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Ficar parece bom

Summary:

Onde Aguiar desperta antes do amanhecer com um pesadelo com seu passado e Jae é sua âncora.

Notes:

oie! eu vi esse hc de um anônimo da conta @acervo_jaeguiar no twitter e fiquei com vontade de escrever! é bem curtinho e sem hot

espero que gostem! boa leitura ;)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Não.

Não era possível que Aguiar estivesse sonhando com ela de novo.

O quarto estava escuro e o relógio na cabeceira marcava 4:13 da manhã com seus números vermelhos, projetando um brilho fraco sobre as paredes pintadas de um tom profundo de carmim; tom este que Jae insistira em escolher quando se mudaram juntos, dizendo que vermelho era paixão, era vida, era sangue, e eles mereciam o sangue. Havia X’s por toda parte, desde as almofadas, o quadro abstrato na parede e até o tapete ao pé da cama tinha padrões entrelaçados que, se olhados de certo ângulo, pareciam provocações.

Jae adorava ver o rosto de Aguiar se contorcer levemente toda vez que entrava no quarto e notava mais um detalhe novo, como se estivesse marcando território.

Aguiar piscou devagar e deixou o peito subir e descer em respirações pesadas. Tinha sonhado com ela de novo, com o cheiro de floresta úmida, com o som de correntes tilintando e os olhos frios de Alice Lucina o encarando mesmo enquanto ele a algemava. Dez anos. Dez anos desde 2013, desde que o patrulheiro novato que ele fora a derrubara. A Caçadora de Gente. Sua mentora.

Sua Mestra.

Ele virou o rosto devagar para o lado. Jae estava deitado ali, encolhido como um bebê, o cabelo escuro estava espalhado pelo travesseiro e os lábios entreabertos numa respiração tranquila. Usava uma camiseta larga dele, que escorregava pelo ombro, revelando a pele clara macia e bem cuidada. Parecia tão sereno.

Com cuidado, Aguiar se sentou na beira da cama, o colchão afundou sob seu peso, mas não foi o suficiente para acordar o coreano. Aguiar não queria acordá-lo. Não queria explicar mais uma vez por que acordava suando frio no meio da noite. Passou a mão pelo rosto, tentando afastar as imagens, depois se levantou devagar.

Antes de sair, ele puxou o cobertor que havia escorregado e cobriu Jae com delicadeza, ajeitando-o até os ombros como um gesto automático — protetor. Jae murmurou algo baixinho no sono e se aninhou mais no travesseiro.

Aguiar saiu do quarto com o cuidado de quem já sabia exatamente quais tábuas do chão rangiam. Estava sem camisa, e sua calça moletom cinza pendia baixa na cintura, o frio da madrugada arrepiou seus pelos, mas ele não se importava. O ar gelado até ajudava a afastar o resto do sonho, como se pudesse congelar Alice Lucina lá dentro da cabeça dele e impedir que ela voltasse a falar.

Ele fechou a porta devagar, quase sem som, e caminhou pelo corredor. A casa deles era bem simples, mas Jae tinha enchido tudo de detalhes que gritavam luxo; e luxo desnecessário, tinha luminárias de design penduradas baixo demais, vasos de cerâmica artesanal que custavam mais que o salário mensal de um delegado e tapetes persas no chão de madeira que Aguiar mesmo havia assentado com as próprias mãos. Ele construíra cada centímetro daquela casa do zero, no meio do nada, entre os pinheiros altos, porque Jae dissera, com aquela voz baixa e decidida, que queria morar entre árvores.

E olha que ele viveu nas cidades.

Aguiar, sem pestanejar, obedeceu. Comprou o terreno, contratou um pedreiro, aprendeu a mexer com concreto e madeira, e construiu. Porque Jae pedira. Porque Jae sempre conseguia o que queria dele sem nem precisar pedir duas vezes.

E ele amava isso.

Desceu os poucos degraus até a cozinha aberta, pegou um copo no armário e encheu de água gelada direto da torneira filtrada — outra extravagância de Jae, seu amor. Bebeu em goles longos, sentindo o frio descer pela garganta e se espalhar pelo peito. Depois saiu para o quintal pelos fundos.

Os dois cachorros dele dormiam encolhidos nas casinhas aquecidas. Aguiar sorriu de leve ao ver as costelas subindo e descendo tranquilas. Passou a mão na cabeça de um deles, que abriu um olho preguiçoso e voltou a dormir.

Estavam bem. Sempre estavam.

