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Era mais um dia calmo e ensolarado como qualquer outro. Jasper acordou cedo, não teve uma boa noite de sono e não conseguia voltar a dormir, não quando tinha a mesma merda de sonho toda vez.
Aceitando que não conseguiria pegar no sono novamente, ele pegou o seu óculos que estava na bancada ao lado da cama e o colocou, se levantando logo em seguida, pisando naquele piso gélido e liso de seu quarto. Jasper fez a sua rotina básica de sempre: tomar banho, escovar os dentes e trocar de roupa, como ainda ficaria em casa por um tempo, ele vestiu uma camisa preta com estampa de cachorro, junto de um calção branco com corações, logo após isso, foi andando até a cozinha, para preparar algo.
O local se encontrava em uma completa bagunça, louça suja, armários entreabertos, embalagens e caixas de comida pelo chão. Céus, aquilo estava um completo caos.
Jasper olhou em volta por alguns, soltando um suspiro cansado, ele pensou sabiamente, “deixar para limpar aquela bagunça depois, seria a ideia mais aceitável”, foi o que ele pensou enquanto andava em direção a geladeira, isso até pisar em uma caixa de cereal.
— Merda, vai tudo virar pó. — Murmurou baixinho, com a voz saindo rouca, já que ainda estava acordando. Somente tirou o sucrilhos do chão e o colocou em cima do balcão, logo voltando a andar em direção a geladeira novamente.
Ele abriu a geladeira, pensando no que deveria comer hoje, e por mais que ela estivesse cheia, sentia um enorme vazio vindo dela. Jasper encarou, o que deveria ser algo em questão de segundos se tornaram minutos. Ele poderia ficar assim por horas, isso se não fosse uma vozinha irritante falando no seu cangote.
– Porra, você não vai pegar nada aí não? Quem tá ficando com fome sou eu. E a sua cozinha tá um chiqueiro, só pra avisar — Jasper não precisava olhar para trás para saber quem é, e por mais que soubesse, levou um susto da mesma maneira.
– Caralho, que susto! — Ele se virou rapidamente, com os olhos arregalados olhou para a figura a sua frente; Pele avermelhada, mais braços do que o comum, os chifres, as escritas na pele e aquele maldito sorriso afiado.
– Um padre xingando? Isso não é muito profissional da sua parte, Jasperzinho — A sua fala veio acompanhada de uma risada perversa. Antes de perguntar o que ele veio fazer aqui, a criatura apenas empurra Jasper para o lado, abrindo passagem para acessar a geladeira
– O que é que tem pra comer aqui?
– Eu nunca quis ser isso- Ei! Não acha que tá muito a vontade pra quem não foi convidado, Juan? Não tô reclamando, só que você poderia ter avisado ou sei lá. Eu poderia ter te preparado algo ou…Você tá me ouvindo?
– Claro que tô — Respondeu, com a boca cheia de pedaços de carne crua, dava para ouvir o som dos ossos sendo esmagados na boca dele.
Jasper pareceu entrar em pânico quando viu isso. Não dava a mínima para a carne, estava preocupado com Juan, talvez esquecendo que ele não era um humano. Sem pensar duas vezes, ele se aproximou e colocou ambas as mãos nas bochechas de Juan, as espremendo, tentando fazer com que ele cuspisse aquela carne.
– Tá na noia, porra?! Cospe isso! Comer carne crua não faz bem, caralho.
– Que bonitinho, você ainda se preocupa comigo mesmo assim. Eu não sou humano, bobinho. Você não tem com o que se preocupar. — Juan proferiu com o mesmo sorriso diabólico estampado na cara, foi um pouco difícil falar, já que Jasper estava esmagando as suas bochechas.
– Eu ainda me preocupo com você, porra. Por isso eu não deixo que ninguém nesse lugar saiba de você.
– Você realmente tem uma boquinha muito suja, talvez eu devesse limpar ela…E o que aconteceu aqui? Assaltaram a sua casa? Tá tudo imundo.
– E talvez eu devesse te exorcizar, mas não vai ser com um terço que eu vou fazer isso. E para de falar de boca cheia. — Ele largou as bochechas de Juan, voltando a olhar para a geladeira que ainda estava aberta. Ignorando totalmente a pergunta sobre o que tinha acontecido com a própria casa.
Jasper não ouviu mais nenhuma palavra depois disso, só uma risada e o som de alguns ossos quebrando. Merda, ele estava planejando jantar coxa de frango no final de semana.
– Isso não foi nada W da sua parte, cara…Eu tava planejando comer isso aí.
– Bobeou dançou. E tem outra coisa que você pode comer.
– Tipo o que? Sucrilhos? — Questionou, olhando para a caixa que tinha pisado mais cedo.
Juan acabou deixando uma gargalhada alta escapar da própria boca, tendo que colocar uma mão para abafar as risadas.
