arrepio percorreu seu corpo, junto de uma certeza apavorante.

Eu posso ser o próximo.

☾𖤓

Embora não seguisse mais o dakkonismo, Taehyung passou os primeiros quinze anos de sua vida acompanhando seus pais nas pregações, então conhecia muito bem as histórias religiosas. Todos no império conheciam.

No princípio de tudo, Dakkon e Sebrik eram Deuses complementares. Um reinava durante o dia, a outra durante a noite. A cada cem anos, os dois se encontravam e dominavam o céu juntos. Em um desses encontros, os primeiros humanos surgiram.

Dakkon ficou encantado com os novos filhos, mas seu coração se partiu quando o primeiro deles morreu. Para um Deus imortal, a vida dos humanos era curta demais. Então, Ele criou o Quatro Salões Divinos, um lugar sagrado onde as almas poderiam repousar pela eternidade em sua companhia. Sebrik não gostou da ideia, porque Ele recolhia todas as almas, desde as mais bondosas até às mais cruéis, e nada sobrava para Ela.

Quando os Salões Divinos já estavam cheios, Ela aproveitou um descuido de Dakkon, invadiu o lugar sagrado, roubou as almas humanas e as arrastou para o inferno. Dakkon, não suportando a ideia de ver seus filhos tão queridos sofrendo pela eternidade, abandonou os céus e mergulhou na escuridão. Durante quatro mil anos, Ele vagou pelo inferno, resgatou cada alma levada e as guiou de volta para os Salões Divinos, enquanto Sebrik dominava o dia e a noite.

Quando Dakkon finalmente terminou sua missão de resgate e voltou para a superfície, se deparou com o mundo em ruínas. Tomado pela fúria, Ele expulsou Sebrik do céu e assumiu o controle. Sebrik foi aprisionada debaixo da terra, em seu próprio inferno, tendo permissão para sair somente a cada cem anos, quando Dakkon também estaria nos céus para vigiá-la.

Como uma última vingança, Ela amaldiçoou a própria morte, para que Dakkon, o Deus da vida e da misericórdia, ficasse ciente de que seus tão adorados filhos também podiam ser criaturas perversas. Os Salões Divinos, que antes eram abertos para todos, passaram a possuir uma única regra: acima de tudo e de todas as coisas, a vida era sagrada. Graças às manchas eternas de sangue, uma pessoa que tirava a vida de outra jamais entraria no paraíso. Eram as únicas almas que Dakkon, mesmo em toda sua misericórdia, permitia que Ela levasse para o inferno e adicionasse ao seu exército de sombras demoníacas.

Até seus quinze anos, Taehyung era como seus pais. Um seguidor fiel e cego de Dakkon. As coisas mudaram no dia que foi obrigado a encarar as falhas terríveis daquela religião.

Taehyung ergueu o rosto e observou o céu. Sem a Deusa-Mãe Sebrik, a noite era uma escuridão completa, sem aquilo que os antigos humanos chamavam de “Lua”. Algumas estrelas apareciam às vezes, mas eram raras. Sua única fonte de luz era o pequeno lampião.

À sua frente, o homem coberto de sangue continuava a caminhar pela trilha em passos tranquilos. Taehyung tentava se manter o mais próximo possível dele. Nunca, em toda sua vida, imaginou que se sentiria tão seguro ao lado de um assassino, mas não tinha escolha. Sempre que olhava para o lado, para a escuridão da floresta ao seu redor, conseguia avistar os olhos vermelhos se movendo devagar, acompanhando cada um de seus movimentos.

O assassino parou tão de repente que Taehyung se chocou contra seu corpo.

— Desculpe! — Se apressou em dizer.

O homem o encarou por cima dos ombros. Sua expressão estava estranhamente tranquila, sem nenhum resquício da raiva que sentia quando matou o sacerdote. Também não havia nenhum traço de medo, apesar da quantidade absurda de sombras que os cercavam.

— Chegamos.

Taehyung olhou em volta e percebeu que estavam em uma clareira. O homem deixou o lampião em suas mãos e se afastou, começando a recolher alguns galhos para fazer uma fogueira. Taehyung encarou o lampião, em seguida o homem. Se saísse correndo floresta adentro, ele ficaria sozinho para trás, no escuro. Será que não tinha pensado nisso? Ou será que era alguma espécie de teste, para saber se Taehyung era mesmo de confiança?

Fosse o que fosse, Taehyung sentou no chão e manteve o lampião próximo, iluminando os dois.

Depois de montar a fogueira no centro da clareira, o homem pegou a bolsa que trazia no cinto e tirou algo de dentro. Taehyung levou alguns segundos para perceber que eram pedras-vagalume, que brilhavam no escuro. Com várias pedras em mãos, o homem fez um círculo ao redor da clareira. Uma última linha de defesa. Caso a fogueira ou o lampião se apagassem durante a noite, as pedras começariam a brilhar. A luz não seria tão forte, mas pela quantidade de pedras, devia ser o suficiente para impedir que as sombras demoníacas se aproximassem.

Assim que terminou seu trabalho, o homem sentou diante da fogueira. Ele não pediu o lampião de volta e Taehyung não fez menção de devolver. Era melhor acumular o máximo de luz ao seu redor.

— Nesse lugar, eles me chamam de Besta de Fogo. — O homem disse de repente. — Particularmente, eu prefiro ser chamado de Jeongguk.

A ordem para Taehyung se apresentar ficou implícita. Respirou fundo e relaxou os ombros. Jeongguk não tinha lhe matado até aquele momento. Talvez não tivesse nada a temer, apesar de todo aquele sangue.

— Meu nome é Taehyung.

Jeongguk assentiu.

— Por que… — Taehyung deslizou os olhos pelas manchas vermelhas no corpo dele. — Por que matou aquele sacerdote?

— Até mesmo o inferno precisa de regras, Taehyung. — Jeongguk respondeu. — Um homem como ele seria um risco para todos e com certeza causaria muitos problemas no futuro.

Taehyung assentiu, embora a ideia soasse absurda para seus ouvidos. Aquela era a Floresta de Sebrik, afinal. O lar dos maiores criminosos do mundo. Como poderia existir alguma ordem naquele lugar?

De repente, sentiu seu estômago roncar. Taehyung fez uma careta. Não comia nada desde o dia anterior, quando seus mantimentos acabaram. Estava tentando ignorar a fome, mas… Amaldiçoado seja o nome de Sebrik, seu estômago doía como o inferno! 

Sua família sempre teve ótimas condições financeiras e comida nunca faltou na mesa, então aquela dor era nova. Algo que Taehyung não estava acostumado e nem sabia lidar.

Jeongguk o encarou por alguns segundos, em seguida pegou a mochila que trazia nos ombros. De dentro, ele tirou uma marmita e estendeu em sua direção.

— Coma.

Uma onda de alívio percorreu seu corpo e Taehyung não hesitou em aceitar. Para uma floresta conhecida pela escassez e pela miséria, a marmita estava surpreendentemente cheia. Havia até mesmo pedaços de carne assada. Taehyung começou a comer, se esforçando para manter o mínimo de educação.

— Por que está me ajudando? — Perguntou, curioso.

Jeongguk tirou o machado ensanguentado das costas, deitou na grama e passou a observar o céu escuro. Ou pelo menos, aquilo que Taehyung achava ser o céu. Com árvores tão grandes, devia ser difícil enxergar alguma coisa, mesmo durante o dia.

— Você não parece ser uma ameaça, o que te torna um alvo fácil demais. Provavelmente seria morto nos primeiros trinta minutos que passasse sozinho. Me deu um pouco de pena.

Taehyung não se ofendeu. Sabia que era a mais pura verdade. Nunca foi do tipo briguento e mal sabia usar uma espada direito. Só era bom em fazer pães, doces e bolos, um talento que não seria muito útil naquele lugar.

Ao encarar as árvores próximas, notou mais e mais sombras se movimentando ao redor, vigiando-os da escuridão, esperando qualquer vacilo para avançarem sobre os dois. Seu sangue gelou. Taehyung abaixou a cabeça e voltou a se concentrar na comida, tendo dificuldade para engolir o restante.

— Como… como eu faço para sobreviver então? — Perguntou, decidido a arrancar o máximo de informações de seu salvador. — Tem algum lugar para morar aqui?

— Existem algumas estalagens e pousadas ao longo da floresta, com comida à vontade e quartos seguros, com muita luz. — Jeongguk explicou. — Mas são muito caras. Imagino que não tenha dinheiro.

Taehyung enfiou uma das mãos no bolso e tirou as três moedas de prata restantes.

— Só tenho isso. Gastei todo o resto para chegar até aqui.

Jeongguk encarou as moedas e balançou a cabeça em negação.

— O máximo que você vai conseguir com isso é uma vela pequena, que não duraria nem uma noite.

Taehyung guardou as moedas de volta e espiou o lampião. Quanto aquilo deveria custar? Uma fortuna, com certeza. E ainda seria necessário comprar óleo para mantê-lo funcionando.

— É possível arrumar algum emprego por aqui?

— Tem fazendas ao norte, onde a grande maioria trabalha, mas esteja ciente que o salário é péssimo e o trabalho é pesado. Os fazendeiros se aproveitam do desespero das pessoas e as exploram ao máximo. É algo que beira a um trabalho escravo.

A cada palavra que saia da boca dele, o desespero de Taehyung aumentava. Aquela altura, já tinha perdido a fome. Jeongguk inclinou o rosto em sua direção e o observou com mais atenção. Era fácil entender porque ele era chamado de Besta de Fogo. A noite, a luz da fogueira, as manchas de sangue que Jeongguk possuía no rosto e nos braços realmente pareciam chamas.

— E você, trabalha com o que? — Taehyung se atreveu a perguntar.

— Mantenho a ordem na floresta.

