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Lindo sacrifício

Summary:

No entanto, Henri finalmente entende: ele nunca foi algo sagrado que fracassou. Foi algo profano, marcado pelo sangue e pecado desde a criação, destinado a expiá-lo com a própria existência.

“Eu vim te oferecer um pacto.”

Notes:

Então, isso meio que era (ainda é?) o prólogo de uma fic Jusper, mas como ficou bem "canon" (e eu gostei), decidi postar separadamente, caso essa fic não seja postada.

O começo é do ep Enpap de Desconjuração, pra quem sentir familiaridade.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

“Gal… Gal vai terminar com todos vocês, filhos da puta!”

Henri foge.

A armadura de sangue pulsa ao redor de seu corpo como um coração externo, espesso e vivo, empurrando-o para frente com uma velocidade antinatural – rápida demais para qualquer perseguição sequer ser cogitada. O mundo se desfaz em borrões vermelhos e escuros enquanto ele corre, tropeçando mais pela urgência do que pelo terreno.

Ele precisa chegar até Gal.

Precisa da Rana.

Precisa… precisa…

O sangue escorre sem cessar, quente, abundante, alimentando a armadura e tornando-a mais densa, mais forte. Ainda assim, Henri mal consegue se manter consciente. Seu corpo está à beira da morte, sua mente sendo arrastada junto, falhando em sustentar o ritual. Ele sente o próprio sangue ser sugado em meio a espasmos finais – uma cócega cruel enquanto tudo desmorona. Não há foco. Não há clareza.

A dor, no entanto, é impossível de ignorar; o deltoide explodido, a mão destruída e o olho detonado – não é tão divertido, por sinal. Cada passo reverbera esse sofrimento, uma explosão contínua que ecoa dentro do crânio. Não é só dor física; é a humilhação de estar quebrado, incompleto, falhando.

Mas ele continua.

Porque ele precisa deles.

Henri se agarra à certeza como a última tábua em um mar em fúria: quando os encontrar, tudo ficará bem de novo. Tudo sempre fica. Gal saberá o que fazer. Rana irá consertá-lo. O mundo voltará ao eixo, como sempre voltou.

Então, Bruno morrerá.

Henri já imagina – não, já planeja – cada detalhe. Vai cortá-lo membro por membro, com calma, com cuidado. Transformará os restos em algo novo, algo belo, algo digno. Uma nova criatura, moldada com propósito, oferecida como presente, um pedido de desculpas para Gal, por ele ter perdido o Enpap-X.

Gal vai perdoá-lo.

Ele sempre perdoa.

Ele é bom assim.

Gal vai chamar Rana, ela irá curá-lo e então tudo ficará bem.

Tem que ficar.

Mas a dor na cabeça explode de repente, violenta, esmagadora, como se algo estivesse tentando arrancá-lo de dentro do próprio crânio. Henri cambaleia. A armadura de sangue ainda o empurra para frente, mas não como antes  – cada passo exige um esforço imenso, como correr dentro de um sonho ruim.

Ele já não sabe exatamente onde está. As referências se perderam em algum ponto entre a fuga e o desespero. As paredes, o chão, o ar – tudo parece errado, distante, desconexo. Ainda assim, ele sente: o orfanato está longe. Distante demais. Uma ideia abstrata, quase cruel, pairando no horizonte. 

Não.

Não pode ser assim.

Não faz sentido morrer agora. Onde está a lógica nisso? Qual é o propósito? Henri sempre soube – sempre sentiu – que era mais do que isso. Mais do que carne quebrada, mais do que sangue derramado no chão. Há algo nele, algo maior, algo destinado. Ele sente isso com uma certeza quase infantil, quase desesperada.

Henri não vai morrer.

E, ainda assim, o pensamento se infiltra, sorrateiro e frio: talvez este seja o fim. Talvez seja assim que tudo termina.

De repente, a vida inteira parece condensar-se em um único sentimento antigo, familiar demais – a sensação de prisão. Como se sempre tivesse habitado um corpo errado, pesado demais, condenado desde o início. Como se cada respiração carregasse uma sentença invisível. A impressão persistente de estar sempre um passo atrás, ocupando cantos, ajustando-se aos contornos das vidas alheias. Presente, útil até, mas nunca essencial. Alguém que entra em cena quando é chamado, que segura a fala dos outros, que sustenta o fundo da imagem – e depois sai sem deixar rastro. A sensação de nunca ter sido escolhido, apenas encaixado. De nunca ter conduzido a própria história, só acompanhado. Um coadjuvante – nem mesmo o protagonista da própria vida.

Ele se lembra do padre Ronaldo. Da irmã Thelma. Das vozes firmes e cruéis, sempre iguais, sempre certas. Mandavam que ele se desculpasse. Que orasse por perdão. Que buscasse redenção pelos pecados que cometia. Às vezes as palavras vinham antes. Outras, vinham depois – acompanhadas do toque duro, da correção física, da dor aplicada com método e convicção, como se o corpo fosse apenas mais um lugar onde a culpa precisava ser inscrita. Doía, mas era bom.