– O que foi? Eu tô falando sério, porra! Eu tô com fome.
– Que gritaria toda é essa? Com quem você tá conversando? — Uma figura feminina um pouco baixa surge vindo do corredor, ela usava um pijama que estava meio bagunçado junto do próprio cabelo, entregando que tinha acabado de acordar. Ela perguntou, com a voz sonolenta, enquanto esfregava os olhos.
Antes que Jasper pudesse avisar Juan para ir embora ou qualquer coisa do tipo, ele já não estava mais lá. Jasper só soltou um suspiro e se virou na direção de sua irmã.
– …Com ninguém. Apenas pensando em voz alta, vai se sentar, eu vou preparar o café da manhã. Aliás, bom dia, Elisa.
– Bom dia, maninho! — Ela foi andando meio desleixada até a mesa, ainda estava meio desorientada por ter acabado de acordar, então não iria questionar.
– Você pode arrumar o meu cabelo depois? — Elisa perguntou, enquanto se sentava na cadeira.
– Claro, eu só vou fazer o café antes. — Pegando o avental e o colocando, ele foi andando em direção aos armários, tomando cuidado para não pisar em alguma caixa no chão.
Daquele momento em diante, Jasper não viu Juan pela manhã toda. Às vezes se perguntava se o que estava vendo era mesmo real, se era realmente ele ali. Poderia ser apenas a saudade o consumindo e pregando uma peça.
Se perguntava se ele poderia aparecer pela tarde, ou quem sabe pela noite. De qualquer jeito não poderia ficar pensando nele o dia todo, tinha um trabalho a fazer, assim como todos os dias. Ele era um padre agora, por mais que odiasse, tinha pessoas que precisavam dele para se agarrar como um único fio de esperança, não dava para abandonar aquelas pessoas, não quando elas choravam e clamavam por perdão de joelhos.
Foi cortado de seus pensamentos por um jovem de cabelo castanho, sentindo a prótese fria dele em seu ombro, apertando.
– A gente já vai indo. Olha, você pode contar com a gente pra qualquer coisa, não vai se sobrecarregar. Você tem eu, Maria, Lena e o Tuco se precisar desabafar. — Remi disse, olhando fixamente para os olhos do padre, estando preocupado com o estado do amigo. Logo ao lado dele, estava Maria, que deu alguns tapinhas nas costas de Jasper.
– Vê se não exagera, tenta controlar essa sua “resenha”! — Maria comentou, arrancando uma risadinha de Jasper.
– Eu tô ligado, vocês não precisam se preocupar comigo. Cuidado no caminho de volta para casa.
– Tá de boa, ninguém pode comigo, então duvido que algo aconteça. Até logo! — Remi falou, indo em direção a saída, com Maria logo atrás dele.
Jasper já estava fechando a igreja, terminava de apagar as luzes e fechar as portas. Mas antes de ir embora, ele se ajoelhou em frente ao altar, juntou as mãos, enquanto segurava um terço. O seu pai o obrigava a fazer isso tantas vezes, desde que era criança, que talvez já estivesse acostumado.
Ficou muito distraído com a sua reza para notar uma nova presença, subindo os degraus do altar, lentamente.
– Tão lindo de joelhos…Pena que não é pra mim. — Parece que o diabinho voltou. Juan estava logo atrás dele, em pé, usando uma das mãos para acariciar o cabelo de Jasper, era tão suave, que até poderia fazer ele dormir naquele exato momento.
O padre tentou ignorar, mas foi quase impossível quando Juan agarrou o rosto dele e o levantou, fazendo com que ele instintivamente abrisse os olhos e o encarasse.
– Porra! Você tá tão carente assim pra ter que vir até a igreja?! — Jasper exclamou, um pouco corado pelo o que o demônio disse anteriormente.
– Que incrível, você consegue ter boca suja até mesmo em “casa”. — Ele soltou um riso frouxo, se inclinando para mais perto do padre.
– É fofo ver você com ciuminho, principalmente quando você é desse tamanho. E eu já falei, aqui não é a minha casa, muito menos onde eu gostaria de estar. — Jasper franziu o cenho, mas aproveitou a proximidade para agarrar um dos chifres de Juan e puxar para mais perto, que pareceu soltar o que seria um risada como resposta, enquanto a cauda dele balançava lá atrás.
– Por favor, você pode voltar para casa? Se alguém te ver aqui, fudeu porra. Eu não posso te perder, Juan.
Jasper mudou de expressão, olhou para a criatura à sua frente, e olhou com aqueles olhos de cachorro abandonado, que sabia muito bem que não podiam ser negados.
Juan resmungou algo que o padre não conseguiu ouvir, mas pareceu obedecer a escolha dele. Ele não iria tirar o direito de escolha de alguém como o Jasper, sabe o que é ser acorrentado e usado, sem poder escolher, ele não tiraria aquilo de Jasper, não quando ele já estava aprisionado o suficiente.
