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A dor de morrer, de ter sido corajoso, de lembrar de todos os momentos que se teve antes de dar esse disparo na sua própria cabeça e de momentos antes de realmente tudo se apagar, ouvir o grito estridente de Lena... Pomba sentiu tudo isso e um pouco mais antes e depois de acordar com vida, em vez de estar numa possível vida após a morte, teve até uma certa demora para ele se levantar do chão e entender que realmente estava vivo, que, de alguma forma, ele estava ali mesmo.
Foi também doloroso e difícil olhar o corpo do Harpia e aceitar a morte dele, mas de alguma forma, Pomba já esperava que isso pudesse acontecer. A sua mente sempre pensa nas várias possibilidades que podem surgir a partir de vários eventos específicos, e não apenas em uma, e sua mente o ajudou nisso principalmente com o plano arriscado que o Harpia havia feito, um plano que podia desmoronar a qualquer momento, apesar de Pomba saber que o Harpia era forte.
E enquanto olhava o corpo de alguém que o moreno mais considerava família, antes mesmo de se levantar completamente, ele sentiu um arrepio na espinha e uma voz um pouco estragada, uma voz que potencialmente parecia ter sido estragada por cigarros apesar de estar sendo sussurrada.
- Wow, e não é que o último desejo dele foi te salvar? Até que isso foi bonito de certa forma… — disse a voz. Rapidamente, Pomba já se levantou e deu vários passos para trás. O seu corpo ainda estava dolorido e exausto, mas o susto foi o suficiente para levantá-lo e se afastar, e o que viu o deixou ainda mais assustado. O dono dessa voz era uma figura transparente de um garoto ruivo, mais ou menos da altura de Pomba, com roupas que claramente vinham de alguém do Psikolera, roupas das quais Pomba se lembrava principalmente por conta do Eloy.
A figura olhou para Pomba com certa curiosidade; ele sabia que tinha falado até que em voz alta, mas não esperava que o outro fosse realmente escutar... Mas, se bem que faz sentido, o garoto tinha acabado de morrer e voltar à vida, talvez ele ainda tivesse alguns resquícios de sua morte correndo em suas veias. Esse momento era algo que mudaria a sua vida para sempre, e não só por lembranças que o assombrariam para sempre.
- Que porra é essa... - Finalmente veio a coragem de soltar alguma frase enquanto olhava para o fantasma de alguém do Psikolera, provavelmente o Franco pelo o que se lembrava dos desenhos que havia feito na casa dos mascarados.
- Eu não esperava que você fosse me ouvir, não vou mentir... Mas isso é maneiro, cara. - O ruivo murmurou, aproximando-se um pouco do pássaro, que então deu alguns passos para trás novamente.
- Só pode ser coisa da minha cabeça. - Pomba disse enquanto se distanciava toda vez que Franco, curiosamente, se aproximava mais um pouco, murmurando essas mesmas palavras várias e várias vezes.
- Calmô, calmô! Olha, não é coisa da sua cabeça, se fosse, eu estaria te atormentando, mas eu não tô, cara. - Franco disse, levantando as mãos transparentes e tentando fazer com que Pomba se acalmasse um pouco mais. - Eu não sei como você consegue me enxergar e me ouvir, mas não acha que isso deve ser pelo fato de você literalmente ter morrido por alguns minutos? - Ele disse, olhando para o garoto, e agora as peças começavam a se encaixar melhor na cabeça de Pomba... É, ele parecia estar certo. Pomba tinha que admitir, era uma boa justificativa que o ruivo tinha oferecido.
- É... É, faz sentido... - Pomba disse enquanto olhava para suas mãos, não sentindo mais o sentimento horrível de que algo o estava o comendo por dentro, o que significa que ele não era mais um desertor, o Hexatombe havia sido realizado. - Você é do Psikolera? O Eloy estava com o mesmo macacão que você. - Pomba perguntou com a voz menos trêmula, tirando seus olhos de suas mãos e tendo uma visão melhor do ruivo.
- Pode-se dizer que eu era. Tava com os Mascarados há quanto tempo? - Franco perguntou, dando um passo à frente para testar se o garoto deixaria.
- Desde a primeira noite, quando eu e o Harpia fomos os únicos a sobreviver... - Pomba disse antes de olhar de volta para o corpo do Harpia, tentando esquecer disso apesar de ser bem difícil.
- Então eles te abrigaram?
- Me deram um tiro
Um silêncio se instalou com isso enquanto Franco o olhava em choque.
- Eles me salvaram, só estavam meio assustados. A Lena me deu o tiro, e ela foi quem mais cuidou de mim.
- Lena? - Franco perguntou curiosamente, aproximando-se ainda mais do outro, parando bem em sua frente.
- Acho que você a conheceu por Kemi então.
- Ah, sim... Não sabia que ela tinha outro nome.
E por alguns longos minutos, ambos ficaram apenas olhando para a noite estrelada, sabendo que nada mais precisava ser dito a não ser que surgisse algo importante à mente. Pomba conseguia apenas sentir uma enorme dúvida, uma dúvida que restava no afã de seu ser… O que ele faria agora? Não havia ninguém. Todos já haviam ido embora, e quem não foi embora estava morto nos escombros que a coroa de espinhos trouxe. Então, o que ele iria fazer? Não é como se fosse fácil também escalar esses escombros para poder sair desse meio. E, sinceramente, Pomba estava começando a ficar com fome e sede.