Tornou-se bom.

Mas quais pecados? Henri nunca soube responder.

Eles falavam do que ele havia feito há pouco? Do que fizera ontem? Na semana passada? Anos antes? Ou de algo mais amplo, mais difuso? Era o que dizia? O que sentia? O que ainda nem sabia nomear?

Com o tempo, a pergunta deixou de ser o que fiz de errado e passou a ser o que tenho de errado.

Ele deveria pedir perdão por existir?

Por ter nascido?

A dor pulsa de novo, mais forte, e Henri segue em frente por pura teimosia, por puro medo de parar. Porque, se parar, talvez tenha que aceitar que o mundo nunca esteve esperando por sua redenção. Talvez só estivesse esperando por sua queda.

O impacto final não vem abruptamente, mas com calma. Silencioso. Um silêncio pesado, absoluto, que engole tudo. Henri cai – ou talvez apenas deixe de avançar – e, por um instante estranho e suspenso, ele vê.

Vê uma casa bonita e simples, mas inteira. Um jardim bem cuidado, folhas verdes balançando ao vento, flores que não murcham quando tocadas. Um lugar onde pássaros cruzam o céu sem despertar nele a vontade de fazê-los cair. Ele vê o que tudo poderia ter sido, mesmo sem realmente ver. Não é imagem nítida; é sensação. É possibilidade.

Há alguém ali. Ou deveria haver.

Mas quem?

Ele tenta dar um rosto àquele pensamento final e falha. Gal? Não. Gal sempre pareceu diferente… consciente demais, distante demais. Livre. Gal pertence a outro caminho, outro destino. Não é ele.

Então quem mais?

A pergunta ecoa sem resposta.

A armadura de sangue se desfaz por inteiro, escorrendo devagar, pesada e quente, como cera derramada sobre um altar, pingando inevitavelmente até o chão. O sangue desliza pelo corpo de Henri, viscoso e inútil – uma lembrança espessa de algo que um dia foi sagrado e fracassou; não retorna ao corpo, apenas cai.

O dourado sutil que permeava seus sentidos pisca uma última vez. Símbolos surgem no ar como falhas em uma realidade cansada, fragmentos de algo maior que já não consegue se sustentar. Eles tremem… e desaparecem.

Então vem a escuridão.

Henri não enxerga nada.

A ausência daquele sentido não traz descanso – traz pânico cru. Um vazio que aperta o peito, que arranca o ar. Ele sente o corpo inteiro gritar em dor, cada nervo incendiado, cada ferida exigindo atenção que não vem. Talvez esteja chorando. Talvez tenha gritado. Ele não sabe. Não sente o rosto, não sente a garganta – só o sofrimento espalhado, sem forma, sem fim.

Por que Rana não aparece?

Onde está Gal?

Por que ninguém está ajudando?

O abandono pesa mais do que a dor. Mais do que o medo. Henri sempre correu acreditando que alguém viria. Que alguém o alcançaria antes do fim. Agora, estendido na escuridão, ele entende – tarde demais – que talvez nunca houvesse ninguém correndo atrás dele.

Henri cambaleia até o extremo da rua – ou da pista; ele já não sabe dizer. O chão muda sob seus pés, áspero demais, amplo demais. Ele estende a mão às cegas até sentir a aspereza fria de uma parede sob os dedos. Agarra-se a ela como se fosse a única coisa real no mundo. Vai tateando, arrastando o corpo ao longo do concreto, guiado apenas pelo tato e pelo instinto. Então encontra uma curva. O cheiro muda – azedo, úmido, errado. Um beco. Pelo menos ele acredita que seja. Seu estômago se revira com a suspeita, mas ele não tem forças para ir além.

Henri cai ali.

O impacto é seco, humilhante; o chão é frio e sujo.

Ele respira rápido demais, curto demais. Deveria ter aprendido um ritual de teletransporte. Deveria ter aprendido tantas coisas. O ar entra rasgando os pulmões. Ele tenta se concentrar, tenta sentir os arredores, puxar o mundo de volta para dentro da mente como sempre fez. Mas a dor está muito longe de ser prazerosa, um ruído constante que afoga qualquer tentativa de foco. Não funciona. Nada funciona. Nem sentir, nem conjurar, nem pensar.

Há a certeza fria de que algo está acabando. Ele sente a Morte se aproximar, não como uma ideia, mas como uma presença que se arrasta pelo tempo, paciente, certa de que vai alcançá-lo. Seus tentáculos se estendem devagar, cada segundo mais perto. É parecido com o que Nubi faz – mas nunca foi assim. Nunca voltado para ele. Nunca para eles.

As lembranças no orfanato surgem sem aviso. A biblioteca. Gal e Leo, um de cada lado. Henri entre eles, observando enquanto estudavam símbolos estranhos, aprendendo a chamá-los de rituais. Ele não entende por que aquilo retorna agora. Naquela época, mal lia com eles. Ainda assim, um símbolo específico se impõe à mente – nítido demais, urgente demais. Um símbolo que ele não se lembra de ter visto antes.