Taehyung observou o lampião, a comida que ele tinha e o quanto parecia saudável, sem nenhum indício de que passou fome recentemente.

— Posso ajudar a manter a ordem também. — Sugeriu, esperançoso.

Jeongguk começou a rir. Taehyung ficou surpreso com o quanto aquela risada era jovial. Ao observá-lo melhor, percebeu que ele era realmente jovem. As manchas vermelhas em seu rosto disfarçavam um pouco, mas… Uau, talvez ele fosse até mais novo do que Taehyung.

— Um gatinho assustado como você? — Jeongguk balançou a cabeça outra vez. — Vá dormir, Taehyung. Pense sobre seus problemas amanhã. Com a luz do sol, todas as coisas parecem mais fáceis.

☾𖤓

Taehyung abriu os olhos lentamente. A primeira coisa que assimilou foi os galhos acima de sua cabeça e as centenas de árvores ao seu redor. O pânico tomou conta de seu corpo ao se lembrar de onde estava.

Floresta de Sebrik.

Ergueu o corpo de uma vez e olhou ao redor. A poucos metros de distância, diante de uma fogueira já meio apagada, avistou um homem coberto de sangue dos pés à cabeça.

Jeongguk, a Besta de Fogo.

Taehyung se lembrou da noite anterior, da conversa que tiveram, da comida e da luz que ele lhe forneceu. Se não fosse por ele, provavelmente estaria morto, assassinado pelo sacerdote fanático ou devorado por uma das sombras demoníacas que rondavam a floresta.

Jeongguk já estava acordado, com a mochila nos ombros e o machado preso nas costas, pronto para partir. Taehyung sentiu um pavor genuíno ao pensar em ficar sozinho. O sol brilhava agora, mas em breve a noite voltaria. O que faria? Acender uma fogueira e alimentá-la a noite toda para que não apagasse?

Taehyung passou uma das mãos pelo cabelo e tentou ajeitar os fios bagunçados. Jeongguk o encarava fixamente.

— Você é dakkonista? — Perguntou de repente.

Taehyung abaixou os olhos e observou o pingente de estrela em seu pescoço. Na noite anterior, antes de dormir, resolveu colocá-lo.

— Não, é só… a única lembrança que trouxe da minha mãe. — Taehyung respondeu. — Saí da igreja a anos.

— Que surpresa. — Jeongguk comentou. — Dakkonistas são sempre tão fanáticos e fiéis.

— Tive motivos de sobra para sair.

Jeongguk apenas assentiu em compreensão. Não perguntou mais nada, mas ainda assim as lembranças vieram à mente de Taehyung. Era algo que jamais esqueceria.

Quando tinha quinze anos, conheceu uma menina que morava na área mais pobre de Pardak. Com quatro irmãos mais novos, uma mãe alcoólatra e um pai que os abandonou, a menina, que não devia ter muito mais do que treze anos, assumiu a responsabilidade pela família. Além de trabalhar recolhendo lixo nas casas dos mais ricos, ela também pedia restos de comida para levar para os irmãos. Por muitas vezes, recebia coisa estragada e apodrecida. Ainda assim, ela nunca reclamava. Sempre demonstrava gratidão por cada grão de arroz que conseguia.

A mãe de Taehyung era uma das pessoas que ajudava a menina. Sempre separava pães e doces mais velhos da padaria, que os clientes mais ricos jamais comprariam. Por vezes, a menina voltava para casa com sacolas e mais sacolas transbordando de comida. Conforme os dias passaram, Taehyung e a menina se tornaram amigos. Ou algo próximo disso. Não conversavam muito, mas era uma troca constante de sorrisos e palavras gentis.

Em um dia, a menina não apareceu. Taehyung não se preocupou muito, às vezes ela ficava ocupada demais com os serviços aleatórios que realizava em troca de qualquer dinheiro. No dia seguinte, ela também não veio. E nem no outro.

Quando completou uma semana de seu sumiço, a notícia finalmente chegou. Enquanto voltava para casa, ela foi encurralada por um homem em um beco e sofreu uma tentativa de estupro. A menina reagiu e, com um caco de vidro que encontrou, golpeou o homem no pescoço e o matou. Como consequência, suas mãos e seu rosto ficaram manchados de sangue. Ao sair na rua para tentar pedir ajuda, ela foi presa pelos soldados da patrulha e jogada na prisão. Em contrapartida, o homem que a machucou recebeu uma missa realizada pelos sacerdotes mais importantes da cidade. Porque afinal, ele não era um pecador. Ele nunca matou ninguém. De acordo com o dakkonismo, mesmo com o ato tão brutal e asqueroso que tentou cometer, ele ainda seria recebido nos Salões Divinos de braços abertos.

A menina, por outro lado, seria condenada ao sofrimento eterno nas mãos da Deusa Sebrik e se tornaria uma de suas sombras.

Alguns dias depois, a menina se enforcou diante de um templo sagrado. Era aquilo que chamavam de “morte honrosa”. Segundo as crenças, era a única chance que ela tinha de ter sua alma purificada outra vez. E talvez, só talvez, ela fosse aceita no paraíso depois disso.

Taehyung nunca soube o nome dela, nem o que aconteceu com sua família depois que ela se foi. Até tentou encontrá-los, mas Pardak era grande demais e possuía crianças demais passando fome.

A partir daquele dia, nunca mais frequentou um templo sagrado ou assistiu a uma missa. Era uma religião cruel demais, da qual não queria fazer parte.

Taehyung voltou os olhos para Jeongguk e pigarreou.

— Obrigado… Sabe, obrigado por ter me ajudado e pela comida. Qual… qual é o caminho até às fazendas?

Jeongguk continuou a encará-lo por mais algum tempo, pensativo.

— Posso te levar até lá em segurança, se quiser. — Falou por fim. — É um caminho parecido com o que vou seguir. São nove dias de viagem.

Taehyung sentiu outra onda de alívio percorrer seu corpo.

— Obrigado.

Jeongguk apagou o resto da fogueira e seguiu em direção a uma trilha. Taehyung se levantou em um pulo, pegou sua mochila e o lampião apagado e foi atrás dele.

— Então… — Taehyung quebrou o silêncio. — Há quanto tempo que você está nessa floresta?

Jeongguk afastou alguns galhos da trilha e abriu caminho para Taehyung passar. Ele era gentil. Uma gentileza inesperada para alguém com tantas mortes nas mãos.

— Desde os meus quatorze anos.

— E quantos anos você tem agora?

— Vinte e sete.

Taehyung arregalou os olhos.

— Uau… 

Treze anos. Se estava ali a tanto tempo, então certamente tinha um lugar seguro e cheio de luz para ficar.

— Eu sou mais velho. — Taehyung falou. — Tenho 29.

Jeongguk o encarou, surpreso.

— Imaginei que fosse mais novo.

Taehyung sorriu.

— Bem, eu trabalhava como padeiro e confeiteiro na padaria da minha família. De certa forma, era um trabalho leve e bem longe do sol. Ajudou muito com o rostinho jovem.

Jeongguk assentiu.

— Será um pouco difícil para você se acostumar com o trabalho nas fazendas.

Difícil era eufemismo. Seria uma tortura completa, Taehyung mal sabia segurar uma enxada direito, quem dirá cuidar de uma plantação. Nove dias. Tinha nove dias para convencê-lo a lhe dar outra alternativa além do trabalho escravo das fazendas. Jeongguk parecia ter, de certa forma, simpatizado com ele. Talvez não fosse tão difícil assim.

— Não tem como conseguir emprego em alguma dessas estalagens no meio da floresta? — Taehyung perguntou.

— Não. — Jeongguk afastou outro galho para que pudesse passar. — As estalagens são um negócio de família. Foram criadas há décadas e passadas de pai para filho. Os atuais proprietários são pessoas comuns, que não possuem uma gota de sangue nas mãos, só continuam por aqui porque o negócio é realmente lucrativo. Eles não aceitam ninguém de fora. No máximo, podem contratar alguém para limpar os estábulos vez ou outra, mas nada definitivo.

Taehyung achou uma loucura completa. Como alguém escolhia ficar naquela floresta, rodeado por criminosos e por todos aqueles seres demoníacos, simplesmente porque tinha um “negócio lucrativo”?

— As fazendas também são de família?

— Sim, mas são bem mais antigas do que as estalagens. Muito mais ricas. Ficam fora dos limites da floresta, então é muito difícil as sombras irem até lá. É o outro motivo que faz as pessoas aceitarem o trabalho, por mais pesado que seja.

Taehyung assentiu. No fim, se não conseguisse arrancar outra solução de Jeongguk, então as fazendas eram mesmo a “melhor” alternativa. Ou, pelo menos, a mais segura.

Jeongguk parou por alguns segundos e olhou para a esquerda. Uma de suas mãos parou sobre uma faca em seu cinto.

— Cachoeira a frente. Temos que ser rápidos.

Taehyung estremeceu e assentiu, se aproximando um pouco mais de Jeongguk.

A cachoeira surgiu a vários metros de distância. Em um misto de pavor e curiosidade, Taehyung observou-a com atenção. Parecia normal. Inofensiva. Até que notou algo se mexendo dentro da queda d'água. Algo mortal. Durante o dia, eram nas cachoeiras que as sombras demoníacas se escondiam. Cada uma delas era uma porta que levava direto para o inferno onde a Deusa Sebrik estava aprisionada, bem debaixo daquela floresta. Entrar em uma cachoeira seria o mesmo que vagar na escuridão da floresta durante a noite. A pessoa não tinha a menor chance de sobreviver.

Taehyung apressou o passo e continuou a seguir Jeongguk. A trilha estreitou, tornando a passagem mais difícil. Jeongguk parou diante de uma pedra e começou a escalar, em seguida se virou para ajudá-lo. Dessa vez, Taehyung não hesitou em aceitar a mão coberta de sangue. A trilha continuou a subir, se tornando cada vez mais difícil. Taehyung parou na metade do caminho, ofegante. Suor pingava por sua testa.