De alguma maneira, Franco percebeu isso. O ruivo olhou para as expressões do garoto e conseguiu sentir um pouco do que os seus olhos queriam dizer. Franco ficou um tempo quieto, até que o menino era bonito e uma pessoa boa; não faria mal tentar ajudá-lo, mesmo que pouco, já que era um fantasma.
- Você não acha que é um pouco tarde pra parar agora? - Franco perguntou, tentando fazer com que algum resquício de determinação de viver voltasse para o garoto, olhando para os cachos dele e sua isolada mecha loira, as roupas completamente desgastadas, o sangue por todo o seu corpo... Franco sabia que o Pomba precisava de uma força, e o ruivo era o único ser aos arredores para ajudá-lo.
- Como assim? - Pomba perguntou enquanto virava para o ruivo, e Franco tinha certeza de que, caso estivesse vivo, ele estaria vermelho de vergonha instantaneamente por ver os olhos lindos do Pomba.
- O hexatombe já foi concluído. Você não tem que sair deste lugar?
- Mas e pra onde eu vou? Eu não tenho mais nada. - Pomba respondeu enquanto olhava novamente à direção da lua, tentando achar alguma resposta na sua cabeça turbulenta, mesmo que, quanto mais ele procurasse, mais ele se sentisse confuso e exausto de tudo.
- A gente descobre, vem. - Franco disse calmamente, prestes a estender a mão pra puxar o Pomba, mas lembrando de que ele era um fantasma e que não conseguiria segurar a mão do Moreno de qualquer jeito, dando de ombros e andando até alguma parte dos escombros. Pomba não parecia compreender ou sequer formar uma mera hipótese do motivo que levou Franco a ajudar ele, mas seria falta de educação recusar algo bondoso assim, e, por fim, foi decidido por ele que tentaria aceitar um pouco dessa ajuda do fantasma.
Foi uma caminhada de alguns minutos até ambos chegarem a uma parte dos escombros que parecia ter sido limpada, de certa forma. Provavelmente foi por onde os outros saíram depois que terminaram seus desejos, ou pelo menos era o que Pomba suspeitava.
- Você não tá com fome? Ou sede, talvez? Cara, reviver deve dar uma puta canseira no corpo. - Franco disse, tentando puxar um assunto enquanto Pomba passava pela pequena abertura dos escombros do que um dia foi uma cidade, uma mansão, uma igreja... E entre várias outras coisas do Hexatombe empurradas pela coroa de espinhos.
- Eu tô, mas depois eu como. Tenho que sair daqui primeiro. - Respondeu Pomba.
- Ei, será que ficou tudo do seu corpo aí mesmo?! Será que o paranormal não tirou nada não? - Franco perguntou, querendo incomodar um pouco o mais velho. Faz alguns dias que ele está morto, então, obviamente, ele queria ter algum tipo de entretenimento. Tudo o que Franco conseguiu fazer enquanto fantasma foi observar os mascarados e o cangaceiro de vez em quando, e agora ele podia finalmente falar e incomodar alguém denovo.
- O que que 'cê quer dizer? - Pomba disse enquanto olhava de volta para o garoto morto ao seu lado.
- Ué. - Franco disse, enquanto olhava pro Pomba, com uma sobrancelha arqueada, abaixando o olhar devagar e deixando apenas um silêncio entre os dois...
- P-para com isso, muleque! - Pomba disse envergonhado e com a voz um pouco mais elevada, ele não é do tipo de brigar e parecer ameaçador, isso era sempre trabalho do Harpia, da Kemi, Aguiar... Nunca trabalho dele em si. O Pomba apenas sabia onde deveria ir e os lugares marcados em seus mapas.
- Não pode nada. - Franco disse com uma pequena risada, seguindo Pomba entre os escombros.
- Não pergunta mais essas coisas, idiota... - Pomba continuo envergonhado, finalmente saindo dos escombros, deixando-se dar uma respirada mais funda do que o necessário
- Agora a gente tem que andar até a casa do caralho para achar algum lugar que você pode ficar, alguma casa ou civilização... Deve ter alguma coisa. - Franco murmurou enquanto perseguia o moreno, sem parecer querer deixá-lo por algum motivo.
- Ou achar água... - Pomba suspirou enquanto falava, tentando reconhecer o lugar à sua volta e falar com o Fantasma com cautela, de uma maneira quase que completamente silenciosa. - Por que você ainda tá me seguindo?
- Ser um fantasma é chato, eu quero poder conversar com os outros e você consegue me ouvir, é perfeito. - Franco disso enquanto observava a forma que Pomba analisava o local, assistindo a forma que o rosto do moreno aos poucos decorava os trajetos que ele poderia tomar para ir seja lá onde ele estiver planejando ir. - Onde pretende ir? - Ele perguntou, esperando que fosse ser interessante passar o tempo com o Pomba.
- Para o acampamento que eu e os outros passáros tinhamos... Quer dizer, o lugar que ficava o acampamento, não deve ter restado nada depois que a coroa de espinhos arrastou tudo. Mas lá tem um rio, eu vou beber um pouco de água e tomar um banho para tirar o cheiro de sangue e conseguir andar por ai livremente. - Respondeu o garoto, o que fez Franco de certa forma aliviado. Pomba parecia inteligente, talvez o tipo que falaria muito se desse atenção o suficiente, e no momento, o que o ruivo mais queria era se manter entretido depois de dias como um fantasma no puro tédio de ninguém o notar.
- Então vamos, passarinho! - Falou com uma voz mais alta, andando na direção que Pomba parecia receoso de seguir, ouvindo logo após um suspiro e os passos do outro menino.