Henri não quer morrer.

O medo se mistura ao impulso. Sem decidir, sem pensar – seu corpo se move sozinho. Henri se ajoelha e começa a desenhar no chão. Usa o próprio sangue, que continua a escorrer, a jorrar do olho, da mão, de onde quer que ainda reste força para sangrar.

“Espera, p-por favor”, Henri implora, a voz baixa demais. “Só… espera um pouco.” A mão escorrega, e ele a limpa na calça antes de voltar ao chão.

Algo se retorce dentro dele – medo, negação, ódio. Uma recusa visceral em aceitar o fim. Não é arrependimento puro, nem culpa clara, mas um impulso desesperado de continuar vivo, de não acabar ali. 

Porque ele não quer morrer.

Mas ele vai.

A certeza o atravessa como uma lâmina. Cada traço do símbolo é um pedido mudo, uma tentativa ingênua de adiar o inevitável. Quando termina, Henri para, ofegante, como se esperasse uma resposta.

“Eu não preciso ser importante. Só… só não me deixa morrer assim. Só me deixa ser… Me deixe ser.” O sangue pinga. Henri encosta a testa fria na superfície manchada, como se isso ajudasse a ancorá-lo. “Eu posso esperar. Eu sempre esperei—”

Passos.

Passos ecoam pelo beco, ritmados, calmos demais para alguém que encontra um moribundo em um beco. 

“G-Gal?”, ele chama, a voz falhando, quebrada pelo medo. Mas no instante em que o nome sai de sua boca, ele já sabe: não é Gal.

“Lúcio. Lúcio Davo.” A voz que responde é juvenil, quase casual, mas chega distorcida, como se atravessasse algo espesso demais. “Filho de Juan Davo… ‘O Próprio Diabo’, não é?”

Henri congela.

Seu cérebro parece inundar-se de sangue, memórias e sensações que ricocheteiam sem ordem. O nome ecoa dentro dele como um golpe físico. Com esforço, ele se ergue, tremendo, apoiando-se na parede áspera. As pernas quase cedem. Ainda assim, ele tenta. Tenta invocar um ritual – qualquer um. Nem que seja apenas deixá-lo pronto, latente, caso o estranho se aproxime demais.

Nada acontece.

Claro que não.

“Quem—o quê? Como—” As palavras se atropelam, inúteis, enquanto o medo finalmente encontra forma. 

“Não há o que temer, meu lindo sacrifício”, diz, aproximando-se sem pressa. O tom é inumano, perverso. “Seu ser é muito bem conhecido por mim. Seu sangue. Seu destino. Seu desejo. E você, realmente, sempre esteve esperando.”

Henri engole em seco – ou tenta. O corpo responde mal. Então ele percebe: o sangue para de escorrer. Não volta, não se recompõe, não o cura. Apenas… estanca. Como se alguém tivesse decidido que ele não deveria morrer ainda. A constatação não traz alívio. Pelo contrário. Ele sente que está a um passo de desmaiar, sufocado pela dor, pela perda, pelo excesso de tudo queimando dentro dele ao mesmo tempo.

“Aquele que te salvou. Aquele que te condenou.” A voz soa mais próxima agora, reverberando no espaço escuro que Henri não consegue ver. “Nós temos um plano para você. Eu tenho. Sempre tive.”

Ele não sabe se deve recuar. Não sabe nem se conseguiria. Há algo errado – uma força invisível, uma atração magnética que o puxa na direção de quem fala. Não é confiança. É gravidade. Como se a própria realidade tivesse massa suficiente para dobrar o ar ao redor.

“A Calamidade está próxima, Lúcio Davo”, declara – um alerta quase cuidadoso, ainda que com um ar irônico.

Henri não se assusta quando sente garras deslizarem por sua testa, explorando a borda da cavidade ocular vazia e, por fim, se acomodando em sua bochecha, possessivas, íntimas demais.

“Meu prometido.”

Henrique ri. Um riso baixo, quebrado, quase um soluço. Ele não enxerga nada. Não vê o rosto, não vê o corpo, não vê ameaça alguma – e isso é o pior de tudo. A escuridão o esmaga. A cegueira transforma cada palavra em algo absoluto, impossível de evitar.

No entanto, Henri finalmente entende: ele nunca foi algo sagrado que fracassou. Foi algo profano, marcado pelo sangue e pecado desde a criação, destinado a expiá-lo com a própria existência.

“Eu vim te oferecer um pacto.”

Notes:

O Diabo realmente chama o Juan de "Lindo sacrifício" naquele monólogo – estou usando oq Deus me dá (ou o Diabo, no caso) 🙌🏼

Tava escutando No Surprises enquanto escrevia essa :p

Nem conto quem é o receptáculo do Diabo antes do Henri nessa fic… Mas acho que da pra adivinhar.

(E eu continuarei a missão de dominar a tag Henri & Gal)

 

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