Quase uma hora depois, os dois alcançaram um pequeno rio de água cristalina.

— O rio nasce na encosta de uma montanha. — Jeongguk explicou. — Não vem de nenhuma cachoeira próxima. Pode até tomar um banho, se quiser.

Taehyung não dispensou a oportunidade. Depois de tantos dias de viagem para chegar até ali, um banho era mesmo bem-vindo. Primeiro, tirou quase toda a roupa e a lavou no rio. Depois de deixar as peças secando sobre uma pedra, finalmente entrou na água fria. Todos os seus músculos relaxaram no mesmo instante.

Jeongguk tirou as roupas e caminhou em direção ao rio também. Taehyung espiou o corpo dele de maneira nada discreta. Além dos braços e do rosto, a maior parte do abdômen de Jeongguk também era coberto por sangue. Seu quadril, suas coxas, até mesmo seus pés. Junto das manchas, havia também dezenas de cicatrizes, algumas recentes, outra mais antigas.

— Afinal, quantas pessoas você já matou? — Taehyung perguntou, curioso.

— Muitas. — Ele deu de ombros e entrou na água. — Chega um momento em que o número já não importa tanto assim.

— Tem mais alguém nessa floresta com tantas marcas quanto você?

— Não. Os que tinham, eu matei.

Isso tranquilizou Taehyung um pouco. Ao menos, o maior assassino daquela floresta não era um inimigo em potencial. Jeongguk voltou os olhos em sua direção e, ao notar sua expressão, balançou a cabeça em negação.

— Mas isso não importa muito. Não é a quantidade de sangue que determina o quanto a pessoa é perigosa. Se atente a isso, Taehyung. Especialmente nas fazendas. Não confie em ninguém.

Taehyung assentiu. Ele tinha razão. Era dakkonista demais acreditar que só porque alguém tinha as mãos limpas, significava que era uma boa pessoa.

Os dois permaneceram no rio por mais um tempo. Por causa das árvores enormes, pouca luz do sol chegava ali embaixo. Apesar disso, o clima estava quente e agradável. Taehyung fechou os olhos e permitiu que seu corpo flutuasse na água, relaxando pela primeira vez em semanas. Jeongguk o deixou ali e sumiu por alguns instantes. Quando voltou, já estava totalmente vestido e trazia uma vara de pesca e uma cesta nas mãos. Ele parou em um ponto mais afastado do rio e passou os próximos minutos pescando.

Para não atrapalhá-lo, Taehyung nadou até a margem e saiu do rio. Pegou sua mochila e começou a vestir seu par extra de roupas, enquanto as outras secavam. Ao olhar por cima dos ombros, percebeu que Jeongguk o encarava fixamente outra vez. Porém, ao contrário de Taehyung, ele não parecia procurar nenhuma mancha de sangue. Seus olhos deslizavam pelo corpo de Taehyung bem devagar, como se analisasse cada detalhe.

Quando os olhares se cruzaram, Jeongguk desviou o rosto rapidamente e voltou a se concentrar na pescaria. Taehyung ergueu uma das sobrancelhas. Interessante.

Depois de se vestir, Taehyung se aproximou de onde ele estava.

— As frutas nessa floresta não são comestíveis? — Perguntou, indicando algumas frutas avermelhadas em uma árvore próxima dali.

— Algumas sim, mas a maior parte são venenosas, assim como as raízes e os cogumelos. É melhor não arriscar.

Taehyung grunhiu.

— Esse lugar é realmente o inferno.

Jeongguk abriu um sorriso fraco.

— Você vai se acostumar.

A linha da vara de pesca esticou de repente. Jeongguk puxou com tudo e ergueu um peixe no ar. Não era muito grande, mas ainda assim fez o estômago de Taehyung roncar de fome.

Jeongguk deixou o peixe na cesta e jogou o anzol de volta no rio. Querendo ser útil de alguma forma, Taehyung pegou uma das facas de Jeongguk e começou a limpar os peixes. Quase uma hora depois, a cesta estava quase cheia. Jeongguk deixou o anzol de lado e foi buscar alguns galhos para fazer uma fogueira. 

Além dos galhos, trouxe também algumas frutinhas amarelas e estendeu para Taehyung

— Você não acabou de me dizer que era melhor não arriscar?

— Essas são tricadizias. — Jeongguk jogou algumas na boca e mastigou. — Existiam muitas de onde eu vim. São bem doces.

Taehyung pegou uma e colocou na boca. O gosto doce tomou conta de seu paladar. Era algo vagamente semelhante ao mel. Um resmungo de satisfação escapou por sua garganta.

— Pelos Salões Divinos, eu preciso fazer um bolo com elas!

Jeongguk sorriu e lhe entregou mais algumas.

— São bem comuns nessa floresta, só precisa reconhecer os arbustos.

Enquanto Jeongguk colocava os peixes para assar, Taehyung continuou a comer as frutinhas e começou a olhar ao redor. Pela primeira vez, parou para observar a paisagem com atenção. A luz do dia, sem as sombras por perto, a floresta era estranhamente… bonita. E colorida. Muito colorida. Por toda parte, flores e árvores se destacavam, algumas possuindo cores que Taehyung nunca imaginou que existiam. O canto dos pássaros também era constante, assim como os sons dos outros animais. Parecia uma floresta comum.

Depois do almoço, Jeongguk escondeu a vara de pesca e voltou com um arco e flecha. Os dois recolheram suas coisas e seguiram em frente, tomando outra trilha. Sempre que passavam por um arbusto de tricadizias, Jeongguk recolhia mais algumas frutinhas e as entregava para Taehyung, que devorava todas em questão de segundos.

Mais adiante, ele parou para pegar algumas flores brancas também.

— São chamadas de leite-da-lua. — Explicou, enquanto espremia uma na boca. — O néctar delas realmente lembra o gosto de leite.

Taehyung experimentou uma e soltou um longo suspiro. Se fechasse os olhos, poderia fingir que estava na padaria de sua família, comendo doces de mel e bebendo leite na companhia de um homem estranhamente agradável.

Enquanto Taehyung ainda se deliciava com as sobremesas, Jeongguk parou no meio da trilha e levou o indicador até os lábios, pedindo silêncio. Taehyung parou no lugar e assentiu. Jeongguk ajeitou o arco e flecha, se afastou devagar e sumiu no meio das árvores. Voltou minutos depois, trazendo um coelho abatido. Taehyung até sentiu pena do próprio bichinho, mas foi ótimo saber que já tinham um jantar garantido.

Faltando pouco para o pôr do sol, Jeongguk parou na encosta de uma montanha e afastou alguns arbustos da frente. Curioso, Taehyung espiou dentro. A caverna era pequena e estreita. Precisaria se abaixar um pouco para conseguir passar.

— Vamos passar a noite aqui?

— Sim. — Jeongguk respondeu. — Estamos chegando em uma área mais movimentada da floresta. Acampar ao ar livre pode ser perigoso por aqui. Além disso, vai chover essa noite. Seria difícil manter uma fogueira acesa.

— Como sabe que vai chover?

Jeongguk apontou para trás, em direção a um amontoado de florzinhas roxas.

— São sebris. A cor natural delas é azul, mas sempre que vai chover, elas ficam roxas.

Taehyung assentiu, tentando gravar cada um dos novos conhecimentos que Jeongguk lhe passava. Duvidava que fosse ter outra oportunidade de aprender tanto sobre a floresta.

— Nós dois vamos caber aí dentro? — Perguntou. — O espaço parece bem pequeno.

Jeongguk abriu um sorriso fraco e se abaixou, engatinhando para dentro da caverna. Taehyung o seguiu. No fundo do lugar, no canto esquerdo, avistou outra abertura, por onde Jeongguk entrou. Taehyung se arrastou logo atrás e olhou ao redor, observando o novo ambiente. Percebeu que era outra caverna, muito maior do que a primeira.

Jeongguk deixou suas coisas no chão e começou a empurrar uma pedra grande que ficava na entrada. Em pouco tempo, o lugar estava trancado.

— É só uma precaução. — Ele explicou.

Taehyung caminhou pelo lugar, curioso. Avistou um amontoado de galhos secos em um canto, mas não havia nada além disso. Nada que comprovasse que Jeongguk ficava ali com frequência. Devia ser só mais outro esconderijo improvisado.

Depois de criar uma fogueira grande, Jeongguk passou a preparar o coelho que caçou mais cedo e Taehyung se ocupou em espalhar as pedras-vagalume pelo lugar. Como a caverna tinha algumas aberturas pequenas que mostravam o lado de fora, soube exatamente o momento que anoiteceu e quando a chuva começou.

O cheiro de carne assada tomou conta do lugar. Jeongguk ergueu um pedaço generoso e o entregou.

— As sombras… elas podem entrar aqui também? — Taehyung perguntou. A maior parte da caverna era fechada, então não entendia como elas poderiam passar.

— Elas atravessam paredes e rochas. — Jeongguk explicou. — Se alguém dentro dessa floresta estiver no escuro, elas vão entrar no lugar, não importa o quão escondido seja.

Taehyung fez uma careta. Realmente, só podiam ser seres demoníacos.

Conforme a chuva aumentava, algumas goteiras surgiram ao longo da caverna. A tempestade trouxe junto um clima frio que fez Taehyung estremecer enquanto terminava seu jantar. No mesmo instante, Jeongguk tirou o casaco longo que usava e estendeu em sua direção.

Taehyung sorriu, se enrolou no casaco e foi para perto dele, que naquela altura parecia ser tão seguro quanto qualquer fonte de luz.

— Obrigado. — Sussurrou. — Está me ajudando tanto, nem sei como te retribuir.