– Eu não vou tirar o seu direito de escolha, se é isso que você acha melhor, é claro. — Quando ia se afastar, o indivíduo de cabelo branco o puxou pelo chifre novamente, já estava pronto para xingar, até receber um beijo na bochecha.
– Valeu, não quero vacilar com você, mas isso é necessário. — Jasper disse, soltando o chifre de Juan logo em seguida. Ele abriu um sorriso genuíno quando viu a cauda da criatura balançando.
– Isso é fofo, mano.
– Será que dá pra parar de olhar pro meu rabo?
– Não pode nem mais resenhar, Deus me livre. — Jasper murmurou, se levantou e foi andando em direção ao altar, deixando o terço em cima da mesa. Quando ia se virar para falar com Juan, ele não estava mais lá.
“Será que eu falei algo de errado?” O padre pensou, até dar de ombros, ainda precisava terminar de fechar a igreja, então tinha que se apressar, queria chegar logo em casa.
Enquanto fechava a igreja, Jasper não conseguia tirar Juan de sua cabeça, ele sabia que era errado, que estava cometendo um pecado. Sempre foi ensinando a adorar pelo seus pais, porém ele só adorava o que eles queriam, ele adorava por medo, não só dos seus pais, mas de todos os outros. Naquele momento, queria esquecer os seus pais, os fiéis e tudo aquilo que mexia com a sua cabeça.
Ele queria ser egoísta, pelo menos uma vez na vida, queria pensar no que queria. Que se foda os seus pais.
Quando chegou em casa, a primeira coisa que notou foi a cozinha organizada, sem nada no chão, tudo limpo. Estranhou aquilo, não viu os sapatos de Elisa, o que indicava que ela ainda não tinha chegado em casa.
Jasper também reparou algumas gotas de sangue no chão, perto da geladeira. Ele franziu o cenho e pareceu ficar em um estado de alerta, então, com passos leves, se aproximou de uma gaveta, pegando uma faca cozinha.
Olhando em volta, não viu mais nada suspeito além daquele sangue, só tudo arrumado e em devido lugar. Pensou que tudo estava bem e que só andava assistindo muitos filmes de terror, isso até sentir uma presença atrás de si.
Jasper apertou o cabo da faca com força e em um movimento bruto, ele encurralou quem estivesse atrás dele contra a parede, aproximando a lâmina da pele…Vermelha?
Foi tudo tão rápido, o padre nem conseguiu notar que se tratava dele.
– Juan? — Murmurou, olhando fixamente para o indivíduo, não percebendo antes que ele estava rindo.
– Que recepção calorosa. Eu ajeito essa sua cozinha toda..Xoxa- E é assim que você me agradece? Não é tãooo ruim, mas eu esperava pelo menos um “Obrigado”. — Juan falou, com uma de suas mãos indo parar no cabelo de Jasper, fazendo um leve cafuné, como se pedisse para ele se acalmar.
– Merda, desculpa. A Elisa me fez assistir um cacete de filme de terror, acho que fiquei paranóico com essa porra…Me perdoa, você sabe que eu nunca faria algo contra você. — Jasper proferiu em um tom baixo, com aqueles olhos de cachorrinho filhote. Ele instantemente largou a faca, envolveu Juan em um abraço apertado.
– Ahn, você…Você não precisa se preocupar, tá tudo bem, tá na cara que uma faquinha não ia nem fazer cócegas em mim! — O indivíduo pareceu meio surpreso com o abraço repentino, mas não tentou recuar.
– Não, Juan. É que…Porra! Como eu vou te proteger se eu mesmo te coloco em perigo?! Eu prometi te proteger a qualquer custo, mas nem isso eu tô conseguindo fazer, eu só- Só tô sendo um inútil.
– Ei! Cala essa boca, não fala isso. Você não tem culpa com o que acontece comigo, porra. Eu tô bem, não tinha como você saber.
– Mas se eu tivesse sido melhor, você-... — Jasper não conseguiu terminar o que ia falar, foi interrompido com um abraço forte de Juan, que usava todos os seus braços para isso. Era apertado, não ia reclamar, era aconchegante.
– O que acontece comigo não é sua culpa. Você não precisa me proteger o tempo todo.
– …Eu sei. Você é forte, Juan. Pode muito bem quebrar qualquer um no mano a mano.
– Pois é né, então para de chororó e vê se pelo menos me agradece por limpar a sua cozinha! Você não tem ideia do esforço que eu fiz pra conseguir outra carne pra você. — Juan exclamou, estava incrédulo, como se tivesse passado por uma guerra.
– Tá bom tá bom, valeu por arrumar a minha cozinha! E por conseguir uma outra carne também. — Jasper abriu um sorriso, começando a rir quando Juan largou o abraço, ele ficou falando como foi difícil fazer tudo isso antes de Jasper chegar em casa.