O quintal era quase uma floresta pequena com alguns pinheiros altos, eucaliptos e algumas araucárias que Jae mandara plantar porque pareciam de conto de fada. Aguiar respirou fundo o cheiro de terra úmida, depois voltou para dentro, deixando a porta só encostada.

Foi até a sala de estar, abriu devagar uma das janelas grandes que davam para a frente da casa e ficou ali, encostado no parapeito, olhando o céu estrelado.

— Aguiarzinho?

A voz rouca de sono veio de trás. Aguiar virou o rosto.

Jae estava parado no meio da sala, iluminado só pelo luar que entrava pela janela. Usava uma das camisas dele — preta, larga, que batia quase nos joelhos —, e nada mais. O tecido escorregava de um ombro, revelando a clavícula delicada e a curva do pescoço. Os cabelos escuros estavam bagunçados e os olhos semicerrados de sono.

— O que você tá fazendo acordado? — elu perguntou, coçando um olho com as costas da mão enquanto se aproximava devagar.

— Eu que te pergunto — Aguiar respondeu baixo. Esticou o braço e Jae se encaixou ali, encostando o corpo pequeno no dele. Ele sentiu o calor delu contra o peito frio e fechou os olhos por um segundo.

Jae ergueu o rosto, olhando para ele com aquela atenção calma que sempre desmontava qualquer defesa.

— Pesadelo de novo?

Aguiar hesitou, depois assentiu uma vez só.

— Ela?

Outra confirmação muda.

Jae suspirou, passando os braços pela cintura dele, as mãos frias nas costas nuas.

— O que posso fazer pra te ajudar?

— Continuar me abraçando assim já me agrada.

Jae ficou ali, quieto, respirando junto com ele, como se estivesse afinando o próprio ritmo ao do peito de Aguiar. Não disse nada por alguns segundos, só manteve o abraço.

Aguiar apoiou o queixo no topo da cabeça delu e o cheiro familiar, mistura de sabonete neutro e algo que era só de Jae, ajudou a empurrar o resto do sonho para longe.

— Foi só um sonho — Jae acalmou por fim em um tom baixo, seguro. — Isso aqui é real. Eu sou real.

Aguiar apertou um pouco mais os braços ao redor dele, como se estivesse confirmando aquilo com o corpo.

— Eu sei — respondeu. — Às vezes só demora pra cabeça acompanhar.

Jae assentiu contra o peito dele. Deslizou uma das mãos devagar pelas costas largas. Não era para distrair, era para ancorar.

— Você quer caçar? — perguntou de repente. — Podemos pegar sua máscara e meu capuz e nos encontrar com o pessoal. Tenho certeza que a Kemi iria adorar atirar em insuportáveis da cidade e matar te acalma…

— Jae.

— O quê?

Aguiar chamou o nome dela bem baixinho, quase como um pedido. Jae levantou o rosto devagar, os olhos ainda enevoados de sono, mas atentos.

— Não — Aguiar respondeu, com calma. — Não hoje.

Ela ficou quieta por um instante. Depois fez um bico pequeno, quase infantil, que durou pouco. Suspirou e apoiou a testa no peito dele de novo.

— Tá — murmurou. — Eu tento soluções práticas demais quando fico preocupado.

Aguiar deixou escapar um quase sorriso. Passou a mão pelos cabelos bagunçados de Jae.

— Eu sei, amor. E eu agradeço, de coração.

Ficaram assim mais um pouco.

— Vem — Jae disse depois, puxando de leve a mão dele. — A gente pode voltar pra cama. Ou fazer café. Ou só… ficar.

Aguiar olhou para ele, para aquele rosto que conhecia de todos os ângulos, acordado ou dormindo, sério ou risonho.

E assentiu.

— Ficar parece bom.

Voltaram juntos para o quarto, então. Jae se enfiou primeiro debaixo das cobertas, abrindo espaço para ele sem precisar pedir. Aguiar se deitou ao lado, de frente, e Jae imediatamente se aproximou, encaixando as pernas nas dele, o braço passou pela cintura larga com naturalidade.

O vermelho do quarto já não parecia tão intenso naquela hora. Era só uma cor, só um detalhe escolhido por alguém que amava exagerar.

Aguiar fechou os olhos quando sentiu os dedos de Jae desenhando círculos lentos em sua pele.

— Se ela aparecer de novo — Jae murmurou, quase dormindo — você me acorda. Mesmo que seja só pra eu te abraçar de novo.

Aguiar beijou de leve a testa dela e depois os lábios.

— Eu prometo.

Dessa vez, quando o sono veio, veio manso. E ficou.

Notes:

obrigada pela leitura <3

e se quiserem algum casal específico de ordem, é só falar