Jeongguk sorriu de volta. Seus olhos pousaram sobre Taehyung, estranhamente gentis.

— Eu gostaria de ter tido alguém para me ajudar, quando cheguei aqui.

Taehyung assentiu em compreensão. Se para ele, que já era um adulto, estava sendo difícil, não conseguia imaginar como foi para um menino de quatorze anos.

Se aconchegou melhor ao lado de Jeongguk e adormeceu minutos depois.

☾𖤓

Na manhã seguinte, a chuva já tinha passado. Taehyung saiu da caverna e seguiu Jeongguk de volta para a floresta.

A trilha se transformou em uma estrada, onde algumas pessoas caminhavam. Taehyung se manteve o mais próximo possível de Jeongguk. Uma casa grande surgiu pouco a frente, protegida por uma cerca de arame farpado. Na frente da casa, sentado em um banco com as pernas cruzadas, um homem parecia analisar todos que passavam pela estrada.

Usava um chapéu sobre a cabeça e um terno cinza, que contratava demais com as roupas velhas e surradas das outras pessoas. Parecia ser mais velho, quase na casa dos quarenta anos.

— Seokjin. — Jeongguk o cumprimentou com uma expressão desinteressada.

O homem o cumprimentou de volta e seus olhos caíram sobre Taehyung.

— É um novato?

Jeongguk assentiu. Os olhos de Seokjin analisaram Taehyung com mais interesse, se demorando um pouco em seu peitoral e suas coxas. Taehyung franziu as sobrancelhas ao notar que ele não tinha uma única gota de sangue nas mãos.

Jeongguk deu um passo para o lado e se colocou na frente de Taehyung.

— Não se atreva. — Jeongguk alertou, em um tom perigoso.

O homem riu. Apesar da expressão descontraída, ele inclinou o corpo para trás. Um sinal claro de que Jeongguk não era alguém que desafiaria.

— Não querem entrar para tomar um café, rapazes? — Ofereceu, indicando a casa.

Havia outras pessoas lá dentro, Taehyung percebeu. Muitas pessoas.

— Não. — Jeongguk respondeu secamente. — Só me chame se precisar de mim.

Seokjin ergueu uma das sobrancelhas.

— Imagino que ele esteja indo para as fazendas, certo?

Jeongguk não respondeu.

— Bem… — Seokjin abriu um sorriso maldoso e passou a se dirigir a Taehyung: — Se você não gostar de lá, rapaz, pode falar comigo. Posso arranjar outro trabalho para você. Um bem mais… leve.

Na casa, uma mulher riu enquanto conversava com um homem mais velho.

Jeongguk segurou o braço de Taehyung e o arrastou de volta para a trilha. Taehyung olhou por cima dos ombros e percebeu que Seokjin continuava a analisá-lo com um sorriso malicioso. Jeongguk continuou a segurar seu braço até estarem bem longe dele e da casa.

— Então… — Taehyung quebrou o silêncio. — Existe outro tipo de emprego nesta floresta. Um que você não mencionou.

— Imaginei que não seria do seu interesse. — Jeongguk soltou seu braço e afastou um amontoado de espinhos para que passasse. — Há mais algumas casas por aqui, mas nenhuma tão grande e popular quanto essa. Seokjin é diferente dos outros donos. Ele é um lunático visionário que achou que seria uma ótima ideia montar um bordel no meio de uma floresta amaldiçoada. Infelizmente, deu muito certo. Às vezes, as pessoas nem estão interessadas em ficar com alguém, mas vão mesmo assim, só para ter um lugar seguro para passar a noite. É muito mais barato do que as estalagens.

— Você estava certo. — Taehyung concordou. — Não é do meu interesse.

Não era inteiramente verdade. Dependeria muito do acordo que esse tal Seokjin pudesse oferecer. Talvez fosse mais vantajoso do que as fazendas, mas achou prudente não mencionar isso a Jeongguk. Ele parecia ter um certo preconceito com o lugar.

A estrada logo se estreitou e se dividiu em várias trilhas, enquanto a casa de prostituição ficava cada vez mais distante. Taehyung tentou memorizar o caminho até ali.

No almoço, comeram o resto da carne de coelho da noite anterior e mais algumas frutas que Jeongguk colheu em uma das árvores gigantes. Taehyung sentiu seu coração falhar várias vezes ao vê-lo escalando os galhos, até estar tão alto que mal conseguia enxergá-lo.

Quando os raios de sol começaram a desaparecer entre as árvores, Taehyung sentiu uma inquietação tomando conta de seu corpo. Sua vontade foi de pedir para Jeongguk ligar o lampião.

— Não se preocupe. — Jeongguk encarou-o por cima dos ombros. — Já estamos chegando.

Taehyung quis perguntar para onde estavam indo dessa vez, mas não foi preciso. Assim que Jeongguk afastou mais alguns galhos do caminho, a clareira surgiu, junto com uma casa enorme, muito maior do que o bordel de Seokjin. Uma estalagem. O cheiro gostoso de comida alcançou seu nariz e fez seu estômago roncar.

Jeongguk seguiu em direção à estalagem em passos confiantes. Taehyung foi atrás dele. Em nome de Dakkon, quanto dinheiro aquele homem tinha?

O lugar era inteiramente cercado por um muro e havia dois homens em frente aos portões, armados com espadas e lanças. Eles possuíam inúmeras manchas de sangue pelo corpo, embora não se comprassem com Jeongguk.

Jeongguk acenou para eles e apontou para Taehyung.

— Ele está comigo.

Os guardas assentiram ao mesmo tempo e abriram os portões, permitindo a entrada deles. Jeongguk o guiou pelo pátio, até a porta da estalagem. O lugar estava cheio de homens bem vestidos, a maioria com as mãos completamente limpas. Fazendeiros… Então eram eles que tinham acesso àquelas estalagens. Alguns olharam em direção aos dois e analisaram Taehyung por um segundo a mais, mas nada além disso. Ninguém pareceu surpreso ou assustado com a quantidade de sangue em Jeongguk.

Ele o guiou até uma mesa afastada, próxima da janela. Ninguém se aproximou deles para anotar os pedidos. Ainda assim, pouco tempo depois, um garçom chegou com várias bandejas repletas de comida. Taehyung arregalou os olhos, sem conseguir imaginar o preço daquilo tudo.

Além da comida, o garçom deixou também uma pequena pilha de papéis e se afastou.

— Coma à vontade. — Jeongguk falou.

— Isso não deveria custar o olho da cara? — Taehyung perguntou.

— O pagamento está bem aqui. — Jeongguk bateu com os dedos nas pilhas de papéis. — Coma. Posso ver você quase babando em cima desse porco assado.

Taehyung sorriu e finalmente cedeu, passando a comer tudo que tinha vontade. Quando terminaram, Jeongguk pegou os papéis e começou a folheá-los. Tirou uma caneta da mochila e riscou algumas coisas.

Taehyung olhou pela janela e ficou surpreso ao ver que já tinha anoitecido. A estalagem possuía tantas fontes de luz que ainda parecia dia.

Um homem se aproximou da mesa, jovem e bem vestido. 

— Hoseok. — Jeongguk o cumprimentou com um aceno.

Não satisfeito com isso, Hoseok segurou uma das mãos de Jeongguk e agitou de maneira empolgada.

— É muito bom te ver. — Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma chave. Seus olhos caíram sobre Taehyung. — Um quarto a mais?

— Não será necessário. — Jeongguk respondeu. — Obrigado.

Jeongguk seguiu em direção às escadas, que levavam até os quartos do segundo andar. Taehyung o seguiu.

— O que é isso, afinal? — Perguntou, apontando para aquela pilha de papéis nas mãos de Jeongguk.

Jeongguk lhe entregou para observar melhor.

— Uma lista de pessoas que vem causando problemas para o estabelecimento. Tentando invadir, roubar e atacando os guardas lá fora.

Além dos nomes, havia também um retrato das pessoas. A maioria eram homens, mas tinha uma ou outra mulher também.

— Então… — Taehyung devolveu os papéis para Jeongguk. — Eles te dão comida de sobra e um lugar seguro para passar a noite, em troca de matar essas pessoas?

Jeongguk assentiu.

— Mesmo nessa floresta, nem todo mundo está disposto a sujar as mãos de sangue, então esse é o meu trabalho.

O quarto não era grande, mas parecia muito mais confortável do que dormir no chão da floresta ou em uma carroça de viagem. A cama era de solteiro.

— Pode dormir na cama. — Jeongguk avisou, exatamente como Taehyung esperava. — Atrás daquela porta fica o banheiro.

Depois de tomar um banho rápido, Taehyung saiu do banheiro e se aproximou da janela. Lá embaixo, do lado de fora, avistou várias pessoas amontoadas ao redor dos muros da estalagem, onde havia dezenas de tochas acesas. Os portões já tinham sido fechados com correntes grossas e cadeados enormes.

— É sempre assim? — Taehyung perguntou, assim que Jeongguk saiu do banho também.

Jeongguk espiou a janela e assentiu.

— Não podem entrar na estalagem se não tiverem dinheiro, mas as tochas sempre ficam acesas a noite toda para manter as sombras longe. Desde que não causem problemas, as pessoas podem ficar por perto. Para alguns, é o jeito mais seguro de fugir da escuridão.

Taehyung assentiu. Naquele lugar, onde a luz era sinônimo de sobrevivência, seria crueldade demais privar as pessoas disso. Ainda havia resquícios de humanidade naquela floresta.

Como suas roupas estavam secando outra vez, Taehyung se deitou apenas de cueca. Através do reflexo da janela, percebeu que Jeongguk o observava fixamente, deslizando os olhos por seu corpo como tinha feito no dia anterior.

É, talvez fosse mais do que mera gentileza.

— Como isso começou? — Taehyung quebrou em silêncio, se virando na cama para encará-lo. — Quero dizer, como você virou uma espécie de assassino de aluguel da floresta?

— Foi pouco depois de eu ter chegado por aqui. Passei em uma estalagem e perguntei o que precisava fazer para me darem um prato de comida e um pouco de luz. O dono riu e apontou para um criminoso que tinha acabado de sair. Ele disse que eu tinha que trazer a cabeça daquele homem. — Jeongguk abriu um sorriso fraco. — Acho que ele não estava falando realmente sério, mas eu encurralei o homem e o matei. O dono não teve escolha a não ser me dar a comida e um lampião. No dia seguinte, eu fui em outra estalagem e fiz a mesma pergunta. Em pouco tempo, toda a floresta me conhecia como aquele que não tem medo de sujar as mãos.

— E… — Taehyung hesitou um pouco. — E quem você matou para vir parar aqui?

— Ninguém importante. — Jeongguk deu de ombros. — Eu era órfão e cresci nas ruas. Era apenas uma questão de tempo até que sujasse as minhas mãos.

Taehyung assentiu.

— E você? — Jeongguk o encarou, curioso. — Quem você matou?

— Meu pai.

Jeongguk ficou em silêncio, aguardando uma explicação. Taehyung suspirou e encarou o teto.

— Não é nenhuma grande história. Nós tínhamos uma padaria. Do lado dela, tinha um bar, onde ele passava dia e noite. Às vezes, ele chegava bêbado em casa e agredia minha mãe e minha irmã mais nova. Como eu passava a maior parte do tempo na padaria, não podia fazer nada para impedir. Até que um dia, fui para casa mais cedo e o encontrei batendo na minha mãe. Minha mente deu um apagão na hora. Só sei que fui até a cozinha, peguei uma faca e o apunhalei pelas costas. — Taehyung abriu um sorriso irônico. — Sempre achei que matar alguém era mais difícil.

— Não é. — Jeongguk respondeu. — É muito mais fácil do que parece.

Taehyung assentiu.

— A única coisa que me conforta é que elas ainda tem a padaria. Dinheiro não vai ser um problema.

— Elas vão ficar bem. — Jeongguk respondeu. — Estão muito melhores assim.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo. Taehyung observou o chão onde Jeongguk estava deitado. Ele não pegou nada além de um travesseiro.

— Vem cá. — Taehyung disse de repente.

Jeongguk o encarou, confuso. Taehyung se moveu para o lado e abriu espaço na cama.

— Não precisa dormir no chão. A cama é pequena, mas cabe nós dois.

— Anh, não, eu…

— Vem logo.

Depois de hesitar um pouco, Jeongguk se levantou devagar e sentou na beirada da cama.

— Não se preocupe, eu não mordo. — Taehyung brincou.

Jeongguk abriu um sorriso fraco e deitou ao seu lado, tentando manter uma distância “respeitável” de Taehyung. Ao perceber que muito provavelmente ele cairia da cama durante a noite, Taehyung o segurou pelo braço e o puxou para mais perto, até estarem com os corpos quase colados. 

— Boa noite.

Jeongguk engoliu em seco e murmurou uma resposta atrapalhada. Por baixo das manchas de sangue em seu rosto, Taehyung notou que a pele dele estava corada. Um assassino estranhamente fofo.

Taehyung acordou na manhã seguinte com uma leve sacudida nos ombros.

— Taehyung, temos que ir. — A voz de Jeongguk alcançou seus ouvidos, baixa e gentil.

— Huh… — Taehyung abraçou o travesseiro. — Só mais cinco minutos.

Jeongguk tirou as mãos de seus ombros e ficou em silêncio. Surpreso, Taehyung percebeu que ele realmente estava lhe dando mais cinco minutos de sono.

Assim que os minutos se passaram, Jeongguk voltou a cutucá-lo. Taehyung abriu um sorriso fraco e se levantou, sem querer lhe atrasar mais. Depois de se vestir e arrumar suas coisas, seguiu Jeongguk para o lado de fora do quarto. No corredor o dono da estalagem aguardava por eles. Se Taehyung se lembrava bem, seu nome era Hoseok.

Além das marmitas, Hoseok também entregou uma tocha apagada para Jeongguk. Ele guardou as marmitas em sua mochila e seguiu em frente, mas ao contrário do que Taehyung esperava, não foram para a saída da estalagem. Jeongguk o guiou por um lance de escadas, até chegar em um cômodo que parecia ser o porão.

Ele abriu um alçapão no chão e revelou uma escada que levava até um túnel subterrâneo.

Jeongguk acendeu a tocha e desceu.

— Para onde estamos indo? — Taehyung perguntou, enquanto o seguia.

— Você já deve imaginar que não sou a pessoa mais amada dessa floresta. — Jeongguk explicou. — Os comerciantes me adoram, mas o restante dos habitantes não. Tenho muitos inimigos, Taehyung. Inimigos que estão sempre à espreita.

— Então… tinha alguém nos esperando do lado de fora da estalagem, para tentar te matar?

— Sempre tem. Depois de sofrer três tentativas de assassinato, os donos me deixaram usar esses túneis. Todos os estabelecimentos têm. São uma espécie de saída de emergência.

— Como você faz? — Taehyung perguntou de repente, indicando a lista de futuros assassinatos nas mãos de Jeongguk. — Vaga pela floresta toda atrás deles?

— De certa forma, sim. Estou sempre indo de um lado para o outro. Uma hora ou outra, acabo encontrando essas pessoas. Quem causou confusão aqui, com certeza vai causar confusão na próxima estalagem também. Só preciso ficar atento, por isso tento memorizar os rostos de cada um.

Taehyung assentiu. Parecia ser um trabalho realmente difícil e perigoso, mas pensou na comida farta e no quarto seguro e cheio de luz onde passaram a noite. Valia o risco, sem dúvidas.

Quando estava prestes a perguntar se Jeongguk não gostaria de um parceiro ou um “assistente”, o túnel terminou. Uma escada levava de volta para a superfície. Jeongguk abriu o alçapão, deu uma boa espiada do lado de fora e assentiu. Taehyung saiu logo atrás dele e se viu dentro de outra caverna. Era espaçosa e tinha diversos caixotes espalhados pelo lugar. Ao espiar dentro de um deles, Taehyung encontrou mantimentos, a maioria sendo comidas enlatadas.

— Se essa é a saída de emergência… — Taehyung apontou para o túnel de onde tinham acabado de sair, em seguida indicou a caverna. — Então esse é o esconderijo?

Jeongguk assentiu.

— Como deve imaginar, nem todos aceitam essa exclusividade das estalagens. Faz tempo que não acontece nenhuma confusão generalizada, mas era comum antigamente. Diversos bandidos se reuniam, invadiam o lugar, matavam os donos e pegavam toda comida e o dinheiro. Hoje em dia, se as coisas começam a sair do controle, eles se escondem em lugares assim e esperam até que eu resolva a situação.

Jeongguk pegou um galão de água e alguns enlatados e colocou na mochila, junto com as marmitas. Taehyung o seguiu para fora da caverna, que se localizava em um local de difícil acesso, escondida entre a vegetação densa. Depois de quase trinta minutos de caminhada, os dois alcançaram outra trilha.

— Espere aqui. — Jeongguk entregou a mochila em suas mãos. — Não vou demorar muito.

Os olhos de Taehyung caíram sobre um dos retratos dos criminosos que ele segurava. Jeongguk apertou o papel com força entre os dedos e começou a se afastar. Sem outra alternativa, Taehyung sentou sobre uma pedra, cruzou os braços e esperou.

Cerca de vinte minutos depois, ouviu passos se aproximando pela trilha, Taehyung se levantou no mesmo instante e se esgueirou para trás de uma árvore, passando a espiar por trás dos galhos. Os passos eram pesados demais para serem de Jeongguk. Parecia ser mais de uma pessoa.

Segundos depois, um homem desconhecido afastou os arbustos de maneira apressada e continuou a correr. Infelizmente, ele não foi muito longe. Assim que passou bem próximo do esconderijo de Taehyung, outra pessoa surgiu na trilha. Era outro homem, alto e loiro, que trazia uma faca nas mãos.

Ele agarrou o fugitivo e o jogou no chão com violência.

— Seu filho da puta! — O loiro gritou.

Taehyung se escolheu atrás da árvore e tentou passar o mais despercebido possível. O loiro ergueu a faca.

— Ou você me paga o que deve, ou eu arranco sua cabeça fora.

— Eu não tenho dinheiro!

A faca desceu, golpeando o homem nos ombros. Um grito de dor tomou conta da trilha.

— Vou repetir só mais uma vez… — O loiro inclinou o rosto em direção ao homem caído, furioso. — Cadê o meu dinheiro?

O homem engoliu em seco e observou a lâmina por longos segundos. Sangue deslizava por sua roupa e lágrimas de dor escorriam por seus olhos. Algo naquele olhar enviou um arrepio por todo corpo de Taehyung e o fez perceber que ele estava dizendo a verdade. Aquele homem não tinha um centavo no bolso para pagar sua dívida.

Por Dakkon, ele não ia…

— Se é pra morrer, então faço questão de te levar junto. — O homem abriu um sorriso maldoso. — Socorro!

Taehyung arregalou os olhos e tentou correr para longe, mas tropeçou em um galho e caiu em cima de um arbusto.

As sombras vieram no segundo seguinte, quatro de uma vez. Ao mesmo tempo, elas avançaram sobre os dois homens e começaram a devorar seus corpos. Uma das sombras pairou sobre Taehyung e o encarou fixamente com seus terríveis olhos vermelhos. Tremendo de puro pavor, Taehyung ficou imóvel, sem conseguir se arrastar para longe. Sabia que elas atacavam não apenas a pessoa que gritava, mas todos aqueles que estavam por perto também.

A sombra se aproximou lentamente e estendeu uma das mãos em sua direção. Seus dedos eram longos, sólidos. Um frio estranho tomou conta de seus ossos.

Jeongguk apareceu correndo no meio da trilha e arregalou os olhos diante da cena. Taehyung quis pedir a ajuda dele, mas sabia que não tinha nada que pudesse fazer. Se Jeongguk tentasse ajudá-lo, seria atacado também. Taehyung fechou os olhos com força e esperou pela morte.

Tudo que ouviu foi sua própria respiração e os batimentos acelerados de seu coração.

Porém, nada aconteceu.

Depois de quase um minuto, Taehyung finalmente abriu os olhos outra vez. A sombra tinha se afastado, se concentrando apenas nos homens que já estavam mortos. Sobre o peito de Taehyung, algo quente tocava sua pele. O frio em seus ossos tinha desaparecido.

Depois que terminaram de devorar os dois homens, elas se afastaram, voltando para as cachoeiras até que a noite caísse. Passos cautelosos se aproximaram. Jeongguk se abaixou ao seu lado e o observou dos pés à cabeça, como se não acreditasse que estava mesmo inteiro. Pela primeira vez, Taehyung viu medo nos olhos dele.

Jeongguk o segurou pelos ombros e o ajudou a se levantar. Taehyung respirou fundo e abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Segurando sua mão com firmeza, Jeongguk o puxou para longe dos corpos. Taehyung sentou sobre um galho quebrado e cobriu o rosto com as mãos.

Deus-Pai, que pesadelo.

— Posso ver seu amuleto de Dakkon? — Jeongguk pediu, estendendo a mão.

Confuso, Taehyung levou uma das mãos até o pescoço e tirou o colar. Ao olhar para baixo, percebeu que sua pele estava levemente queimada, com a marca exata de uma estrela de quatro pontas.

Jeongguk pegou o colar e o analisou com cuidado.

— Onde sua mãe conseguiu isso?

— Foi presente de um cardeal dakkonista da nossa cidade. Ela sempre ajudava com as celebrações sagradas e levava pães frescos para ele toda manhã.

— Você é de Pardak?

Taehyung assentiu. Jeongguk soltou um longo suspiro.

— Então as lendas são verdadeiras… — Um sorriso irônico surgiu em seus lábios. — Quem diria que os dakkonistas tinham mesmo influência sobre essas criaturas.

Taehyung ficou ainda mais confuso. Jeongguk se inclinou em sua direção e colocou o colar de volta em seu pescoço. Tão próximo assim, Taehyung conseguiu analisar cada mínimo detalhe no rosto dele. Jeongguk tinha uma pintinha no lábio, que não foi consumida pelas manchas de sangue.

— Preste atenção, nunca tire esse colar, me entendeu? E muito cuidado para não perdê-lo. Também não deixe ninguém saber sobre isso, caso contrário vão tentar roubá-lo a todo custo.

Taehyung assentiu e Jeongguk recuou um passo.

— Existem muitas lendas sobre essa floresta e as sombras, disso você já sabe. Uma delas é de que os amuletos sagrados de Dakkon são capazes de repelir as criaturas. — Jeongguk balançou a cabeça em negação. — Mas ninguém nunca levou isso muito a sério. Alguns até tentaram comprar pingentes desse tipo no mercado clandestino nos limites da floresta, mas nunca funcionou. Acho que entendi o motivo.

— O amuleto precisa ser abençoado por um sacerdote da ordem mais alta. — Taehyung concluiu. — Um cardeal.

Jeongguk assentiu.

— E os cardeais só vivem em Pardak, na capital do império, então não me admira ninguém nunca ter conseguido colocar as mãos em um que realmente funcionasse. Eu devia ter percebido. Aquele sacerdote que veio com você devia estar usando um amuleto desse tipo, foi por isso que as sombras não o atacaram, mesmo ele estando tão próximo daquela mulher.

Taehyung sentiu outra onda de calor percorrendo seu corpo. Proteção sagrada. Mesmo que não fosse mais dakkonista, aquilo não era nada mal.

— Mas ainda assim, você precisa ter muito cuidado. — Jeongguk alertou. — Segundo as lendas, esse amuleto só vai funcionar durante o dia, quando o sol está no céu e, supostamente, Deus-Pai Dakkon está vigiando o mundo. Quando a noite chega, Ele vai embora, junto com toda proteção. Na escuridão, esse colar não deve ajudar em nada.

— Já é alguma coisa. No inferno, qualquer proteção é bem-vinda. — Taehyung tocou o pingente. — Vamos voltar para a entrada da floresta.

Jeongguk franziu as sobrancelhas.

— O que?

— O corpo daquele sacerdote deve estar lá. Duvido que alguém tenha se atrevido a tocar nele. Provavelmente ainda vai estar com o amuleto sagrado. Vamos pegá-lo para você.

Jeongguk o encarou por longos segundos, surpreso com a sugestão.

— Vamos levar três dias para voltar até lá.

Taehyung abriu um sorrisinho divertido.

— Você está com pressa para se livrar de mim?

Jeongguk sorriu de volta e se virou, voltando pelo caminho de onde vieram.

— Tudo bem, você tem razão. Qualquer proteção é bem-vinda.

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Exatamente como Taehyung previu, o corpo do sacerdote continuava no mesmo lugar, intocado. Assim como o corpo da mulher que foi devorada pelas sombras demoníacas.

O odor forte de carne em decomposição tomava conta do ar. Taehyung parou a alguns metros dos corpos e cobriu o nariz. Jeongguk se aproximou do cadáver do homem e deu uma olhada em seu pescoço, de onde puxou um pingente idêntico ao que Taehyung usava.

Depois de pegar o colar, Jeongguk vasculhou os bolsos do cadáver. Encontrou uma estrela de madeira, com todas as quatro pontas pintadas de dourado.

— Acha que está abençoado também? 

— Com certeza. — Taehyung respondeu. — Essa é chamada de Estrela da Vida. Além dos pingentes, os padres recém-formados costumam receber uma dessas de presente dos cardeais de Pardak também, para usarem durante as pregações.

Jeongguk assentiu e colocou a estrela no bolso. Depois de ter certeza que o sacerdote não trazia nenhum outro objeto sagrado, os dois se afastaram dos corpos o mais rápido possível. Enquanto caminhava de volta pela trilha, Jeongguk ergueu o colar e o observou contra a luz do sol.

— Ainda é difícil de acreditar. — Ele comentou. — Sempre rejeitei o dakkonismo por completo.

De repente, um barulho alto fez os dois pararem ao mesmo tempo. Jeongguk olhou para trás, para a entrada da floresta que ainda estava próxima. Taehyung estreitou os olhos, tentando identificar o que era aquilo que se aproximava no horizonte.

— Aquilo é… — Murmurou, confuso.

Carruagens. O barulho que ouviram era os cascos dos cavalos, dezenas de uma vez, galopando juntos pela estrada, em direção a floresta.

As carruagens pararam a poucos metros da entrada e vários homens começaram a sair. Taehyung encarou Jeongguk com os olhos arregalados.

— São soldados de Pardak.

Jeongguk recuou um passo.

— Tem certeza?

— Sim, aquele é o uniforme da guarda particular da capital. E aquilo nas carruagens… é o brasão do imperador Kang.

Jeongguk praguejou baixinho e segurou um dos braços de Taehyung.

— Vamos!

Jeongguk saiu correndo para dentro da floresta e puxou Taehyung junto. Ao invés de seguirem pela trilha, Jeongguk o levou para o meio das árvores, onde a vegetação era mais alta e mais difícil de percorrer. Ele parou diante de uma árvore e começou a escalar. Parou no primeiro galho e estendeu a mão para ajudar Taehyung. Em pouco tempo, os dois estavam há vários metros do chão.

Dali, tinham uma boa visão da entrada da floresta. Cerca de cinquenta homens fardados estavam em fileira. Diante deles, estava um homem mais velho, que usava uma túnica branca com três faixas vermelhas amarradas na cintura.

— É um cardeal. — Taehyung sussurrou, perplexo. Um cardeal fora de Pardak? Era realmente uma surpresa.

— Hoje, vocês recebem uma missão sagrada. — O cardeal declarou, com sua voz potente ecoando por entre as árvores. — A missão de eliminar os pecadores desta terra. Aos corajosos que estão se voluntariando, saibam que Deus-Pai não os abandonará. Vão, e livrem o mundo da influência perversa de Sebrik. Já passou da hora de alguém destruir esse lugar e tudo que Ela representa.

— Sim, senhor! — Os soldados gritaram em uníssono, enquanto batiam continência.

— Que Dakkon ilumine o caminho de vocês, meus filhos.

O cardeal fez uma reverência cheia de respeito aos soldados e se afastou, voltando para perto da maior e mais luxuosa das carruagens. Um dos homens assumiu a frente. Taehyung conseguiu identificar a faixa de capitão amarrada em seu braço. Ele organizou rapidamente as fileiras e, com uma ordem firme, os soldados de Pardak entraram na floresta.

— Vieram fazer uma limpa na floresta. — Taehyung sussurrou. — Sobre o pretexto de que estão fazendo isso em nome de Deus. Aposto que no final, cada um desses homens vai se enforcar diante de um templo, com a promessa de que serão perdoados por todos os assassinatos que cometerem.

Taehyung sentiu seu estômago dar uma volta. A expressão de Jeongguk se tornou irritada, como se aquilo fosse uma ofensa pessoal.

— Vão causar problemas. — Ele resmungou. — Muitos problemas.

Taehyung assentiu. Tinha certeza que eles não fariam distinção nenhuma. Matariam qualquer um que tivesse as mãos sujas de sangue, fosse um daqueles criminosos perversos que Jeongguk precisava eliminar ou um simples trabalhador tentando sobreviver na floresta. Matariam Taehyung, que só estava ali porque tentou proteger sua mãe e sua irmã.

— Amaldiçoado seja o nome de Sebrik, aquele cardeal está louco! — Taehyung exclamou.

Jeongguk soltou um grunhido.

— Como eu odeio fanáticos religiosos. — Ele se virou para Taehyung. — Fique aqui. Caso eu não volte, desça da árvore e siga pela esquerda. Você vai encontrar outra trilha. Corra pela floresta e avise o máximo de pessoas que conseguir.

— O que você vai fazer? — Taehyung perguntou, alarmado.

Ele não iria caçar todos aqueles homens sozinho, iria? Seria uma loucura completa. Nem mesmo a Besta de Fogo era páreo para cinquenta soldados treinados.

— Nessa floresta, nós primeiro cortamos o mal pela raíz, Taehyung. Depois recolhemos os frutos podres.

Dito isso, Jeongguk desceu da árvore com uma agilidade invejável e avançou em direção a trilha. Com os olhos arregalados, Taehyung assistiu enquanto ele sacava o machado e saia da floresta. O cardeal ainda não tinha partido, apenas observava seus soldados marchando para fazer um massacre. Não tinham guardas com ele, apenas um cocheiro. Uma decisão estúpida, mas ele devia acreditar fielmente que Dakkon não permitiria que nenhum mal lhe acontecesse.

Jeongguk não atacou de surpresa. Esse não era seu estilo. Ele queria que as pessoas o vissem chegando. Queria que se apavorassem com a quantidade de sangue em seu corpo.

Em passos tranquilos, ele saiu da floresta e seguiu em direção ao cardeal. Com grande satisfação, Taehyung assistiu enquanto o horror tomava conta do rosto do homem. Apavorado, o cocheiro se virou e fugiu, abandonando a carruagem e os cavalos. O cardeal, como todo sacerdote, caiu de joelhos no chão e começou a rezar. Jeongguk o agarrou pelo colarinho e ergueu seu corpo no ar.

Ao se dar conta que suas rezas não dariam certo, o homem começou a gritar por ajuda. Ao menos, ele foi sábio o suficiente para não usar a palavra “socorro”. Jeongguk o matou rapidamente. Não tinha tempo para tortura. Não com uma tropa de soldados tão próxima.

Quando um pequeno grupo de soldados voltou para ver o motivo dos gritos, tudo que encontraram foi o corpo do cardeal na entrada da floresta, sua cabeça separada do pescoço com um golpe certeiro de um machado muito afiado.

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— O que vamos fazer agora? — Taehyung perguntou, enquanto corria atrás de Jeongguk.

— Primeiro, vamos manter distância deles. — Jeongguk respondeu. — São muitos, então só nos resta sair do caminho e avisar o máximo de pessoas possível.

Taehyung concordou sem hesitar. Logo depois de matar o cardeal e recolher o pingente sagrado que ele carregava, Jeongguk o ajudou a descer da árvore e o guiou na direção contrária, abrindo caminho em meio a vegetação densa até a outra trilha que mencionou. Talvez naquela altura os soldados já tivessem encontrado o cocheiro que fugiu. Se fosse o caso, já estariam cientes da presença de Jeongguk. Ele seria o primeiro alvo.

Os dois chegaram a uma clareira, onde um grupo de cinco homens estava reunido, preparando o almoço diante de uma fogueira. Três deles se levantaram em um pulo, sacaram suas armas e encararam Jeongguk com expressões desconfiadas.

— Cinquenta soldados de Pardak. Vieram sob as ordens de um cardeal, para fazer uma limpeza na floresta. — Jeongguk alertou, sem perda de tempo. — Fujam, espalhem a notícia o máximo possível e se escondam. Eles não terão piedade de ninguém.

Os homens trocaram alguns olhares. Taehyung pensou que eles não acreditariam, mas no instante seguinte, todos os cinco reuniram suas coisas e saíram correndo. Pelo visto, Jeongguk tinha mais influência naquela floresta do que Taehyung imaginava.

— Será que eles não vão desistir agora que você matou o cardeal? — Taehyung perguntou, olhando por cima dos ombros de maneira apreensiva.

— São fanáticos religiosos suicidas, Taehyung. Eles não têm medo de morrer.

Jeongguk voltou a correr. Enquanto seguiam por mais e mais trilhas, Taehyung percebeu que aquela floresta parecia mais com um labirinto. Os dois chegaram a um ponto de prostituição, que era muito mais simples do que o casarão de Seokjin. A clareira era grande, com várias tendas montadas em volta. Todas as vozes se calaram quando Jeongguk assumiu a frente. Ele repetiu as mesmas informações.

Soldados de Pardak. Fujam. Espalhem a notícia.

Em questão de segundos, o lugar estava completamente vazio. Enquanto seguiam por outra trilha, Taehyung começou a ouvir os gritos.

— Se escondam! Se escondam! Soldados de Pardak chegaram!

Outras vozes se juntaram aos gritos, repassando o alerta para mais e mais longe. Pelo visto, por mais grande que o lugar fosse, as notícias mais importantes corriam bem rápido por ali. Jeongguk tomou outra trilha e continuou a correr. Taehyung teve certa dificuldade para acompanhá-lo. Pelo restante do dia, os dois percorreram a floresta. Eram tantos caminhos diferentes que Taehyung já não tinha mais a mínima ideia de onde estavam.

Faltando pouco para o pôr do sol, Jeongguk o guiou por uma trilha mais aberta, que parecia bastante usada. Quatro corpos surgiram no caminho; três homens e uma mulher, todos mortos com golpes no peito ou na garganta. Pelo visto, os soldados chegaram ali antes do alerta.

Jeongguk observou os corpos por longos segundos e cerrou os punhos. Ele estava furioso, o que não era nenhuma surpresa. Aquele era o território de Jeongguk. De certa forma, era ele que cuidava daquela floresta.

Jeongguk se afastou dos corpos e, ao invés de seguir pela trilha, adentrou a vegetação densa e abriu caminho à força outra vez. Taehyung foi atrás dele, sentindo suas pernas fraquejando de tanto cansaço. Quando a noite escuridão da noite estava prestes a alcançá-los, uma pequena cabana surgiu no meio da vegetação. Jeongguk empurrou a porta e entrou de uma vez.

— Namjoon!

Um homem o encarou. Era alto, com o cabelo preto e tinha pequenas manchas de sangue nos braços e no rosto. Um charuto estava entre seus lábios.

— Soldados de Pardak. — Namjoon respondeu. — Já ouvimos as notícias.

Jeongguk soltou um longo suspiro e caiu sentado no chão. Taehyung se aproximou e sentou ao lado dele, exausto de toda a correria. Suas pernas estavam trêmulas.

Os olhos de Namjoon caíram sobre Taehyung e o analisaram de cima a baixo.

— Então os boatos sobre você ter arranjado um aprendiz também são verdadeiros?

Ao invés de responder, Jeongguk tirou um pingente do bolso e estendeu para o homem. Era um dos outros três amuletos sagrados que conseguiu reunir; dois roubados do padre e um retirado às pressas do cardeal.

— Descobrimos que essas porcarias realmente funcionam, se forem abençoadas por um sacerdote da mais alta classe.

Namjoon ergueu uma das sobrancelhas, incrédulo.

— É sério. — Jeongguk insistiu. — Uma das sombras ficou a centímetros do Taehyung e não o matou. Pode ser útil, pelo menos durante o dia. Sempre tem algum imbecil para gritar por socorro.

Ainda meio cético, Namjoon pegou o pingente e se virou para um canto da cabana.

— Ouviu isso, Jimin?

Uma risada divertida ecoou pelo lugar. Só então Taehyung notou o outro homem no canto da cabana. Parecia tão jovem quanto Namjoon e trazia algumas lamparinas acesas. Estranhamente, ele não tinha uma única mancha de sangue em suas mãos.

— Logo você se tornando dakkonista, Jeongguk? — Jimin debochou. — Que surpresa.

Jeongguk revirou os olhos e arremessou a estrela de madeira para ele. Jimin a pegou e observou com curiosidade.

— Até agora, só consegui matar o cardeal que trouxe os soldados. Com certeza devem estar andando em bandos, então vai ser difícil conseguir matar algum deles.

Namjoon soltou um suspiro cansado.

— Teremos dias difíceis pela frente.

Jeongguk abriu um sorriso sem humor.

— E alguma vez tivemos dias fáceis nessa floresta, meu amigo?

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Taehyung mal abriu a boca. Estava exausto demais até para tentar socializar. Depois de comer o jantar que Jimin preparou, se deitou no chão da cabana e adormeceu antes que se desse conta.

Porém, não dormiu por muito tempo. A imagem dos soldados descendo da carruagem se repetiu diversas vezes em seus sonhos, atormentando sua mente. Quando era criança, Taehyung sonhava em ser como eles. Sonhava em ser um corajoso soldado de Pardak, que defendia as pessoas e cuidava da cidade.

Os sonhos ruins, combinados com as vozes baixas ao redor, o despertaram por completo. Taehyung continuou de olhos fechados, esperando pegar no sono outra vez. Jeongguk, Jimin e Namjoon ainda estavam acordados. A cabana era pequena, com apenas dois cômodos e um banheiro, mas parecia ser segura. No quarto ao lado, Taehyung chegou a ver vários arcos e flechas, junto com lanças de madeira. Também havia alguns móveis novos.

— Não foi você que disse centenas de vezes que trabalha melhor sozinho? — Jimin perguntou, em um tom claro de provocação.

— Ele não é meu aprendiz. — Jeongguk respondeu. — É só um novato inofensivo. Estava ajudando ele a chegar até às fazendas, antes de descobrirmos sobre os soldados.

Namjoon deixou uma risadinha escapar.

— É desde quando você se importa tanto assim com novatos? Normalmente você só repassa algumas orientações básicas e deixa eles aprenderem a se virar sozinhos.

Jeongguk não respondeu. Foi a vez de Jimin começar a rir.

— Sério? Está caidinho por um cara que conheceu há uma semana, Jeongguk? Quem diria, hein?

Jeongguk grunhiu.

— Calem a boca, vão acordá-lo!

Taehyung abriu um sorriso fraco.

— Está bem, está bem. — Jimin riu outra vez e diminuiu o tom de voz. — Então… como exatamente vocês descobriram sobre essas bugigangas dakkonistas?

Jeongguk explicou sobre a situação apavorante que Taehyung vivenciou. Enquanto ele falava, Taehyung começou a pensar sobre isso.

Objetos dakkonistas sagrados eram capazes de afastar as sombras durante o dia…

Taehyung arregalou os olhos e ergueu o corpo de uma vez. Jeongguk o encarou com uma expressão preocupada, provavelmente pensando que tinha acabado de acordar de um pesadelo.

— Tive uma ideia. — Taehyung sussurrou.

— O que? — Jimin perguntou, confuso.

— Tive uma ideia! — Taehyung repetiu, mais alto dessa vez. — Para nos livrarmos dos soldados.

Sua mente se expandiu enquanto moldava aquele plano. Era loucura, com certeza. Ainda assim… Taehyung tocou o pingente em seu pescoço.

— O cardeal deve ter entregado amuletos abençoados para todos, então primeiro temos que nos livrar deles. — Taehyung continuou. — Depois disso, podemos dar um jeito das sombras aparecerem durante o dia. Vamos deixar que elas se livrem deles no nosso lugar.

Jeongguk, Jimin e Namjoon trocaram alguns olhares. Por fim, Jimin assentiu.

— É, pode funcionar. Mas para atrair as sombras, alguém precisaria gritar por socorro.

Taehyung abriu um sorrisinho malicioso e ergueu seu próprio pingente abençoado.

Outra troca de olhares.

— Isso é… pura maluquice. — Namjoon concluiu.

Jeongguk franziu as sobrancelhas, preocupado.

— Ainda não temos certeza se esses colares podem mesmo proteger alguém que é o alvo principal das sombras.

— Onde está sua fé com Deus-Pai Dakkon, Jeongguk? — Taehyung brincou.

Jeongguk bufou e abriu um sorriso fraco.

— Mas é realmente um bom plano. — Concordou. — Já que o sol vai estar no céu, então a proteção deve mesmo funcionar.

— E essa ideia surgiu… enquanto você dormia? — Namjoon ergueu uma das sobrancelhas.

Taehyung deu de ombros.

— Acordei com Jeongguk explicando sobre o momento em que eu quase virei almoço de sombra demoníaca.

— Certo, o plano é bom. — Jimin falou. — Mas como vão tirar os objetos sagrados dos soldados? Aqueles malucos não devem soltar essas coisas em hipótese nenhuma.

Taehyung abriu outro sorriso malicioso.

— Vamos precisar de alguém sem sangue nas mãos, prostitutas e um sonífero bem forte.

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— Tem mesmo que ser ele? — Jeongguk perguntou, mal humorado. — Jimin também não tem uma gota de sangue nas mãos.

— Infelizmente, ele não é um cafetão. — Taehyung respondeu. — Aliás, o que Jimin está fazendo nessa floresta, se nunca matou ninguém?

— Namjoon. — Jeongguk explicou. — Os dois eram vizinhos. Jimin acabou procurando briga com quem não devia e o homem lhe deu uma surra e tanto. Namjoon estava passando na hora e resolveu ajudá-lo, mas acabou exagerando demais e matou o homem. Jimin se sentiu culpado e o seguiu até a floresta, para ter certeza que ele ao menos ficaria bem. Os dois estão aqui há quase seis anos. Nesse meio tempo, eles acabaram se casando. Namjoon é carpinteiro, faz armas e outros objetos de madeira, é assim que eles se viram por aqui.

— Uau… — Taehyung sorriu. — Pelo menos eles têm um ao outro.

Jeongguk assentiu.

— E você, não tem ninguém? — Taehyung perguntou.

Jeongguk riu, como se a simples ideia soasse absurda demais.

— Estive muito ocupado cometendo um assassinato atrás do outro nos últimos anos.

De certa forma, foi uma surpresa. Apesar de todo o sangue em seu corpo, Jeongguk era bonito. Além da aparência física, ele também era inesperadamente gentil.

— E você? — Jeongguk perguntou, depois de algum tempo. Sua voz soou baixa. Tímida. — Não tinha ninguém antes de vir para a floresta?

— Estive noivo até o ano passado, mas o idiota achou que seria uma boa ideia fazer a despedida de solteiro em um bordel. Cancelei o casamento na manhã seguinte. — Taehyung abriu um sorriso irônico. — Ele era filho de um lorde importante da cidade. Meu pai ficou furioso comigo.

Jeongguk o encarou por cima dos ombros. Sobrancelhas franzidas, boca levemente aberta, expressão de pura indignação…

— Ele tinha você e… Te traiu? — Repetiu, incrédulo.

Taehyung assentiu.

— Como pode ver, não tenho muita sorte no amor.

Jeongguk virou o rosto e continuou a caminhar.

Seokjin ainda continuava no mesmo lugar, sentado diante de sua casa. Não tinha nada a temer, afinal não possuía uma gota de sangue nas mãos. Os soldados de Pardak o deixariam em paz. Talvez até o convidassem para participar de um piquenique durante as matanças.

— Ora, ora, que surpresa. — Seokjin abriu um sorriso divertido. Atrás dele, a casa parecia completamente deserta. — Tomem cuidado, rapazes. Tem soldados vagando por toda floresta. Alguns passaram por aqui, mas acredito que tenham gostado de mim. Segundo os boatos, já devem ter matado mais de cinquenta pessoas.

— Nós sabemos. — Jeongguk resmungou.

Taehyung deu um passo à frente.

— Imagino que eles estejam atrapalhando seus negócios, não é?

Seokjin suspirou e assentiu. Seu sorriso sumiu e foi substituído por uma expressão séria.

— Meus garotos e minhas garotas estão escondidos no porão. Sem clientes, sem dinheiro. Estou torcendo para que nossa Besta de Fogo dê um jeito nisso logo.

Jeongguk torceu o nariz.

— E nós vamos dar um jeito. — Taehyung garantiu. — Sabe onde os soldados estão?

— Atualmente, na estalagem do Hoseok, mas imagino que vão procurar outra em breve. Só estão se movendo em bandos, então sem chance de conseguir matar um por um.

— Temos um plano. — Taehyung respondeu. — Mas vamos precisar de ajuda.

— Não estou disposto de sujar minhas mãos de sangue, rapaz. — Seokjin fez uma careta. — Se for o fim dessa floresta, preciso garantir que o resto do mundo ainda vai me aceitar de braços abertos.

— Não precisa matar ninguém. Na verdade, esse plano envolve as pessoas que trabalham para você.

Seokjin inclinou o rosto, curioso.

— Explique.

— Preciso que você convença os soldados de que eles precisam de uma boa pausa. Uma noite tranquila, com o que a floresta pode oferecer de melhor.

— Eles vão matar meus empregados assim que terminarem de se divertir. — Seokjin rebateu, em um tom de voz estranhamente… protetor. — Não vou mandá-los para a morte.

— Ninguém vai morrer, porque eles vão apagar no início da noite. — Taehyung explicou. — Vamos droga-los. Então, seus empregados vão tirar qualquer amuleto dakkonista que eles tiverem e vão fugir.

Seokjin franziu as sobrancelhas.

— Por que tirar os amuletos?

— Eles são fanáticos religiosos que acreditam estar em uma missão para o Deus Dakkon. Se tirarmos os amuletos, eles vão ficar assustados. Vão imaginar que não estão mais tão seguros. Vamos brincar um pouco com a mente deles, assim vai ser fácil concluir o restante do plano.

— E qual é o restante do plano?

— Fazer com que eles sejam devorados pelas sombras.

Seokjin arregalou levemente os olhos e começou a rir.

— Que ousado. Mas são cinquenta soldados, não tenho pessoal o suficiente para isso.

— Não precisa ser com todos. Só alguns já vão bastar.

— Tudo bem, vou conversar com meu pessoal. Mas se bem que… você podia ir junto também. — Seokjin acrescentou, com outro sorriso malicioso. — Tenho certeza que atrairia ainda mais soldados.

Jeongguk soltou um grunhido irritado, segurou a mão esquerda de Taehyung e o arrastou para longe. Seokjin gargalhou, entretido.

— Tente conversar com eles na estalagem. Eles vão te ouvir. Vão confiar em você. — Taehyung avisou. — Voltaremos assim que tivermos o sonífero.

Seokjin acenou.

— Amaldiçoado seja, esse filho da puta. — Jeongguk puxou Taehyung por outra trilha. — Sabia que ele ia sugerir isso.

Taehyung riu.

— Mas até que é uma boa ideia. Assim, vou conseguir pegar o máximo de amuletos sagrados que conseguir.

Jeongguk o encarou no mesmo instante, com as sobrancelhas franzidas. O aperto na mão de Taehyung se tornou mais forte. Mais… possessivo.

— Isso não fazia parte do plano.

— Não quer que eu faça isso?

Jeongguk cerrou o maxilar.

— Não.

Taehyung abriu um sorriso fraco 

— Tudo bem, vamos só seguir o plano original então. — Empurrou o ombro de Jungkook de leve. — Você disse que esse caminho é muito movimentado, temos que sair daqui.

Jeongguk voltou a caminhar.

Por todo caminho, ele segurou a mão de Taehyung com firmeza. Taehyung apertou a mão dele de volta.